sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

O meu melhor Natal




Há sessenta anos o meu Pai estava doente, muito doente.

Cerca de um ano antes, estava a trabalhar na Estação Experimental que tinha montado no Gurué e teve uma tontura. Com trinta e cinco anos e cheio de energia, não sabia o que era uma tontura. Parou, ficou à espera, e a tontura foi-se embora. – Bem, isto foi qualquer coisa que eu comi – pensou. Mas passada meia hora, sentiu outra. Depois vieram em sucessão, cada vez com maior frequência. Um quarto de hora, cinco minutos depois, até que se tornou uma tontura permanente e perdeu a capacidade de fazer fosse o que fosse. Mandou o motorista ir buscar o carro e deitou-se no banco de trás.

E foi deitado no banco de trás que fez os 400 km até casa, em Quelimane.

A minha Mãe chamou um médico que o auscultou e não encontrou nada. – Ah, isso deve paludismo – concluiu perante o sintoma de tosse seca. Receitou uma boa dose de antibióticos, mas o estado de saúde do meu Pai agravou-se. Sentia-se angustiado, sem força, nem os braços mexia. A minha Mãe dava-lhe a comida na boca porque não conseguia comer.

O médico aconselhou-o a ir para Lourenço Marques, talvez lá resolvessem o problema. A minha Mãe Coragem, Mãe Força, com duas crianças e um marido que não conseguia andar, embalou tudo e partiu para a capital da colónia. Aí os médicos, reunidos numa junta de saúde nomeada de urgência, decidiram unanimemente despachar o meu Pai para a Metrópole para ser internado no Hospital do Ultramar (actual Egas Moniz).

Fizemos a viagem para Lisboa em condições dramáticas. Lembro-me do meu Pai prostrado, a tremer de frio quando todos tínhamos calor. O “Super-Constellation” da TAP fez uma escala técnica prolongada em Kano e todos os passageiros tiveram de desembarcar, excepto o meu Pai. Não sei o que me marcou mais naquela noite passada no aeroporto nigeriano, se os trajos escuros e os rostos tapados das mulheres muçulmanas ou o vulto do avião onde o meu pai tinha ficado sozinho, na escuridão da pista.

No Hospital do Ultramar concluíram que o meu Pai sofria do Mal ou Doença de Addison, uma doença incurável cuja causa não sabiam identificar. Foi tratado com cortisona, administrada em doses cada vez maiores. Começou a andar, com grande esforço, mas continuava a sentir-se muito mal. Em vez dos habituais 60 quilos, passou a pesar mais de 80 e perdeu progressivamente faculdades. Mal conseguia ler porque estava a perder a visão. 

Sentia a vida a fugir, lenta e inexoravelmente.

Esta é a memória do Natal de há sessenta anos na casa dos meus Avós em Palhais, no sopé da serra de Montejunto. Apesar do esforço da minha Mãe e dos meus Avós, foram dias de “morte cansada, de raiva e agonias, e nada”, como no poema de Saramago!

Como pouco mais podia fazer, o meu Pai procurava distrair-se com os livros que encontrou na estante do escritório do meu Avô. Folheava-os lentamente, com a ajuda de uma lupa, até que num deles, de um médico nutricionista norte-americano, viu descritos, com extraordinária precisão, todos os sintomas que sentia. Leu atentamente todo o livro, estudou as recomendações que lá eram feitas e tomou uma decisão drástica: abandonar toda a medicação e seguir as instruções do nutricionista.

Durante dois meses não ingeriu alimentos sólidos e só tomou, de duas em duas horas, alternadamente, um copo de sumo de cenoura e uma chávena de um caldo antioxidante, um concentrado resultante da cozedura lenta e prolongada de vários vegetais. Foi perdendo peso, dos 80 chegou aos 40 e poucos quilos, ao mesmo tempo que se sentia com cada vez mais energia e a angústia desaparecia. Sentia necessidade de fazer exercício e por isso, diariamente, saía de casa no Areeiro, descia a Almirante Reis, ia até ao Terreiro do Paço e voltava para casa, sempre a andar em passo rápido.

Depois, lentamente, o meu Pai foi acrescentando novos alimentos à dieta. Leu e estudou tudo o que encontrou sobre nutrição e acabou por definir, para si e para a família, o que considerava ser uma alimentação saudável. Regressou ao trabalho e reiniciou uma nova carreira profissional e científica onde atingiu o topo, antes de se reformar em 1993.

Foi assim que, há sessenta anos e sem me aperceber logo, aconteceu o melhor Natal da minha vida. Um Natal que se prolongou por vários meses, fora da época, mas que trouxe de volta o meu Pai, quando pensava que o ia perder.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Fronteiras



Confesso que sempre convivi mal com os serviços que guardam as fronteiras, sejam de alfândega, de emigração ou outra coisa qualquer. Em Portugal e no estrangeiro.

Não sei a razão, talvez seja porque não gosto de fronteiras. Uma das coisas boas que a União Europeia e o tratado de Schengen nos trouxeram foi a possibilidade de viajar na Europa como se não houvesse fronteiras.

Sinto-me sempre desconfortável nas longas filas e interrogatórios para ultrapassar os balcões dos passaportes e nas passagens pelos controlos alfandegários. Sem nenhum motivo para isso, é um mal-estar que não consigo evitar.
 
Apesar do incómodo, esqueci todos os episódios das muitas passagens de fronteiras, excepto um e já passaram mais de quarenta anos.
 
Quando regressámos de Monterey, a Marinha pagou o transporte de 3 metros cúbicos de bagagem. Como não tínhamos dinheiro para extravagâncias, concentrámos tudo o que era importante num caixote com aquele volume. Nem mais um centímetro cúbico de bagagem.

Logo que o caixote chegou a Lisboa, o despachante convocou-me para o cais da Rocha de Conde de Óbidos para estar presente na passagem pela Alfândega. Esperámos junto ao caixote e à hora marcada, apareceu a comitiva chefiada por um guarda-fiscal, com ar de poucos amigos. Depois das formalidades burocráticas, mandou abrir o caixote de madeira e as caixas de cartão do interior.

Abri a primeira caixa de cartão e caíram várias peças de jogos. Passaram à segunda e saíram bonecos, livros infantis e brinquedos, muitos brinquedos usados, de todos os tamanhos, cores e feitios. É que para nós o importante eram os brinquedos da Joana e da Catarina. A mudança para uma terra que não conheciam ou já não se lembravam sem os brinquedos e os objectos familiares seria uma violência, não podia ser.

O guarda-fiscal, enfastiado, exclamou: ─ Não vale a pena, só sai quinquilharia! Voltou-nos as costas e foi-se embora, sem se despedir.

A partir desse dia passei a embirrar com os funcionários das alfândegas.