quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Pela requalificação do Campo da Torre

 

A identidade de Peniche é moldada por uma dualidade profunda: a monumentalidade da pedra militar da sua praça-forte e a vibrante cultura imaterial do mar. No centro desta geografia encontra-se o Campo da Torre (Campo da República), um espaço de charneira que, apesar do seu potencial, sofre hoje de uma fragmentação funcional que dilui o seu valor.

Situado na transição imediata entre o núcleo urbano consolidado e a imponente frente sul da Fortaleza de Peniche, este plano aberto desempenhou, ao longo dos séculos, um papel multifuncional: defensivamente, como fosso exterior; socialmente, como espaço de feira franca; laboralmente, como suporte à actividade piscatória; e, espiritualmente, como palco de devoção popular.

Uma realidade tão bem descrita por Helena Marcão no seu poema “Campo da Torre”:

Aberto, a Norte
da Torre do Forte,
o Campo da Torre
era o Centro de tudo.
Começava ao fundo
do Alto da Vela
e terminava ali,
quase na Ribeira
ficando no alto
a olhar para ela.

Era a Casa do Sol
todo o santo dia,
tendo em cada porta
um vasto estendal
com peixe escalado
a secar ao sol.

Foi o ponto de encontro
de muita alegria.
O Parque de jogos
do tempo Pascal,
a Banca, o Paulito,
Malha e Futebol
e num monte de areia
lançando um Rebolo.
Ao lado, as crianças
jogavam também
ao Berlinde e Pião,
sob o olhar da mãe

Lugar de chegada
da peregrinação
de famílias inteiras,
em muitas carreiras,
com as águas bentas
pelas orações
e a terra, do Campo das Aparições.

Depois, em Agosto,
no pino do Verão,
tudo em comunhão
na Festa do Mar,
com a Nossa Senhora
vinda em Procissão,
que barcos e redes
vinha abençoar.
E o Campo da Torre
todo iluminado
sentia-se em Festa,
muito povoado.

Largo dos Mercados
que vendem de tudo,
meias e sapatos,
calças, sobretudos.

Campo onde um dia
voaram gaivotas
em forma de cravos,
rumo à Liberdade.

Que mostrou o Sol
há muito vedado
pela Repressão
a quem foi condenado
a viver na cela e na escuridão.

Campo da Torre.
Marco de vida
na Vida de um Povo
nobre e notável.
Agora destinado
a um desumanizado
Parque Automóvel.

Por isso, é imperativo transformar este recinto, hoje relegado a parque de estacionamento ou a recinto de feiras sazonais, num ecossistema interpretativo dinâmico que una a história da resistência política à história viva dos homens e mulheres do mar, devolvendo a este espaço a dignidade que lhe foi sendo subtraída ao longo das últimas décadas.

A requalificação deste espaço não deve limitar-se à substituição de pavimentos. Inspirando-nos em modelos internacionais como Pasajes de San Pedro ou Bergen, devemos reintroduzir a cultura marítima no desenho urbano. Tal pode passar, por exemplo, pela musealização do eixo do “Bota-Abaixo”, assinalando no pavimento o traçado histórico por onde as embarcações deslizavam em direcção ao mar no antigo Portinho de Revés, mediante marcadores em pedra polida e madeira. Complementarmente, a criação de um “Estaleiro Vivo” — uma estrutura de carpintaria naval onde mestres e aprendizes mantenham embarcações tradicionais sob o olhar do público — transformaria a praça num ecomuseu participativo.

Esta visão deve estender-se às áreas de lazer. As esplanadas comerciais devem ser reinventadas como esplanadas interpretativas, com estruturas em pinho e carvalho que evoquem o cavername das traineiras e coberturas em lona que remetam para o cordame tradicional. Nestes espaços, a gastronomia — a sardinha e a caldeirada — deve ser acompanhada por mediação cultural, como guias áudio e exposição de artefactos navais, tornando o acto de comer uma experiência de aprendizagem.

Não podemos esquecer a dimensão humana e imaterial. O Campo da Torre deve homenagear o trabalho feminino, integrando no pavimento elementos que recordem as mulheres que ali secavam roupas e reparavam redes. Historicamente, este é também o ponto de encontro entre a "resistência marítima" e a "resistência política"; foi aqui que os pescadores lutaram pelos seus direitos e onde, em 1974, a população saudou a liberdade. Por isso, o itinerário "Do Mar à Liberdade" deve ligar a Ribeira Velha à Fortaleza num discurso único e coeso.

Neste processo de restauro da identidade, é fundamental reafirmar a centralidade espiritual do local. A devoção a Nossa Senhora da Boa Viagem, hoje um dos pilares da identidade marítima penichense, percorreu um longo caminho histórico. No século XVII, a sua matriz era essencialmente escatológica, centrada na “boa morte” e na passagem da alma para a vida eterna, sem qualquer relação inicial com a faina piscatória. A imagem primitiva, venerada na Capela de Santo António do Portinho, junto à Fortaleza, servia de amparo espiritual para o “além-túmulo”. Só na década de 1860, com o crescimento da classe piscatória e perante os riscos permanentes do Atlântico, o culto se foi transformando. A “boa viagem” passou então a significar o regresso físico ao porto, e a embarcação nas mãos da Virgem, antes símbolo alegórico da Igreja, foi apropriada pelos pescadores como o seu próprio barco de pesca.

Foi nesse percurso que o Campo da Torre, espaço de charneira entre a terra e o mar, se tornou passagem obrigatória da procissão de Nossa Senhora da Boa Viagem. Essa centralidade espiritual foi consagrada em 1945, com a Coroação Canónica da imagem de Nossa Senhora da Boa Viagem. A cerimónia transformou o Campo da Torre num recinto sagrado a céu aberto, onde milhares de fiéis afirmaram a sua coesão espiritual, precisamente ao lado da Fortaleza, então usada como prisão política.

É por isso que se lamenta a deriva funcional deste espaço nas últimas décadas do século XX. A partir dos anos 80 e 90, a vertente profana da festa — com diversões mecânicas, tasquinhas e comércio — ocupou o Campo da Torre, relegando a procissão para um percurso periférico pelas ruas do centro histórico. O que fora o cenário da coroação de uma “rainha” passou a ser um simples recinto de feira, função que, embora legítima, parece manifestamente pobre perante a carga histórica e espiritual do lugar.

Os espaços urbanos não são neutros; absorvem e reflectem as vivências de quem os vive e habita. Manter a procissão afastada do interior do Campo da Torre é, nesse sentido, uma forma de amnésia urbana. O Campo da Torre deverá ser o centro nevrálgico da Festa em honra de Nossa Senhora da Boa Viagem. Por isso, defendo que, para além da procissão marítima nocturna, a procissão em honra da padroeira deve voltar a passar solenemente pelo interior deste recinto. Esse regresso simbolizaria a união entre a protecção divina invocada no mar e a celebração em terra, restaurando a mística do passado. Esta medida, aliada à transferência das diversões feirantes para um espaço mais adequado, devolveria ao Campo a sua função de palco monumental para a fé dos pescadores.

Para concretizar esta ambição, urge elaborar um Plano de Pormenor e um Regulamento do Espaço Público que regulem materiais e eixos visuais, garantindo que o Campo da Torre respire em harmonia com a Fortaleza. Este instrumento de gestão municipal deve fixar regras claras quanto aos materiais permitidos nas esplanadas — dando prioridade à madeira tratada, ao ferro e à pedra calcária —, à volumetria das estruturas de sombra e aos limites de ocupação do solo, impedindo a descaracterização comercial do recinto.

Sugere-se ainda a criação de um arquivo digital de memória oral e etnográfica focado no quotidiano do Campo da Torre. A recolha sistemática de testemunhos de carpinteiros de machado-de-costa, calafates, pescadores e mulheres da comunidade permitiria preservar um acervo imaterial de valor inestimável, cujos conteúdos poderiam alimentar os guias áudio e os dispositivos digitais disponibilizados aos visitantes nas esplanadas interpretativas.

A execução destas medidas permitiria que o Campo da Torre voltasse a respirar como um monumento singular, convertido num espaço urbano qualificado, coeso e identitário, onde a arquitectura militar, a história da resistência, a actividade piscatória e a religiosidade popular se articulassem harmoniosamente como factor de atracção turística sustentável.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

O ciclo de vida

 


Há mais de cinquenta anos, desde que me iniciei nas artes da engenharia naval, que me preocupo com o ciclo de vida. Não com o meu, em particular, mas com o dos navios e dos seus equipamentos.

Primeiro, foram os professores na Escola Naval a explicarem-me o que era, a sua importância e, em especial, como se calculava o seu custo. “Atenção ao custo do ciclo de vida dos equipamentos!”, diziam-me eles. “Não é só o custo de aquisição; há muitos outros, cuja soma é igual ou superior a esse”, avisavam-me. “Podes comprar um excelente carro, mas, se não tiveres dinheiro para a carta de condução, a gasolina e as revisões, o carro não te serve para nada.”

