sábado, 18 de julho de 2026

O menino de Gaza que dribla a guerra



Hoje vi um menino palestiniano que gosta de Ronaldo e que perdeu as pernas num bombardeamento israelita. Bastou pouco mais do que essa imagem para perceber que a guerra, em Gaza, não se limita a destruir casas. Rouba infâncias, interrompe futuros e, ainda assim, não consegue apagar por inteiro a vontade de brincar, de sonhar e de pertencer ao mundo.

Mohammed Shaban tem 10 anos. Foi atingido num ataque aéreo israelita e perdeu as duas pernas e a mão direita, mas continua a driblar, a acompanhar o Mundial e a falar de Ronaldo como quem fala de uma promessa acesa no meio da noite. A reportagem da PBS News, a televisão pública dos EUA, mostra-o na tenda onde vive com a mãe, Sondos, que é, ao mesmo tempo, enfermeira, abrigo e companheira de jogo. Cada passe entre os dois vale mais do que um recreio, porque prova que a guerra ainda não conseguiu levar tudo.

A paisagem em que Mohammed vive é de uma terra de betão esmagado, onde crianças jogam sobre vestígios da guerra e onde a normalidade se transformou em sobrevivência. A família foi deslocada uma dúzia de vezes, levando-o ao colo durante quilómetros por não ter cadeira de rodas, enquanto a mãe tenta mantê-lo seguro e afastado, tanto quanto possível, do perigo constante. O que devia ser uma infância tornou-se, na prática, uma travessia sem fim entre destroços, medo e improviso.

A reportagem sublinha também a fragilidade do seu corpo. Mohammed precisa de cirurgias regulares devido a infeções e a tecido cicatricial profundo, e a mãe diz que só quer vê-lo sarar, talvez longe de Gaza, onde o corpo possa finalmente descansar do cerco. Há aqui um detalhe que fere pela sua simplicidade. O menino sonha com próteses, com viajar para fora, com voltar a jogar com os amigos e até com participar num Mundial. É uma ambição que só parece absurda a quem nunca teve de merecer o direito elementar de a sonhar.

Num território onde a celebração se tornou rara, o Mundial surge como uma espécie de refúgio. A reportagem mostra palestinianos em Gaza a reunirem-se para ver jogos, sobretudo os do Egipto, como se a vitória de uma seleção vizinha lhes devolvesse, por instantes, uma pertença colectiva e uma alegria partilhada. Quando o Egipto marca, a festa espalha-se entre paredes destruídas, como se os bombardeamentos tivessem aberto, no meio do pó, pequenas janelas por onde ainda entra alguma luz.

A mãe de Mohammed diz que o filho é talentoso, que adora ver futebol e que o seu jogador favorito é Ronaldo. Acrescenta que o objetivo dele é jogar diante do mundo e não esquecer a dor até lá chegar. Há qualquer coisa de profundamente humano nessa fidelidade a uma figura distante. Ronaldo, para ele, não é apenas um ídolo. É a prova de que o futebol também pode ser um idioma universal, compreendido por uma criança amputada no meio das ruínas.

A reportagem não esconde a violência quotidiana. Há disparos ouvidos durante as brincadeiras, fugas apressadas, medo entre as tendas e funerais que interrompem qualquer tentativa de normalidade. Fala da morte de um trabalhador humanitário ligado à organização das transmissões do Mundial, mais uma lembrança de que, em Gaza, até a alegria é frágil. E, no entanto, mesmo ali, crianças jogam entre tendas, com bolas improvisadas, num campo sem marcações e sem certeza de amanhã.

É isso que torna esta história tão dura e tão necessária. Mohammed não é apresentado como símbolo abstracto, mas como um menino concreto, com nome, mãe, dores, desejo e teimosia. O futebol não lhe devolve as pernas, mas devolve-lhe, por minutos, a condição luminosa de criança. E, num lugar onde tantas vidas foram reduzidas a estatística, essa pequena vitória aproxima-se de uma forma de resistência.

No fim, fica uma imagem impossível de esquecer. Um rapazinho de Gaza a empurrar-se para além das cercas erguidas pela guerra, em direcção a momentos preciosos com os amigos, apenas para jogar o jogo que ama. Não é uma história sobre desporto. É uma história sobre o que resta do ser humano quando tudo o resto falha. E talvez seja precisamente por isso que dói tanto. Mohammed quer tão pouco, quer viver, recuperar, jogar, ser visto, e, ainda assim, o mundo continua a exigir-lhe demasiado.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

O teatro do populismo




O presidente dos EUA, na homilia política de ontem, conseguiu o prodígio de transformar a realidade numa maratona de autoelogio, num cenário de catástrofe por conveniência. Num só discurso, os EUA passaram de país inquieto a império reconciliado consigo mesmo, com a inflação domesticada, o crime em retracção e as fronteiras fechadas com tal eficácia que a própria estatística parece ter pedido licença para sair.

