sexta-feira, 27 de março de 2026

Ainda a (possível) erosão da justiça constitucional





A eleição dos 10 juízes do Tribunal Constitucional (TC) designados pela Assembleia da República (AR) é feita através da apresentação de listas completas. Mesmo quando se trata da substituição de juízes (preenchimento de vagas isoladas ou parciais), a eleição pela AR continua a ser feita através da apresentação de listas completas, também designadas como fechadas. Como as candidaturas não são individuais, devem ser apresentadas ao Presidente da AR em listas que contenham tantos nomes quantas as vagas a preencher. Por exemplo, no impasse actual, em que existem três lugares vagos, a lista a apresentar deve conter exatamente três nomes. Para que uma lista seja admitida, tem de ser subscrita por um mínimo de 25 e um máximo de 50 deputados.
 
Embora a proposta chegue ao plenário sob a forma de lista, a votação é feita por escrutínio secreto e cada nome é votado individualmente pelos deputados. Isto significa que um deputado pode votar a favor de um nome da lista e contra outro. Esta particularidade permite que, mesmo num cenário de acordo entre lideranças partidárias, nomes específicos possam ser rejeitados se não reunirem o consenso individual necessário dos deputados no momento do voto na urna. Há registo de casos em que juízes indicados em listas não foram eleitos devido a votos contra das próprias bancadas que os tinham proposto.

É que para que um candidato seja eleito, precisa de obter uma maioria qualificada de dois terços dos deputados presentes, desde que superior à maioria absoluta dos deputados em efetividade de funções. Este mecanismo funciona como um filtro político. Normalmente, nenhum partido possui dois terços dos lugares na AR. Por isso, as listas costumam ser fruto de negociações prévias para assegurar que os candidatos indicados serão aceites pelos deputados dos diversos grupos parlamentares e não rejeitados na votação secreta individual.

Durante mais de quatro décadas, este sistema assegurou que a composição do TC refletisse as principais sensibilidades doutrinárias e políticas do regime, prevenindo a predominância de um único partido e promovendo a estabilidade institucional. É verdade que a distribuição de indicações ao longo daquele período revela que o sistema português de fiscalização da constitucionalidade assentou numa cooperação estrutural entre o PS e o PSD, com incursões estratégicas de outros partidos para assegurar a maioria de dois terços. Mas esta "geopolítica parlamentar" foi essencial para manter o equilíbrio entre as visões mais centradas nos direitos sociais (típicas do PS e partidos à esquerda) e as visões mais focadas na liberdade económica e segurança jurídica (frequentes nas propostas do PSD e CDS-PP). Desde a criação do TC, em 1982, o PS indicou 23 nomes de juízes, o PSD indicou 21, o CDS-PP 2, o PCP 2 e o BE 1.

Deste modo, o modelo de designação parlamentar para o TC tem tido sucesso na criação de um órgão que goza de elevada avaliação social e credibilidade. A exigência de dois terços, embora tenha criado impasses temporários, garantiu que os juízes não fossem vistos como agentes de uma maioria conjuntural, mas como guardiões de um pacto social mais profundo. De facto, a análise dos dados desde 1982 demonstra uma evolução de um tribunal de "notáveis" para um tribunal de "profissionais", onde o rigor técnico prevalece sobre a fidelidade partidária. Apesar das fragilidades do modelo de nomeação dos juízes, o TC tem sido o reflexo da "vontade constitucional" da nação, filtrada através do seu órgão legislativo máximo. A lista de juízes que por ali passaram é uma galeria de excelência jurídica, onde as diferenças políticas, longe de serem um obstáculo, constituem a riqueza dialéctica necessária para que a Constituição permaneça uma norma viva e adaptada aos tempos, sem nunca perder a sua essência democrática e garantística.

Contudo, a crescente fragmentação política e o fim do bipartidarismo entre PS e PSD colocam novos desafios. A necessidade de incluir novos partidos como o Chega, a Iniciativa Liberal ou o Livre nas negociações de nomes exige uma maior sofisticação diplomática e, possivelmente, uma maior transparência nas audições públicas, para evitar que o tribunal se torne refém de vetos cruzados sobre questões morais ou ideológicas. Mas essa inclusão nada tem a ver com o golpe mediático consubstanciado na recente conferência de imprensa de André Ventura sobre o tema, na sede do partido que lidera.

