segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

O amor não é caça de altanaria




A garça

No dia em que ele a tentou matar, Ângela levantou‑se às 7 e 15 da manhã para estar no centro de saúde à hora da consulta*. A onda de calor dos últimos dias não abrandava, saiu de casa com a temperatura bem acima dos 20 graus mas às duas da tarde devia rondar os 40. Não foi trabalhar depois da consulta médica e voltou para casa, sozinha. Os pais passavam os dias nos empregos e a mãe arranjou‑lhe uma ocupação na empresa onde trabalhava para estar ocupada durante as férias escolares e ganhar algum dinheiro, mas naquele dia pediu para ficar em casa. Sentia-se inquieta, não pelo calor excecional daquele Agosto. A inquietação da Ângela tinha um rosto e um nome: Felício. Namoraram quase um ano e meio, até há cerca de quatro meses. Em Abril a Ângela decidiu acabar o namoro por causa do comportamento do Felício. É que se tudo estivesse de acordo com o que ele queria, não havia problemas, mas isso era muito difícil. O Felício tinha ciúmes de todos os amigos e amigas da Ângela e ela afastou‑se deles para que o namoro corresse bem; queria saber as passwords do telemóvel e das redes sociais e ela cedia na esperança que ele deixasse de ser tão ciumento e possessivo. O Felício decidia com quem a Ângela se podia relacionar e com quem podia falar; as discussões entre os dois eram frequentes, em especial quando o Felício encontrava a Ângela a conversar com amigos. Terminada a relação, o Felício não se conformou e durante três meses tiveram encontros esporádicos, alguns de cariz íntimo, mas a Ângela nunca aceitou reatar o namoro. Depois, com o restabelecimento da normalidade das relações com amigas e amigos, antigos e novos, a Ângela decidiu encerrar definitivamente aquele capítulo da sua vida e deixou de responder às tentativas de contacto do Felício. Durante quase um mês, em diversas ocasiões, por SMS e por outras formas, o Felício tentou insistentemente conversar com Ângela, sempre sem sucesso. Ao contrário das amigas e dos amigos, os pais da Ângela, e em especial o pai, não conheciam a natureza e os problemas do relacionamento da filha com o Felício, mesmo quando nos últimos dias o assédio se tornou mais intenso porque o seu novo namoro com o Vítor começou a ser falado. Se conhecessem, compreenderiam a reação da Ângela quando saiu com o cão e viu o Felício parar a carrinha à porta da sua casa.

O falcão

Os pais do Felício são operários fabris. Divorciaram-se há dois anos depois de um casamento que sofreu algumas ruturas e reconciliações ao longo do tempo, com uma vivência marcada pela conflitualidade associada ao facto de o pai ter sido consumidor de substâncias aditivas e de a mãe sofrer de um problema de saúde mental. O Felício decidiu ir viver com o pai e a avó paterna, acamada e tratada pela tia com a ajuda do sobrinho, mas mantem uma boa relação com a mãe. Fez um percurso escolar sem incidentes e depois do 9º ano optou pela via profissionalizante no curso de técnico auxiliar de saúde. Conheceu a Ângela na escola que ambos frequentavam e durante o tempo de namoro, não partilhava os problemas com os colegas e amigos. Na instituição de solidariedade social onde estagiou e posteriormente fez voluntariado, o Felício era considerado um rapaz calmo, solidário, participativo, meigo com os utentes de todas as idades, pronto a ajudar os outros colaboradores e muito bem‑educado. O estágio decorreu bem, a nota foi excelente, e faltava‑lhe apenas um módulo do curso para obter a equivalência ao 12º ano de escolaridade. Tentou reatar a relação com a Ângela por diversos meios. Andava em baixo, triste, especialmente a partir do princípio de Agosto, quando desconfiou que a Ângela teria um novo namorado. Com o insucesso das persistentes tentativas, radicalizou o teor das mensagens que enviava e chegou a escrever a colegas e amigas “Eu não a quero com ele” e “Não consigo eu vou tentar matá-la”, sem ouvir os conselhos para ter calma. Foi como motorista recém-contratado pela fábrica onde a mãe trabalha que passou pela casa da Ângela às 2 e 30 da tarde daquele dia quente de Agosto, que a viu no exterior com o cão e que decidiu parar para falar sobre a consulta médica que sabia que ela tinha tido de manhã e para, uma vez mais, tentar reatar o namoro.

