sábado, 25 de abril de 2026

Anatomia do delírio



Na sua mais recente incursão pela aritmética da demagogia, o orador decidiu que o 25 de Abril padecia de uma excessiva especificidade histórica. Para quê celebrar uma data fundacional quando se pode diluir o heroísmo numa liquidação sazonal de patriotismo? Ao proclamar que este é o dia dos "capitães de janeiro, de fevereiro, de março" e de todos os meses até dezembro, o orador não está a expandir a liberdade; está a transformá-la numa mercadoria banal, uma espécie de subscrição de baixo custo onde o mérito, por ser de todos e de qualquer altura, acaba por não pertencer a ninguém. A estratégia é de um cinismo transparente: ao converter a Revolução num horário de expediente ininterrupto, esvazia-se o simbolismo dos Capitães de Abril, substituindo a História por um serviço de atendimento permanente ao ressentimento.

A repetição compulsiva, quase gaguejada, da expressão "apunhalados pelas costas" — proferida com o vigor de quem recita um panfleto de 1933 — é a pedra basilar da narrativa. O orador ignora deliberadamente o colapso inevitável de uma ditadura exausta e de uma guerra colonial insustentável para oferecer uma explicação muito mais palatável ao seu público: a de que a História de Portugal foi decidida por uma conspiração de sombras e punhais.
 
É a vitimização elevada a doutrina de Estado, onde a complexidade do fim de um império é reduzida a um episódio de traição barata. Como a frase “Apunhalados pelas costas, assim fomos", três vezes repetida, o orador vende uma fantasia de Rambo lusitano a uma audiência sedenta de culpados, transformando o trauma histórico da descolonização num combustível eterno para o rancor, enquanto apaga o facto de que quem "matava militares" era o resultado directo de décadas de uma política colonial cega e falida.

Ao insistir que os oponentes de outrora eram meramente "assassinos", o orador anula o contexto internacional para transformar a História num caso de polícia. O objetivo é criar um sentimento de injustiça perpétua que só pode ser curado por um "salvador" que reconheça as feridas imaginárias deste punhal invisível, convenientemente empunhado pela "esquerda" de estimação.

Mas não satisfeito em reescrever o calendário e a História, o orador decide intervir na botânica. A introdução do "cravo verde" como símbolo "puro" dos emigrantes é um golpe de marketing puritano. Há uma fixação quase patológica com aqueles que "andam com flores para a frente e para trás a beber cerveja" no Largo do Carmo. Para o orador, a celebração da liberdade é um pecado mortal se for acompanhada de alegria ou, horror dos horrores, de um copo de cevada. Onde outros veem festa popular, ele vê uma "classe política degradada" que prefere gastar "um milhão de euros em comissões" a dar reformas dignas.

Para o orador, o lado errado (o "Eles") são os cravos vermelhos (símbolo de "cinco ou seis"), a cerveja e os cantos no Largo do Carmo, os museus de 1 milhão e salários de 5 mil euros, a Constituição "levada ao colo" à noite e os índices de corrupção de Portugal. Para ele, o lado certo (o "Nós") são os cravos verdes (acessório de pureza para emigrantes), o silêncio pio e a meditação sobre o abismo das pensões, as escolas que honram a "História de séculos" (sem especificar qual), a autoridade do Estado sobre o "bandido" e o padrão de virtude do Botsuana e da Arábia Saudita.

A ironia de um nacionalista fervoroso utilizar monarquias absolutas ou democracias africanas em desenvolvimento como o padrão-ouro para humilhar o seu próprio país é deliciosa. O orador sugere que a corrupção é uma flor que nasce do cravo vermelho, enquanto propõe um "silêncio" purificador que, convenientemente, nunca explica como pagará as tais pensões que usa como arma de arremesso.

O orador é um mestre na "segmentação do ódio". Ele cria uma competição de misérias onde a felicidade de um grupo é, por definição, o roubo do outro. É uma reality TV da exclusão social, onde mães, polícias e casais lutam pelo título de "mais oprimido" contra o vilão da semana: o imigrante, o cigano ou o "bandido". Esta "voz dos silenciados" é, na verdade, um megafone que amplifica preconceitos latentes sob a túnica da preocupação social.

Segundo o guia prático para se sentir um silenciado de Abril, se não há creche para o seu filho, não culpe a falta de investimento público; culpe o imigrante que, na mitologia do orador, tem sempre "prioridade". Se não consegue comprar casa, ignore o mercado imobiliário, convença-se de que a Câmara "só construiu para ciganos" e adopte a postura de mártir habitacional. Acredite que a autoridade da polícia foi substituída pelo direito absoluto do criminoso e que o SNS gratuito é apenas um esquema para o obrigar a pagar seguros de saúde. O orador não deseja dar voz a ninguém; ele deseja que todos gritem a mesma partitura de exclusão, transformando problemas sociais complexos em ódios de estimação fáceis de digerir.

