quarta-feira, 24 de junho de 2026

Quando Portugal e Castela riscaram o globo


Há épocas em que a História parece menos uma sucessão de factos do que um gesto de audácia levado ao limite. E poucos gestos foram tão desmedidos como este. Dois reinos da Península Ibérica sentaram-se à mesa e, com a serenidade de quem divide uma herança, repartiram o mundo. Como se o mar fosse um tapete. Como se os continentes fossem peças de mobiliário. Como se a Terra, vasta e selvagem, coubesse num pergaminho e obedecesse à batuta dos homens.

Portugal e Castela fizeram isso. E, ao fazê-lo, não repartiram apenas territórios e gentes. Repartiram o futuro.

Tudo começou, como tantas grandes histórias, com uma guerra e uma sucessão contestada. Castela vivia em sobressalto, o trono dividido entre facções, o poder à procura de um rosto legítimo. De um lado, Isabel. Do outro, Joana, a Beltraneja. E, no meio, Portugal, que não assistia de longe, mas entrava de corpo inteiro na disputa. Em terra, Castela acabaria por impor a sua vontade. No mar, porém, o mundo pertencia a Portugal. E essa diferença mudou tudo.

Porque os oceanos não eram, para os portugueses, um vazio azul. Eram rotas, risco, método, ciência, instinto, cálculo. Eram a verdadeira sala do poder. E enquanto Castela ganhava batalhas em solo firme, Portugal dominava as águas com uma superioridade técnica que hoje nos parece quase fabulosa. A batalha da Guiné, com a destruição de uma frota castelhana carregada de ouro africano, é uma dessas cenas que parecem saídas de uma epopeia antiga. A riqueza do reino de Castela afundava-se no Atlântico, a provar que o império não se fazia apenas com espadas, mas com cartas náuticas, velas, correntes e ventos.

Foi esse empate desigual que levou ao Tratado de Alcáçovas-Toledo, em 1479. Um tratado que desenhou, pela primeira vez, uma fronteira europeia para lá da Europa. Não uma muralha, não uma fortaleza, mas uma linha imaginária traçada a sul das Canárias. O gesto tinha algo de simples e algo de vertiginoso. Castela ficava com as ilhas. Portugal recebia o sul, a costa africana, o Atlântico profundo. Era uma solução elegante e, ao mesmo tempo, frágil. Servia enquanto a navegação seguia a costa, enquanto o mundo ainda parecia obedecer à lógica da proximidade. Mas o mar, como sempre, tinha mais imaginação do que os tratados.

Quando Colombo atravessou o Atlântico e chegou a terras que julgou serem as Índias, a velha linha começou a ranger. Se tudo o que estivesse a sul das Canárias pertencia a Portugal, então aquelas novas terras poderiam também caber nessa regra. Castela percebeu o perigo e recorreu ao árbitro supremo da época, o Papa. Alexandre VI respondeu com novas bulas e impôs um novo desenho do mundo, agora vertical, como se a Terra pudesse ser cortada de cima a baixo por uma régua divina. A fronteira recuava para oeste. E Portugal, que não tinha chegado ao fim da história, estava longe de aceitar aquele recuo.

Aqui entra uma das grandes ironias do drama. Os mesmos homens que repartiam o globo não conseguiam sequer medi-lo com rigor. A linha existia no papel, mas no oceano era quase um fantasma. E Portugal sabia-o melhor do que ninguém. Sabia-o porque navegava. Sabia-o porque conhecia os ventos. Sabia-o porque a Volta do Mar tornava impossível aceitar uma fronteira demasiado próxima. As naus portuguesas precisavam de fazer grandes arcos pelo Atlântico para regressar a casa. Colocar a linha das 100 léguas tão perto dos arquipélagos era, na prática, estrangular a própria navegação portuguesa.

D. João II percebeu isso com a lucidez de quem lê o mar como outros leem um mapa. E forçou um novo acordo. Assim nasceu Tordesilhas, em 1494. A linha foi empurrada para 370 léguas a oeste de Cabo Verde. O meridiano passava agora a ser mais generoso para Portugal, e esse excesso de generosidade acabaria por ter consequências de escala continental. Porque, num mundo onde a longitude era ainda incerta, uma linha desenhada a régua era também uma linha feita de suposição, de confiança e de pura ficção útil.

Foi nessa zona cinzenta que o Brasil ganhou o seu destino.

Quando Pedro Álvares Cabral chegou à costa brasileira, em 1500, a posse do território já estava, em certa medida, preparada antes mesmo de o solo ter sido pisado. Aquele pedaço do continente sul-americano caía no lado português da fronteira. E o que podia parecer um acidente de cartografia transformou-se em fundamento imperial. Vieram depois as capitanias hereditárias, o pau-brasil, a cana-de-açúcar, a instalação de um sistema colonial que soube usar a linha de Tordesilhas como trampolim e não como limite.

Mas a História não respeita facilmente as linhas que os homens desenham. Portugal cresceu para além do previsto, avançou pelo interior, espalhou-se por rios, planícies e florestas, e acabou por tornar obsoleta a geometria inicial. A União Ibérica, entre 1580 e 1640, ajudou ainda mais a dissolver fronteiras. Com o mesmo monarca nos dois tronos, a linha de divisão perdeu força, e bandeirantes, missionários e aventureiros foram empurrando o mapa para lá da sua moldura original. Quando o Tratado de Madrid, em 1750, veio finalmente reconhecer a posse efectiva, a velha fronteira já era mais memória do que realidade.

Mas havia um problema ainda maior, e esse problema era o planeta em si. Se Tordesilhas cortava o mundo num meridiano, então do outro lado da esfera havia de existir o seu reflexo. E foi assim que as Molucas, ilhas de especiarias e de riqueza quase mitológica, se tornaram o centro de uma disputa feroz. O cravo e a noz-moscada valiam tanto que pareciam não pertencer ao mundo vulgar do comércio, mas a uma economia de luxo, de febre e de império. Quem controlasse aquelas ilhas controlava não apenas um negócio, mas uma máquina de poder.

A junta de Badajoz e Elvas tentou resolver o impasse, mas o problema era mais profundo do que a diplomacia. Sem longitude precisa, sem relógios fiáveis, sem forma de medir com exactidão onde terminava um hemisfério e começava o outro, cada mapa era uma hipótese e cada hipótese um campo de batalha. Portugal e Espanha discutiam como se discutem fronteiras invisíveis, com convicção absoluta e base incerta.

A solução voltou a ser o dinheiro. Em 1529, com o Tratado de Saragoça, Portugal pagou para garantir o Pacífico oriental e fechar a sua esfera de influência no comércio asiático. É difícil imaginar hoje a escala dessa operação sem sentir um ligeiro espanto. Não se comprava apenas terra. Comprava-se amplitude, distância, horizonte. Comprava-se uma faixa do oceano como quem compra silêncio. Portugal pagava ouro para adquirir uma certeza.

Mas a certeza, quando se estende demasiado, provoca sempre reação. Franceses, ingleses e holandeses olharam para o mapa e perceberam que tinham sido excluídos de um mundo repartido sem o seu consentimento. O mar, que durante algum tempo fora proclamado clauso, fechado, domínio de poucos, começou a abrir-se pela força. A pirataria, o corso, os ataques aos galeões espanhóis e às frotas portuguesas não foram apenas actos de saque. Foram também formas de contestação política. E depois veio a doutrina. Hugo Grotius, com o seu Mare Liberum, deu linguagem ao que os canhões já tinham começado a dizer.