O ataque

O Felício pediu para entrar e conversarem mas não esperou pela resposta da Ângela. Já na cozinha, perguntou-lhe se namorava com o Vítor e a Ângela deu uma resposta evasiva. Discutiram, cada vez mais exaltados, até que o Felício pegou na faca de cozinha pontiaguda que estava na bancada, apontou-a à Ângela e gritou que sabia que se ia encontrar com o Vítor naquela tarde. Quando o Iphone tocou, a Ângela disse – É o Vítor – e atendeu. Tentou avisar que estava em casa e que o Felício estava a ouvir. O Felício tirou‑lhe o telemóvel e ao ver a fotografia dos pés da Ângela e do Vítor, atirou o aparelho contra a parede e partiu‑o. A Ângela começou a chorar com receio que o pai lhe batesse por causa do telemóvel e fugiu para o quarto. O Felício seguiu-a, sempre com a faca na mão, e a Ângela voltou para a cozinha. Desesperada, confessou que namorava com o Vítor. O Felício aproximou-se da Ângela, desferiu um golpe com força e espetou os 12 cm de lâmina da faca na zona central do tronco, entre o peito e o abdómen. A Ângela caiu ao chão a gemer e o Felício disse apenas – Não acredito que fiz isto, a minha avó não me vai perdoar.**

Epílogo

Apesar dos pedidos angustiadas da Ângela e da perda de sangue, o Felício não a socorreu. Antes da chamada cair, o Vítor percebeu que a Ângela estava em casa e que disse a medo – Ele já te ouviu... Ligou de novo mas como o telemóvel não chamou, foi imediatamente para casa dela. Bateu várias vezes à porta mas o Felício só abriu depois da Ângela insistir que o deixasse entrar senão ela morria. Logo que abriu a porta, o Felício disse que tinha dado uma facada à Ângela e fugiu. O Vítor encontrou-a sentada numa cadeira, a chorar, a dizer que ia morrer e a pedir que a levasse para o hospital. Uma hora depois da agressão, a Ângela deu entrada no hospital, com um buraco na blusa e no sutiã e com uma “lesão perfurante na zona do epigastro/hipocôndrio direita, lesão essa que atingiu a totalidade da parede e com perfuração do fígado.” Foi sujeita a uma intervenção cirúrgica e várias transfusões de sangue e doze horas depois da agressão foi‑lhe dito que já não corria perigo de vida.

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* Paráfrase do primeiro parágrafo da Crónica de uma morte anunciada de Gabriel Garcia Márquez: “No dia em que iam matá-lo, Santiago Nasar levantou-se às 5 e 30 da manhã para esperar o barco em que chegava o bispo.” Gabriel Garcia Márquez escolheu um excerto de uma obra de Gil Vicente para epígrafe da sua obra: “A caça de amor é de altanaria.” A novela não indica a fonte concreta, mas a citação é retirada da Comédia de Rubena, uma peça de Gil Vicente de 1521. Ambas as obras têm como tema amores clandestinos que levam à perda da honra da personagem feminina, à vergonha pública e à condenação social. Os excertos da obra de Gil Vicente presentes em Crónica de uma morte anunciada são: “La caça de amor / Es d’altanaría” e “Halcón que se atreve / con garça guerrera, / peligros espera.”

** As muitas semelhanças com o acórdão do Tribunal da Relação de Guimarães de 9 de Abril de 2018 não são coincidência.

domingo, 14 de outubro de 2018

O combate



José Francisco Martins
(foto de 1921)

– Vi o projéctil cair e matar o Comandante, perto de mim!

