sexta-feira, 16 de outubro de 2026

O eco do passado

 


Há palavras que atravessam o tempo e nos trazem um eco distante. Quando, à chegada para uma reunião do Conselho Europeu em Bruxelas, Luís Montenegro comentou os protestos pelo direito à habitação no Porto e a intervenção da PSP, pediu que partidos e movimentos sociais não caiam na tentação de "importar para Portugal climas de instabilidade" sem "respaldo na sociedade portuguesa", motivados por razões "meramente egoísticas". Adicionalmente, assegurou que o país não vive em turbulência e que os protestos eram a expressão de “escassas pessoas”.

A linguagem não é neutra. Para quem viveu no Estado Novo, é difícil não notar o paralelismo com um expediente discursivo desse tempo. A ideia de que a contestação social é um produto "importado do estrangeiro" remete, inevitavelmente, para a retórica de António de Oliveira Salazar. Durante décadas, a propaganda da ditadura alimentou o mito de um Portugal ordeiro e pacífico — um "oásis de paz" —, onde qualquer sobressalto só podia ser fruto de agitação externa ou de traição aos interesses da Pátria.

A estrutura do argumento é surpreendentemente idêntica. Em primeiro lugar, recorre-se à tese do contágio externo. A tensão não nasceria dos problemas reais do país, como a crise no acesso à habitação, mas da cópia de modas e métodos de protesto vindos de fora. Em segundo lugar, desqualificam-se as intenções de quem protesta, fazendo com que o descontentamento deixe de ser uma exigência legítima para passar a ser uma falha moral individual (egoísmo) e um atentado contra o bem comum. Por fim, nega-se a representatividade ao protesto, traçando uma linha entre uma suposta maioria silenciosa e trabalhadora e uma minoria ruidosa sem respaldo real.

Significa isto que vivemos sob o salazarismo? Evidentemente que não. As diferenças de enquadramento são profundas e essenciais. Salazar usava esta narrativa para fundamentar a ditadura, criminalizar a oposição e justificar a repressão violenta, a censura prévia e a perseguição da PIDE. Hoje, vivemos numa democracia, onde o direito à manifestação e à greve são pilares constitucionais. A frase de Montenegro insere-se no debate político de um país livre, sujeita ao contraditório de jornalistas, da oposição e dos próprios cidadãos.

Ainda assim, o recurso a esta fórmula discursiva merece reflexão, pois a comparação entre a intervenção de Luís Montenegro e a doutrina oficial do Estado Novo mostra a continuidade de um repertório conservador de gestão de conflitos sociais. Confrontado com manifestações no espaço público, o poder executivo recorre a esquemas discursivos que enquadram o protesto como inautêntico, exógeno e egoísta, apelando à preservação da ordem e da tranquilidade.

Quando o poder político prefere colar a etiqueta da "instabilidade importada" ou do "egoísmo" aos movimentos sociais, esquiva-se ao essencial, que é debater as causas profundas que levam as pessoas para a rua. Em democracia, contestar não é um acto de egoísmo nem uma importação indesejada — é o exercício pleno da cidadania.

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Como o algoritmo destrói a democracia

 


Houve um tempo em que o debate político se fazia na praça pública, nos jornais e nos parlamentos, espaços onde a contradição, o escrutínio e a ponderação ainda impunham algum travão ao sensacionalismo. Hoje, a arena democrática foi transferida para o ecrã do smartphone, um território governado pela lógica implacável da economia da atenção. Neste novo ecossistema, não vence quem tem a melhor proposta ou o argumento mais sólido, mas sim quem consegue capturar o olhar e inflamar a emoção em breves segundos.

A arquitectura das plataformas digitais não é neutra. Desenhadas para maximizar o tempo de permanência do utilizador, as redes sociais priorizam algoritmos que promovem conteúdos indignados, coléricos e polarizadores. Em busca do clique, a técnica digital descobriu que o ressentimento é o combustível mais rentável do mercado. O resultado é a criação de câmaras de ressonância e filtros-bolha que devolvem a cada indivíduo o eco das suas próprias obsessões e medos, fazendo com que perspectivas radicais e marginais passem a parecer visões hegemónicas e incontestáveis no ecossistema digital.