André Ventura afirmou ter uma “garantia política e negocial” de que a substituição dos três juízes em falta no TC será feita por dois nomes indicados pelo PSD e um pelo Chega. E clarificou: “Quer dizer, eu tenho a garantia que o processo chegou ao fim, e chegou ao fim neste sentido, chegou a bom porto.” Esta actuação revela-se flagrantemente extemporânea. Ao antecipar-se à conferência de líderes da AR, o fórum institucional adequado onde se definem os trâmites para a eleição de órgãos externos, o líder do Chega procurou capitalizar politicamente um processo que deveria ser, por natureza, um acto de Estado. Pela primeira vez na história do TC, ao transformar a indicação de magistrados num anúncio de "vitória negocial", Ventura ignorou que a legitimidade do Tribunal depende da sua perceção pública como um corpo neutro. Esta exposição mediática não é apenas um detalhe de comunicação, mas um desafio directo ao paradoxo da legitimidade que sustenta a justiça constitucional.

A tensão entre o método parlamentar de indicação de juízes para o TC e a exigência de independência absoluta desse órgão de soberania, representa um dos equilíbrios mais delicados da nossa democracia, algo que os comentadores ligados à direita extrema ignoram ao atribuir as minhas críticas a Ventura a uma suposta posição de esquerda sobre a participação do Chega no processo negocial. Se a intervenção do Chega na indicação de juízes foi natural dentro do quadro democrático, já a publicitação extemporânea do acordo PSD-Chega prejudicou seriamente a reputação do TC ao reduzir a eleição de um magistrado a um episódio da luta partidária e a uma moeda de troca para viabilizar legislação ordinária.

É fundamental distinguir a potestas (o poder legal de nomear e decidir) da auctoritas (o reconhecimento técnico e moral pelos pares e pela sociedade). André Ventura pode ter garantido uma vitória no plano da potestas, mas ao fazê-lo desta forma, destrói a auctoritas dos futuros juízes perante a comunidade jurídica. A justiça constitucional não pode ser um subproduto da luta partidária e do mercado parlamentar. Para que o TC continue a ser o garante dos direitos fundamentais contra as maiorias conjunturais, é imperativo que a indicação dos juízes do TC permaneça fechada aos holofotes da propaganda, preservando a dignidade de uma instituição que serve apenas a integridade da República.

quarta-feira, 25 de março de 2026

O "Sete"

 


Tenho a certeza de que os camaradas de Marinha guardam com carinho muitas recordações de cães “navais”. Eu recordo em especial o “Sete”, um patudo semelhante a este, que conheci quando embarquei numa corveta recém-chegada de uma comissão em Cabo Verde e na Guiné. Não faço ideia de como o “Sete” se “alistou”, mas sei que, quando me apresentei a bordo, já era um veterano com muitas horas de navegação, muitas delas a fazer companhia ao pessoal de quarto na Ponte. Apesar de não ser agressivo, quando o navio estava atracado mantinha-se atento junto à prancha e controlava cuidadosamente a entrada de estranhos a bordo. Entre esses, havia um em particular que despertava o seu instinto de cão de guarda, razão pela qual recordo o episódio que passo a contar.

Quando o meu navio entrou no Arsenal do Alfeite para fabricos, ficou atracado a outra corveta que já estava lá há mais de um ano. Os trabalhos prolongaram-se muito para além do previsto inicialmente, apesar do seu chefe de máquinas fazer tudo o que estava ao alcance para encontrar os sobressalentes necessários à conclusão das reparações. Homem robusto e determinado, não hesitava em ir onde fosse preciso para conseguir a peça, a junta ou o componente necessário. Naquela altura, os chefes de máquinas eram responsáveis por entregar ao estaleiro os sobressalentes para os fabricos, e por isso tinham de se esforçar para evitar que os trabalhos se arrastassem indefinidamente. E o meu camarada era especialmente obstinado e eficaz nessa missão.

Por isso, quando o meu navio atracou ao seu, deve ter visto nele uma nova fonte de abastecimento e passou a ser uma visita frequente à procura do que não tinha encontrado noutros paióis. Ora era uma junta tórica, ora um rolamento, ora outra peça qualquer; de tal forma que começou a gerar preocupação entre os encarregados das secções sempre que se aproximava dos seus equipamentos e sobressalentes. E não eram só eles que ficavam desconfortáveis. O “Sete” também passou a mostrar alguma agressividade, até que, numa noite, mostrou-lhe os dentes e quase chegou a vias de facto.