Era uma revolução com tinta e pólvora. Os oceanos, dizia-se agora, eram comuns à humanidade. Nenhum rei podia reclamar o vento. Nenhuma coroa podia fechar a água. Por trás da filosofia, claro, estavam também os interesses comerciais, a violência estatal, as companhias armadas, a VOC, os novos impérios do Norte. O mundo já não se repartia em silêncio. Disputava-se. Roubava-se. Contestava-se. E os velhos tratados ibéricos, outrora tão solenes, começaram a parecer pergaminhos de uma idade ingénua.

No fundo, tudo isto revela uma coisa simples e inquietante. Os homens têm uma enorme tendência para desenhar linhas sobre espaços que não lhes pertencem, sobre populações soberanas nos seus territórios. Primeiro fazem-no em nome da fé. Depois em nome do rei. Mais tarde em nome do comércio, do direito ou da civilização. Mas o gesto é o mesmo. Traçar uma fronteira sobre o desconhecido é sempre uma tentativa de domar aquilo que resiste a ser domado.

É por isso que esta história não pertence apenas ao passado. Quando hoje se fala de Lua, de Marte, de recursos espaciais, de soberania extraterrestre, ouve-se ao longe o eco daqueles velhos debates. Quem vai dividir o que ainda não existe? Quem vai escrever o tratado antes de chegar o primeiro colono? Quem vai repetir, com nova linguagem e novas estrelas, o velho sonho de repartir o mundo à mesa?

Talvez a História não seja mais do que isso. A longa repetição da mesma ambição, com mapas diferentes.

terça-feira, 23 de junho de 2026

A matemática da guerra na Ucrânia

 


Uma análise divulgada recentemente pelo Dr. Warwick Powell, professor adjunto na Universidade de Queensland, no seu Substack, cruza econometria, cadeias de abastecimento e análise militar para observar a guerra na Ucrânia quase como se fosse uma equação em movimento. A sua abordagem usa um modelo de Lanchester adaptado, onde tropas, carros de combate e munições são convertidos numa métrica comum, as chamadas unidades letais, para medir a evolução do poder de combate.

A conclusão central é dura e simples de enunciar: a guerra tornou-se um conflito de atrito em que vence quem repõe melhor as perdas e o modelo sugere que a superioridade russa na reposição de homens e material está a empurrar a Ucrânia para uma degradação progressiva e difícil de travar. Powell identifica ainda um ponto de ruptura, quando a densidade da força desce abaixo de 73 por cento do pico, a partir do qual as perdas deixam de ser lineares e passam a crescer de forma exponencial, num colapso operacional não linear apoiado na Lei Quadrática de Lanchester. As suas projeções mais recentes colocam esse limiar entre julho e setembro de 2026, apontando para uma possível exaustão funcional das forças ucranianas nos meses seguintes, embora o próprio autor reconheça que variáveis políticas e tecnológicas podem alterar a cadência do processo.

Em 2022, muita gente também acreditou que a guerra na Ucrânia seria decidida em poucos dias. Os modelos eram sofisticados, os computadores eram poderosos e os especialistas falavam com a segurança de quem acredita ter a resposta certa. Mas a guerra, como quase sempre acontece, tratou de desmentir a elegância das previsões. O problema não estava apenas nos cálculos, estava naquilo que os cálculos não conseguiam ver. A corrupção, a improvisação, o medo, a resistência humana e a capacidade de adaptação alteraram por completo a equação.

A guerra na Ucrânia tornou-se, acima de tudo, uma guerra de desgaste. A tecnologia moderna não trouxe apenas mais poder de fogo; trouxe também visibilidade total do campo de batalha. Drones, satélites e sensores transformaram a frente de combate num espaço quase transparente. Já não é fácil concentrar forças sem ser detectado. Já não é simples avançar em massa sem ser imediatamente castigado. A surpresa, que durante séculos foi uma das armas decisivas da guerra, ficou muito mais difícil de obter. E quando a surpresa morre, a manobra perde espaço. O conflito deixa de ser uma corrida rápida e passa a ser uma luta lenta, brutal e persistente para destruir a capacidade do inimigo mais depressa do que ele consegue reconstruir.

É aqui que a matemática entrou de novo em cena pela mão de Powell. As leis de Lanchester ajudam a explicar esta lógica. Numa guerra moderna, em que armas de longo alcance e fogo concentrado contam mais do que o simples número de homens, a vantagem quantitativa pode multiplicar-se de forma implacável. Não basta ter mais forças; importa também saber como as empregar. A força que consegue concentrar melhor o seu fogo, a sua artilharia ou os seus meios de ataque tende a impor perdas desproporcionais ao adversário. Em teoria, isto parece frio e limpo. Na prática, porém, a guerra raramente respeita a pureza dos modelos.

Há uma tensão entre a fórmula e a realidade. De um lado, há a tentativa de transformar soldados, tanques, projéteis e drones em unidades comparáveis. Do outro, há a vida concreta, com todas as suas imperfeições. Um exército pode parecer sólido numa folha de cálculo e estar, no terreno, corroído por problemas invisíveis. Pode ter carros de combate, mas faltar manutenção. Pode ter munições, mas carecer de logística. Pode ter oficiais, mas sofrer de corrupção. E pode ter planos brilhantes, mas ser traído por pneus baratos, comunicações frágeis ou decisões absurdas.

A guerra dos drones levou esta lógica a um novo patamar. O que antes era um conflito de grandes massas passou a ser também uma guerra de saturação. Um sistema de defesa caro pode ser levado ao limite por enxames de drones relativamente baratos. Aqui, o problema não é apenas militar; é económico. Se um míssil custa muito mais do que o alvo que destrói, o combate deixa de ser apenas uma questão de fogo e passa a ser uma questão de sustentabilidade. Quem gasta mais depressa do que o outro consegue repor acaba por ficar sem fôlego. E numa guerra longa, o fôlego é quase tudo.

Há, contudo, uma lição ainda maior. A guerra não é só feita de metal e números, mas também de sistemas humanos. Muitos modelos falham porque ignoram o caos da corrupção, o efeito da moral, a capacidade de adaptação e a pressão de factores externos como a ajuda internacional ou as mudanças na economia mundial. A Rússia, por exemplo, não colapsou como alguns previam. O impacto das sanções foi real, mas foi amortecido por mecanismos de adaptação, pelo choque dos preços da energia, por redes comerciais alternativas e pela transformação da economia em economia de guerra. Ou seja, os números contam, mas não contam tudo.

No fundo, a grande pergunta que fica no ar é simples e perturbadora: até onde consegue a matemática explicar a guerra? Pode medir perdas, taxas de desgaste, custos e probabilidades. Pode até antecipar pontos de ruptura. Mas não consegue prever inteiramente a teimosia de um povo, a invenção de uma resistência, a capacidade de uma sociedade se reorganizar sob pressão ou a mutação de um conflito convencional em algo novo e imprevisível. A guerra na Ucrânia mostra precisamente que a matemática é indispensável, mas não é soberana.