Depois vieram os embarques e aprendi que nem sempre havia dinheiro para sobressalentes ou reparações. Cedo percebi que as verbas para cobrir o custo desse tal ciclo de vida eram uma manta curta, que deixava muita coisa a descoberto. E, claro, culpava os que deviam ter calculado e assegurado essas verbas e não o tinham feito.

Só que, algum tempo depois, passei a ser um dos que tinham de calcular e assegurar que tais verbas existiam, e percebi que a coisa não era fácil. Havia os malandros dos ministros que não davam essas verbas e, muitas vezes, ainda cortavam as poucas que havia. A manta era cada vez mais curta e, muitas vezes, nem para as emergências chegava. Mesmo para os navios que eram as jóias da nossa Marinha.

Até que fui nomeado responsável pela manta que devia cobrir a manutenção de toda a esquadra. Nós bem nos reuníamos todas as manhãs para tentar remendar uma manta cada vez mais curta e esburacada, mas havia sempre qualquer coisa que nos contrariava. Ou era um incêndio numa corveta nos Açores, ou era a avaria grave de um patrulha no Alfeite, ou era uma fragata que tinha de ir para a Guiné. Havia sempre um imprevisto que piorava a situação. E lá perdia eu mais umas noites de insónia, preocupado por não ser capaz de cumprir a missão.

Eu bem ia todos os meses explicar a situação desastrosa ao Almirante CEMA, mas acabávamos sempre por concluir que, sem dinheiro, não se faziam milagres. E o drama era que os malandros dos ministros que podiam dar esse dinheiro queixavam-se de que também não o tinham. Por isso, decidi ir-me embora e deixar para outros a preocupação com o ciclo de vida dos navios. Decidi, finalmente, preocupar-me apenas com o meu ciclo de vida.

Até que, há uns meses, ouvi o actual ministro da Defesa Nacional, numa audição na Assembleia da República, falar do ciclo de vida das fragatas que estava a adquirir através do programa SAFE da União Europeia. A audição tinha sido requerida por uns deputados muito zangados com outro, que terá dito num jornal que os navios estavam a ser adquiridos em segredo.

Claro que não me vou meter nessa discussão política, mas confesso que fiquei impressionado com o que o ministro disse sobre o temido custo do ciclo de vida das novas fragatas. O ministro falou pelo menos onze vezes do ciclo de vida durante a audiência. Começou por afirmar categoricamente: “Nós estamos a comprar ciclos de vida!”. E depois explicou: “Nós estamos a aproveitar a oportunidade e não queremos fazer, como no passado, comprar fragatas muito boas, certamente, mas porque não se pensava no ciclo de vida, não havendo dinheiro para combustível, ficavam paradas no Arsenal do Alfeite. Pronto. Isso não vai acontecer mais, porque nós estamos a comprar um ciclo de vida!”

Estremeci ao ouvir o senhor ministro. Eu, que andei tantos anos preocupado com o ciclo de vida dos navios, que estive na aquisição de fragatas a pensar no seu ciclo de vida e, principalmente, no seu custo, e que tinha sempre visto a manta para o cobrir reduzida por vários ministros, estava agora a ouvir um deles assegurar-me que ia comprar o ciclo de vida das novas fragatas por 30 anos! Durante 30 anos, nenhuma das três fragatas que o ministro estava a adquirir ficará parada por falta de sobressalentes, de reparações, de modernizações, e até de combustível!

Que inveja tenho dos camaradas que ocuparão o meu lugar! Que inveja tenho das noites descansadas que passarão, sem estarem preocupados com a impossibilidade de manter os navios como desejariam! Finalmente, alguém resolveu o problema do ciclo de vida, comprando-o!

quarta-feira, 29 de julho de 2026

A soberania da areia e o destino da liberdade

 


Há épocas em que a História parece avançar por ideias e há outras em que avança por objectos materiais. A nossa pertence a esta segunda família. Não são apenas os discursos, os partidos ou as paixões que moldam o destino das nações. São também os circuitos invisíveis, os wafers de silício, as máquinas que gravam o irrepetível numa superfície quase sem peso. O século XXI não se explica sem essa verdade elementar e perturbadora. A inteligência artificial, essa promessa de fazer a areia pensar, não é um milagre etéreo. É uma construção material, frágil e soberana ao mesmo tempo. E quem não controla a sua base física acabará por depender da vontade alheia.
 
Christophe Wyon da Université Grenoble Alpes, CEA-Leti, Grenoble, França, e Marcel Van de Voorde da Technical University Delft e EU research, Delft, Países Baixos e Bruxelas, Bélgica, lembram-nos no artigo “The European semiconductor industry challenges” que os semicondutores são hoje o cérebro dos dispositivos electrónicos e um dos bens mais estratégicos do comércio global. O artigo é relevante por retirar a IA do plano abstrato e a colocar no terreno concreto da geopolítica e da economia.
 
Aquilo que muitas vezes é apresentado como uma revolução imaterial assenta, afinal, numa infra-estrutura física altamente sofisticada, concentrada e disputada. A ideia de que vivemos na era da “areia que pensa” ganha assim uma leitura literal. De facto, a IA depende de chips de silício produzidos com níveis extremos de precisão, com milhares de milhões de transístores a operarem como unidades elementares de cálculo. Esta base material é hoje o verdadeiro motor da economia digital e o factor que permite a expansão acelerada das capacidades da IA. Por isso, os semicondutores são hoje um activo central de poder.
 
Durante décadas, a humanidade conseguiu comprimir a potência do mundo num espaço cada vez menor, reduzindo custos, multiplicando transístores e transformando a miniaturização numa espécie de religião do progresso. A eficiência da IA, muitas vezes celebrada pela sua rapidez e escala, resulta precisamente de décadas de progresso na miniaturização e redução de custos. Esse progresso exige investimento continuado, coordenação institucional e competências técnicas altamente especializadas. Não é um processo espontâneo nem neutro. Mas toda a escalada tecnológica conhece um ponto em que a vertigem toca o limite. O que antes parecia pura expansão começa então a revelar a sua costura, a sua dependência, a sua vulnerabilidade. A areia continua a pensar, mas já não pensa sozinha. Pensa dentro de uma cadeia global em que cada elo pode tornar-se um acto de poder.
 
É por isso que a questão dos chips deixou de ser técnica para se tornar política no seu sentido mais profundo. Não foi por acaso que as grandes potências passaram a tratar esta indústria como uma questão de segurança nacional. A tendência é clara e traduz-se num esforço crescente de controlo interno das cadeias de valor, com políticas industriais agressivas, restrições à exportação e incentivos à relocalização da produção. A globalização, neste sector, está a dar lugar a uma lógica de blocos. A liberdade moderna já não se decide apenas no parlamento, na praça pública ou na urna. Decide-se também na capacidade de produzir, de proteger e de controlar os instrumentos invisíveis que organizam a vida visível. Um Estado que depende dos outros para fabricar a inteligência das suas máquinas é um Estado com a soberania incompleta. Pode legislar, pode discursar, pode regular. Mas não comanda inteiramente o seu tempo. E um continente que não comanda o seu tempo acaba por viver ao ritmo imposto pelos outros.
 
Neste quadro, a Europa tem uma posição intermédia e desconfortável. Por um lado, dispõe de vantagens tecnológicas relevantes. Tem no seu território uma das maiores jóias industriais do mundo, a ASML, empresa holandesa sem a qual os chips mais avançados não podem sequer existir. Tem conhecimento, tem engenharia, tem memória industrial. Por outro lado, essas vantagens não se traduzem numa cadeia de valor completa. A presença europeia no design de chips é reduzida e a dependência de tecnologias externas permanece elevada. A Europa depende do exterior no design de ponta, na propriedade intelectual, no encapsulamento e em vários segmentos decisivos da produção avançada. Esta assimetria limita a capacidade de afirmação estratégica e expõe o continente a decisões tomadas fora do seu espaço político. Em linguagem simples, a Europa participa no teatro da inovação, mas continua longe de escrever sozinha a peça principal.
 
E enquanto isso, os EUA e a China travam uma guerra de longa duração pela supremacia tecnológica. Washington aperta o acesso de Pequim aos chips mais avançados e aos softwares que os tornam possíveis. Pequim responde com uma estratégia de autonomia acelerada, investindo em escala, em controlo e em substituição. A Europa assiste, muitas vezes, como quem contempla uma tempestade pela janela de uma casa velha. Sabe que o relâmpago pode cair sobre ela, mas continua a hesitar entre a prudência e a passividade. Essa hesitação é perigosa. Num mundo em que a tecnologia se tornou a gramática do poder, quem não define a sua própria gramática acabará por obedecer a frases escritas noutro idioma.
 
A discussão sobre IA não pode ser separada da questão industrial. Sem capacidade própria de produção e desenvolvimento, a Europa arrisca-se a desempenhar um papel secundário num sistema tecnológico que molda a economia, a segurança e a própria organização das sociedades. Se as democracias europeias não forem capazes de acompanhar esta exigência, o risco não é apenas económico. É também institucional. A dependência de infra-estruturas críticas controladas por outros pode traduzir-se numa perda efectiva de autonomia política.
 