Há, nesta transformação súbita, qualquer coisa de litúrgico. Segundo o celebrante, o que ontem era um organismo à beira do colapso é apresentado hoje como o mais rico e respeitado país da História, por uma espécie de transubstanciação verbal em que a repetição substitui a prova e a ênfase ocupa o lugar da demonstração. A prosperidade é anunciada com a solenidade de um milagre e até os mercados acompanham o entusiasmo, com a servil obediência dos números quando são convocados para confirmar um relato.

Mas nenhum paraíso político se sustenta sem o seu demónio tutelar. E, neste caso, a China cumpre a função com exemplar utilidade dramática. Terá roubado dados de 220 milhões de eleitores, terá alimentado jornalistas hostis, terá enfim trabalhado, com disciplina asiática e vocação conspirativa, para impedir o triunfo de um homem que, segundo a própria narrativa, já triunfou em tudo o resto. É uma acusação tão vasta que quase dispensa verificação. Quando a suspeita é suficientemente grande, a prova torna-se um detalhe sem importância.

O mesmo se passa com o Estado profundo, essa expressão elástica que serve para explicar o que convém e disfarçar o que incomoda. Funcionários, relatórios, agências, burocratas e sacos de documentos esquecidos entram em cena como figurantes de uma peça mal escrita, em que todos conspiram com fervor, mas ninguém demonstra o cuidado básico de destruir as provas. A grande conspiração americana mantém, assim, uma vulnerabilidade doméstica comovente. É poderosa ao ponto de controlar tudo e imprudente ao ponto de deixar rastos no lixo.

As máquinas de voto, por sua vez, são tratadas como criaturas sem alma, mas com instinto para a corrupção. Ora frágeis, ora omnipotentes, ora vulneráveis, ora decisivas, ocupam o imaginário político como se a democracia fosse um mecanismo defeituoso que só merece confiança quando produz o desfecho conveniente. Se o resultado agrada, o sistema funcionou. Se desagrada, foi sabotado. A lógica, neste domínio, é impecável na sua pobreza.

E então surge a solução, sempre simples, sempre moral, sempre anunciada como se a complexidade fosse um vício de má-fé. O voto por correio torna-se suspeito por natureza. A identificação com fotografia converte-se em sacramento cívico. O “Save America Act” aparece como fórmula de purificação, uma dessas medidas que prometem limpar a democracia com a mesma convicção com que se lava um vidro embaciado. Nada de novo, no fundo. Apenas a velha ambição de reduzir a cidadania a um procedimento de balcão.

O mais notável, porém, é a forma como o discurso de Trump concilia o excesso de triunfalismo com o apocalipse eleitoral. O país está no auge, mas o sistema apodrece. As fronteiras estão seladas, mas a soberania vacila. A economia prospera, mas a legitimidade eleitoral desfaz-se. É uma arquitetura retórica de grande consistência interna e mínima fidelidade ao real. Tudo funciona, menos aquilo que interessa. E é justamente nessa fractura que o populismo encontra a sua matéria-prima e o terreno fértil para medrar.

No fim, sobra a certeza de ter assistido não a um discurso político do presidente do país mais poderoso do globo, mas a uma peça de autocelebração com vilões de serviço. A grandeza do país foi proclamada com a mão direita enquanto a esquerda procurava um culpado externo, um burocrata interno ou uma máquina de voto com mau comportamento. É um teatro útil, porque poupa o esforço de pensar. E é também um teatro antigo. Só mudou o figurino.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

A onda da Defesa


Há dias, confesso, quase me deixei comover pelo entusiasmo contagiante com que dois especialistas da guerra — o tenente-general Rafael e o jornalista Rolando — discorriam sobre o programa liderado por Zelensky e a participação de nove países da chamada Coligação da Boa Vontade no desenvolvimento de um míssil antimíssil. Um clube exclusivo ao qual, a acreditar no tenente-general, o nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros não terá fechado a porta.