Talvez seja essa a verdadeira lição. A guerra moderna é uma luta entre sistemas, mas também entre limites. Os modelos ajudam a ver o que os olhos não alcançam. Ainda assim, basta um detalhe humano para desviar uma previsão inteira. E é nessa fricção entre o calculado e a realidade, entre o planeamento e o improviso, que a História continua a ser escrita. A matemática pode dizer muito sobre a guerra. Não pode, porém, dizer tudo sobre o homem.

domingo, 21 de junho de 2026

Ainda o Infante de Zurara e a lição do mito

 


Lembro-me da minha escola primária em Quelimane como um lugar onde o silêncio tinha peso e onde a autoridade parecia entranhada nas paredes, no cheiro do giz, na madeira das carteiras e na forma como o professor se movia entre nós, como se cada passo ajudasse a manter o mundo seu devido lugar. O crucifixo estava sempre ali, os retratos oficiais alinhavam o poder no mesmo plano da fé, e as caravelas, os mapas e os heróis dos Descobrimentos formavam uma paisagem moral em que tudo parecia obedecer a uma ordem superior. Uma ordem que também se sentia nos rituais, nos desfiles, nos cânticos, nas cerimónias da Mocidade Portuguesa.

A minha escola primária em Quelimane era uma escola onde aprender não era apenas compreender e assimilar lições; era, sobretudo, aprender a ver Portugal com os olhos do regime. E, por trás dessa visão, havia uma mensagem muito clara para mim e para os meus colegas africanos, muitos deles crianças pobres de um país pobre: a de que a obediência era virtude, a resignação era dignidade e o sacrifício era nobreza. E de entre todas as imagens que nos impuseram, nenhuma se gravou com mais força do que a do Infante D. Henrique, apresentado como uma espécie de farol moral, uma figura quase sagrada que pairava sobre os mares, sobre a História e sobre a própria ideia de pátria.

Naquelas aulas, o Infante não surgia como príncipe medieval feito de interesses, cálculo político e ambição. Surgia como o homem da visão pura, o senhor de Sagres, o asceta voltado para o oceano, com o rosto severo e o olhar perdido no horizonte, como se pudesse ver já, no escuro do Atlântico, o destino inteiro de Portugal. A imagem era poderosa porque era simples e porque parecia intocável. Tudo nele era apresentado como grandeza, sacrifício e missão. E nós, crianças, recebíamos essa figura como quem recebe uma verdade antiga, sem suspeitar que estávamos perante uma construção cuidada ao detalhe para servir o regime e a sua maneira de contar a história.

As memórias escolares como esta não se apagam porque não pertencem apenas à infância. Pertencem a um país e ao modo como esse país escolheu narrar-se a si próprio. Para quem frequentou a escola primária portuguesa na década de 1950, o Infante D. Henrique e os Descobrimentos não eram ensinados como matéria de análise, mas como motivo de exaltação. Não se tratava de compreender o passado. Tratava-se de o reverenciar. A História aparecia então depurada de conflitos, amputada das suas zonas sombrias, convertida em catecismo patriótico.

O Estado Novo compreendeu, como poucos regimes, que a escola é um dos lugares onde se fabrica a continuidade política. O livro único, a repetição das lições, a solenidade dos símbolos, a disciplina dos gestos e das palavras, tudo concorria para formar não espíritos críticos, mas consciências moldadas pela obediência. As crianças aprendiam cedo que a pátria era uma entidade moral superior, anterior à dúvida, e que certos nomes, entre os quais o Infante D. Henrique e Salazar, deviam ser pronunciados com uma espécie de respeito quase litúrgico, como se ambos pertencessem à mesma ordem de veneração cívica e moral.

O Infante D. Henrique era apresentado como o homem providencial, o pioneiro visionário, o arquiteto de uma missão histórica cujo sentido parecia prolongar-se naturalmente até ao século XX. Salazar surgia como o estadista austero, silencioso e inflexível, o guardião da ordem, o homem do trabalho discreto e da autoridade serena, aquele que, do alto da sua contenção quase monástica, parecia encarnar a continuação moderna dessa antiga vocação nacional. Em ambos os casos, não se tratava de descrever pessoas reais, mas de elevá-las à categoria de figuras exemplares, destinadas a conferir ao regime uma aparência de continuidade histórica e de legitimidade moral.

Essa construção não nasceu do nada. O salazarismo soube ir buscar à crónica de Zurara uma matriz narrativa útil, a da expansão como desígnio, a da cruzada como justificação, a do príncipe como figura eleita. A crónica já oferecia uma imagem moralizada do poder imperial régio, em que a conquista se confundia com a providência e a violência se dissolvia numa linguagem de elevação espiritual. O Estado Novo limitou-se, em larga medida, a radicalizar e a modernizar essa operação. Enquanto Zurara escrevia ao serviço da memória do poder, Salazar adaptou o mesmo enredo às necessidades do nacionalismo imperial do século XX. O resultado foi uma história sem asperezas, em que a grandeza se impunha sobre a realidade concreta do comércio, da guerra, da captura de pessoas e da exploração colonial. 

O que me impressiona, olhando hoje para trás, é a forma como a escola fazia dessa imagem uma presença diária, quase doméstica, mas também solene. As paredes falavam e não havia neutralidade nisso. A sala de aula era um pequeno teatro de fidelidades, um lugar onde a pátria, a religião e a autoridade se juntavam para nos ensinar que Portugal fora grande por destino e não por conflito, violência ou domínio. É aqui que a pedagogia do regime revela a sua verdadeira natureza. O objetivo não era apenas ensinar o passado. Era moldar o presente. Ao ensinar o Infante como símbolo de desinteresse, fé e clarividência, o regime ensinava também a aceitar uma certa ideia de Portugal, disciplinado, hierárquico, missionário, obediente à sua própria lenda. A violência da expansão foi minimizada, o tráfico negreiro foi silenciado, as motivações económicas foram obscurecidas, e o império foi apresentado às crianças como herança moral, não como estrutura de dominação.

O Infante D. Henrique era o centro dessa encenação. Nos manuais, ele aparecia isolado em Sagres, cercado de cartas náuticas, astrolábios e pergaminhos, como se tivesse inventado o futuro com a calma de um sábio e a pureza de um santo. As caravelas, ao fundo, avançavam sobre um mar aberto e misterioso, quase como se fossem enviadas por uma vontade divina. Os Descobrimentos eram apresentados como uma epopeia luminosa, uma marcha heroica rumo ao desconhecido, e não como aquilo que também foram, uma empresa de conquista, de comércio, de exploração e de violência. Na escola do Estado Novo, o mar era promessa; a dor, o saque, o cativeiro e a escravatura ficavam fora do quadro. Foi assim que nos ensinaram a admirar antes de compreender. O Livro Único repetia a mesma história com a firmeza de uma reza, e a repetição dava-lhe a aparência de verdade natural. A infância é um tempo em que se acredita facilmente no que é dito com autoridade, e o regime sabia aproveitar essa confiança. O Infante não era apenas uma personagem histórica. Era um modelo de carácter. Um homem sem vaidade, sem luxo, sem hesitação, consagrado à fé e à missão de Portugal

Os Descobrimentos eram contados como o grande nascimento de Portugal para o mundo. Falava-se de Ceuta, de Sagres, das viagens pela costa africana, da abertura dos mares, da coragem dos navegadores, da cruz nas velas e da expansão da fé. Em Moçambique, tal como na metrópole, falava-se do génio português como se fosse uma espécie de claridade natural. Mas não se falava do que vinha agarrado a essa claridade. Não se falava dos homens arrancados às suas terras, das rotas do tráfico, das feitorias, da violência sobre populações inteiras, da economia do saque e da dominação. E também se esquecia, quase por completo, o estudo paciente, a competência náutica, o conhecimento das correntes e dos ventos, a aprendizagem feita à força de erro e experiência, bem como o sacrifício dos homens que de facto embarcavam para atravessar oceanos sem garantia de regresso. A escola queria que víssemos a epopeia como milagre, quando ela foi também trabalho, técnica, sofrimento e risco humano. O que o regime queria era uma memória limpa, heroica, quase litúrgica, porque uma história sem sombra é muito mais fácil de usar como instrumento político. Assim se fazia política através da memória. Assim se convertia a História em instrumento de legitimação.