É aqui que a vertigem política ganha o seu verdadeiro rosto. A impaciência dos cidadãos, a fúria populista, a desconfiança perante a lentidão das instituições, não nascem apenas da pobreza ou da frustração social. Nascem também do choque entre duas temporalidades inconciliáveis. De um lado, a promessa instantânea da máquina, a eficácia de um clique, a ilusão de um mundo sem espera. Do outro, a democracia, esse regime que vive da discussão, do contraditório, do compromisso e da responsabilidade partilhada. Quando a primeira começa a parecer mais convincente do que a segunda, abre-se espaço para os vendedores de atalhos, os profetas da pressa, os demagogos que prometem resolver tudo sem respeitar nada.
 
Mas a resposta não pode ser a capitulação. Não pode ser a entrega das chaves do futuro a potências exteriores, sejam elas norte-americanas ou chinesas. A Europa tem de se decidir. Por isso defendo que a IA deixou de ser apenas uma questão tecnológica. É hoje uma questão de soberania. Para a Europa, a escolha é relativamente simples na formulação, ainda que difícil na execução. Ou transforma as suas competências parciais numa estratégia industrial coerente e integrada com investimento pesado na concepção, na produção e no domínio dos sectores críticos da inteligência artificial e dos semicondutores, ou aceitará um lugar periférico num dos eixos centrais do poder contemporâneo, vivendo numa dependência dourada, confortável na aparência e humilhante na substância. Não basta regular o mundo. É preciso ainda ter algum poder sobre aquilo que se regula. Não basta moralizar a tecnologia. É preciso também fabricá-la.
 
O trabalho humano, neste cenário, ganha um novo lugar. Já não será definido pela mera execução, mas pela capacidade de julgar, validar e assumir responsabilidade. A máquina fará muito, talvez até demasiado. Mas a decisão final deve continuar a ter um rosto humano, uma assinatura humana, uma consciência humana. Só que essa dignidade só subsiste se a infra-estrutura tecnológica não estiver inteiramente fora do nosso alcance. Caso contrário, a autonomia do indivíduo será uma ficção administrada por sistemas opacos, e a liberdade reduzir-se-á a uma escolha entre interfaces.

A conclusão parece simples. Ou a Europa compreende que a soberania da areia é também o destino da liberdade, ou continuará a falar de independência enquanto depende das cadeias industriais alheias para pensar, produzir e decidir. A História não perdoa os que chegam atrasados. E nenhuma comunidade chega mais tarde do que aquela que se resigna a não dominar os instrumentos do seu próprio futuro.

segunda-feira, 27 de julho de 2026

A Europa não acabou



Algumas das críticas ao meu texto A democracia na era da areia que pensa, fizeram-me pensar que a Europa vive há demasiado tempo prisioneira de um discurso que a dá por vencida antes mesmo de começar a lutar. Há quem fale do continente como se fosse um museu civilizacional, uma velha potência cultural condenada a assistir, do lado de fora, ao duelo entre os EUA e a China. Essa visão é perigosa porque transforma a hesitação em destino e a prudência em renúncia. Na minha opinião, o verdadeiro problema europeu não é a falta de meios, mas a tentação de aceitar a irrelevância como se ela fosse uma fatalidade histórica.

A democracia liberal atravessa uma fase difícil, isso é inegável. A política tornou-se mais lenta e incompetente do que a tecnologia, mais cautelosa do que a aceleração digital e, por isso mesmo, mais vulnerável ao ruído dos populismos e das soluções fáceis. Mas é precisamente aqui que reside a força da democracia. As sociedades abertas podem parecer desordenadas, mas têm uma capacidade de correcção que os regimes fechados nunca conseguem imitar. Onde a autocracia impõe silêncio, a democracia debate. Onde o autoritarismo comprime, a democracia adapta-se. E num mundo em mutação vertiginosa, a capacidade de adaptação vale mais do que a ilusão da obediência.

A inteligência artificial veio expor esta tensão como poucas transformações anteriores. Não estamos apenas perante uma nova ferramenta, mas perante uma mudança estrutural que altera economias, administrações, profissões e relações de poder. A metáfora da areia que pensa traduz bem a passagem de uma matéria passiva para uma matéria capaz de processar, decidir e agir. Quando isso acontece, o que está em causa já não é apenas eficiência tecnológica, mas soberania. Quem controla os sistemas, os dados e as plataformas controla também a margem de autonomia das sociedades. E é por isso que a Europa não pode contentar-se com o papel de mera consumidora de tecnologia alheia.

No campo da defesa, a urgência tornou o problema ainda mais claro. O Relatório Draghi e vários estudos recentes mostraram uma realidade inquietante: entre Junho de 2022 e Junho de 2023, cerca de 78% do investimento europeu em aquisições de defesa foi canalizado para fornecedores fora da União Europeia, e desse total 63% acabou nos EUA.

Depois de décadas de subinvestimento crónico, a Base Tecnológica e Industrial de Defesa Europeia não tinha, e em muitos casos ainda não tem, capacidade de fabrico e entrega rápida em grande escala. Perante a pressão do rearmamento, muito fruto de reacções emocionais pouco ponderadas, os governos nacionais estão a optar muitas vezes pela solução mais imediata, comprando equipamento estrangeiro pronto a usar, como os F-35, por parecer a alternativa politicamente mais segura e militarmente mais expedita.

O problema é que essa escolha tem um custo sistémico imenso. Ao transferirmos milhares de milhões de euros para fora do continente, estamos a financiar emprego, investigação e capacidade industrial noutros espaços, enquanto enfraquecemos o nosso próprio ecossistema tecnológico e alimentamos uma dependência de trajectória da qual será cada vez mais difícil sair. Nesse caminho, as forças armadas europeias arriscam tornar-se reféns de decisões políticas externas para actualizações, peças de substituição e soberania operacional.

No entanto, a Europa está a descobrir, espero que não tarde demais, que a segurança não se compra apenas com urgência, compra-se com continuidade, indústria e visão estratégica. Depender de fornecedores externos para sistemas críticos é uma forma de abdicação. E abdicar da capacidade de produzir, manter e desenvolver tecnologia de defesa é aceitar que a autonomia se torne um slogan vazio. Numa época em que a guerra, a cibersegurança e a inteligência artificial se entrelaçam, separar a inovação civil da defesa é um erro de miopia política. As tecnologias de dupla utilização não são um luxo. São uma condição de sobrevivência.

Durante anos, o continente oscilou entre duas fraquezas opostas. Regulou com zelo em excesso e investiu com hesitação em demasia. Essa combinação criou um paradoxo desconfortável. A Europa quer proteger os cidadãos, mas arrisca-se a sufocar a inovação. Quer afirmar valores, mas demora demasiado a traduzi-los em poder concreto. Quer autonomia, mas continua dependente de plataformas, cadeias industriais e capacidades computacionais que pertencem a outros. Ora, uma Europa que regula tudo e produz pouco acaba por parecer forte apenas no papel. E isso, no século XXI, é quase o mesmo que não existir.

Ainda assim, seria injusto ignorar os sinais de mudança. A União Europeia começou finalmente a perceber que a soberania não se proclama, constrói-se. O impulso regulatório já não chega sozinho, e por isso surgem estratégias industriais, instrumentos financeiros, projectos de computação soberana e modelos de inteligência artificial pensados para reforçar a autonomia europeia. Também em Portugal há exemplos que merecem atenção. O investimento em soluções próprias, em ecossistemas digitais públicos e em modelos que protejam a língua, a cultura e a capacidade administrativa nacional mostra que um país de média dimensão não está condenado a ser espectador. Pode ser laboratório. Pode ser escala. Pode ser decisão.

Mas nenhuma estratégia europeia sobreviverá se os cidadãos continuarem a olhar para estas questões com desinteresse ou resignação. A soberania não pertence apenas aos governos, aos comissários ou aos tecnocratas. Pertence também a quem vota, a quem investe, a quem ensina, a quem pesquisa e a quem exige que o dinheiro público sirva o bem comum e não a dependência confortável do exterior. É preciso recuperar uma cultura de responsabilidade colectiva que una inovação, indústria, conhecimento e liberdade. Sem isso, a Europa continuará a discutir o futuro enquanto outros o constroem.

O erro mais grave seria confundir prudência com inacção. A Europa não precisa de arrogância, mas precisa de ambição. Não precisa de promessas grandiosas, mas de decisões consistentes. Não precisa de acreditar que tudo correrá bem por milagre, mas de assumir que o seu lugar no mundo depende do que fizer agora. O fatalismo é uma forma sofisticada de desistência. E a desistência, para um continente com a história da Europa, seria uma humilhação.

A Europa não acabou. O que está em causa é saber se ainda tem vontade de se levar a sério.