Esta mutação tecnológica encontrou o seu casamento perfeito com o populismo radical. Como demonstra a investigação do cientista político Vicente Valentim em O Fim da Vergonha, as ideias nativistas e extremistas já habitavam no seio da sociedade, mas eram travadas pelo estigma social. As redes sociais não só quebraram esse isolamento, como legitimaram o indizível. Ao verem líderes políticos comunicar directamente sem o filtro do jornalismo independente, e ao encontrarem milhares de comentários a replicar os seus próprios preconceitos nas redes, os cidadãos perderam a vergonha de assumir posições anteriormente consideradas tabu.

Para operar esta engrenagem, aperfeiçoou-se a estratégia do chamado "efeito trompete". Através de uma táctica cirúrgica, um boato ou conteúdo fabricado nasce na periferia digital e explode exponencialmente quando uma figura política de grande alcance o partilha nas suas redes sociais. Exemplo paradigmático recente foi o vídeo falso gerado por inteligência artificial partilhado por André Ventura, que mostrava duas mulheres muçulmanas de véu a reprovarem ostensivamente o vestuário de uma jovem de saia curta. Editado com cortes intencionais e com a música da série Dexter ao fundo, o vídeo tinha erros técnicos visíveis como uma mão com seis dedos, mas cumpria a função de alimentar a narrativa de uma oposição de costumes entre muçulmanos e o mundo ocidental. Ao ser propagado por um líder político para acentuar a polarização, o conteúdo alcançou vários milhões de visualizações e gerou um alarme social totalmente fabricado. Em sentido contrário, observamos a divulgação nas redes sociais da suposta capa do Jornal Universitário de Coimbra - A CABRA com a deputada Rita Matias, que obrigou a um desmentido da equipa editorial.

A somar a isto, o contágio estende-se às aplicações encriptadas de mensagens como o WhatsApp e o Telegram. Ali, a coberto da privacidade e valendo-se da confiança entre familiares e amigos, a desinformação sobre imigração e subsídios circula sem qualquer contraditório, minando a coesão social à margem dos factos estatísticos oficiais.

Todavia, há quem argumente que o problema essencial não é a democracia em si, mas sim a erosão do pressuposto básico da vida em sociedade — a necessidade de existir uma correspondência mínima e previsível entre o que parece e o que é. Sob esta perspetiva, o algoritmo seria apenas um bode expiatório, comparável à aguardente ou ao haxixe. A culpa, diz-se, não reside no agente viciante, mas na fraqueza de quem não sabe resistir ao vício, e tentar alterar isso seria incorrer no erro histórico de querer fabricar um "Homem Novo" imune à imperfeição humana.

Esta comparação, contudo, assenta numa falsa equivalência. Uma garrafa de aguardente é um objecto estático numa prateleira. Não estuda os nossos dados pessoais, não mapeia as nossas vulnerabilidades emocionais, não envia notificações personalizadas às três da manhã e não altera a sua composição em tempo real para maximizar a dependência. As plataformas digitais não são substâncias passivas, são sistemas dinâmicos de engenharia comportamental concebidos por milhares de engenheiros e financiados por orçamentos multimilionários para reter e modular a atenção. Culpar a fragilidade individual perante uma máquina assimétrica de optimização comportamental é ignorar a escala desproporcional do confronto.

Por outro lado, enquanto o consumo excessivo de álcool destrói a saúde privada do indivíduo, a manipulação algorítmica destrói o bem comum. Se a vida comunitária exige que exista confiança na percepção da realidade, o algoritmo actua como um poluidor que contamina o poço de água pública. Quando a desinformação orquestrada e a raiva fabricada se tornam a moeda de troca no debate público, o prejuízo deixa de ser um vício individual e passa a ser a destruição do solo factual comum que permite a convivência em paz.