Era assim, com frases curtas e poucas explicações, que o meu Avô se referia ao combate do “Augusto de Castilho” com o cruzador submersível alemão U-139, na madrugada do dia 14 de Outubro de 1918, a cerca de 170 milhas a SE da ilha de Santa Maria. O que para mim era fascinante, para o meu Avô era desagradável. Não gostava de lembrar o combate, e quando o fazia, pressentia nas suas palavras um misto de mágoa e revolta. Com o tempo percebi que aquele momento, o momento da morte do Comandante, o tinha marcado profundamente. Não só pela morte do Comandante Carvalho Araújo, mas também pelas suas circunstâncias e consequências.

O combate de mais de duas horas com o U-139 tinha terminado. O paquete “San Miguel” estava fora do alcance do submarino alemão, a peça de vante irremediavelmente avariada e as munições praticamente esgotadas. Tinha chegado o momento do Comandante se preocupar com a vida dos seus homens. Deu ordem de cessar-fogo e mandou arriar as embarcações para que a guarnição abandonasse o navio. O U-139 também interrompeu o fogo de artilharia contra o “Augusto de Castilho” e aproximava-se para a tradicional abordagem do arrastão da pesca do bacalhau adaptado a navio de guerra.

De repente, da peça de 47 mm de ré do “Augusto de Castilho” foi feito fogo sobre o submersível alemão. Em resposta, o U-139, a uma distância mais reduzida do que a que mantivera durante todo o combate, disparou uma nova salva de projécteis de 150 mm contra o “Augusto de Castilho”. Um deles atingiu mortalmente o Comandante Carvalho Araújo, que tombou a poucos metros do 2º artilheiro Martins.

Três anos antes, ninguém poderia prever que os destinos destes dois homens se cruzariam de forma tão dramática no meio do Atlântico. É certo que ambos tinham raízes em Trás-os-Montes, um em Vila Real e o outro em Chaves, mas essa parecia ser a única afinidade entre eles.

Quando o futuro 2º artilheiro José Francisco Martins nasceu na casa da avó materna em Chaves, já o cadete José Botelho de Carvalho Araújo tinha frequentado os preparatórios na Academia Politécnica do Porto e ingressado na Escola Naval. E enquanto o jovem José Francisco se fazia homem como marçano nas ruas de Lisboa, trabalhando na mercearia e na casa do patrão, subindo escadas de cabaz às costas para entregar produtos aos fregueses e estudando para ser empregado de comércio, o Tenente Carvalho Araújo, republicano convicto, maçon e livre-pensador respeitador dos direitos dos cidadãos, cumpriu uma carreira brilhante como oficial da Armada, esteve na preparação do 5 de Outubro de 1910, foi eleito deputado por Vila Real à Assembleia Constituinte da República, foi deputado do Congresso da República Portuguesa e fez parte da coluna expedicionária ao sul de Angola.

Em 1916 o José Francisco Martins decidiu que queria ir mais longe e assentou praça na Marinha de Guerra como voluntário. Atirador de 1ª classe, recebeu formação militar naval e instrução de artilharia até se apresentar a bordo do “Augusto de Castilho” no último dia de 1917, como 2º artilheiro. Enquanto isto, o Tenente Carvalho Araújo comandou um caça‑minas na defesa do porto de Lisboa e foi Governador do Distrito de Inhambane, em Moçambique, até ser nomeado para o comando do “Augusto de Castilho” em Agosto de 1918.

Presumo que o 2º Artilheiro Martins terá visto o 1º Tenente Carvalho Araújo entrar a bordo, terá conversado com outros elementos da guarnição sobre o novo Comandante, terá notado a fragilidade física resultante do seu estado de saúde. E estou certo que a partir daquele momento, o Tenente Carvalho Araújo passou a ser o seu Comandante, aquele a quem devia total obediência na defesa da Pátria, mesmo com o sacrifício da vida. Já por duas vezes, como artilheiro do “Augusto de Castilho”, tinha lutado contra submarinos alemães e era provável que tivesse de voltar a lutar dadas as missões de escolta normalmente atribuídas ao navio.