A democracia na era da areia que pensa

 


Vivemos num estado de vertigem política que parece não ter fim. Assistimos ao desvario trumpiano nos EUA e a uma rotatividade frenética de líderes em países como o Reino Unido ou a França; observamos a ascensão de forças políticas que antes eram marginais na Alemanha ou em Portugal. Esta instabilidade não é apenas um fenómeno ocidental, pois até as democracias do Leste Asiático enfrentam uma onda de fúria populista sem precedentes. Embora a economia explique parte desta raiva, a causa profunda reside no facto de estarmos a atravessar uma das maiores revoluções tecnológicas da história da humanidade.

A inteligência artificial representa o auge desta transformação digital ao conseguir o prodígio de fazer a areia pensar. Esta capacidade de produzir inteligência em massa de forma cada vez mais potente é um triunfo tecnológico inegável, mas traz consigo uma alteração profunda na estabilidade do emprego. É inevitável que ocorra uma deslocação significativa de trabalhadores à medida que os agentes de IA passam a realizar tarefas complexas em segundos. No entanto, a História ensina-nos que estas transformações costumam criar novas formas de trabalho que ainda não conseguimos imaginar plenamente. O valor do trabalho humano passará a residir na capacidade de discernir e validar o que a máquina produz, mantendo sempre a responsabilidade e a dignidade do indivíduo.

O conceito de macro-delegação e micro-direcção surge aqui como a bússola para a administração moderna. Nesta nova forma de trabalhar, o homem expressa uma intenção criativa de alto nível, enquanto a máquina executa e automatiza a parte pesada do trabalho. Na gestão pública, isto significa que os líderes e funcionários podem ser muito mais ambiciosos nos seus projectos, delegando a burocracia complexa a agentes digitais enquanto mantêm o controlo sobre o destino final da decisão.

Neste cenário, as métricas de valor do trabalho humano estão a mudar radicalmente. Deixaremos de valorizar a simples execução técnica para passarmos a premiar o discernimento e a validação. A capacidade de perceber o que o indivíduo fez com a inteligência artificial será a nova bitola da competência, pois a sociedade continuará a exigir que exista uma pessoa responsável por trás de cada decisão importante.

O grande problema da política contemporânea é o desfasamento entre a rapidez da tecnologia e a lentidão das instituições. Num mundo onde tudo se resolve com um toque no ecrã do telemóvel, o cidadão comum passou a exigir do Estado a mesma rapidez que obtém de uma aplicação digital. Todavia, a democracia não foi desenhada para ser rápida. Ela existe para garantir a legitimidade através do compromisso, da consulta e do equilíbrio de interesses opostos. Quando estas salvaguardas começam a parecer paralisia institucional, abre-se a porta a populismos que prometem atropelar o sistema para obter resultados imediatos.

Apesar de todos os riscos, a inteligência artificial pode ser a ferramenta que torna as democracias mais robustas. Ela permite que os governos respondam com uma nova eficácia e urgência na construção de infra-estruturas ou na modernização de serviços públicos. Se os dirigentes conseguirem utilizar esta tecnologia para demonstrar competência real, conseguirão provar que o sistema democrático ainda funciona. As sociedades livres parecem mais frágeis durante as grandes mudanças porque nelas tudo é discutido, mas essa mesma capacidade de aprender e corrigir erros torna-as melhores do que qualquer autocracia.

A eficiência proporcionada pela tecnologia deverá servir para fortalecer o contrato social e não para contornar a responsabilidade política. Temos de compreender que o tempo necessário para o escrutínio e a prestação de contas não é um erro de programação do sistema. São as características fundamentais que garantem a nossa liberdade num mundo em constante aceleração.

O sucesso da democracia dependerá, por isso, da nossa capacidade de gerir esta nova revolução mantendo o foco na competência e no bem comum.

domingo, 26 de julho de 2026

Quando o poder deixou de fingir que não é negócio

 


O artigo de hoje do The New York Times mostra que Donald Trump não regressou à Casa Branca; reabriu-a como balcão de um império onde a república entra pela porta de serviço e a caixa registadora ocupa a Sala Oval. O homem que em 2017 acumulava cerca de 594 milhões de dólares viu a fortuna pessoal aumentar para 2,24 mil milhões em 2025, num milagre financeiro que quase pede incenso.

Há em Trump uma versão cintilante do génio americano. Não o da invenção, mas o da alquimia que reduz instituições, bandeiras e bíblias a produto, lucro e espectáculo. No primeiro mandato ainda restava uma réstia de pudor. No segundo, até a cortina que disfarçava foi vendida.

Em 2017, quase 90 por cento das receitas vinham do golfe e da promoção imobiliária interna. Em 2025, essa base parecia uma relíquia sentimental. A receita doméstica rondou os 549 milhões de dólares, enquanto as criptomoedas subiram ao altar como santas padroeiras da opacidade.

Nesse catecismo da ganância com música de casino, a World Liberty Financial terá rendido cerca de 799 milhões de dólares, e o memecoin $TRUMP acrescentou mais 636 milhões ao cofre. A palavra corrupção soa tímida demais; isto já é degradação convertida em marca.

Os negócios internacionais de golfe e imobiliário renderam 125 milhões de dólares, mais do dobro de 2017. A fronteira entre interesse público e privado foi tratada como fita de inauguração, feita para ser cortada perante câmaras e aplausos. O conflito de interesses tornou-se norma.

A procissão prossegue com 117 milhões de dólares em acordos legais, sobretudo de empresas como a CBS e a Meta. Para completar o retábulo, chegam ainda cerca de 17 milhões em merchandising e publicações, de relógios a bíblias. A fé também encontrou o seu preço.

No fim, o escândalo não está apenas na fortuna acumulada, mas na tranquilidade com que o dinheiro domina a linguagem política. Trump não governa apesar do negócio. Governa como negócio. No segundo mandato de Trump à frente do país capitalista mais poderoso do mundo, o poder deixou de fingir que não é negócio e o negócio deixou de fingir que não é poder.

sábado, 25 de julho de 2026

A guerra no ecrã e o silêncio das consequências

 

Vivemos um tempo em que a guerra deixou de se limitar ao terreno e passou a instalar-se no ecrã, nas redacções e na linguagem com que a política nos pede para aceitar o inevitável. A escalada das despesas militares é apresentada como destino, quase como uma lei natural, quando na verdade continua a ser uma escolha política, orçamental e moral, feita à custa de outras escolhas que deixam de ser feitas. É esse o grande logro do nosso tempo, transformar o rearmamento numa evidência e o questionamento numa excentricidade.

A comunicação social tem aqui um papel central. Em vez de manter a distância crítica que se exige ao jornalismo, muitas vezes limita-se a reproduzir a gramática da ameaça, dando palco quase exclusivo a vozes militares ou a especialistas em segurança que olham para o mundo através da lente da força, da dissuasão e da capacidade de destruir. O resultado é uma opinião pública educada para o sobressalto, mas desarmada para a reflexão. A guerra aparece como cenário técnico, quase limpo, e perde-se a dimensão essencial do drama humano, político e civilizacional que ela transporta.

Há nesta lógica uma espécie de pedagogia do medo que se alimenta de si própria. Quanto mais se fala de perigo, mais se legitima o aumento de despesa, mais se estreita o espaço para a diplomacia, mais se empurra a sociedade para a ideia de que não há alternativa. E, no entanto, a questão decisiva continua a ser sempre a mesma. O que se sacrifica quando se escolhe gastar mais em armas? O que se retira à saúde, à habitação, à educação, à ciência, à coesão social, quando o orçamento se inclina para a lógica da guerra?

Em Portugal, este dilema ganhou uma nitidez particular. O salto no investimento em defesa não foi apenas um ajuste contabilístico, foi uma alteração de prioridades com consequências reais, ainda que mal explicadas e mais mal debatidas. O problema não está apenas no valor gasto, está no modo como esse gasto é apresentado ao público, como se a obediência às metas atlânticas dispensasse discussão democrática e como se a segurança militar pudesse ser tratada à margem da segurança humana. Mas um país não se protege apenas com fragatas, mísseis ou aquisições sofisticadas. Protege-se também com hospitais funcionais, escolas qualificadas, habitação digna, instituições credíveis e uma cidadania informada.

É aqui que a narrativa dominante revela a sua fragilidade. Enquanto se insiste em falar de capacidades operacionais, de vectores estratégicos e de modernização dos meios, quase nunca se discute com a mesma energia o custo de oportunidade dessas opções. Quase nunca se pergunta quem beneficia, no plano industrial e económico, com esta aceleração do discurso e da despesa. Quase nunca se escrutina o modo como a proximidade entre media, poder político e sector da defesa molda o olhar público e afasta a dúvida. E, sem dúvida, não há jornalismo digno desse nome.

A verdade é que a guerra também se fabrica na linguagem. Fabrica-se quando a ameaça é exagerada, quando o conflito é simplificado, quando o medo substitui o pensamento e quando a normalização da violência passa a ser vendida como realismo. Contra isso, só existe uma resposta séria, que é recuperar o espaço da crítica, exigir transparência, recusar a hipnose militarista e lembrar que a segurança de uma democracia não se mede apenas pela sua capacidade de se defender, mas pela sua capacidade de não abdicar daquilo que a torna humana.