Por fim, exigir a regulação das plataformas não é qualquer tentativa utópica de refundar a natureza humana. A humanidade não precisou de criar um "Homem Novo" para proibir a contaminação alimentar pela indústria, impor cintos de segurança nos automóveis ou proibir a publicidade ao tabaco. Regular o ecossistema digital — exigindo transparência nos algoritmos, limitando a microsegmentação agressiva e travando a capitalização do ódio — é apenas aplicar regras elementares de responsabilidade empresarial a um mercado descontrolado.

Quando o ecossistema informativo substitui a verdade factual pelo impacto emocional, a democracia deixa de ser um exercício de deliberação racional entre cidadãos para se converter numa arena digital de paixões orquestradas. Resignarmo-nos a que o problema é das pessoas é uma paralisia que serve apenas os demagogos que lucram com o medo e as gigantes tecnológicas que enriquecem com o caos e não formos capazes de impor limites e resgatar o valor do contraditório, seremos meros figurantes num espectáculo onde o algoritmo decide o que sentimos, o que tememos, como vivemos em sociedade e, em última análise, em quem votamos.

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

A inteligência artificial e a epopeia humana

 


A imagem gerada por inteligência artificial que o matemático francês Hugo Duminil-Copin projectou durante uma intervenção na Société Mathématique de France, transmite um sentimento que transcende a frieza da apresentação. Revelada nas páginas do jornal Le Monde — na reportagem assinada por Hervé Morin no caderno Science & Médecine da edição de hoje —, a ilustração de um coelho prestes a ser esmagado por um camião para descrever o impacto de um recente anúncio da OpenAI, deu voz ao sobressalto de toda uma comunidade científica. A sua confissão pública de ter chorado na noite em que a empresa americana disponibilizou mais de 719 documentos de trabalho científicos na internet, pretendendo resolver centenas de problemas matemáticos por solucionar, é o retrato comovente do confronto entre a sensibilidade humana e a brutalidade dos algoritmos.

O que a OpenAI operou não foi um avanço científico tradicional, mas uma demonstração de força. Ao publicar mais de 3 500 páginas de demonstrações geradas por inteligência artificial — abordando de uma só vez 16 questões essenciais em que Duminil-Copin e a sua equipa trabalhavam —, a gigante tecnológica procurou demonstrar uma capacidade de "massacre" e "desmantelamento" da actividade matemática humana. Mais grave do que a velocidade foi o atropelo ético. Como revela a investigação do Le Monde, a empresa ignorou as recomendações do comité consultivo de investigadores, utilizou modelos internos não comercializados e produziu textos amplamente ilegíveis e sem a devida formalização lógica, vendo-se até forçada a retirar três artigos no dia seguinte devido a erros flagrantes.

Como bem denunciou o matemático francês ao diário parisiense, a OpenAI actuou com uma total indiferença pela comunidade científica, demonstrando que "não quer saber da epopeia humana" e rotulando todo este processo como genuinamente "inhumano". A leitura de uma demonstração matemática perde o seu sabor e o seu sentido quando deixa de ser o fruto da cooperação e do génio de pessoas com rostos conhecidos, transformando-se num produto industrial. Além disso, esta pilhagem algorítmica ameaça destruir o ecossistema de partilha e discussão livre de ideias que sempre fez a riqueza da ciência, forçando investigadores a fecharem-se sobre si mesmos por receio de verem os seus raciocínios capturados por agentes virtuais — uma violência que penaliza, acima de tudo, os jovens cientistas em formação.

Contudo, a resposta de Hugo Duminil-Copin perante este terramoto oferece uma lição de dignidade. Recusando-se a capitular ou a resignar-se a ser um mero leitor de milhares de páginas produzidas por máquinas, o investigador lembra que a verdadeira matemática não reside apenas na acumulação bruta de teoremas, mas na capacidade de compreender, digerir, ensinar e criar comunidade em redor do conhecimento. O futuro da ciência humana continuará a passar pela busca de "pérolas" intelectuais e pela paixão de transmitir aos outros o encanto da descoberta. Se a inteligência artificial consegue produzir milhares de páginas em poucas horas, só o ser humano é capaz de dar sentido à caminhada.