Embora só tenha servido dois meses sob o seu comando, o 2º artilheiro Martins foi consolidando admiração e respeito pelo Comandante Carvalho Araújo. Ouvi-o mais tarde afirmar por diversas vezes que o comportamento do Comandante foi sempre exemplar, em especial durante o combate com o U‑139.

Sobre o combate e a bravura do Comandante e da guarnição do “Augusto de Castilho” há também outros testemunhos claros e coerentes e sobre eles não persiste qualquer dúvida. No caso particular dos seis artilheiros do navio, houve quem afirmasse que se distinguiram, “entre toda a guarnição, pela energia, sangue frio e disciplina que mostraram durante todo o combate, não temendo abrir as culatras das peças ao falharem as escorvas, a fim de não haver interrupção no tiro”.

De facto, há precisamente 100 anos, um grupo de quase meia centena de portugueses cumpriu o seu dever em condições extremamente adversas, com o sacrifício da vida de alguns: do próprio Comandante, de outros cinco militares e de um civil. Antes de qualquer outra consideração, é o esforço e o exemplo da guarnição do “Augusto de Castilho” e a forma como cumpriu uma missão quase impossível nas condições extraordinariamente precárias do navio, que é importante realçar.

Mas a morte do Comandante Carvalho Araújo e as circunstâncias em que ocorreu, acabaram por influenciar a forma como a maioria dos participantes e sobreviventes do combate, e até o próprio Comandante Carvalho Araújo, foram depois tratados. Na narrativa que acabou por ser consagrada oficialmente e que sustentou a atribuição de condecorações e as promoções por distinção de alguns, parece que o heroísmo se concentrou nos doze elementos da guarnição que aportaram numa embarcação à Ponta de Arnel, no nordeste de São Miguel. Os outros, os que chegaram a Santa Maria no salva‑vidas do navio, foram transformados em participantes menos corajosos e pouco disciplinados, em figurantes menores de uma “narrativa trágico-marítima” com muita pompa mas circunstância pouco clara. 

Salva-vidas com os sobreviventes que arribaram à Vila do Porto, em Santa Maria

Foi assim que percebi o porquê do meu Avô, que se reformou em 1956 no posto de 1º Tenente, não gostar de falar do combate do “Augusto de Castilho”. Entendia que a história oficial do combate não era rigorosa e que ele e os outros vinte e nove sobreviventes que aportaram a Santa Maria no salva-vidas não foram tratados pela Marinha e pelo Estado Português com justiça.

Mas o carácter e a vida dura blindaram-no contra todas as injustiças e traições, viessem de onde viessem. Soube ultrapassá‑las e concentrar o seu melhor no que para ele era essencial: a dignidade e a honradez pessoal, o cumprimento do dever profissional e o bem-estar da família e dos muitos que procurou ajudar. Teria no entanto gostado de saber que em Janeiro de 1974, dois anos despois da sua morte, o Estado Português reconheceu que o 1º Tenente auxiliar da Armada José Francisco Martins se “notabilizou no combate naval travado em 14 de Outubro de 1918, na defesa do paquete “San Miguel”, e por isso concedeu à sua viúva “a pensão por serviços excepcionalmente prestados ao País.”

O que os homens comandados pelo Comandante Carvalho Araújo conseguiram na madrugada de 14 de Outubro de 1918 foi bem real e prevalece sobre todas as ficções, as boas e as más. Sem o esforço e o sacrifício daquele punhado de homens, a Margarida da Terra Clark Dulmo, ilustre tataraneta do capitão Fernão Dulmo, fidalgo da casa do Infante D. Henrique, e uma bela criação de Nemésio, não teria viajado no “San Miguel”, conhecido o estudante de Coimbra e atirado ao mar o anel da serpente cega.