Também por isso a famosa escola de Sagres ganhou, naquele ensino, uma importância quase mítica. Era apresentada como se ali tivesse existido uma verdadeira universidade náutica, um lugar onde sábios, cartógrafos e astrónomos se reuniam sob a direção do Infante para desenhar o futuro do mundo. Era uma imagem fascinante, sem dúvida, mas profundamente útil ao regime. Dava ao passado português uma aura de ciência, método e superioridade intelectual e, ao mesmo tempo, permitia sugerir que o Estado Novo era o herdeiro dessa mesma ordem, dessa mesma disciplina, desse mesmo comando centralizado. Se o Infante teria conduzido os Descobrimentos com visão e rigor, Salazar seria o continuador natural dessa missão, agora no século XX.

Na prática, tudo isto servia um propósito muito concreto. Portugal precisava, naquele tempo, de justificar o império e de resistir às pressões internacionais pela descolonização. Por isso, o regime reinventava a história para fazer dela um argumento político. O Infante tornava-se o pai fundador de uma nação pluricontinental, o iniciador de uma missão civilizadora que chegava até Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde, São Tomé e Timor. A mensagem era clara e insistente. Portugal não era um pequeno país europeu, mas uma nação maior, espalhada pelo mundo, una e indivisível. Essa ideia entrava na escola como doutrina, com naturalidade aparente e autoridade absoluta.

As comemorações de 1960 levaram essa operação ao auge. O Padrão dos Descobrimentos, em Belém, apareceu como monumento de pedra e de propaganda, com o Infante na proa, a comandar simbolicamente a marcha da nação sobre o mar. Tudo aquilo tinha uma força visual enorme. Era impossível não sentir o peso da imagem. Mas essa solenidade escondia o que não se queria ver. Escondia a violência das conquistas, o tráfico de escravizados, a exploração económica, a imposição colonial. Escondia também o modo como a memória tinha sido moldada para fazer da expansão portuguesa uma história de benevolência e fraternidade, quando na realidade havia nela sangue, dominação e desigualdade.

A escola era assim um prolongamento da sala de aula para o espaço público. O aluno não era só aluno. Era um futuro soldado da memória oficial. Aprendia-se a marchar, a cantar, a saudar, a aceitar. E, sem darmos por isso, preparava-se toda uma geração para ver a Guerra Colonial como continuação natural dos Descobrimentos, como se a aventura marítima de quinhentos anos antes tivesse de prolongar-se nas selvas africanas.

Hoje, quando vejo os saudosistas do Estado Novo e de Salazar recuperarem o Infante D. Henrique e os Descobrimentos como bandeira, reconheço logo o velho mecanismo. Tiram-lhe as sombras, limpam-lhe a imagem, transformam-no outra vez em herói sem mácula e usam-no para atacar a crítica histórica, o multiculturalismo, a imigração e tudo o que desconfiam que enfraqueça a sua ideia fechada de país. Mudou a linguagem, mudaram os meios, mudaram os inimigos eleitos, mas a operação continua a ser a mesma. É sempre a tentativa de converter o passado num escudo para o presente, e a História, nessa versão, deixa de ser conhecimento para passar a ser arma.

Talvez seja por isso que esta memória me pesa tanto. Porque não se trata apenas de recordar uma escola antiga. Trata-se de rever uma máquina inteira de formação de consciências, feita de imagens sugestivas, de silêncios bem calculados e de uma glória cuidadosamente encenada. E no centro dessa máquina estava o Infante D. Henrique, rodeado dos Descobrimentos como se o mar tivesse sido aberto apenas pela vontade de um homem e não também pelo sofrimento de tantos outros. A minha geração foi ensinada assim, entre a fé, a pátria e o império, e só muito mais tarde percebeu que, por trás daquela grandeza, havia um país a ensinar os seus filhos a venerar o espelho e a não olhar para o que ele escondia.

A História, quando é reduzida a bandeira, torna-se pobre. E uma nação que só se reconhece nas suas epopeias acaba por perder contacto com a verdade do seu percurso. Portugal não precisa de negar o Infante para o compreender. Precisa de o situar. Não precisa de destruir a memória dos Descobrimentos. Precisa de a libertar da função catequética que o Estado Novo lhe impôs. Nenhum povo amadurece enquanto continuar a confundir grandeza com infalibilidade. A maturidade histórica começa quando se aceita que o passado é feito de feitos notáveis e de sombras indeléveis, de ambição e de violência, de génio e de cálculo, de cultura e de dominação.

É precisamente por isso que importa desconfiar das nostalgias políticas que hoje se alimentam de velhos símbolos. Não há inocência no uso seletivo da memória. Quando Salazar é recuperado como modelo e o Infante e os Descobrimentos como estandarte, não estamos perante um simples exercício de evocação histórica. Estamos perante uma tentativa de reabilitar uma certa gramática do poder. E essa gramática assenta sempre na mesma operação. Transformar a complexidade em pureza, a história em lenda, a cidadania em disciplina.

Hoje, o nosso dever cívico é olhar o passado sem o adornar, sem o falsificar e sem o domesticar. Só assim a História deixa de ser um espelho de conveniências e passa a ser aquilo que deve ser, um instrumento de conhecimento e, por isso mesmo, uma forma de liberdade.

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Quando o país muda depressa demais

 


O mapa político português mudou depressa demais para que muitos tenham querido ver a extensão da transformação. Durante anos, o país habituou-se a uma paisagem relativamente estável, em que os grandes partidos se sucediam no governo com a regularidade de uma maré antiga e previsível. PS e PSD alternavam no poder, a esquerda mantinha bastiões sólidos e o voto de protesto tinha expressão limitada. Essa ordem, porém, começou a desfazer-se quando os fluxos migratórios e a consequente pressão demográfica, a crise da habitação e a fragilidade dos serviços públicos se encontraram no mesmo território e no mesmo tempo. O resultado foi uma perturbação silenciosa, mas profunda, que alterou o comportamento eleitoral, enfraqueceu as velhas lealdades e abriu espaço a novas formas de protesto.

Nada disto aconteceu por acaso. A imigração não se distribuiu de forma homogénea. Concentrou-se sobretudo onde a economia mais a exigia, nos campos intensivos do Alentejo, no turismo do Algarve, na construção e nos serviços das áreas metropolitanas e periurbanas. Em teoria, esse movimento respondia a necessidades produtivas. Na prática, produziu efeitos muito mais vastos. Em certos concelhos, a chegada rápida de milhares de pessoas coincidiu com a escassez de habitação, a sobrecarga dos centros de saúde, a pressão sobre as escolas e a degradação da sensação de segurança e de pertença. O país real, aquele que se vive no quotidiano e não nas estatísticas, sentiu a mudança antes de a política a saber nomear.