De manhã, ao atravessar o convés do navio do meu camarada, que por acaso estava de serviço, ouvi as queixas sobre o comportamento do “Sete”. Percebendo o sucedido, pedi-lhe que, doravante e sempre que precisasse de ir às casas das máquinas do meu navio, pedisse a alguém da guarnição que o acompanhasse.

Assim passou a ser, até porque o “Sete” não admitia outra alternativa. Mal pressentia a aproximação do meu camarada, punha-se em guarda e só permitia a entrada nos espaços do navio se fosse acompanhado por alguém da guarnição. Para meu descanso e para tranquilidade dos encarregados das secções.

(A propósito da passagem do NRP António Enes ao estado de desarmamento para abate)

A erosão da justiça constitucional

 


O Tribunal Constitucional (TC) deve habitar, simultaneamente, os estados de neutralidade jurisdicional e de legitimação política. Contudo, o recente anúncio de André Ventura sobre o acordo PSD-CHEGA, estipulando "dois nomes para o PSD e um para o CHEGA", pôs em causa essa função. Com a publicitação da partilha de quotas, extinguiu-se a ambiguidade institucional que permitia a percepção de independência, transformando o TC num anexo da aritmética parlamentar.

O pecado original desta erosão reside na regra da maioria de dois terços para a eleição de juízes. Embora desenhada para forçar o consenso, o mecanismo gerou uma extrema dependência do clima partidário. A auctoritas constitucional tem sido sistematicamente preterida pela docilidade ideológica. Para além de apenas um reduzido número de juízes na trajetória do TC serem efetivamente constitucionalistas, a quota de seis magistrados de carreira é, frequentemente, preenchida por segundas ou terceiras escolhas das cúpulas, perdendo a sua função equilibradora para se tornar apenas mais uma peça no tabuleiro das direções partidárias.

Com a passagem do tempo e a luta pela sobrevivência, os partidos políticos desistiram do papel fundamental de representação dos cidadãos na Assembleia da República. Progressivamente, a “assembleia representativa de todos os cidadãos portugueses”, foi transformada num colégio de delegados partidários que obedece, quase sempre acriticamente, às direções partidárias. Aparentemente, a mesma lógica está a contaminar o TC que nem sequer deve ser uma assembleia representativa de cidadãos ou partidos políticos.

A transição do tradicional duopólio PS/PSD para a nova geometria com o CHEGA aprofunda a "cartelização" do órgão. Ventura utiliza a "pluralidade" como escudo retórico para uma partilha de lugares que degrada o TC numa mera instância de recurso do jogo parlamentar. Se os juízes passam a ser percepcionados como comissários políticos, o Tribunal abdica da sua função de árbitro para se tornar um prolongamento do conflito que deveria fiscalizar.

Ademais, existe uma clara fraude à lei na antecipação pública de resultados de um sufrágio que a lei exige ser secreto. A "garantia política e negocial" afirmada por Ventura despoja o escrutínio parlamentar da sua dignidade ética, reduzindo a Assembleia da República a uma câmara de ratificação formal de pactos de bastidores. Esta prática anula a natureza deliberativa do voto e golpeia a credibilidade das instituições democráticas.

A saúde do regime exige que a justiça constitucional não seja sequestrada por maiorias conjunturais. O dano reputacional é agravado pelo fenómeno da "porta giratória", exemplificado pelo caso do juiz que regressou à actividade política activa logo após o mandato. Quando o órgão que deve controlar o poder político se torna o produto final de uma transação de quotas, o Estado de Direito entra numa zona de penumbra perigosa. Sem uma independência blindada, o Tribunal Constitucional deixa de proteger os direitos dos cidadãos para se tornar, meramente, o último reduto da vontade dos partidos.

sábado, 21 de março de 2026

A anatomia do abismo


O estudo das grandes conflagrações mundiais revela que as guerras não são meros acidentes, mas o resultado de processos graduais de erosão diplomática e percepções erróneas das elites. A história não se repete, mas rima com uma cadência por vezes aterradora. No tabuleiro geopolítico de 2026, os fantasmas do século passado emergem não como meras curiosidades académicas, mas como avisos urgentes.