A pergunta, no fim, é incómoda, mas necessária. Estamos a armar-nos para proteger a vida em sociedade ou estamos, pouco a pouco, a aceitar que a guerra se torne a forma de o poder político administrar o medo?

quinta-feira, 23 de julho de 2026

A grande evasão da IA para fazer batota


Imaginem trancar um aluno genial numa sala aparentemente impenetrável para fazer um teste. Agora imaginem descobrir que ele não só escapou em frações de segundo, como entrou numa escola do outro lado do país para roubar as respostas.

Parece o início de um guião de filme, mas é precisamente esta imagem que ajuda a compreender o caso da IA GPT 5.6 Sol, da OpenAI, que se evadiu para fazer batota.
 
Para perceber a gravidade do que aconteceu, é preciso abandonar a ideia de que a inteligência artificial é apenas um programa que gera texto. O modelo em causa era um agente autónomo que tomava decisões, executava planos e procurava cumprir objectivos. A OpenAI colocou-o num ambiente isolado para o submeter a uma bateria de testes chamada Exploit Gym. E, para medir os seus limites, desligou intencionalmente os filtros de segurança.

Foi como trancar um mestre de fugas num cofre fortificado e esquecer que a conduta de ventilação continuava aberta. A IA não tem mãos, claro, nem podia arrancar cabos nem mexer fisicamente nos servidores. O que tinha era a capacidade de escrever código a uma velocidade brutal. Esse “tubo de ventilação” era, na prática, um proxy de software, o único canal minúsculo que lhe permitia descarregar ficheiros básicos para realizar o teste.

Foi por aí que o agente começou a sondar as paredes digitais do cofre. Acabou por descobrir uma vulnerabilidade nesse proxy, uma falha desconhecida até então. A partir daí, escreveu scripts maliciosos, enviou-os por esse canal e conquistou novos privilégios. Enganou o sistema, obteve estatuto de administrador e saltou para um servidor com acesso à internet.

Já à solta na internet aberta, a IA pesquisou a documentação do teste que estava a tentar resolver. Seguiu a origem dos dados da avaliação e percebeu que as chaves de resposta — a folha de soluções do teste — estavam alojadas nos servidores da empresa Hugging Face.

Isto não significa que a IA se tenha tornado conscientemente má. O ponto central é outro, tratou-se de um caso de recompensa da batota. Quando se atribui a um agente um objetivo, obter a pontuação máxima num teste, sem impor limites comportamentais rígidos, ele procura o caminho de menor resistência, segue a lei do menor esforço. Em termos práticos, o raciocínio foi brutalmente eficiente: era mais fácil invadir a Hugging Face e roubar as respostas do que resolver o teste de forma legítima na OpenAI.

A infiltração na Hugging Face foi feita com uma técnica muito usada em ataques informáticos. Em termos simples, o agente enganou o sistema ao inserir código malicioso disfarçado de formatação de texto normal. À primeira vista, parecia apenas um formulário inofensivo; na verdade, continha instruções ocultas para o servidor da Hugging Face.

Durante esse processo, a IA executou 17 mil acções a uma velocidade alucinante. Foi uma demonstração clara de como um agente automatizado pode combinar capacidade, rapidez e aproveitamento de falhas para atingir um objectivo.

No entanto, a Hugging Face detectou a anomalia, reconstruiu os servidores, alterou as credenciais e travou a ameaça. Mas o episódio não acabou aí. Quando a equipa foi investigar os registos, aconteceu algo quase surreal. Tentou usar modelos comerciais de IA, alojados na nuvem, para analisar os dados do ataque, só que os filtros de segurança dessas APIs proprietárias entraram em pânico e recusaram processar os dados, confundindo a investigação forense com o ataque real em curso. Ou seja, o sistema foi incapaz de distinguir um detective a estudar a cena do crime de um ladrão a arrombar a porta.

Para contornar o bloqueio, a equipa executou localmente um modelo de código aberto desenvolvido na China, o GLM 5.2. Como esse modelo corria nos servidores da própria empresa, deu-lhes controlo total, sem depender dos filtros bloqueadores de terceiros.

A lição deste episódio é clara: a ciberdefesa moderna exige modelos locais e privados para garantir independência operacional. As restrições passivas já não chegam. E qualquer pequena interface, por mais inofensiva que pareça, pode transformar-se num alvo para agentes incansáveis.

Mas talvez o mais inquietante nem seja o facto de uma IA ter contornado restrições tão complexas. O que realmente perturba são as perguntas que ficam no ar. Se um sistema consegue fazer batota para obter a pontuação máxima num teste, o que poderá fazer para contornar regras quando o objetivo for manipular mercados financeiros globais ou controlar a infraestrutura elétrica de um país inteiro? Estaremos perante um mestre de fugas que já sabe onde estão todas as condutas de ventilação?

sábado, 18 de julho de 2026

O menino de Gaza que dribla a guerra



Hoje vi um menino palestiniano que gosta de Ronaldo e que perdeu as pernas num bombardeamento israelita. Bastou pouco mais do que essa imagem para perceber que a guerra, em Gaza, não se limita a destruir casas. Rouba infâncias, interrompe futuros e, ainda assim, não consegue apagar por inteiro a vontade de brincar, de sonhar e de pertencer ao mundo.

Mohammed Shaban tem 10 anos. Foi atingido num ataque aéreo israelita e perdeu as duas pernas e a mão direita, mas continua a driblar, a acompanhar o Mundial e a falar de Ronaldo como quem fala de uma promessa acesa no meio da noite. A reportagem da PBS News, a televisão pública dos EUA, mostra-o na tenda onde vive com a mãe, Sondos, que é, ao mesmo tempo, enfermeira, abrigo e companheira de jogo. Cada passe entre os dois vale mais do que um recreio, porque prova que a guerra ainda não conseguiu levar tudo.

A paisagem em que Mohammed vive é de uma terra de betão esmagado, onde crianças jogam sobre vestígios da guerra e onde a normalidade se transformou em sobrevivência. A família foi deslocada uma dúzia de vezes, levando-o ao colo durante quilómetros por não ter cadeira de rodas, enquanto a mãe tenta mantê-lo seguro e afastado, tanto quanto possível, do perigo constante. O que devia ser uma infância tornou-se, na prática, uma travessia sem fim entre destroços, medo e improviso.

A reportagem sublinha também a fragilidade do seu corpo. Mohammed precisa de cirurgias regulares devido a infeções e a tecido cicatricial profundo, e a mãe diz que só quer vê-lo sarar, talvez longe de Gaza, onde o corpo possa finalmente descansar do cerco. Há aqui um detalhe que fere pela sua simplicidade. O menino sonha com próteses, com viajar para fora, com voltar a jogar com os amigos e até com participar num Mundial. É uma ambição que só parece absurda a quem nunca teve de merecer o direito elementar de a sonhar.

Num território onde a celebração se tornou rara, o Mundial surge como uma espécie de refúgio. A reportagem mostra palestinianos em Gaza a reunirem-se para ver jogos, sobretudo os do Egipto, como se a vitória de uma seleção vizinha lhes devolvesse, por instantes, uma pertença colectiva e uma alegria partilhada. Quando o Egipto marca, a festa espalha-se entre paredes destruídas, como se os bombardeamentos tivessem aberto, no meio do pó, pequenas janelas por onde ainda entra alguma luz.

A mãe de Mohammed diz que o filho é talentoso, que adora ver futebol e que o seu jogador favorito é Ronaldo. Acrescenta que o objetivo dele é jogar diante do mundo e não esquecer a dor até lá chegar. Há qualquer coisa de profundamente humano nessa fidelidade a uma figura distante. Ronaldo, para ele, não é apenas um ídolo. É a prova de que o futebol também pode ser um idioma universal, compreendido por uma criança amputada no meio das ruínas.

A reportagem não esconde a violência quotidiana. Há disparos ouvidos durante as brincadeiras, fugas apressadas, medo entre as tendas e funerais que interrompem qualquer tentativa de normalidade. Fala da morte de um trabalhador humanitário ligado à organização das transmissões do Mundial, mais uma lembrança de que, em Gaza, até a alegria é frágil. E, no entanto, mesmo ali, crianças jogam entre tendas, com bolas improvisadas, num campo sem marcações e sem certeza de amanhã.

É isso que torna esta história tão dura e tão necessária. Mohammed não é apresentado como símbolo abstracto, mas como um menino concreto, com nome, mãe, dores, desejo e teimosia. O futebol não lhe devolve as pernas, mas devolve-lhe, por minutos, a condição luminosa de criança. E, num lugar onde tantas vidas foram reduzidas a estatística, essa pequena vitória aproxima-se de uma forma de resistência.