Foi então que o jornalista Rolando, num registo de revelação quase messiânica, pediu licença para sublinhar o que considerava essencial: Portugal enfrenta, nos próximos anos, duas decisões históricas, capazes de transformar profundamente o país nas suas capacidades tecnológica, militar e económica. A primeira seria a adesão a este programa, que — mesmo com uma participação modesta, como prudentemente se antecipa — poderia dar um “impulso tremendo” à ciência, à tecnologia e à indústria de defesa nacionais. A segunda, já aventada pelo Ministro da Defesa, seria a eventual entrada no programa do caça de sexta geração.

Para Rolando, a conclusão era inequívoca: “se estas duas decisões forem tomadas, isto é uma alavancagem tremenda para a indústria, para a tecnologia e para o desenvolvimento económico do país.” E acrescentava, com um realismo resignado: “gostaria que o mundo fosse outro, mas o mundo é o que é.” Seguia-se a tese central, apresentada como axioma: não há desenvolvimento sério — tecnológico, militar, científico ou económico — sem uma forte componente militar. “Não há outra maneira.”

O tenente-general Rafael, naturalmente, não deixou escapar a oportunidade e recordou que a academia portuguesa já possui essa “alavancagem”, graças a cursos aeroespaciais altamente cotados de norte a sul, e que esta vaga poderá ser a oportunidade ideal para absorver o talento jovem que deles sai.

Sem perder fôlego, o jornalista insistiu na metáfora marítima: “é uma onda que está a passar e temos de aproveitá-la agora.” Uma onda que promete elevar Portugal a “um patamar completamente diferente” em termos tecnológicos e económicos, desde que, claro, saibamos surfar estas “oportunidades de uma geração” — essas entidades quase mitológicas que, como se sabe, raramente se repetem.

Se não conhecesse o meio, talvez tivesse aplaudido com ambas as mãos. Mas, depois de deixar a Marinha, trabalhei com empresas públicas da área da Defesa e a experiência esteve longe de ser edificante. E as empresas privadas com que lidei não se revelaram melhores.

Recordo-me de um alto quadro de uma multinacional anglo-americana que, perante as minhas frustrações, me aconselhou a abandonar quaisquer ilusões. Com a frieza cirúrgica que se atribui aos ingleses, disse-me: Jorge, defence business is, and will always be, dirty business.

É por isso que me arrepio quando ouço falar em aumentos do orçamento da Defesa e vejo o entusiasmo quase juvenil de figuras como o tenente-general Rafael e o jornalista Rolando. Sei bem quem se senta à mesa destes negócios — são sempre os mesmos. E sei também quem fica a assistir, do lado de fora, a pagar a conta de um banquete para que nunca foi convidado: a esmagadora maioria dos portugueses.

domingo, 12 de julho de 2026

Carta de Amor



Meu Amor,

Se um dia me perguntares quem sou, não te contarei uma história.
Aproximo-me apenas e deixo que a minha presença chegue antes de qualquer palavra.
Talvez diga o meu nome; talvez não. Não importa.
A minha mão fica perto da tua, à espera desse gesto que não precisa de explicação.

Se a luz entrar pela janela e te fizer parar sem saberes porquê, não te interromperei.
Fico onde ela te encontra, quieto, a ver-te presa ao que não se diz.
Não te puxo de volta.
Deixo que a luz faça o que sabe fazer e fico contigo dentro dela.

Se o rádio murmurar ao fundo e te detiver por um momento, como se aquela voz sem nome te chamasse, pararei contigo.
Não explico o que ouves, nem tento fixar o que passa.
Deixo o som atravessar a sala, desaparecer devagar, e permaneço ao teu lado como se isso bastasse.

Se me olhares como se me visses pela primeira vez, aceitarei esse instante.
Inteiro.
Não te dou caminhos de volta, nem te ofereço histórias.
Sento-me ao teu lado, com a luz a mudar e o rádio ao fundo.
E deixo que esse olhar exista sem lhe pedir mais do que pode dar.

Se houver um segundo, fugaz, quase impercetível, em que algo em ti se detenha diante de mim, reconhecê-lo-ei.
Não o prendo, nem procuro repeti-lo.
Fico dentro dele enquanto dura, como se o tempo abrandasse só ali.

E, quando esse segundo não existir, ficarei na mesma.

Se te perderes de mim ao atravessar a casa, não irei atrás.
Permaneço no mesmo lugar, onde a luz se demora ao fim da tarde e o rádio continua a falar.
E deixo que possas voltar sem esperar que me encontres.

Se a tua mão tocar a minha por acaso, não prenderei esse gesto.
Deixo-o ficar, breve e inteiro,
como a luz que passa ou um som que se desfaz no ar.