Foi nesse desfasamento que a esquerda começou a perder o seu antigo lugar. O PCP viu esvair-se a base operária que durante décadas lhe servira de chão histórico. A envelhecer a sua militância, a rarear a densidade sindical, a desaparecerem os laços comunitários que sustentavam a sua influência, o partido deixou de falar com a mesma autoridade para os territórios onde antes era quase uma extensão da paisagem social. A chegada de mão de obra imigrante, frequentemente mais precária e sem direitos de participação política, não substituiu essa base, antes a diluiu. O mundo do trabalho mudou, mas o PCP permaneceu preso a uma gramática que já não alcançava plenamente a ansiedade de quem ficou para trás.

O Bloco de Esquerda enfrentou outro tipo de erosão, menos ligada à memória de classe e mais ao desalinhamento com a experiência concreta das populações locais. O seu discurso, fiel aos direitos humanos, ao acolhimento e à crítica da xenofobia, manteve coerência ideológica. Ainda assim, essa coerência tornou-se insuficiente perante a angústia material de muitos eleitores que viam o preço das casas subir, os serviços rarear e a concorrência pelos recursos básicos intensificar-se. Quando a vida quotidiana se torna mais dura, a linguagem da dignidade universal pode soar nobre, mas nem sempre consola. E a política, quando perde a capacidade de consolar, começa a perder também a capacidade de representar.

É nesse vazio que o Chega encontrou o seu terreno fértil. Não se limitou a explorar o ressentimento. Soube traduzi-lo em linguagem política com eficácia rara. De um lado, apropriou-se da ideia de que o Estado favorece quem chega em detrimento de quem cá vive e trabalha há muito. Do outro, transformou a alteração do perfil social de certos territórios numa narrativa de perda, ameaça e desordem. A sua força não reside apenas na denúncia da imigração, mas na maneira como entrelaça insegurança económica, medo cultural e sensação de abandono numa mesma proposta política.
A sua ascensão revela menos uma súbita conversão do país ao radicalismo e mais a falência de mediação das instituições tradicionais. Quando os partidos que historicamente representavam o trabalho deixam de oferecer respostas credíveis à precariedade, à habitação e à fragmentação social, o espaço que abandonam acaba ocupado por quem fala mais alto e promete soluções simples. É um mecanismo antigo, quase sempre perigoso, porque converte frustração em identidade política e dor social em arma eleitoral.

Importa, no entanto, não simplificar o fenómeno. A questão não se reduz à presença de imigração, mas à incapacidade do Estado para a enquadrar, distribuindo recursos, prevenindo assimetrias e impedindo que a mudança se faça por compressão em vez de se fazer por integração. O problema não é a circulação de pessoas em si mesma. O problema é a aceleração sem planeamento, a concentração sem resposta e o abandono das comunidades que sentem a transformação como imposição e não como escolha.

Se a esquerda quiser voltar a ser uma força de maioria, terá de reaprender a falar do país concreto. Terá de recuperar uma linguagem que una justiça social, regulação séria e atenção às condições materiais da vida quotidiana. Não basta proclamar princípios correctos se, na prática, eles chegam tarde ou não chegam a quem mais precisa. A política, no fim de contas, vive menos de abstrações do que de confiança. E a confiança só renasce quando as pessoas sentem que o seu medo foi ouvido antes de ser explorado por outros.

Portugal está numa fase em que o conflito entre identidade, recursos e representação passou a definir a sua paisagem política. A eleição já não é apenas um espelho de ideologias. É também um indicador das tensões acumuladas nas periferias, nos concelhos sobrecarregados e nas zonas onde o Estado aparece mais como promessa do que como presença. Quem quiser compreender o futuro terá de partir daí. E quem quiser governá-lo terá de provar, primeiro, que ainda sabe olhar para o país sem o reduzir a números, slogans ou medos reciclados.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Como Zurara inventou* o Infante D. Henrique




Há obras que não se limitam a narrar a História; moldam-na, corrigem-na, adornam-na e, por vezes, reinventam-na por inteiro. A crónica de Gomes Eanes de Zurara sobre os feitos da Guiné pertence a essa espécie rara e inquietante de textos que não servem apenas para recordar o passado, mas para o ordenar moralmente, justificá-lo e, no limite, torná-lo aceitável. Lida hoje, com a distância crítica que os séculos permitem, essa obra surge menos como um espelho fiel do século XV do que como um artefacto de poder, construído com a sofisticação própria de quem escreve a partir do centro da corte e não à margem dela.

Zurara não foi um observador independente, nem um cronista isolado num mosteiro ou numa torre de arquivo. Foi um homem da casa régia, criado da esfera mais íntima do poder, educado sob a proteção da dinastia de Avis e promovido ao lugar de cronista-mor e guarda-mor da Torre do Tombo. Essa proximidade ao trono não é um dado lateral; é a condição de possibilidade da sua escrita. O que ele regista, o que omite e o modo como ordena os acontecimentos responde, antes de mais, a uma lógica de serviço. A pena de Zurara não descreve apenas o mundo, participa activamente na sua legitimação.

É por isso que a Crónica dos Feitos da Guiné deve ser lida como uma operação literária e política de grande alcance. O seu destinatário não é o leitor neutro, mas a memória régia. O seu protagonista não é apenas o Infante D. Henrique histórico, com as contradições do seu tempo, mas um D. Henrique depurado, elevado e quase santificado. A opção hagiográfica é decisiva. Zurara escreve o Infante como se escrevesse a vida de um santo, e não a biografia de um príncipe envolvido nas engrenagens militares, comerciais e religiosas da expansão portuguesa. A consequência é clara. O que Zurara oferece ao leitor não é tanto uma narrativa de factos, mas uma arquitectura de virtudes.

Essa arquitectura, porém, tem fundações muito mais duras do que as que a superfície deixa ver. Por trás da aura de cruzada, de missão e de ciência, estão as primeiras expedições à costa ocidental africana, cuja realidade material foi, em larga medida, a do corso, do saque e da captura violenta de seres humanos. Não se trata de uma nota marginal, mas da matéria central que o discurso procura transfigurar. A linguagem torna-se, aqui, instrumento de transmutação moral. Ao chamar “mouros” a populações diversas, muitas delas já longe do enquadramento geográfico e cultural do Norte de África, Zurara desloca para sul o imaginário da Reconquista e reinscreve essas gentes no espaço simbólico do inimigo tradicional. A palavra não descreve apenas; acusa, aproxima, simplifica e condena.

É neste ponto que a crónica revela o seu verdadeiro objectivo ideológico. O que era violência aparece como guerra justa; o que era rapto surge como empresa ordenada; o que era lucro converte-se em providência. A expedição de 1444, organizada a partir de Lagos e financiada por mercadores privados, mostra bem essa fusão entre capital e violência. Já não estamos perante uma empresa exclusivamente régia, mas perante uma engrenagem onde o risco marítimo, o investimento comercial e a expectativa de retorno se articulam com a captura de corpos. A conquista torna-se negócio; o negócio precisa de narrativa; e a narrativa, em Zurara, fornece-lhe uma cobertura moral que o protege da sua própria nudez.

