sábado, 21 de julho de 2018

A culpa é sempre dos outros!



Confesso que sempre considerei o argumento da responsabilidade individual um dos mais fortes da direita liberal. Simpatizo com a noção de que cada um deve assumir a responsabilidade dos seus actos, e só não o adoptei como dogma político e social porque entendia e entendo importante considerar o contexto do indivíduo, a responsabilidade da comunidade e o papel do Estado como almofada e alavanca social.

Muitas vezes, foi difícil conciliar os meus princípios ideológicos com os exemplos que testemunhei de irresponsabilidade, de incompetência e de oportunismo individual, disfarçados de defesa do interesse colectivo.

Mas hoje, para uma parte significativa da população, as fronteiras ideológicas esfumaram-se. O sentimento de vitimização e de lamúria é partilhado por muitos, independentemente do posicionamento ideológico, e fundamenta um comportamento padronizado de irresponsabilidade individual.

Para esses indivíduos, há sempre alguém, há sempre uma entidade real ou imaginária, que os representa mal, que os menospreza, que os rouba, que afecta o seu bem-estar, que ameaça o seu estatuto socioeconómico ou a sua liberdade religiosa; são os media, os políticos, o governo, os bancos, os migrantes, os liberais, os comunistas, os eurocratas, os muçulmanos, os judeus, os vizinhos, os professores, os funcionários públicos, a família. Um exército de malfeitores que conspira contra a soberania nacional, a pureza racial, a homogeneidade étnica, a superioridade moral, os direitos inalienáveis, a paz social e, especialmente, contra os seus interesses pessoais.

Mas questionados sobre o que fazem ou se propõem fazer para alterar a situação, aos costumes dizem nada, não têm nem querem ter qualquer relação com quem luta por uma sociedade melhor.

E nas próximas eleições abster-se-ão ou votarão no primeiro Trump que se lhes apresentar.