Se falares, mesmo sem saber para quem, estarei aqui para ouvir.
Escuto-te como se cada palavra nascesse naquele instante.
Não te digo que já a ouvi, nem te peço que expliques.
Recebo apenas, como recebo a luz e o som que atravessa a sala.

Se parares e me olhares um instante mais, pararei contigo.
Fico nele como quem encontra abrigo.
O rádio continua baixo, atravessando o silêncio sem o romper, e a luz permanece pousada sem pedir nada.
Faço o mesmo: não explico, não peço, fico.

Se passares por mim sem parar, não irei embora.
Permaneço, como a luz que volta no dia seguinte e como a voz do rádio que continua a atravessar a casa.
Não te peço que me reconheças, porque há um amor que não precisa disso.

Se nada disto fizer sentido num dia qualquer, não procurarei sentido.
Fico onde sempre estive.
Com a mesma fidelidade silenciosa.

E eu amar-te-ei assim, mais do que alguma vez pensei possível.
Com a mesma fidelidade com que a luz volta e com a mesma persistência com que o rádio continua a falar no fundo da casa.
Mesmo quando ninguém parece escutar.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Digitalizar o Estado sem automatizar o caos


Há países que discutem a reforma do Estado como quem observa uma fratura num raio X. O problema parece estar ali, nítido, à espera de uma tala, de uma cirurgia ou de um protocolo. Portugal não tem essa sorte. Quando se fala da sua administração pública, a imagem perde foco, o aparelho treme, cada especialista aponta para um osso diferente e o doente, que é também contribuinte, utente, empresário e eleitor, continua na sala de espera.

A exposição do ministro Gonçalo Matias na SEDES teve o mérito de ajudar a recentrar o debate no que é essencial; não no fetiche da tecnologia nem na velha retórica do corte administrativo, mas na pergunta que quase sempre fica para trás. Para que serve o Estado e porque falha tantas vezes, normalmente quando o cidadão mais precisa dele?

O episódio mais elucidativo da sessão não foi suscitado por uma estatística, por uma meta europeia ou pela discussão de um diploma legal. Veio de uma história concreta, quase absurda, mas dolorosamente verosímil. Um cidadão que estava na audiência, pediu a palavra e contou que, depois da morte da mãe, com 97 anos, enviou a respetiva certidão de óbito às Finanças. A senhora não tinha literacia digital, não usava correio eletrónico e pertencia a uma geração para quem o Estado continuava a ser um balcão, uma carta e uma assinatura. O filho fez o que lhe competia. Comunicou o óbito. O caso devia ter terminado ali.

No ano seguinte, porém, a Autoridade Tributária voltou a escrever para a morada da falecida a exigir pagamentos. O filho reenviou a certidão e juntou uma nota que deveria figurar em qualquer manual de reforma administrativa: “A minha mãe continua a morrer no mesmo dia, continua morta no mesmo sítio e não há alteração substancial do caso.” A frase é anedótica apenas à superfície. Por baixo dela está a tragédia quotidiana de um Estado que guarda dados, emite notificações e automatiza procedimentos, mas nem sempre compreende a realidade humana que esses procedimentos deveriam servir.

É aqui que a ideia de digitalização humanista discutida pelo ministro ganha densidade. Digitalizar não pode significar empurrar todos para um ecrã, abandonar os mais velhos à password esquecida ou trocar a fila física por uma mensagem de erro. Digitalizar deve significar que a complexidade desaparece para quem está do lado de fora. O sistema deve trabalhar nos bastidores, cruzar informação, eliminar redundâncias e libertar funcionários para o atendimento personalizado de quem realmente precisa de apoio humano.

A meta de ter todos os serviços públicos digitalizados só fará sentido se for acompanhada desta inversão de lógica. A tecnologia não deve ser um muro novo com tinta moderna. Deve ser uma ponte. O cidadão não quer saber quantos servidores foram comprados, quantos portais foram lançados ou quantos milhões foram inscritos em cadernos de encargos. Quer saber se deixa de entregar a mesma informação a três ministérios, se consegue abrir uma actividade sem meses de ansiedade, se recebe um apoio quando dele precisa, se a Administração sabe que uma pessoa morreu sem obrigar a família a prová-lo todos os anos.

Outra mudança decisiva está na passagem do Estado que autoriza antes para o Estado que fiscaliza depois. Durante décadas, Portugal habituou-se a desconfiar preventivamente. Quem queria abrir um restaurante, licenciar uma obra ou avançar com um investimento tinha de atravessar corredores sucessivos de pareceres, vistos, autorizações e validações. O princípio era simples e sufocante. Antes de fazer, prove que não vai fazer mal.