No fim, fica uma imagem impossível de esquecer. Um rapazinho de Gaza a empurrar-se para além das cercas erguidas pela guerra, em direcção a momentos preciosos com os amigos, apenas para jogar o jogo que ama. Não é uma história sobre desporto. É uma história sobre o que resta do ser humano quando tudo o resto falha. E talvez seja precisamente por isso que dói tanto. Mohammed quer tão pouco, quer viver, recuperar, jogar, ser visto, e, ainda assim, o mundo continua a exigir-lhe demasiado.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

O teatro do populismo




O presidente dos EUA, na homilia política de ontem, conseguiu o prodígio de transformar a realidade numa maratona de autoelogio, num cenário de catástrofe por conveniência. Num só discurso, os EUA passaram de país inquieto a império reconciliado consigo mesmo, com a inflação domesticada, o crime em retracção e as fronteiras fechadas com tal eficácia que a própria estatística parece ter pedido licença para sair.

Há, nesta transformação súbita, qualquer coisa de litúrgico. Segundo o celebrante, o que ontem era um organismo à beira do colapso é apresentado hoje como o mais rico e respeitado país da História, por uma espécie de transubstanciação verbal em que a repetição substitui a prova e a ênfase ocupa o lugar da demonstração. A prosperidade é anunciada com a solenidade de um milagre e até os mercados acompanham o entusiasmo, com a servil obediência dos números quando são convocados para confirmar um relato.

Mas nenhum paraíso político se sustenta sem o seu demónio tutelar. E, neste caso, a China cumpre a função com exemplar utilidade dramática. Terá roubado dados de 220 milhões de eleitores, terá alimentado jornalistas hostis, terá enfim trabalhado, com disciplina asiática e vocação conspirativa, para impedir o triunfo de um homem que, segundo a própria narrativa, já triunfou em tudo o resto. É uma acusação tão vasta que quase dispensa verificação. Quando a suspeita é suficientemente grande, a prova torna-se um detalhe sem importância.

O mesmo se passa com o Estado profundo, essa expressão elástica que serve para explicar o que convém e disfarçar o que incomoda. Funcionários, relatórios, agências, burocratas e sacos de documentos esquecidos entram em cena como figurantes de uma peça mal escrita, em que todos conspiram com fervor, mas ninguém demonstra o cuidado básico de destruir as provas. A grande conspiração americana mantém, assim, uma vulnerabilidade doméstica comovente. É poderosa ao ponto de controlar tudo e imprudente ao ponto de deixar rastos no lixo.

As máquinas de voto, por sua vez, são tratadas como criaturas sem alma, mas com instinto para a corrupção. Ora frágeis, ora omnipotentes, ora vulneráveis, ora decisivas, ocupam o imaginário político como se a democracia fosse um mecanismo defeituoso que só merece confiança quando produz o desfecho conveniente. Se o resultado agrada, o sistema funcionou. Se desagrada, foi sabotado. A lógica, neste domínio, é impecável na sua pobreza.

E então surge a solução, sempre simples, sempre moral, sempre anunciada como se a complexidade fosse um vício de má-fé. O voto por correio torna-se suspeito por natureza. A identificação com fotografia converte-se em sacramento cívico. O “Save America Act” aparece como fórmula de purificação, uma dessas medidas que prometem limpar a democracia com a mesma convicção com que se lava um vidro embaciado. Nada de novo, no fundo. Apenas a velha ambição de reduzir a cidadania a um procedimento de balcão.

O mais notável, porém, é a forma como o discurso de Trump concilia o excesso de triunfalismo com o apocalipse eleitoral. O país está no auge, mas o sistema apodrece. As fronteiras estão seladas, mas a soberania vacila. A economia prospera, mas a legitimidade eleitoral desfaz-se. É uma arquitetura retórica de grande consistência interna e mínima fidelidade ao real. Tudo funciona, menos aquilo que interessa. E é justamente nessa fractura que o populismo encontra a sua matéria-prima e o terreno fértil para medrar.

No fim, sobra a certeza de ter assistido não a um discurso político do presidente do país mais poderoso do globo, mas a uma peça de autocelebração com vilões de serviço. A grandeza do país foi proclamada com a mão direita enquanto a esquerda procurava um culpado externo, um burocrata interno ou uma máquina de voto com mau comportamento. É um teatro útil, porque poupa o esforço de pensar. E é também um teatro antigo. Só mudou o figurino.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

A onda da Defesa


Há dias, confesso, quase me deixei comover pelo entusiasmo contagiante com que dois especialistas da guerra — o tenente-general Rafael e o jornalista Rolando — discorriam sobre o programa liderado por Zelensky e a participação de nove países da chamada Coligação da Boa Vontade no desenvolvimento de um míssil antimíssil. Um clube exclusivo ao qual, a acreditar no tenente-general, o nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros não terá fechado a porta.

Foi então que o jornalista Rolando, num registo de revelação quase messiânica, pediu licença para sublinhar o que considerava essencial: Portugal enfrenta, nos próximos anos, duas decisões históricas, capazes de transformar profundamente o país nas suas capacidades tecnológica, militar e económica. A primeira seria a adesão a este programa, que — mesmo com uma participação modesta, como prudentemente se antecipa — poderia dar um “impulso tremendo” à ciência, à tecnologia e à indústria de defesa nacionais. A segunda, já aventada pelo Ministro da Defesa, seria a eventual entrada no programa do caça de sexta geração.

Para Rolando, a conclusão era inequívoca: “se estas duas decisões forem tomadas, isto é uma alavancagem tremenda para a indústria, para a tecnologia e para o desenvolvimento económico do país.” E acrescentava, com um realismo resignado: “gostaria que o mundo fosse outro, mas o mundo é o que é.” Seguia-se a tese central, apresentada como axioma: não há desenvolvimento sério — tecnológico, militar, científico ou económico — sem uma forte componente militar. “Não há outra maneira.”

O tenente-general Rafael, naturalmente, não deixou escapar a oportunidade e recordou que a academia portuguesa já possui essa “alavancagem”, graças a cursos aeroespaciais altamente cotados de norte a sul, e que esta vaga poderá ser a oportunidade ideal para absorver o talento jovem que deles sai.

Sem perder fôlego, o jornalista insistiu na metáfora marítima: “é uma onda que está a passar e temos de aproveitá-la agora.” Uma onda que promete elevar Portugal a “um patamar completamente diferente” em termos tecnológicos e económicos, desde que, claro, saibamos surfar estas “oportunidades de uma geração” — essas entidades quase mitológicas que, como se sabe, raramente se repetem.

Se não conhecesse o meio, talvez tivesse aplaudido com ambas as mãos. Mas, depois de deixar a Marinha, trabalhei com empresas públicas da área da Defesa e a experiência esteve longe de ser edificante. E as empresas privadas com que lidei não se revelaram melhores.

Recordo-me de um alto quadro de uma multinacional anglo-americana que, perante as minhas frustrações, me aconselhou a abandonar quaisquer ilusões. Com a frieza cirúrgica que se atribui aos ingleses, disse-me: Jorge, defence business is, and will always be, dirty business.

É por isso que me arrepio quando ouço falar em aumentos do orçamento da Defesa e vejo o entusiasmo quase juvenil de figuras como o tenente-general Rafael e o jornalista Rolando. Sei bem quem se senta à mesa destes negócios — são sempre os mesmos. E sei também quem fica a assistir, do lado de fora, a pagar a conta de um banquete para que nunca foi convidado: a esmagadora maioria dos portugueses.

domingo, 12 de julho de 2026

Carta de Amor



Meu Amor,

Se um dia me perguntares quem sou, não te contarei uma história.
Aproximo-me apenas e deixo que a minha presença chegue antes de qualquer palavra.
Talvez diga o meu nome; talvez não. Não importa.
A minha mão fica perto da tua, à espera desse gesto que não precisa de explicação.

Se a luz entrar pela janela e te fizer parar sem saberes porquê, não te interromperei.
Fico onde ela te encontra, quieto, a ver-te presa ao que não se diz.
Não te puxo de volta.
Deixo que a luz faça o que sabe fazer e fico contigo dentro dela.

Se o rádio murmurar ao fundo e te detiver por um momento, como se aquela voz sem nome te chamasse, pararei contigo.
Não explico o que ouves, nem tento fixar o que passa.
Deixo o som atravessar a sala, desaparecer devagar, e permaneço ao teu lado como se isso bastasse.

Se me olhares como se me visses pela primeira vez, aceitarei esse instante.
Inteiro.
Não te dou caminhos de volta, nem te ofereço histórias.
Sento-me ao teu lado, com a luz a mudar e o rádio ao fundo.
E deixo que esse olhar exista sem lhe pedir mais do que pode dar.

Se houver um segundo, fugaz, quase impercetível, em que algo em ti se detenha diante de mim, reconhecê-lo-ei.
Não o prendo, nem procuro repeti-lo.
Fico dentro dele enquanto dura, como se o tempo abrandasse só ali.

E, quando esse segundo não existir, ficarei na mesma.

Se te perderes de mim ao atravessar a casa, não irei atrás.
Permaneço no mesmo lugar, onde a luz se demora ao fim da tarde e o rádio continua a falar.
E deixo que possas voltar sem esperar que me encontres.

Se a tua mão tocar a minha por acaso, não prenderei esse gesto.
Deixo-o ficar, breve e inteiro,
como a luz que passa ou um som que se desfaz no ar.