O combate com o U-139 não foi o combate de um homem nem de doze homens. Foi o combate com honra, para defender um paquete com mais de duas centenas e meia de pessoas a bordo, de todos os homens que estavam no “Augusto de Castilho” na madrugada do dia 14 de Outubro de 1918. Foi o combate levado a cabo por 45 militares e 4 civis, cada um com as suas qualidades e os seus defeitos, as suas forças e as suas fraquezas, as suas dúvidas e as suas certezas.

Cem anos depois, os descendentes de um deles, o 2º Artilheiro nº 5242 José Francisco Martins, sentem um imenso orgulho pelo seu feito e pelo seu extraordinário legado. E farão tudo para que o Pai, Avô, Bisavô e Trisavô, esteja onde estiver, se sinta orgulhoso deles.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

No tempo das vindimas

 


As longas férias de Verão na casa dos meus avós em Palhais, uma aldeia do concelho do Cadaval, marcaram para sempre a minha adolescência. Das muitas e boas memórias, a do tempo das vindimas tem um significado especial.

De repente, quando o amadurecimento das uvas o determinava, a pacatez da aldeia era alterada pela invasão de grupos de trabalhadores, os “malteses”, que vinham procurar o trabalho e o rendimento que faltava nas suas terras. Animavam as estradas, as vinhas, as adegas até que a vindima estivesse concluída. No fim do dia juntavam-se no largo, nas tabernas e encantavam os miúdos com as suas histórias e os seus cantos. Até que um dia abalavam tão súbita e discretamente como tinham chegado.

Lembro-me bem da apanha dos cachos na vinha grande, do pisar das uvas no lagar da adega do meu avô, do cheiro do mosto e da festa quando terminava a trasfega para as pipas e os depósitos. Lembro-me bem de como era diferente a vida durante aquelas semanas. E lembro-me bem do Baile das Vindimas no Cadaval, uma espécie de cerimónia de encerramento de um período de grande agitação.

O Baile das Vindimas era diferente de todas as outras festas nas aldeias e vilas à volta. Vestíamo-nos a preceito, raparigas e rapazes, e íamos para o baile na garagem e oficina de automóveis ACICAL na entrada do Cadaval, transformada em salão de festas. O baile era animado por conjuntos musicais conhecidos, muitas vezes vindos de Lisboa como foi o caso da orquestra de Shegundo Galarza, e pelas suas características acabava por ser um momento iniciático para os jovens, vivessem eles na região ou, como era o meu caso, viessem de fora.

O momento alto era a eleição da Rainha das Vindimas e houve um ano em que quase conseguimos eleger uma das meninas de Palhais. E parece que num dia de 1973, de que não me lembro por já estar noutra onda, foi eleita Miss Rainha do Oeste uma miúda de nome Manuela Moura Guedes que ali foi apresentada à sociedade. As voltas que o mundo dá!

Contudo, lembro-me bem do Baile das Vindimas de 1968, abrilhantado pelo conjunto “Os Távoras” do Bombarral, formado por Mário Almendro, Luís Mil-Homens, Fernando Vieira, Feliz Pereira, Zé Teixeira, Carlos Cardoso e Manuel Patuleia, porque foi para mim mais do que o fecho de um ciclo anual. Foi o fecho de uma fase da vida em que as questões sociais e políticas passavam muitas vezes despercebidas. Com a entrada no Técnico, o contacto com o movimento estudantil e a vivência da crise académica de 1968/69, passei a olhar a realidade nacional de forma diferente.


Por isso, a memória da garagem ACICAL na entrada do Cadaval, em Outubro de 1969, já não é do Baile das Vindimas. Estávamos em plena campanha eleitoral para as primeiras eleições legislativas depois da saída de cena de Salazar e a memória que tenho é de uma sessão de propaganda eleitoral da CEUD naquele espaço. A CEUD fez um bom trabalho no Cadaval onde, de acordo com os resultados oficiais, obteve 170 votos, enquanto a CDE obteve 78 e a CEM (monárquicos) 25. Claro que a UN obteve 3365 votos!
 