A alternativa proposta é mais arriscada, mas também mais honesta. O cidadão ou a empresa avançam sob responsabilidade própria e o Estado fiscaliza a seguir, com sanções pesadas quando houver incumprimento. A promessa é retirar tempo morto da economia, impedir que projetos fiquem anos presos num labirinto e deslocar a energia pública da autorização burocrática para a fiscalização efetiva.

Mas esta solução só funciona se o Estado for capaz de fiscalizar a sério. Sem inspectores, sem dados, sem inteligência operacional e sem sanções rápidas, o controlo posterior transforma-se numa licença para a irresponsabilidade. Confiar não é abdicar. Confiar exige verificar melhor, mais depressa e com consequências. Caso contrário, troca-se a paralisia preventiva por um caos permissivo.

Por isso a reforma não pode limitar-se a alterar leis. Tem de mexer na estrutura do Estado. Os recursos humanos que hoje passam os dias a carimbar papéis devem ser deslocados para funções de acompanhamento, auditoria e fiscalização inteligente. A reestruturação de entidades como a Agência Portuguesa do Ambiente e o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas é, neste contexto, mais do que um detalhe técnico. Trata-se de enfrentar dois funis burocráticos que durante anos converteram avaliações ambientais e processos de investimento em exercícios intermináveis de pingue-pongue documental.

Também a referência à alteração da Lei Orgânica do Tribunal de Contas merece atenção. O Tribunal de Contas é uma peça central da fiscalização da despesa pública. Agilizá-lo pode libertar obras críticas de meses de espera por um visto. Enfraquecê-lo seria perigoso. O desafio está em ganhar velocidade sem perder escrutínio, porque a lentidão custa caro, mas a ausência de controlo custa ainda mais.

É natural que tudo isto seja lido politicamente de formas opostas. À esquerda, há quem veja nestas propostas uma versão portuguesa de uma agenda de emagrecimento do Estado, um eufemismo para reduzir o Estado social. Entre os defensores do Governo, a mesma reforma surge como o único caminho para salvar esse Estado social, libertando recursos hoje devorados por procedimentos inúteis. A verdade talvez esteja menos nas etiquetas e mais na execução. A mesma medida pode proteger o serviço público ou degradá-lo, conforme seja desenhada, aplicada e acompanhada.

Há, contudo, uma armadilha que Portugal conhece bem. Digitalizar processos irracionais não os torna racionais. Se um formulário em papel pede quinze campos redundantes, a sua passagem para um portal apenas desloca a irritação. Em vez de seis meses numa gaveta, teremos seis milissegundos até ao bloqueio informático. A burocracia à velocidade da luz continua a ser burocracia. Automatizar o caos apenas produz caos automatizado.

A simplificação normativa é o passo zero. Antes de comprar software, é preciso limpar leis, eliminar contradições, revogar portarias obsoletas e perguntar sem piedade que exigências fazem sentido. Portugal tem demasiadas normas que sobreviveram à razão da sua criação. São fósseis administrativos que continuam a produzir efeitos reais, atrasos reais e custos reais. A reforma que não entra nesta arqueologia legal acaba por colocar uma camada digital sobre a poeira antiga.

A história ajuda a explicar a dificuldade. A democracia herdou um aparelho de Estado centralizado, concebido mais para controlar do que para servir. Durante grande parte do século XX, num país marcado por baixos níveis de instrução, o cidadão foi tratado como alguém a tutelar e não como parceiro de uma relação administrativa. Depois de 1974, construímos conquistas notáveis. O Serviço Nacional de Saúde, a escola pública, a modernização fiscal e o Simplex mostram que a Administração portuguesa também é capaz de aprender, inovar e simplificar.

Mas os sucessos convivem com bloqueios persistentes. O referendo falhado da regionalização, em 1998, cristalizou um país demasiado dependente do centro. A periferia continuou muitas vezes longe dos decisores, dos serviços e dos recursos. A administração pública permaneceu presa a uma cultura de hierarquia, autorização e medo do erro. O resultado é um Portugal a duas velocidades, onde a distância ao poder ainda conta demasiado.

O SIADAP é outro símbolo dessa contradição. Criado para avaliar desempenho e premiar mérito, acabou muitas vezes refém de quotas que desmotivam precisamente quem mais trabalha. Um serviço pode ter uma equipa inteira a recuperar atrasos, a prolongar horários e a manter de pé uma repartição em crise. Ainda assim, o sistema obriga a distribuir classificações como se o mérito fosse uma percentagem fixa. Quando o esforço não encontra reconhecimento, a Administração fabrica desânimo.