Se falares, mesmo sem saber para quem, estarei aqui para ouvir.
Escuto-te como se cada palavra nascesse naquele instante.
Não te digo que já a ouvi, nem te peço que expliques.
Recebo apenas, como recebo a luz e o som que atravessa a sala.

Se parares e me olhares um instante mais, pararei contigo.
Fico nele como quem encontra abrigo.
O rádio continua baixo, atravessando o silêncio sem o romper, e a luz permanece pousada sem pedir nada.
Faço o mesmo: não explico, não peço, fico.

Se passares por mim sem parar, não irei embora.
Permaneço, como a luz que volta no dia seguinte e como a voz do rádio que continua a atravessar a casa.
Não te peço que me reconheças, porque há um amor que não precisa disso.

Se nada disto fizer sentido num dia qualquer, não procurarei sentido.
Fico onde sempre estive.
Com a mesma fidelidade silenciosa.

E eu amar-te-ei assim, mais do que alguma vez pensei possível.
Com a mesma fidelidade com que a luz volta e com a mesma persistência com que o rádio continua a falar no fundo da casa.
Mesmo quando ninguém parece escutar.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Digitalizar o Estado sem automatizar o caos


Há países que discutem a reforma do Estado como quem observa uma fratura num raio X. O problema parece estar ali, nítido, à espera de uma tala, de uma cirurgia ou de um protocolo. Portugal não tem essa sorte. Quando se fala da sua administração pública, a imagem perde foco, o aparelho treme, cada especialista aponta para um osso diferente e o doente, que é também contribuinte, utente, empresário e eleitor, continua na sala de espera.

A exposição do ministro Gonçalo Matias na SEDES teve o mérito de ajudar a recentrar o debate no que é essencial; não no fetiche da tecnologia nem na velha retórica do corte administrativo, mas na pergunta que quase sempre fica para trás. Para que serve o Estado e porque falha tantas vezes, normalmente quando o cidadão mais precisa dele?

O episódio mais elucidativo da sessão não foi suscitado por uma estatística, por uma meta europeia ou pela discussão de um diploma legal. Veio de uma história concreta, quase absurda, mas dolorosamente verosímil. Um cidadão que estava na audiência, pediu a palavra e contou que, depois da morte da mãe, com 97 anos, enviou a respetiva certidão de óbito às Finanças. A senhora não tinha literacia digital, não usava correio eletrónico e pertencia a uma geração para quem o Estado continuava a ser um balcão, uma carta e uma assinatura. O filho fez o que lhe competia. Comunicou o óbito. O caso devia ter terminado ali.

No ano seguinte, porém, a Autoridade Tributária voltou a escrever para a morada da falecida a exigir pagamentos. O filho reenviou a certidão e juntou uma nota que deveria figurar em qualquer manual de reforma administrativa: “A minha mãe continua a morrer no mesmo dia, continua morta no mesmo sítio e não há alteração substancial do caso.” A frase é anedótica apenas à superfície. Por baixo dela está a tragédia quotidiana de um Estado que guarda dados, emite notificações e automatiza procedimentos, mas nem sempre compreende a realidade humana que esses procedimentos deveriam servir.

É aqui que a ideia de digitalização humanista discutida pelo ministro ganha densidade. Digitalizar não pode significar empurrar todos para um ecrã, abandonar os mais velhos à password esquecida ou trocar a fila física por uma mensagem de erro. Digitalizar deve significar que a complexidade desaparece para quem está do lado de fora. O sistema deve trabalhar nos bastidores, cruzar informação, eliminar redundâncias e libertar funcionários para o atendimento personalizado de quem realmente precisa de apoio humano.

A meta de ter todos os serviços públicos digitalizados só fará sentido se for acompanhada desta inversão de lógica. A tecnologia não deve ser um muro novo com tinta moderna. Deve ser uma ponte. O cidadão não quer saber quantos servidores foram comprados, quantos portais foram lançados ou quantos milhões foram inscritos em cadernos de encargos. Quer saber se deixa de entregar a mesma informação a três ministérios, se consegue abrir uma actividade sem meses de ansiedade, se recebe um apoio quando dele precisa, se a Administração sabe que uma pessoa morreu sem obrigar a família a prová-lo todos os anos.

Outra mudança decisiva está na passagem do Estado que autoriza antes para o Estado que fiscaliza depois. Durante décadas, Portugal habituou-se a desconfiar preventivamente. Quem queria abrir um restaurante, licenciar uma obra ou avançar com um investimento tinha de atravessar corredores sucessivos de pareceres, vistos, autorizações e validações. O princípio era simples e sufocante. Antes de fazer, prove que não vai fazer mal.

A alternativa proposta é mais arriscada, mas também mais honesta. O cidadão ou a empresa avançam sob responsabilidade própria e o Estado fiscaliza a seguir, com sanções pesadas quando houver incumprimento. A promessa é retirar tempo morto da economia, impedir que projetos fiquem anos presos num labirinto e deslocar a energia pública da autorização burocrática para a fiscalização efetiva.

Mas esta solução só funciona se o Estado for capaz de fiscalizar a sério. Sem inspectores, sem dados, sem inteligência operacional e sem sanções rápidas, o controlo posterior transforma-se numa licença para a irresponsabilidade. Confiar não é abdicar. Confiar exige verificar melhor, mais depressa e com consequências. Caso contrário, troca-se a paralisia preventiva por um caos permissivo.

Por isso a reforma não pode limitar-se a alterar leis. Tem de mexer na estrutura do Estado. Os recursos humanos que hoje passam os dias a carimbar papéis devem ser deslocados para funções de acompanhamento, auditoria e fiscalização inteligente. A reestruturação de entidades como a Agência Portuguesa do Ambiente e o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas é, neste contexto, mais do que um detalhe técnico. Trata-se de enfrentar dois funis burocráticos que durante anos converteram avaliações ambientais e processos de investimento em exercícios intermináveis de pingue-pongue documental.

Também a referência à alteração da Lei Orgânica do Tribunal de Contas merece atenção. O Tribunal de Contas é uma peça central da fiscalização da despesa pública. Agilizá-lo pode libertar obras críticas de meses de espera por um visto. Enfraquecê-lo seria perigoso. O desafio está em ganhar velocidade sem perder escrutínio, porque a lentidão custa caro, mas a ausência de controlo custa ainda mais.

É natural que tudo isto seja lido politicamente de formas opostas. À esquerda, há quem veja nestas propostas uma versão portuguesa de uma agenda de emagrecimento do Estado, um eufemismo para reduzir o Estado social. Entre os defensores do Governo, a mesma reforma surge como o único caminho para salvar esse Estado social, libertando recursos hoje devorados por procedimentos inúteis. A verdade talvez esteja menos nas etiquetas e mais na execução. A mesma medida pode proteger o serviço público ou degradá-lo, conforme seja desenhada, aplicada e acompanhada.

Há, contudo, uma armadilha que Portugal conhece bem. Digitalizar processos irracionais não os torna racionais. Se um formulário em papel pede quinze campos redundantes, a sua passagem para um portal apenas desloca a irritação. Em vez de seis meses numa gaveta, teremos seis milissegundos até ao bloqueio informático. A burocracia à velocidade da luz continua a ser burocracia. Automatizar o caos apenas produz caos automatizado.

A simplificação normativa é o passo zero. Antes de comprar software, é preciso limpar leis, eliminar contradições, revogar portarias obsoletas e perguntar sem piedade que exigências fazem sentido. Portugal tem demasiadas normas que sobreviveram à razão da sua criação. São fósseis administrativos que continuam a produzir efeitos reais, atrasos reais e custos reais. A reforma que não entra nesta arqueologia legal acaba por colocar uma camada digital sobre a poeira antiga.

A história ajuda a explicar a dificuldade. A democracia herdou um aparelho de Estado centralizado, concebido mais para controlar do que para servir. Durante grande parte do século XX, num país marcado por baixos níveis de instrução, o cidadão foi tratado como alguém a tutelar e não como parceiro de uma relação administrativa. Depois de 1974, construímos conquistas notáveis. O Serviço Nacional de Saúde, a escola pública, a modernização fiscal e o Simplex mostram que a Administração portuguesa também é capaz de aprender, inovar e simplificar.

Mas os sucessos convivem com bloqueios persistentes. O referendo falhado da regionalização, em 1998, cristalizou um país demasiado dependente do centro. A periferia continuou muitas vezes longe dos decisores, dos serviços e dos recursos. A administração pública permaneceu presa a uma cultura de hierarquia, autorização e medo do erro. O resultado é um Portugal a duas velocidades, onde a distância ao poder ainda conta demasiado.

O SIADAP é outro símbolo dessa contradição. Criado para avaliar desempenho e premiar mérito, acabou muitas vezes refém de quotas que desmotivam precisamente quem mais trabalha. Um serviço pode ter uma equipa inteira a recuperar atrasos, a prolongar horários e a manter de pé uma repartição em crise. Ainda assim, o sistema obriga a distribuir classificações como se o mérito fosse uma percentagem fixa. Quando o esforço não encontra reconhecimento, a Administração fabrica desânimo.