Confrontamo-nos hoje com a eterna tensão entre a tese de Fritz Fischer — a agressão deliberada por objetivos estruturais — e a de Christopher Clark, cujos "Sonâmbulos" caminharam para o abismo por negligência. O perigo contemporâneo reside precisamente na convergência destes dois mundos: uma retórica de agressão que, embora pareça ruído doméstico, serve objetivos de longo prazo, enquanto as elites globais parecem desaprender os mecanismos que evitaram o Armagedon no passado.

O colapso de 1914 ilustra o perigo da "Primazia da Política Interna", onde elites acossadas pela dissidência doméstica arriscaram a conflagração para consolidar o poder. Contudo, a falha capital foi a rejeição deliberada da diplomacia: o "concerto das potências" ruiu quando Berlim e Viena descartaram a conferência proposta pelos britânicos. Não foi apenas falta de mediação, mas o seu repúdio explícito em prol de um "risco calculado" que ignorou a rigidez das mobilizações militares e a opacidade das intenções austro-alemãs. O prestígio de grande potência sobrepôs-se à prudência, transformando uma crise regional num incêndio total.

A sombra de 1939 projeta uma lição ainda mais amarga sobre a erosão da ordem internacional. A Grande Depressão fez mais do que gerar miséria; destruiu a validade moral dos tratados. O apaziguamento de Chamberlain, tantas vezes lido como ingenuidade, foi antes uma estratégia pragmática ditada pela exaustão psicológica e militar de uma Grã-Bretanha despreparada. Ao conceder os Sudetas em Munique, não se saciou a agressão; validou-se o projeto de Lebensraum. Hoje, o isolacionismo renascente ecoa essa mesma exaustão doméstica, ameaçando desmoronar normas multilaterais em nome de uma paz ilusória que apenas encoraja o agressor.

O núcleo da crise de 2026 reside na desintegração do consenso global e no regresso ao nacionalismo económico. O desprezo de figuras como Donald Trump em relação à ONU e ao compromisso multilateral espelha a falha fatal da Sociedade das Nações. Aqui, o conceito de "Guerra Imaginada" de David Morgan-Owen ganha contornos sinistros: não se trata apenas de populismo "America First", mas da ilusão — a "short-war illusion" — de que um conflito moderno pode ser contido e breve. Tal como em 1914, os decisores políticos arriscam sonambular para o abismo por acreditarem que a força pode ser usada de forma cirúrgica, ignorando que a retórica nacionalista é, por si só, um motor de escalada irreversível.

Encontramo-nos, uma vez mais, no limiar de uma escolha que a memória parece incapaz de ditar. A lição de 1914 e 1939 é que o silêncio diplomático e a ausência de comunicação clara sobre o uso da força são os precursores do desastre. A responsabilidade da memória exige que não confundamos exaustão doméstica com irrelevância estratégica.

Em 2026, a diplomacia activa e a reafirmação das alianças não são opções; são a única barreira contra a repetição da tragédia. O apaziguamento do caos nunca foi uma estratégia de sobrevivência; foi apenas o prelúdio da queda. A decadência de um império acelera quando o seu processo de decisão se torna errático e emocional. Se a base política não travar esta espiral, o "incendiário" na Casa Branca poderá transformar uma crise regional num desastre global de proporções históricas.

segunda-feira, 16 de março de 2026

O salto sem rede da flexibilidade laboral



O anteprojecto do Governo de reforma do Código do Trabalho revela uma ambição clara: aproximar Portugal dos modelos de "flexibilidade competitiva" da Europa Central e do Norte.* Contudo, ao tentar mimetizar a flexisegurança dinamarquesa ou as contagens de tempo alemãs, o legislador ignora as profundas limitações estruturais que tornam este salto um perigoso exercício sem rede.

A primeira e mais crítica limitação é a fragilidade da nossa rede de segurança social. O modelo de flexisegurança assenta num triângulo de ouro que combina facilidade de despedimento com subsídios de desemprego elevados e políticas activas de emprego eficazes. Em Portugal, a realidade é oposta: o país apresenta um dos menores impactos das transferências sociais na redução da pobreza em toda a União Europeia. Sem uma protecção social robusta que amorteça a transição entre empregos, a eliminação da reintegração como regra ou a facilitação do despedimento em PME não geram dinamismo, mas sim uma queda abrupta no rendimento das famílias.