A tudo isto soma-se a asfixia orçamental. Portugal consagrou direitos sociais exigentes, mas nem sempre gerou riqueza suficiente para os financiar de forma sustentada. Quando a dívida aperta, os governos recorrem a cativações e cortes cegos. Degrada-se o serviço sem o repensar. O Estado fica simultaneamente caro para quem paga e insuficiente para quem dele precisa. Esta é talvez a pior combinação possível.

O Plano de Recuperação e Resiliência tornou tudo mais urgente. Bruxelas impôs calendário, metas e execução. Em agosto de 2026, a torneira fecha. O que não estiver feito e faturado perde-se. A pressão pode ser virtuosa, porque obriga a Administração a mexer. Mas também pode gerar despesa precipitada. O caminho mais fácil é comprar equipamentos, encomendar plataformas e apresentar faturas tecnologicamente vistosas. O mais difícil é reorganizar serviços, formar pessoas, rever leis e garantir que os sistemas sobrevivem quando o dinheiro europeu acabar.

O risco de criar cemitérios tecnológicos é real. Computadores, tablets e aplicações podem aterrar em serviços sem preparação, sem dados fiáveis e sem equipas capazes de os manter. A tecnologia é uma promessa cara quando não existe capacidade interna. O Estado precisa de engenheiros de dados, especialistas em cibersegurança, arquitetos de sistemas e gestores de projeto. Se o mercado privado paga várias vezes mais, a Administração Pública fica dependente de consultoras externas e perde soberania operacional.

Foi também por isso que a exposição de Gonçalo Matias na SEDES foi clara ao identificar resistências. O problema não está apenas na instabilidade política ou na falta de leis habilitantes. Está nas corporações, nas ordens, nos sindicatos e nos interesses instalados que, ao longo do tempo, se tornaram guardiões de procedimentos. Nem sempre resistem por maldade. Muitas vezes resistem por medo de perder relevância, território profissional ou controlo sobre a qualidade. Mas o efeito é o mesmo. A inovação abranda quando ameaça um carimbo exclusivo.

O exemplo da reabilitação física à distância no Hospital de Santa Maria ilustra bem esse choque. A ideia era simples e parecia sensata. Em vez de obrigar doentes, muitos deles idosos ou recém-operados, a deslocações frequentes ao hospital para exercícios repetitivos, o SNS poderia enviar um tablet para casa com movimentos prescritos e acompanhados. O utente ganhava conforto, o hospital libertava capacidade e o sistema reduzia deslocações desnecessárias. A reacção contrária de sectores profissionais mostrou como a tecnologia, quando altera fronteiras de actuação, deixa de ser apenas uma ferramenta e passa a ser uma disputa de poder.

Modernizar o Estado é, por isso, menos parecido com instalar uma aplicação e mais parecido com mudar as agulhas de uma velha linha ferroviária. A locomotiva pode ser nova, mas se todos continuarem a desviá-la para os percursos antigos, a viagem demora o mesmo. E quem sofre não é o organograma. É o cidadão que perde manhãs em salas de espera, o empresário que adia investimento, o doente que repete deslocações, a família que continua a provar o óbvio.

As prioridades para os próximos anos parecem evidentes. Primeiro, limpar a casa legal antes de a encher de sensores. Segundo, atrair e reter talento qualificado na função pública. Terceiro, construir pactos de regime em áreas como a saúde, a justiça e a administração territorial. Sem estabilidade política mínima, cada governo começa de novo, revoga o anterior, anuncia outra sigla e deixa a máquina aos solavancos.

A verdadeira medida do sucesso não será a percentagem de serviços digitalizados nem o volume de gigabytes processados. Será o tempo devolvido às pessoas. O Estado eficiente é aquele que aparece quando deve aparecer e desaparece quando só atrapalha. É o Estado que paga um apoio sem exigir uma romaria documental, que licencia sem humilhar, que fiscaliza sem paralisar, que protege sem infantilizar.

Há neste horizonte uma tentação quase filosófica. O Estado perfeito seria invisível, silencioso, preditivo, capaz de ajustar impostos, activar direitos e antecipar necessidades sem que o cidadão tivesse de bater à porta. Mas uma democracia sem atrito também levanta riscos. Se tudo se torna uma caixa negra tecnológica, quem controla os critérios? Quem explica as decisões? Quem garante que a facilidade não substitui a participação?

