Tenho a certeza de que os camaradas de Marinha guardam com carinho muitas recordações de cães “navais”. Eu recordo em especial o “Sete”, um patudo semelhante a este, que conheci quando embarquei numa corveta recém-chegada de uma comissão em Cabo Verde e na Guiné. Não faço ideia de como o “Sete” se “alistou”, mas sei que, quando me apresentei a bordo, já era um veterano com muitas horas de navegação, muitas delas a fazer companhia ao pessoal de quarto na Ponte. Apesar de não ser agressivo, quando o navio estava atracado mantinha-se atento junto à prancha e controlava cuidadosamente a entrada de estranhos a bordo. Entre esses, havia um em particular que despertava o seu instinto de cão de guarda, razão pela qual recordo o episódio que passo a contar.
Quando o meu navio entrou no Arsenal do Alfeite para fabricos, ficou atracado a outra corveta que já estava lá há mais de um ano. Os trabalhos prolongaram-se muito para além do previsto inicialmente, apesar do seu chefe de máquinas fazer tudo o que estava ao alcance para encontrar os sobressalentes necessários à conclusão das reparações. Homem robusto e determinado, não hesitava em ir onde fosse preciso para conseguir a peça, a junta ou o componente necessário. Naquela altura, os chefes de máquinas eram responsáveis por entregar ao estaleiro os sobressalentes para os fabricos, e por isso tinham de se esforçar para evitar que os trabalhos se arrastassem indefinidamente. E o meu camarada era especialmente obstinado e eficaz nessa missão.
Por isso, quando o meu navio atracou ao seu, deve ter visto nele uma nova fonte de abastecimento e passou a ser uma visita frequente à procura do que não tinha encontrado noutros paióis. Ora era uma junta tórica, ora um rolamento, ora outra peça qualquer; de tal forma que começou a gerar preocupação entre os encarregados das secções sempre que se aproximava dos seus equipamentos e sobressalentes. E não eram só eles que ficavam desconfortáveis. O “Sete” também passou a mostrar alguma agressividade, até que, numa noite, mostrou-lhe os dentes e quase chegou a vias de facto.
De manhã, ao atravessar o convés do navio do meu camarada, que por acaso estava de serviço, ouvi as queixas sobre o comportamento do “Sete”. Percebendo o sucedido, pedi-lhe que, doravante e sempre que precisasse de ir às casas das máquinas do meu navio, pedisse a alguém da guarnição que o acompanhasse.
Assim passou a ser, até porque o “Sete” não admitia outra alternativa. Mal pressentia a aproximação do meu camarada, punha-se em guarda e só permitia a entrada nos espaços do navio se fosse acompanhado por alguém da guarnição. Para meu descanso e para tranquilidade dos encarregados das secções.
(A propósito da passagem do NRP António Enes ao estado de desarmamento para abate)
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