Nenhum episódio exprime isso com tanta crueldade como o leilão de Lagos. Ali, a História abandona qualquer máscara decorativa e mostra a sua substância mais brutal. Famílias separadas, mães arrancadas aos filhos, corpos divididos em lotes, vidas submetidas à lógica da partilha mercantil. O próprio Infante, presente no local, observa o processo e reclama o seu quinto, convertendo pessoas em parcela de um sistema de distribuição de poder. Há nessa cena uma obscenidade estrutural que não depende apenas do acto em si, mas do modo como ele é incorporado numa ordem social e política que o torna legível. É precisamente isso que Zurara faz; torna o intolerável narrável.

A parte mais desconcertante da sua escrita talvez esteja na forma como tenta resolver a tensão moral que a própria descrição produz. O cronista admite a compaixão, reconhece o sofrimento, deixa entrever lágrimas — mas logo a seguir transforma a escravização num preço necessário da salvação eterna. O sofrimento temporal dos cativos é apresentado como uma espécie de imposto espiritual, uma mediação dolorosa, mas benéfica para conduzir almas infiéis ao baptismo e, por essa via, à redenção. A operação é intelectualmente fascinante e eticamente devastadora. O mal não é negado; é reinterpretado. E, ao ser reinterpretado, ganha uma forma de legitimidade que o torna historicamente eficaz.

É também por isso que a crónica continua a suscitar debate entre historiadores. Há quem veja nela um dos marcos fundadores de um racismo paternalista, enquanto outros sublinham o seu enraizamento num horizonte estritamente religioso, ainda distante das categorias biológicas modernas. Mas talvez a força perturbadora do texto esteja precisamente em resistir a uma classificação simples. Zurara escreve num mundo em que fé, guerra, hierarquia e diferença se entrelaçam de forma quase inseparável. E, nesse mundo, a linguagem do universal cristão pode servir simultaneamente a conversão, a dominação e o lucro.

A posteridade da obra reforça essa ambivalência. O manuscrito desapareceu dos circuitos visíveis durante séculos, retido na sombra dos arquivos e da política de segredo que rodeava a expansão portuguesa. Quando ressurgiu no século XIX, já não era apenas um documento de memória, era um instrumento de soberania. Num tempo em que Portugal via contestada a sua presença africana pelas grandes potências europeias, a crónica converteu-se em argumento jurídico, prova de prioridade e título simbólico de posse. O texto que antes glorificara um príncipe passou a defender fronteiras imperiais. A História, mais uma vez, foi chamada a servir o presente.

Mais tarde, a leitura britânica voltou a deslocar o sentido da obra. A edição promovida no universo da Hakluyt Society suavizou as passagens mais duras e privilegiou a vertente marítima, técnica e cartográfica, enquadrando o Infante como precursor da ciência e da expansão europeia. O mesmo texto que servira para legitimar a ocupação portuguesa podia agora ser reinscrito numa narrativa imperial britânica mais vasta. Nada mais revelador da plasticidade dos documentos históricos do que essa capacidade de serem sucessivamente apropriados por poderes distintos.

Resta, porém, uma sombra que torna tudo ainda mais complexo. O próprio Zurara afirma ter-se baseado, em parte, num manuscrito anterior, redigido por um homem que efectivamente embarcara nessas expedições: Afonso Cerveira. Esse texto desapareceu. Não o temos. Não o lemos. Mas a sua ausência pesa tanto quanto a presença de tudo o que sobreviveu. Porque se o manuscrito de Cerveira viesse um dia a ser encontrado, talvez nos obrigasse a rever, uma vez mais, o que julgamos saber sobre o início europeu da expansão em África. E talvez então percebêssemos, com ainda maior nitidez, que por baixo de cada versão acabada da História existe quase sempre uma outra, mais áspera, mais imediata e mais verdadeira, ou pelo menos mais próxima daquilo que aconteceu antes de ser convertido em narrativa.
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* O termo “inventou” é aqui empregado em sentido historiográfico e retórico, e não literal, pois não se trata de atribuir a Zurara uma ficção arbitrária, mas de assinalar que a sua crónica constrói discursivamente a figura do Infante D. Henrique mediante a seleção, hierarquização e sacralização dos factos, numa operação que transforma um príncipe histórico medieval num emblema político e moral. A pertinência dessa formulação torna-se ainda mais clara quando se observa a longa duração dessa imagem (https://aminhavivencia.blogspot.com/2026/06/ainda-o-infante-de-zurara-e-licao-do.html).

sábado, 13 de junho de 2026

O retrato da Ribeira Velha de Peniche



Esta fotografia aérea da Ribeira Velha, também conhecida como Portinho de Revez ou Porto do Meio, captada em 1936 ou 1937 numa maré baixa que deixa a descoberto o areal e o dorso rochoso da baía, oferece um retrato de rara intensidade da alma marítima de Peniche, como se o tempo ali tivesse ficado suspenso entre o sal, a pedra e a memória.

No centro da imagem, sobre o promontório rochoso que avança pelo mar, o Forte das Cabanas, fortificação seiscentista, ergue-se com a solenidade de uma sentinela antiga, guardando o porto de abrigo. No canto superior direito adivinha-se a imponência da Fortaleza, cidadela militar da vila, que então servia de depósito de presos e prisão de segurança máxima do regime do Estado Novo.

A longa rua pavimentada que acompanha o casario branco do lado direito da imagem conheceu, ao longo dos séculos, vários nomes e várias épocas. Foi Rua da Frontaria, Rua do Cais, Rua Conselheiro António José Enes, Rua Almirante Reis e Avenida Engenheiro José Frederico Ulrich, até passar a chamar-se Avenida do Mar em 1975. No tempo desta fotografia, era ao longo dessa artéria e nas rampas de pedra vizinhas que os pescadores estendiam ao sol as grandes redes de cerco, enquanto junto ao Forte das Cabanas se alinhavam os antigos armazéns e a lota do peixe, compondo um cenário de trabalho incessante e vida colectiva.

A linha de muralhas e estruturas defensivas edificadas durante a Guerra da Restauração, que delimitam a vila ao longo do lado direito da imagem, culmina no Forte das Cabanas e integra baluartes estrategicamente colocados para proteger a antiga vila de Peniche de Baixo contra os ataques vindos do mar.

A imagem revela ainda a complexa hierarquia da frota local, como se cada embarcação ocupasse um lugar preciso numa ordem antiga ditada pelo mar e pela necessidade. No racho central, dezenas de gamelas ou chalandras, pequenas embarcações rústicas de fundo chato com quatro a cinco metros, repousam a seco sobre a areia. Eram peças indispensáveis da engrenagem portuária, movidas a remos para transportar marinheiros, mantimentos e peixe fresco entre a praia e os barcos maiores. No areal intermédio distinguem-se embarcações de porte médio, como os batéis e as elegantes lanchas da sardinha, com treze a quinze metros, puxadas para terra para manutenção. Nas águas mais fundas do Portinho de Revez flutuam as grandes unidades da frota, entre elas as traineiras de cerco e os robustos caíques de traquete, que podiam atingir vinte e cinco ou trinta metros e já ensaiavam a passagem para a motorização.