A reforma do Estado português não precisa apenas de computadores mais rápidos. Precisa de leis mais simples, serviços mais responsáveis, funcionários valorizados, fiscalização competente e coragem política para enfrentar interesses que aprenderam a viver dentro do labirinto. Se o conseguir, a digitalização será libertadora. Se falhar, apenas dará ao velho caos uma interface mais limpa.

No fim, talvez a prova mais justa seja simples. Num Estado digno desse nome, ninguém deveria ter de escrever às Finanças para explicar que a mãe continua morta no mesmo dia e no mesmo sítio. Quando esse absurdo deixar de ser reconhecível, saberemos que a reforma saiu finalmente dos discursos ministeriais e entrou na vida real dos cidadãos.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

A ilusão do centro



Há pensamentos que não ficam onde foram ditos. Os de Onésimo Teotónio Almeida são assim. Ouvimo-lo e, de algum modo, continuamos a ouvi-lo, como se a sua voz ficasse a ecoar dentro da nossa própria maneira de pensar.

Desta vez explica-nos a identidade, como é que funciona. Mas não a define de forma abstracta, ele conta-a. E ao contá-la, mostra como ela se move.

Onésimo começa onde tudo parece simples. Nasce em São Miguel. E ali, naquele princípio, não há problema nenhum com a identidade, porque não há distância. É-se. Simplesmente é-se. Mas depois acontece aquilo que tem de acontecer. Vai à Terceira e é aí, como ele diz, que percebe que é de São Miguel. Não porque tenha mudado, mas porque alguém lhe mostra isso. Porque os outros veem. E quando os outros veem, nós começamos a ver-nos também.

É assim que começa. É sempre assim que começa.

Depois vai à Madeira. E já não é micaelense. Ou melhor, é, mas isso já não chega. Passa a ser açoriano. E ele próprio diz isso com uma naturalidade que quase engana, como se fosse apenas uma mudança de palavra. Mas não é só uma palavra. É a escala que muda. E quando a escala muda, muda tudo.

Em Lisboa, acontece outra coisa curiosa. Açorianos, madeirenses, tudo junto, são insulares. É assim que lhes chamam. E ele aceita, e eles aceitam, porque de repente faz sentido. Aquilo que antes parecia importante deixa de o ser. Não desaparece, mas recolhe-se. Fica mais fundo.

Depois vem Badajoz. E aqui Onésimo quase pára, como quem sublinha. É ali que sente o que é ser português. Ali, diz ele. Porque já não tem os seus por perto, porque está do outro lado, porque há os espanhóis. E isso basta. Basta para que a palavra ganhe corpo. Português.

Mas não fica por aí. Nunca fica.

Vai a Paris. E em Paris, com os franceses à volta, aproxima-se dos espanhóis. De repente são ibéricos. Assim, simplesmente. Aquilo que em Badajoz separava, em Paris aproxima. E isto, contado assim, quase em tom de conversa, é talvez a parte mais séria de tudo o que Onésimo nos mostra. A identidade não é fixa. Nunca é fixa.

Depois a América. E ele fala dos europeus, dos encontros, do café, dessa necessidade de estar junto. Já não interessa tanto de que país se vem. Interessa que se vem de lá. Daquele lado. A Europa deixa de ser mapa e passa a ser reconhecimento. Uma espécie de entendimento silencioso.

E depois a China. E aqui há qualquer coisa de inesperado. Ele ouve um tango. Um tango argentino, longe de tudo. E sente-o como seu. E percebe-se ocidental. Não porque tenha decidido, mas porque aquilo lhe acontece. Porque há coisas que nos acontecem e que nos dizem quem somos, ou melhor, de onde estamos naquele momento a ser.

E é então que Onésimo diz aquilo que parece uma hipótese, mas não é. Se um dia chegar a Marte, diz ele, vai sentir-se terrestre. Vai sentir que é da Terra. E, dito assim, quase com leveza, está lá tudo.
Está lá tudo o que importa.

Porque, no fundo, o que Onésimo Teotónio Almeida nos vai mostrando, passo a passo, viagem a viagem, é isto. A identidade não está no início. Não é aquilo com que se nasce e que se guarda intacto. A identidade acontece. Acontece quando alguém nos vê, quando mudamos de lugar, quando a distância nos obriga a dizer quem somos.

E mesmo assim, nunca dizemos a mesma coisa.

Hoje somos de uma ilha. Depois de um arquipélago. Depois de um país. Depois de uma península. Depois de um continente. Depois de um lado do mundo.