A segunda barreira é a produtividade e a natureza do nosso mercado de trabalho. Com uma produtividade que em 2023 representava apenas 80,5% da média da UE, Portugal já é campeão europeu no uso de contratos a termo. Alargar a duração destes vínculos para três anos ou reintroduzir o banco de horas individual sem a fiscalização sindical que caracteriza o modelo germânico corre o risco de cristalizar um mercado dualista. Nestas condições, a flexibilidade torna-se um mecanismo de transferência do risco económico para os trabalhadores mais jovens e precários.

Finalmente, falta-nos o alicerce da confiança institucional. Enquanto os modelos nórdicos privilegiam a autonomia e o diálogo, as propostas portuguesas surgem num contexto de erosão da contratação colectiva. Importar leis sem investir no capital humano e numa rede de segurança real transformará a "modernização" num agravamento das desigualdades. A flexibilidade só é virtuosa quando o sistema garante que ninguém fica pelo caminho. Sem isso, a proposta do Governo será apenas uma reforma ao sabor dos ventos patronais, desprovida de segurança.

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* A evolução do Direito do Trabalho em Portugal desde a Revolução de 1974 reflete o embate contínuo entre a protecção social e as pressões por competitividade.
1974-2008: Período de consolidação das garantias democráticas laborais, focado na estabilidade do vínculo e na subordinação clássica.
2009 (Lei n.º 7/2009): Instituiu o Código do Trabalho que ainda serve de base ao sistema atual e que transpôs 15 diretivas da UE. Este código consagrou a reintegração como regra preferencial no despedimento ilícito (Artigo 392.º) e modernizou as regras da parentalidade.
2023 (Agenda do Trabalho Digno): Reforma que visou combater a precariedade e reforçar a negociação coletiva. O ponto essencial foi o condicionamento do banco de horas individual a acordos coletivos, protegendo o trabalhador de decisões unilaterais do empregador.
Este ciclo termina em 2023, precedendo a tentativa de viragem para a flexibilização proposta no anteprojeto de 2025.

Afinal, quem move os cordelinhos?



No episódio de ontem do programa “Princípio da Incerteza”, José Pacheco Pereira salientou uma curiosa incoerência no debate político em Portugal: frequentemente, as federações sindicais são acusadas de representar interesses partidários, ao passo que as confederações patronais raramente são alvo da mesma suspeita.

Na verdade, em Portugal, vivemos prisioneiros de um lugar-comum: CGTP e UGT são imediatamente associadas a braços partidários, enquanto entidades como a CIP ou a CAP desfrutam de uma reputação de neutralidade e competência técnica. Este tema, muitas vezes remetido para a esfera académica como uma “elegante irrelevância”, oculta uma profunda assimetria na forma como vemos a influência política no seio do nosso sistema democrático.

A rotulagem política dos sindicatos resulta, em grande medida, da sua estratégia de acção: ao trazerem o conflito para o espaço público, através de greves e manifestações, tornam-se alvos fáceis de estigmatização e colagem ideológica. Em contraste, o patronato habitualmente prefere a discrição dos gabinetes governamentais e da concertação social, onde exerce influência de forma técnica, silenciosa e longe do escrutínio mediático.*

O discurso empresarial protege-se atrás do véu da “racionalidade económica” e da “competitividade”. Assim, enquanto as reivindicações laborais tendem a ser vistas como ideológicas, as propostas patronais surgem envoltas numa suposta necessidade pragmática ditada pelo mercado. É aí que reside o poder estrutural do capital: a dependência dos governos do investimento privado transforma interesses setoriais em “interesse nacional”.

Surge, assim, a perceção do patronato como um “parceiro de Estado” pragmático, cuja legitimidade se enraíza na eficiência económica e não numa ligação partidária explícita. Acresce que a existência de quatro confederações patronais principais (CIP, CAP, CCP, CTP), cujos interesses frequentemente divergem, dificulta a associação direta a um partido político.

No campo sindical, a histórica polarização entre o PCP (na CGTP) e o PS/PSD (na UGT) solidificou, no imaginário colectivo, a narrativa das “correias de transmissão” partidárias, tornando mais fácil a ideia de instrumentalização política.