A tudo isto soma-se a asfixia orçamental. Portugal consagrou direitos sociais exigentes, mas nem sempre gerou riqueza suficiente para os financiar de forma sustentada. Quando a dívida aperta, os governos recorrem a cativações e cortes cegos. Degrada-se o serviço sem o repensar. O Estado fica simultaneamente caro para quem paga e insuficiente para quem dele precisa. Esta é talvez a pior combinação possível.

O Plano de Recuperação e Resiliência tornou tudo mais urgente. Bruxelas impôs calendário, metas e execução. Em agosto de 2026, a torneira fecha. O que não estiver feito e faturado perde-se. A pressão pode ser virtuosa, porque obriga a Administração a mexer. Mas também pode gerar despesa precipitada. O caminho mais fácil é comprar equipamentos, encomendar plataformas e apresentar faturas tecnologicamente vistosas. O mais difícil é reorganizar serviços, formar pessoas, rever leis e garantir que os sistemas sobrevivem quando o dinheiro europeu acabar.

O risco de criar cemitérios tecnológicos é real. Computadores, tablets e aplicações podem aterrar em serviços sem preparação, sem dados fiáveis e sem equipas capazes de os manter. A tecnologia é uma promessa cara quando não existe capacidade interna. O Estado precisa de engenheiros de dados, especialistas em cibersegurança, arquitetos de sistemas e gestores de projeto. Se o mercado privado paga várias vezes mais, a Administração Pública fica dependente de consultoras externas e perde soberania operacional.

Foi também por isso que a exposição de Gonçalo Matias na SEDES foi clara ao identificar resistências. O problema não está apenas na instabilidade política ou na falta de leis habilitantes. Está nas corporações, nas ordens, nos sindicatos e nos interesses instalados que, ao longo do tempo, se tornaram guardiões de procedimentos. Nem sempre resistem por maldade. Muitas vezes resistem por medo de perder relevância, território profissional ou controlo sobre a qualidade. Mas o efeito é o mesmo. A inovação abranda quando ameaça um carimbo exclusivo.

O exemplo da reabilitação física à distância no Hospital de Santa Maria ilustra bem esse choque. A ideia era simples e parecia sensata. Em vez de obrigar doentes, muitos deles idosos ou recém-operados, a deslocações frequentes ao hospital para exercícios repetitivos, o SNS poderia enviar um tablet para casa com movimentos prescritos e acompanhados. O utente ganhava conforto, o hospital libertava capacidade e o sistema reduzia deslocações desnecessárias. A reacção contrária de sectores profissionais mostrou como a tecnologia, quando altera fronteiras de actuação, deixa de ser apenas uma ferramenta e passa a ser uma disputa de poder.

Modernizar o Estado é, por isso, menos parecido com instalar uma aplicação e mais parecido com mudar as agulhas de uma velha linha ferroviária. A locomotiva pode ser nova, mas se todos continuarem a desviá-la para os percursos antigos, a viagem demora o mesmo. E quem sofre não é o organograma. É o cidadão que perde manhãs em salas de espera, o empresário que adia investimento, o doente que repete deslocações, a família que continua a provar o óbvio.

As prioridades para os próximos anos parecem evidentes. Primeiro, limpar a casa legal antes de a encher de sensores. Segundo, atrair e reter talento qualificado na função pública. Terceiro, construir pactos de regime em áreas como a saúde, a justiça e a administração territorial. Sem estabilidade política mínima, cada governo começa de novo, revoga o anterior, anuncia outra sigla e deixa a máquina aos solavancos.

A verdadeira medida do sucesso não será a percentagem de serviços digitalizados nem o volume de gigabytes processados. Será o tempo devolvido às pessoas. O Estado eficiente é aquele que aparece quando deve aparecer e desaparece quando só atrapalha. É o Estado que paga um apoio sem exigir uma romaria documental, que licencia sem humilhar, que fiscaliza sem paralisar, que protege sem infantilizar.

Há neste horizonte uma tentação quase filosófica. O Estado perfeito seria invisível, silencioso, preditivo, capaz de ajustar impostos, activar direitos e antecipar necessidades sem que o cidadão tivesse de bater à porta. Mas uma democracia sem atrito também levanta riscos. Se tudo se torna uma caixa negra tecnológica, quem controla os critérios? Quem explica as decisões? Quem garante que a facilidade não substitui a participação?

A reforma do Estado português não precisa apenas de computadores mais rápidos. Precisa de leis mais simples, serviços mais responsáveis, funcionários valorizados, fiscalização competente e coragem política para enfrentar interesses que aprenderam a viver dentro do labirinto. Se o conseguir, a digitalização será libertadora. Se falhar, apenas dará ao velho caos uma interface mais limpa.

No fim, talvez a prova mais justa seja simples. Num Estado digno desse nome, ninguém deveria ter de escrever às Finanças para explicar que a mãe continua morta no mesmo dia e no mesmo sítio. Quando esse absurdo deixar de ser reconhecível, saberemos que a reforma saiu finalmente dos discursos ministeriais e entrou na vida real dos cidadãos.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

A ilusão do centro



Há pensamentos que não ficam onde foram ditos. Os de Onésimo Teotónio Almeida são assim. Ouvimo-lo e, de algum modo, continuamos a ouvi-lo, como se a sua voz ficasse a ecoar dentro da nossa própria maneira de pensar.

Desta vez explica-nos a identidade, como é que funciona. Mas não a define de forma abstracta, ele conta-a. E ao contá-la, mostra como ela se move.

Onésimo começa onde tudo parece simples. Nasce em São Miguel. E ali, naquele princípio, não há problema nenhum com a identidade, porque não há distância. É-se. Simplesmente é-se. Mas depois acontece aquilo que tem de acontecer. Vai à Terceira e é aí, como ele diz, que percebe que é de São Miguel. Não porque tenha mudado, mas porque alguém lhe mostra isso. Porque os outros veem. E quando os outros veem, nós começamos a ver-nos também.

É assim que começa. É sempre assim que começa.

Depois vai à Madeira. E já não é micaelense. Ou melhor, é, mas isso já não chega. Passa a ser açoriano. E ele próprio diz isso com uma naturalidade que quase engana, como se fosse apenas uma mudança de palavra. Mas não é só uma palavra. É a escala que muda. E quando a escala muda, muda tudo.

Em Lisboa, acontece outra coisa curiosa. Açorianos, madeirenses, tudo junto, são insulares. É assim que lhes chamam. E ele aceita, e eles aceitam, porque de repente faz sentido. Aquilo que antes parecia importante deixa de o ser. Não desaparece, mas recolhe-se. Fica mais fundo.

Depois vem Badajoz. E aqui Onésimo quase pára, como quem sublinha. É ali que sente o que é ser português. Ali, diz ele. Porque já não tem os seus por perto, porque está do outro lado, porque há os espanhóis. E isso basta. Basta para que a palavra ganhe corpo. Português.

Mas não fica por aí. Nunca fica.

Vai a Paris. E em Paris, com os franceses à volta, aproxima-se dos espanhóis. De repente são ibéricos. Assim, simplesmente. Aquilo que em Badajoz separava, em Paris aproxima. E isto, contado assim, quase em tom de conversa, é talvez a parte mais séria de tudo o que Onésimo nos mostra. A identidade não é fixa. Nunca é fixa.

Depois a América. E ele fala dos europeus, dos encontros, do café, dessa necessidade de estar junto. Já não interessa tanto de que país se vem. Interessa que se vem de lá. Daquele lado. A Europa deixa de ser mapa e passa a ser reconhecimento. Uma espécie de entendimento silencioso.

E depois a China. E aqui há qualquer coisa de inesperado. Ele ouve um tango. Um tango argentino, longe de tudo. E sente-o como seu. E percebe-se ocidental. Não porque tenha decidido, mas porque aquilo lhe acontece. Porque há coisas que nos acontecem e que nos dizem quem somos, ou melhor, de onde estamos naquele momento a ser.

E é então que Onésimo diz aquilo que parece uma hipótese, mas não é. Se um dia chegar a Marte, diz ele, vai sentir-se terrestre. Vai sentir que é da Terra. E, dito assim, quase com leveza, está lá tudo.
Está lá tudo o que importa.

Porque, no fundo, o que Onésimo Teotónio Almeida nos vai mostrando, passo a passo, viagem a viagem, é isto. A identidade não está no início. Não é aquilo com que se nasce e que se guarda intacto. A identidade acontece. Acontece quando alguém nos vê, quando mudamos de lugar, quando a distância nos obriga a dizer quem somos.

E mesmo assim, nunca dizemos a mesma coisa.

Hoje somos de uma ilha. Depois de um arquipélago. Depois de um país. Depois de uma península. Depois de um continente. Depois de um lado do mundo.

E um dia, talvez, apenas de um planeta.

E é nesse momento que se percebe, finalmente, aquilo que Onésimo sempre soube dizer sem precisar de o tornar pesado.

O centro nunca esteve onde pensávamos.

O centro é sempre o lugar onde, naquele instante, nos reconhecem.