E um dia, talvez, apenas de um planeta.

E é nesse momento que se percebe, finalmente, aquilo que Onésimo sempre soube dizer sem precisar de o tornar pesado.

O centro nunca esteve onde pensávamos.

O centro é sempre o lugar onde, naquele instante, nos reconhecem.

terça-feira, 7 de julho de 2026

Quo vadis, FIFA?



Há torneios que celebram o futebol. O Mundial de 2026 parece celebrar outra coisa qualquer, com o jogo a servir de decoração.

A FIFA gosta de se apresentar como árbitro imparcial do planeta bola. É uma imagem simpática, quase nostálgica. O problema é que, enquanto a narrativa insiste na neutralidade, a prática já entrou no domínio da coreografia diplomática. As regras existem, claro, mas parecem ter adquirido um curioso sentido de oportunidade.

O caso de Cristiano Ronaldo é um bom ponto de partida para este novo realismo mágico. Uma cotovelada, um cartão vermelho, uma suspensão previsível. Tudo dentro da normalidade de um desporto que ainda finge obedecer a critérios objectivos. E depois há um jantar na Casa Branca, com Trump, Mohammed bin Salman e Gianni Infantino à mesma mesa. Um encontro entre amigos, dir-se-á. Talvez tenham falado de futebol. Ou talvez não.

Dias depois, a sanção encolhe. Dois jogos desaparecem com a elegância de um truque de ilusionismo jurídico. O Artigo 27 surge como solução versátil, quase um botão de ajuste fino para inconveniências disciplinares. Ronaldo fica disponível para o Mundial. O futebol agradece, a lógica nem por isso.

Se isto ainda pudesse ser visto como um episódio isolado, Balogun encarregou-se de esclarecer o equívoco. Já em plena competição, o jogador é expulso. Nada de extraordinário. A suspensão automática é uma dessas raras certezas que ainda restavam no regulamento.

Até deixar de ser.

Entra de novo em cena o elemento verdadeiramente decisivo do futebol contemporâneo. Não é o árbitro, nem o VAR. É o telefone. Donald Trump liga diretamente ao presidente da FIFA para discutir a decisão. Não se trata de uma metáfora. É mesmo uma chamada telefónica a interferir com um castigo desportivo.

Há aqui um detalhe que roça a comédia política. Trump intervém em defesa de um jogador cuja cidadania assenta no direito de nascimento, princípio que tem combatido no seu país. No futebol, pelos vistos, há conceitos que ganham utilidade súbita.

A FIFA responde com uma eficiência admirável. Em menos de um dia, a suspensão evapora-se. O mesmo Artigo 27 volta a cumprir serviço, demonstrando uma elasticidade que qualquer ginasta invejaria. Outras normas continuam escritas, mas já com um ar decorativo.

Perante este espetáculo, a indignação internacional cumpre o seu papel protocolar. A UEFA fala em limites ultrapassados. Blatter relembra que cartões vermelhos não se apagam com telefonemas. É difícil não apreciar o sentido de humor involuntário.

O problema não está apenas nas decisões, mas no padrão. A presença da FIFA em espaços de poder político, como a Trump Tower, ou a distribuição de distinções simbólicas ao seu senhorio, não são gestos inocentes. São sinais de alinhamento. São moeda de troca num jogo onde o futebol é apenas o palco.

Entretanto, nas bancadas e fora delas, o nacionalismo atinge níveis dignos de estudo. Em Portugal, a paixão pelo futebol ganhou contornos de missão de Estado. O primeiro-ministro atravessou o oceano com uma regularidade que faria inveja a um navegador quinhentista, marcando presença em sucessivos jogos da selecção como se cada partida fosse uma cimeira internacional. Fica a dúvida se só levou o cachecol. Talvez tenha levado também a pasta diplomática.

Este fervor patriótico encaixa perfeitamente no novo ecossistema do futebol global. Tudo é amplificado, tudo é simbólico, tudo é politicamente útil. O jogo em si continua a existir, mas parece cada vez mais um pretexto conveniente para outras agendas.

No meio disto, a FIFA já nem tenta convencer. Limita-se a gerir o espectáculo, ajustando regras conforme a relevância dos intervenientes. A neutralidade não desapareceu de repente. Foi sendo suavemente substituída por algo mais flexível, mais pragmático e, acima de tudo, mais previsível para quem tem poder.

O futebol continua a ser jogado com uma bola. Mas as decisões mais importantes já não passam necessariamente por ela.