A sombra da dívida francesa

 


Há uma profunda ironia na forma como a história financeira se desenrola. Durante mais de uma década, os manuais de ortodoxia orçamental da Zona Euro foram ditados a partir do eixo central francês e alemão, enquanto os países do Sul carregavam o estigma dos desequilíbrios. Hoje, o cenário inverteu-se de forma dramática, com a França a transformar-se no principal foco de instabilidade da economia europeia, aprisionada numa espiral de dívida, défices fora de controlo e paralisia política.

Os números que inquietam os mercados são inequívocos, destacando-se uma dívida pública de 3,6 biliões de euros, equivalente a 119% do PIB, e um défice orçamental de 5,4%. Com os rendimentos dos títulos do Tesouro francês a dez anos a roçarem os 5% — mínimos de confiança não eram vistos há mais de duas décadas — e o diferencial face às obrigações alemãs a ultrapassar os 140 a 150 pontos-base, assiste-se a um facto histórico e perturbador. Os investidores exigem agora juros mais elevados para emprestar dinheiro a Paris do que a Lisboa, Madrid ou Roma. O risco de contágio sistémico levou mesmo economistas como Paul Krugman a alertar para o pesadelo de uma França que se tornou demasiado grande para falir e simultaneamente demasiado grande para ser salva.

Se o impacto económico é devastador, a forma como a crise é descrita na imprensa internacional permite traçar um fascinante mapa da ansiedade europeia, variando de forma expressiva consoante a geografia dos jornais.

Na imprensa francesa, o tom oscila entre a amargura do orgulho ferido, o escrutínio institucional e o sarcasmo político. O Le Figaro lamenta a perda dolorosa do estatuto privilegiado do país na Zona Euro, enquanto o Le Monde destaca o bloqueio no Parlamento, onde a oposição chumba o orçamento e força o Governo a equacionar governar por lei especial de emergência perante a contestação social nas ruas. Já a imprensa satírica resume a incapacidade governamental com a máxima irónica de que se tornou mais fácil fechar liceus do que fechar um orçamento.

Nas páginas da imprensa portuguesa, sobressai uma mistura de surpresa, alívio cauteloso e inquietação estratégica. O Jornal de Negócios assinala sem rodeios que a perda de credibilidade francesa representa uma ameaça explosiva, destacando com um toque de orgulho contido que Portugal se apresenta hoje com contas equilibradas e saldo nulo, imune ao castigo imediato dos mercados. No entanto, os analistas nacionais não ignoram que um incêndio na segunda maior economia da União Europeia acabará por sobrecarregar os custos de financiamento de todo o bloco.

Por sua vez, a imprensa espanhola, através de jornais como o El Economista, adopta uma linguagem incisiva e puramente financeira. Divulga com pragmatismo o novo e azedo acrónimo criado por gestores de fundos — a sigla FROGS (FRench Over-sized Government and Social Security) — surgida em contraponto ao antigo e pejorativo termo PIIGS para sinalizar que o verdadeiro risco fiscal reside agora no modelo de despesa pública de Paris.

Por fim, na imprensa anglo-saxónica e global, o olhar revela-se clínico, severo e por vezes moralista. O The Wall Street Journal nota que a França continua a cavar o seu próprio buraco, comparando a resistência gaulesa aos cortes com a disciplina nórdica. O Financial Times avisa que os vigilantes dos mercados de obrigações estão de volta para punir a irresponsabilidade fiscal, ao passo que crónicas internacionais denunciam uma recusa da realidade por parte de uma sociedade que exige serviços públicos de excelência, mas recusa pagar a respectiva factura.

Em última análise, a crise da dívida francesa desmonta a ilusão de que o centro do continente está imune às leis da gravidade económica. Enquanto o Sul da Europa já pagou uma conta pesada para reorganizar as suas finanças, o coração do continente aprende agora que, no mundo capitalista, desafiar os mercados e ignorar quem empresta dinheiro é o caminho mais curto para deixar de mandar na sua própria casa e perder o controlo do seu próprio futuro.