Apesar de tudo, não deixa de ser uma memória de outro momento iniciático.

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Uma prova de gratidão

 


Recorte da notícia "O paquete "Loanda" - Uma prova de gratidão dos seus passageiros" no jornal "A Capital" de 2 de Abril de 1918:

"Como na nossa seção Última Hora hontem noticiámos, A Capital recebeu o encargo de fazer distribuir pela marinhagem e artilheiros do caça-minas Augusto de Castilho a quantia de 128$70, somma subscripta pelos passageiros do paquete Loanda, como prova da sua imensa gratidão pelo brioso procedimento por ocasião da ameaça do ataque d'um submarino alemão, a meio caminho da Madeira para Lisboa.
Vamos tratar de saber no comando central de defezas marítimas o modo mais prático de entregarmos esse dinheiro, desempenhando-nos assim do honroso encargo que nos foi cometido.
Os passageiros que contribuíram foram os seguintes:
...
(lista dos passageiros da 1º, 2ª e 3ª classes e respectivas contribuições)
...
O que perfaz a totalidade de 128$70.
Como hontem dissemos e hoje repetimos, o Loanda viu surgir de súbito um submarino alemão. A marinhagem e os artilheiros do Augusto de Castilho, que comboiava aquelle paquete, imediatamente romperam fogo, o que obrigou o alemão a fugir.
Passava-se isto no dia 23 de março findo e é desejo dos passageiros do Loanda que a quantia que nos foi entregue seja dividida pela marinhagem e artilheiros que n'esse dia estavam a bordo do caça-minas."

Não soube deste episódio quando tinha oportunidade de confirmar mas espero que o 2º artilheiro José Francisco Martins, meu avô, tenha recebido o seu quinhão.

terça-feira, 25 de setembro de 2018

O centralismo da(á) asneira

 




Ouvi o professor Carvalho Rodrigues dizer a propósito do opressivo centralismo lisboeta: “Tudo o que é produzido aqui (na Guarda e no interior) vale zero, tudo o que é produzido lá (em Lisboa e no litoral), incluindo as asneiras, vale imenso!”

Pois é caro professor, essa é uma queixa bem antiga. Ouvia-a do meu avô quando falava da sua terra transmontana ou da agricultura que fazia no sopé da serra de Montejunto, a dois passos de Lisboa; ouvia-a do meu pai em Moçambique quando barafustava contra as decisões dos que ele chamava de “calcinhas“ de Lisboa; ouvi-a de alentejanos, de madeirenses e de açorianos. Ouvia-a de todos os que se sentiam vítimas dos comportamentos de influência e manipulação política, corrupção, compadrio, favor, cunha, há muito associados ao centralismo e ao poder instalado na capital.

O egocentrismo do poder lisboeta é tão obsessivo que chegou ao ponto de desenvolver a doutrina de que a melhor forma de defender Portugal seria defender Lisboa com todos os recursos disponíveis. E se bem pensou, melhor o fez. No final do século XIX e início do século XX, quase todo o dispositivo militar português — tanto do Exército como da Marinha —, passou a estar concentrado na defesa de Lisboa.

O poder central mandou construir uma série de novas e modernas fortificações, adaptar algumas já existentes, tudo para criar o Campo Entrincheirado de Lisboa. As fortificações receberam modernas peças de artilharia e foram interligadas por redes telefónicas e telegráficas, bastante avançadas para a época. A partir de 1899, o Campo Entrincheirado passou a constituir um comando militar, organizado permanentemente em pé de guerra, cujo governador era um general, na dependência directa do ministro da Guerra.