A estrutura social de Peniche nas décadas de 1930 e 1940 assentava numa complementaridade económica rigorosa entre homens e mulheres, embora a narrativa oficial da época tendesse a empalidecer o peso real do trabalho feminino. A divisão de tarefas era nítida e moldava a vida de todos os dias. Os homens enfrentavam a dureza do mar alto, em noites de vigília e esforço hercúleo, sob o frio e as tempestades atlânticas, manobrando artes pesadas em barcos de madeira onde o perigo de morte era uma presença constante.

Em terra, as mulheres eram o motor da economia. Mal os barcos chegavam, tomavam sobre si a despesca, a triagem e o transporte das pesadas canastras. Enquanto os homens descansavam ou preparavam nova saída, as atadeiras de redes sentavam-se no cais soalheiro, visível na fotografia pelas longas tiras escuras de redes estendidas ao sol, para remendar com agulhas de madeira ou corno os estragos da faina. Fora do porto, eram ainda essas mulheres que garantiam o sustento da família, secando petinga ou litão em varais domésticos para consumo nos meses de fome, vendendo peixe em povoações vizinhas, trabalhando nas fábricas de conservas ou entregando-se às rendas de bilros nos meses de inverno e de escassez, com uma persistência silenciosa que sustentava a casa e a comunidade.

No centro do formigueiro humano que dava ao cais da Ribeira Velha o seu pulso mais vivo, a azáfama comercial atingia o auge com o leilão do pescado fresco. Entre os comerciantes de peixe mais influentes e carismáticos da época destacava-se o avô José do Rosário Leitão, conhecido na gíria do porto pela alcunha de "Zé Baterremos". Homem de têmpera forte, possuía diversos prédios urbanos e antigos edifícios militares reconvertidos em armazéns de apoio ao comércio de peixe na zona da Ribeira, sendo uma figura respeitada nas negociações de compra e venda.

Ao seu lado movia-se o indispensável ajudante Zé Raminhos, homem perspicaz que conhecia como poucos os segredos das marés e a qualidade do pescado. Era os olhos atentos e as pernas incansáveis de José do Rosário Leitão no cais. Corria ao encontro das gamelas que traziam o peixe, avaliava a frescura dos lotes e assegurava que as canastras de sardinha ou de espécies demersais nobres de alto valor, como o goraz, o pargo e o sargo capturados nas imediações das Berlengas, seguiam para a pesagem na lota. A dinâmica comercial gerida por estes intermediários era vital para abastecer a população local, os mercados urbanos de Portugal e de Espanha e ainda as indústrias conserveiras.

A aparente harmonia do quotidiano piscatório da Ribeira Velha escondia, porém, uma realidade de extrema precariedade e tensão social, muitas vezes em choque com a autoridade repressiva do regime do Estado Novo. No inverno de 1935, a miséria e a fome provocadas pela escassez de peixe e pelas duras condições de trabalho serviram de rastilho a um levantamento popular de proporções históricas, conhecido como a "Guerra das Espoletas" ou Revolta dos Mestres.

O conflito deflagrou a 12 de novembro de 1935, quando a Capitania do Porto de Peniche condenou dezenas de mestres e proprietários de traineiras a penas de prisão efectiva e aplicou multas exorbitantes aos armadores por infrações menores, confiscando ainda as licenças de pesca das embarcações durante um ano. A resposta da comunidade foi imediata. Na manhã de 13 de novembro, mais de mil pescadores, acompanhados pelas mulheres e pelos filhos, revoltaram-se contra as autoridades. Sob o grito desesperado de "Sem pesca não há pão", os manifestantes ergueram barricadas, cortaram as linhas telegráficas e telefónicas que ligavam a península ao continente e atacaram à pedrada as forças da Guarda Nacional Republicana para impedir a transferência dos mestres presos para a cadeia.

A repressão policial foi implacável. O confronto físico na zona do Juncal resultou na morte de Francisco de Sousa, um jovem marítimo local, e deixou vários feridos civis e militares. Cerca de 60 mestres foram levados sob custódia para a Cadeia do Limoeiro, em Lisboa, paralisando por completo a actividade piscatória de Peniche. Perante o bloqueio económico e a ameaça de fome generalizada na vila, o governo salazarista viu-se forçado a recuar. A 15 de dezembro de 1935, o Presidente da República, General Óscar Carmona, deslocou-se pessoalmente a Peniche para inaugurar as obras de melhoramento do porto de pesca e decretar a amnistia dos revoltosos, proferindo a célebre declaração de que "acima da lei está o coração humano", frase que ficou a ecoar como breve clarão de clemência num tempo endurecido pela repressão.

No entanto, a calma recuperada trouxe consigo um endurecimento do controlo político na região. Em 1936, na sequência desta e de outras revoltas populares, o regime converteu a histórica Fortaleza de Peniche, cuja muralha domina o flanco direito da Ribeira Velha na fotografia, numa prisão política de segurança máxima. A partir desse ano, a faina dos pescadores e as transações de peixe do José do Rosário Leitão e do Zé Raminhos passaram a decorrer sob a vigilância constante e cinzenta das sentinelas do regime, num contraste persistente entre o movimento livre do mar e o silêncio imposto das masmorras da ditadura.

A Ribeira Velha de Peniche em 1936 revela-se, assim, como um microcosmo de notável riqueza etnográfica e de grande complexidade social. Longe de ser apenas uma imagem de postal ilustrado, esta fotografia da zona ribeirinha fixa um tempo em que a sobrevivência exigia esforço colectivo diário e uma resiliência exemplar perante adversidades climáticas, económicas e políticas.

A herança cultural das atadeiras de redes e rendeiras de bilros, a audácia dos pescadores que enfrentavam o mar alto em barcos de madeira e a astúcia comercial de figuras como o avô José do Rosário Leitão e o ajudante Zé Raminhos constituem os alicerces sobre os quais se ergueu a Peniche moderna. Compreender este passado feito de suor, sal e resistência é essencial para reconhecer a identidade de um povo que, perante as provações da terra e os perigos do mar, sempre soube que a liberdade e o sustento batiam ao mesmo compasso do oceano.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Quando as cores navegam

 


No passado sábado, 6 de junho, uma data que, por razões pessoais, guardo sempre como especial, a baía de Cascais vestiu-se de cerimónia para receber um encontro de embarcações tradicionais do Tejo que ultrapassou em muito a ideia de simples desfile náutico. O que ali se viu foi o fulgor de uma memória ainda viva, uma história que não se resigna ao museu nem ao silêncio.

Estávamos lá, eu e a Catarina, a convite do nosso amigo Carlos Saraiva da Costa, companheiro das sementeiras de Abril e arrais da emblemática canoa Boneca. O motivo não podia ser mais nobre. Íamos celebrar os 100 anos desta senhora das águas, sobrevivente de um tempo inteiro, preservada por Carlos com uma paixão contagiante. Carlos, meu caro, obrigado por esta experiência maravilhosa; sentir o Tejo abraçar o Atlântico a partir do convés de uma destas joias é um privilégio que guardaremos para sempre.