Quando as máquinas se calam



Apesar de há várias décadas observar o fecho de empresas e o desmantelamento do tecido produtivo nacional, não consigo ficar indiferente aos dramas humanos quando uma fábrica se cala. Em Oliveira de Azeméis, a Schmidt Light Metal, fundada em 1989, afirmou-se como uma referência da indústria metalomecânica. Da fundição de alumínio a alta pressão saíram mais de 90 milhões de peças para o mercado europeu, transformando a unidade num pilar económico da região. Contudo, o pulsar das máquinas parou a 30 de Setembro.

O encerramento definitivo desta unidade não é um episódio isolado, mas o reflexo visível do efeito dominó da transição energética no sector automóvel. Com a acelerada viragem para a mobilidade eléctrica, a procura por componentes de motores a combustão desabou, estrangulando uma fábrica cuja sobrevivência dependia quase exclusivamente do grupo Volkswagen. A perda de escala e o acumular de um passivo de 94 milhões de euros ditaram a inviabilidade do negócio, arrastando 318 trabalhadores para o doloroso sobressalto do desemprego. Curiosamente, a empresa teve como accionista e principal rosto, até há pouco tempo, o pai do actual presidente do FC Porto, um detalhe que ilustra como os caminhos do capital e do poder empresarial se cruzam com o destino do trabalho.

Por trás dos números frios da insolvência, o verdadeiro drama desenrola-se à mesa das famílias afectadas, muitas de casais operários experientes com mais de 50 anos. É o caso concreto de um operário com 25 anos de casa ouvido pelo JN que, com a cessação do contrato marcada para 7 de Dezembro, tenta abraçar o futuro com esperança, desabafando ainda assim sentir-se abandonado. Para este trabalhador e para tantas famílias atingidas, a transição ecológica global não é uma abstracção de futuro, mas uma dolorosa tempestade do presente.

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

O abraço do urso



Na Europa central, a tentação da direita liberal e conservadora – aquela que partilha o ADN reformista de Passos Coelho – em cruzar a linha vermelha da extrema-direita deixou de ser uma hipótese académica para se tornar num padrão. A fórmula parecia simples e sedutora: instrumentalizar o radicalismo populista para viabilizar maiorias parlamentares, aplicar agendas radicais de flexibilização económica e confiar que a gravidade da governação domesticaria os parceiros imprevisíveis. Os resultados, contudo, revelaram-se devastadores para a direita tradicional.

A experiência da Áustria aos Países Baixos, passando pela Finlândia e por Itália, mostra que a estratégia da integração falhou sistematicamente. Em quase todos os cenários, a direita liberal aceitou ceder na imigração, na justiça e na coesão social para salvar a sua agenda económica. Mas ao validar os temas e o léxico da extrema-direita, em vez de esvaziarem os radicais, legitimaram-nos perante o eleitorado.

A consequência foi a perda da liderança do espaço político. O eleitorado, confrontado com a escolha entre o original e a versão diluída, acabou por preferir o original. Em Itália, os Fratelli d'Italia engoliram a Forza Italia. Na Áustria, o FPÖ ultrapassou o ÖVP nas urnas. Nos Países Baixos, a abertura de portas do VVD acabou por entregar a vitória ao PVV de Geert Wilders em 2023.

Perante este resultado, a direita tradicional procurou redefinir estratégias para evitar a submissão total através de variadas abordagens. Uma dessas tentativas passou pela via do governo extra-parlamentar nos Países Baixos. Após a vitória do PVV, o centro-direita, representado pelo VVD e pelo NSC, recusou um executivo directamente liderado por Geert Wilders, impondo a escolha do independente Dick Schoof para Primeiro-Ministro e mantendo os líderes partidários fora do gabinete. No entanto, esta tentativa de governação tecnocrata acabou por colapsar devido à instabilidade do parceiro radical, culminando em eleições antecipadas e no regresso a uma solução de centro liderada pelos liberais.

Outra abordagem baseou-se na reafirmação do cordão sanitário e em pontes ao centro, tal como sucede na Alemanha, onde a CDU de Friedrich Merz tem mantido a recusa categórica de coligações com a AfD, optando por pactos pragmáticos e acordos pontuais com a social-democracia. Em países como a Grécia e a Polónia, a estratégia assentou na diferenciação pela via da responsabilidade institucional. A Nova Democracia de Kyriakos Mitsotakis e a Plataforma Cívica de Donald Tusk contiveram a proliferação da extrema-direita ao posicionarem-se como garante absoluto de estabilidade macroeconómica.