Na frente terrestre, Lisboa era protegida por uma linha defensiva de Sacavém a Caxias, constituída pelos Fortes do Monte Cintra, em Sacavém, de D. Carlos I, na Ameixoeira, do Marquês de Sá da Bandeira, em Monsanto e de D. Luís I, em Caxias. O Forte de Monsanto era o reduto central de todo o sistema e nele foi instalado o comando da linha defensiva.

Na frente fluvial, o Tejo era protegido pelos Fortes do Bom Sucesso e do Alto do Duque. A frente marítima, a barra do Tejo, a margem sul e as aproximações a Lisboa eram protegidas pelos Fortes de São Julião da Barra, em Oeiras, e de Almada. A Marinha empenhava neste dispositivo o couraçado Vasco da Gama que funcionava como uma bateria flutuante contra ataques marítimos, uma esquadrilha de navios e um serviço de minas.

O sistema defensivo era complementado com diversos outros fortes, redutos, postos, baterias e fortificações secundárias. Para defender a barra do Tejo, para a além da Bateria da Laje, foram construídas na década de 1900 duas baterias mais pequenas e idênticas: a das Fontainhas, entre Oeiras e Paço de Arcos, e a do Areeiro, na ponta oeste da praia de Santo Amaro de Oeiras, junto ao Forte de Santo Amaro. Ambas tinham como função “baterem, com o seu fogo, as embarcações que intentem rocegar a faixa de torpedos (minas marítimas) estabelecida entre as duas margens do Tejo."

Terminada a Primeira Grande Guerra e pouco mais de dez anos depois de concluído o Campo Entrincheirado de Lisboa, tornou-se evidente que o conceito em que assentava não fazia sentido e a maioria das fortificações deixaram de ser utilizadas como tal e foram transformadas em depósitos, paióis ou prisões.

E o fim das nossas duas baterias também ficou traçado. A Bateria das Fontainhas, em cuja zona de servidão a Câmara Municipal de Oeiras foi autorizada a captar água das nascentes, acabou aquartelamento do Terço de Oeiras da Legião Portuguesa. A Bateria do Areeiro, que em 1916 ainda deu um arzinho da sua graça e fez fogo sobre um navio norueguês e um yacht português que não respeitaram os sinais da Marinha de Guerra, entrou em rápida decadência e acabou convertida em “Harbor Entrance Control Post” e transferida para a Marinha em 1957.

Mas o erro do Campo Entrincheirado de Lisboa, assim como tantos outros erros do centralismo, não serviram de lição. Identificado com a vida política portuguesa ao longo de séculos, continua a fazer vítimas por mais que a maioria dos portugueses se lamente. Tudo o que ele produz, incluindo sobretudo as asneiras, continua a condicionar negativamente o progresso de Portugal e do povo português.

A edificação onde esteve instalada a nossa Bateria do Areeiro e depois o Posto de Vigilância e Defesa da Entrada do Porto de Lisboa, é bem a imagem do pior que o centralismo produz. Há vinte anos que, abandonada, saqueada, vandalizada, usada por marginais, aguarda que dois poderes políticos, o central e o autárquico, decidam fazer a obra de recuperação que tarda. Ou deixem cidadãos interessados e empenhados fazerem essa obra.

Caro professor Carvalho Rodrigues, não é só o que se produz na Guarda e no interior que vale zero. Muito do que se produz bem perto de Lisboa, bem junto ao mar, também vale zero!

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

O passeio



“Anda passear, avô!”

Sim, vamos.
Ver os pássaros
procurar as rãs
visitar os dois pinheiros.
Subir à serra
descobrir os moinhos
perceber o fabrico do gelo.

Depois vamos falar do mar
de terras e povos distantes.
De abril e da liberdade
do sonho e da realidade
de gente boa
e dos carapaus de corrida.

Vou tentar lembrar-me
do que os teus outros avôs
me ensinaram.
Os nomes das plantas
enxertar uma árvore
ou ler as nuvens.

Mas acima de tudo
vou aprender contigo.

(Foto do Tomás)