Navegámos a bordo da Salvaram-me, sob o comando do mestre Luís Filipe. É fascinante observar como este mestre, professor de educação musical de profissão, troca as pautas pelas velas e os instrumentos pelos pincéis, compondo sinfonias visuais nos cascos de madeira. Luís Filipe é um dos raros guardiões da pintura tradicional, uma arte que aprendeu de olhos postos nas mãos de mestres como Diogo Gomes. É impossível não reparar na exuberância das decorações, as rosas e malmequeres estilizados, as cores vivas e a caligrafia artesanal que funciona como uma assinatura pessoal. Luís Filipe explicou-nos que esta arte exige um domínio técnico rigoroso e um controlo da respiração quase meditativo para que o traço saia perfeito. Estas pinturas não são meros adornos. São marcas de identidade, sinais de pertença, ecos de um tempo em que o rio se convertia, nas festas da Moita, numa verdadeira feira de vaidades flutuante.

No cortejo seguia também a Gaivina, outra joia do estuário, com a sua dignidade recuperada palmo a palmo. A história da Salvaram-me e a da Gaivina encontram-se nesse ponto essencial onde o amor pelo património se confunde com teimosia, sacrifício e fidelidade. Construída em 1937, a Gaivina, tal como a Salvaram-me, esteve a um passo do desaparecimento. Foi então que o mestre João Gregório, moitense de raiz como o mestre Luís Filipe, a resgatou do abandono e lhe entregou quase sete anos de trabalho, suor e certamente também desalento. Graças a essa obstinação, em julho de 2025 a canoa voltou a tocar as águas do rio, pronta a abrir velas e a mostrar-nos que o património não tem de viver imóvel, encerrado atrás de vitrinas. Pode respirar, mover-se, desafiar o tempo. Pode ser, como ali era, um museu vivo.

Também a Salvaram-me conheceu o risco do desaparecimento e encontrou quem a arrancasse a esse destino. Luís Filipe contou-nos, sem dramatismo, mas com a franqueza de quem conhece o peso real das coisas, como os anos da troika e os cortes impostos pelo governo de Passos Coelho o empurraram para uma vida repartida entre a necessidade e a vocação. Durante a semana, professor de música; ao fim de semana, mestre da Salvaram-me em passeios turísticos. “Dá para as despesas da embarcação”, disse-nos. E nessa frase havia mais verdade do que resignação. Porque a Salvaram-me, tal como a Gaivina e tantas outras, não foi salva apenas por um homem. Foi salva também por essa economia moral da entreajuda a que chamam Paga da Praia, uma rede discreta de solidariedade onde os mestres trocam saberes, braços e tempo, onde umas letras pintadas podem valer uma ajuda na manutenção, e onde o dinheiro nem sempre é a medida do valor. É essa camaradagem funda que ainda sustém os estaleiros, os barcos e, com eles, a alma ribeirinha.

E foi esse código de honra, essa fraternidade sem alarde, que senti de forma mais nítida quando o mestre João Gregório rompeu a solenidade algo cinzenta da cerimónia no pátio do Palacete Seixas. Debaixo das embarcações dos Descobrimentos talhadas na pedra da fachada, como se a memória marítima do país observasse, em silêncio, a persistência destas outras embarcações do Tejo, João Gregório chamou um a um os camaradas que o ajudaram a devolver vida à sua Gaivina. Nesse gesto simples, sem retórica nem aparato, estava talvez tudo. Estava a gratidão, a lealdade, o trabalho partilhado, a consciência de que nenhum barco regressa sozinho à água.

As embarcações tradicionais do Tejo, sejam as ágeis canoas como a Salvaram-me e a Gaivina, os bojudos varinos de proa em colher, as robustas fragatas ou as velozes faluas, constituem o nosso património flutuante. Durante séculos, foram artérias vitais no abastecimento de Lisboa, trazendo das lezírias e das salinas a substância de uma cidade inteira. Hoje, reunidas sob o nome de Marinha do Tejo, continuam a ensinar-nos uma lição que vai muito além da nostalgia. Ensinam-nos que preservar uma embarcação de madeira é preservar saberes, gestos, vocabulários, ofícios, modos de vida. É preservar, no fundo, a resiliência e a dignidade das comunidades ribeirinhas que lhes deram origem.

Obrigado, Carlos, por nos recordares que o Tejo ainda sabe dançar com as vagas e que, às vezes, a memória mais funda é também a mais colorida.

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A resposta do mestre da Salvaram-me, Luís Filipe, publicada no mural da Marinha do Tejo no Facebook:

Meu caro,

Confesso que li o seu texto com uma lágrima no olho e o coração cheio. As suas palavras tocaram-me profundamente, não apenas pelo elogio, mas sobretudo porque revelam que compreendeu verdadeiramente aquilo que nos move.

Nem sempre quem anda nestas lides do Tejo espera reconhecimento. Fazemo-lo porque gostamos, porque sentimos que é nossa obrigação deixar às gerações futuras um património vivo e não apenas fotografias amareladas, barcos imóveis ou memórias encerradas em vitrinas. Fazemo-lo porque acreditamos que a história deve navegar.

Ao ler o que escreveu, senti que conseguiu ver para além da madeira, das velas, das pinturas e dos cascos. Viu as pessoas. Viu os sacrifícios, as amizades, a entreajuda, as horas de trabalho, as dúvidas, as conquistas e a paixão que continua a manter vivas estas embarcações e os saberes que lhes estão associados.

As suas palavras são também um reconhecimento para todos aqueles que, ao longo dos anos, me ajudaram e continuam a ajudar. Neste mundo ainda existe uma fraternidade antiga, feita de mãos calejadas, de ferramentas partilhadas, de conselhos dados à beira de um casco e de ajuda prestada sem esperar nada em troca.

É o mínimo que podemos fazer perante palavras tão generosas. Por isso, deixo-lhe alguns registos fotográficos das recuperações da Gaivina, da Salvaram-me e da Estrela da Madrugada. Talvez estas imagens consigam mostrar uma pequena parte daquilo que os seus olhos e a sua sensibilidade tão bem souberam descrever.

Gaivina: https://photos.app.goo.gl/623PoCSqr872QXqj6

Salvaram-me: https://photos.app.goo.gl/8sTXKhWv99XzohLe7

Estrela da Madrugada: https://photos.app.goo.gl/6soWHBChPvQUQCe99

Aqui ainda há quem não goste de ver os ferros de calafate pendurados em museus nem os barcos condenados a uma reforma silenciosa. Acreditamos que as embarcações tradicionais nasceram para navegar, que os estaleiros nasceram para trabalhar e que os saberes antigos só sobrevivem quando continuam a ser praticados, transmitidos e vividos.

Espero sinceramente voltar a vê-lo a bordo. Da próxima, partiremos do Cais da Moita, terra do seu amigo de escola. Traga a Catarina, a família e os amigos. Será um enorme prazer recebê-los e conduzi-los por um périplo pelos recantos náuticos da margem sul, pelas histórias escondidas das nossas águas e pelos segredos que o Tejo continua a guardar para quem o sabe ouvir.

Escreveu sobre barcos, mas acima de tudo escreveu sobre pessoas. E isso vale mais do que imagina.

E permita-me uma pequena provocação bem-humorada. Como por vezes se diz por estas bandas, os filhos da Moita por cá são sal... mas quando chegam a outras paragens parecem transformar-se em ouro. Talvez seja porque quem está de fora consegue ver melhor o valor daquilo que por vezes os de casa tomam por garantido.

Por fim, e como dizem os petizes de hoje em dia: foi brutal!

Um abraço muito sentido para si e para a Catarina.

Luís Filipe