O estudo mais abrangente sobre este fenómeno, de 2023, da autoria de Marco Lisi, João Loureiro e António Dias, analisou as redes de elites entre partidos e grupos de interesse (económicos e profissionais) ao longo de mais de uma década. Os resultados põem em causa o mito da fusão total entre sindicatos, patronato e partidos, e trazem à luz factos surpreendentes: a sobreposição efetiva de lideranças – isto é, a acumulação de cargos de topo simultaneamente em partidos e grupos de interesse – revela-se fraca em Portugal; a verdadeira “cola” entre organizações reside na estabilidade ideológica, mais do que numa integração orgânica formal; se é verdade que existe maior rotatividade de quadros entre sindicatos e partidos de esquerda, o patronato mantém laços técnicos estáveis com a direita.

O partidarismo, conclui-se, é muitas vezes uma questão de encenação e linguagem: enquanto o patronato se apresenta como tecnocrata nos bastidores do poder, os sindicatos politizam-se para mobilizar as bases. Fica, assim, uma dúvida inquietante: conseguiremos restaurar a confiança nas instituições enquanto perdurar esta assimetria de percepção sobre quem, de facto, move os cordelinhos do Estado?

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* A intermediação de interesses em Portugal revela uma forte assimetria entre o poder visível dos sindicatos e o discreto, mas estrutural, do patronato. Este último beneficia do acesso direto ao governo e exerce influência quase-legislativa, muitas vezes na Concertação Social, relegando o Parlamento para um papel secundário. Julgo que para evitar a deslegitimação democrática, é necessário: 1) desconstruir a "camuflagem técnica", sujeitando as propostas patronais ao mesmo escrutínio ideológico das reivindicações laborais; 2) garantir transparência nos contactos entre governo e patronato, institucionalizando mecanismos que revelem o lobbying; 3) reforçar a primazia da soberania parlamentar, evitando que acordos limitem a vontade popular; 4) equilibrar a visibilidade das redes de influência, responsabilizando sindicatos e patronato igualmente. Penso que só com transparência e consulta, e não com substituição legislativa pela tal "dimensão acima dos Governos e dos órgãos de soberania", se combate a opacidade e se protege a democracia.

sábado, 14 de março de 2026

A guerra de Trump e o preço da irresponsabilidade

 


A guerra iniciada pelos Estados Unidos da América contra o Irão tornou-se um retrato claro da desorientação estratégica da administração de Donald Trump. Longe de fortalecer a posição norte-americana no mundo, este conflito — mal explicado, mal preparado e mal comunicado — está a expor fragilidades estratégicas e morais que vão muito para além do campo de batalha.

As declarações de Trump sobre a guerra oscilam entre o vago e o irresponsável. Em vez de liderar, Trump emite declarações contraditórias: num dia garante que o conflito duraria “quatro a cinco semanas”, no outro afirma que já está ganho, e no seguinte explica que terminará apenas “quando o sentir nos ossos”. Esta volatilidade não é mero estilo; é uma ameaça real à estabilidade internacional. Uma superpotência militar como os EUA não pode conduzir uma guerra com base em intuições pessoais e slogans.

Por outro lado, as consequências da guerra eram previsíveis. O estreito de Ormuz, há décadas identificado como ponto vulnerável e crítico, foi bloqueado pelo Irão, provocando aumentos no preço do petróleo e turbulência económica global. Era um cenário anunciado e inevitável, excepto para quem tomou as decisões.

Mas talvez a faceta mais perturbadora desta guerra seja a forma como a Casa Branca comunica o conflito. Transformar ataques militares em vídeos estilo meme como se fossem clipes de um videojogo, banaliza a vida humana e reduz a guerra a um espectáculo político.

As guerras nunca são boas, são sempre horríveis, e é assim que devem ser tratadas. Tratá-las de forma diferente é um insulto à Humanidade, é uma banalização chocante da violência e um desrespeito profundo pelas vidas perdidas — sejam iranianas, americanas ou de qualquer outra nacionalidade. Apesar dos erros, os líderes norte-americanos do passado tratavam a guerra com gravidade; os de hoje, tratam-na como diversão.

No plano interno, Trump volta a recorrer ao discurso de medo, desconfiança e xenofobia, insinuando até explicações genéticas para os recentes actos de violência nos EUA, numa insinuação que ecoa teorias perigosas e excludentes. Em vez de unir o país, alimenta divisões num momento de tensão nacional.

Conduzir uma guerra requer mais do que poder militar. Exige clareza, consistência e respeito profundo pelas vidas humanas envolvidas. Nada disso tem sido visível na actuação irresponsável da administração Trump. E esse poderá ser o custo mais alto deste conflito, para os EUA e para o resto do Mundo.