Finalmente, investiu-se na resolução concreta do descontentamento público. Na Grécia, por exemplo, o centro-direita procurou combater as causas materiais do populismo ao focar-se em aliviar a crise da habitação, baixar impostos sobre rendimentos e dinamizar o poder de compra.

A direita liberal descobriu uma dura verdade. Quando decide alinhar com a extrema-direita para chegar ao poder, não está a alargar a sua base, mas a assinar a sua própria submissão. Evitar o "abraço do urso" exige coragem política para construir maiorias ao centro e mostrar que a eficácia reformista não necessita da extrema-direita para governar.

domingo, 11 de outubro de 2026

Alquimia político-diplomática



Há uma poesia quase tocante na forma como a diplomacia portuguesa consegue conciliar o inconciliável com um sorriso rasgado. Enquanto o Conceito Estratégico de Defesa Nacional (CEDN) consagra solenemente o primado do Direito Internacional, o multilateralismo e o respeito pela Carta das Nações Unidas como os pilares sagrados da segurança e soberania de Portugal, os governantes portugueses desdobraram-se em vénias e elogios ao Secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio — a encarnação viva da doutrina “America First” e do mais puro realismo ofensivo unilateral. É verdadeiramente fascinante observar como a retórica oficial clama por uma ordem internacional baseada em regras enquanto presta vassalagem diplomática a quem encara as alianças globais como meros contratos de protecção mercantilista e de conveniência.

Na conferência de imprensa conjunta, o espectáculo de contorcionismo ideológico roçou o sublime, com o ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, a invocar patrioticamente o vinho da Madeira com que se brindou à independência americana há 250 anos e a gabar-se de que Portugal deu um salto vertiginoso para atingir os 2% do PIB em despesas de defesa logo em 2025. Não satisfeito, o chefe da diplomacia portuguesa proclamou com desarmante candura que os Estados Unidos são o "único interlocutor" capaz de resolver o conflito na Ucrânia, arquivando momentaneamente a autonomia estratégica europeia e o multilateralismo que o próprio CEDN coloca no topo das prioridades nacionais. Por sua vez, o Primeiro-Ministro Luís Montenegro apressou-se a classificar a relação bilateral como "excelente a todos os títulos", celebrando com entusiasmo uma parceria em que a soberania nacional se reduz a conceder "aprovação condicional" para a utilização militar da Base das Lajes na Operação Epic Fury.

Marco Rubio, por seu lado, desempenhou com mestria o papel de patrono benevolente, brindando Portugal com o rótulo de "grande aliado" — um elogio que, no léxico pragmático de Washington, traduz a total disponibilidade de Lisboa para facultar bases e espaço aéreo sem fazer perguntas incómodas sobre a natureza das missões. Confrontado sobre os alertas da Amnistia Internacional e as investigações do Ministério Público português relativamente a eventuais violações do Direito Internacional a partir dos Açores, Rubio despachou a Amnistia Internacional como sendo "uma fraude" e afiançou que o uso das Lajes cumpre escrupulosamente os "protocolos" existentes. Em retribuição por tamanha facilidade geostratégica, o chefe da diplomacia americana acenou com a promessa de transformar Portugal na "porta de entrada ideal" para a tecnologia e o capital dos EUA, aproveitando de passagem para incentivar a compra dos caças norte-americanos F-35 em detrimento de opções europeias.

Consumou-se assim uma admirável alquimia político-diplomática: de manhã, jura-se fidelidade inabalável às instituições multilaterais, à Carta da ONU e à rejeição do domínio das grandes potências; à tarde, estende-se a passadeira vermelha a quem ridiculariza os organismos internacionais e exige 5% do PIB em orçamento militar. No final, resta a lição magistral de diplomacia nacional: os princípios estratégicos de Portugal são absolutamente sagrados e invioláveis — excepto quando entra pela porta um Secretário de Estado norte-americano.