O espectáculo termina com uma profecia de sabor messiânico. O orador projeta-se para 2026, autoproclamando-se a "voz de todos os dias", o guia de uma "direita grande" que não descansará enquanto não "transformar a liberdade". Há uma arrogância monumental na afirmação de que "vocês serão vencidos", como se a democracia fosse um jogo de soma zero onde a sua ascensão exige a aniquilação simbólica do outro.

Ao clamar que representa "o trabalho e os seus trabalhadores" contra um país feito para "quem não fazia nada", o orador encerra o seu delírio com a promessa de uma "nova madrugada". A ironia suprema reside no facto de alguém que fez da oratória parlamentar a sua única profissão conhecida, atacar aqueles que, supostamente, nada produzem. É o vazio absoluto vestido de seda retórica, prometendo o paraíso enquanto cultiva o ódio no jardim da República.

Em suma, a retórica do orador é um eco ruidoso que tenta preencher com ressentimento o vácuo deixado pela sua total ausência de soluções reais para os problemas das pessoas.

Vamos defender a Democracia

 


Há quem diga que a democracia é como o ar que respiramos: só damos pela falta dele quando rareia ou se torna tóxico. Em Portugal, após décadas de estabilidade democrática que tanto custou conquistar, os ventos globais e nacionais trazem um aviso claro — nada está garantido para sempre.Vivemos um tempo em que a democracia é uma escolha diária. O legado do 25 de Abril, que nos devolveu a liberdade e a dignidade, enfrenta hoje múltiplas ameaças, como a polarização, o populismo ou as fragilidades das instituições que deveriam ser o pilar dos direitos e garantias de todos.

A confiança nas instituições diminui com a percepção das injustiças e um debate público fragmentado e emocional, dominado pelos discursos extremistas das redes sociais. Por outro lado, os partidos políticos afastam-se dos seus princípios e os líderes apostam mais no impacto imediato do que na construção de soluções robustas para os problemas das pessoas. E o perigo, como nos ensina a História, é quando o medo e o ódio pelo outro ditam as regras, afastando-nos do bem comum.

Mas não temos de aceitar o caminho da resignação. O futuro da nossa democracia depende da capacidade de cada um, cidadão comum ou responsável político, escolher a esperança em vez da descrença, a generosidade em vez da exclusão, a justiça em vez da indiferença. O desafio está em reformar as instituições, sim, mas também em humanizar o debate público.

A democracia portuguesa só sobreviverá se voltarmos a acreditar na força dos valores que inspiraram o 25 de Abril; se não deixarmos a política à mercê de populismos ou divisões e, de mãos dadas, exigirmos transparência, participação e respeito pelos valores que nos transformaram num país livre.

Que cada um de nós seja protagonista com coragem e ética, para que a esperança, a generosidade e a justiça continuem o Portugal de Abril.

domingo, 19 de abril de 2026

Progresso ou retrocesso?


A reforma laboral que hoje se discute em Portugal será um salto para o futuro ou apenas mais um passo atrás? Esta é a questão que todos os que procuram reflectir sobre o futuro do trabalho, tal como a minha colega e amiga Maria de Fátima Carioca, Dean da AESE Business School e Professora na área de Fator Humano na Organização, fez na recente crónica no Deans’ Corner do Jornal de Negócios com o título “O futuro do trabalho: entre a tecnologia e as pessoas”, procuram responder. E é por isso que não pude deixar de constatar que entre promessas de flexibilidade e modernização, a proposta “Trabalho XXI” do Governo liderado por Luís Montenegro e as teses da Professora Maria de Fátima Carioca colidem precisamente no que deveria ser essencial: garantir que o trabalho não se torne um bem descartável, mas sim um pilar de dignidade humana.

É certo que a análise das duas posições revela uma convergência superficial – ambas reconhecem que a lei actual está presa a um modelo industrial ultrapassado, incapaz de responder à economia digital e ao impacto da inteligência artificial. Mas é na execução das medidas que surgem divergências profundas e inquietantes. Fátima Carioca propõe um modelo centrado na pessoa, onde os direitos acompanham o indivíduo, independentemente do vínculo laboral. Já a reforma governamental, ao facilitar despedimentos e precarizar vínculos, arrisca “tirar o tapete social” aos trabalhadores, numa lógica da empresa acima da pessoa.

A redução da formação em microempresas revela outra contradição flagrante: quando a automação ameaça 29% dos empregos e Fátima Carioca defende um movimento de formação em massa para enfrentar a IA, cortar horas de formação como o Governo propõe é minar o futuro. E nas plataformas digitais, as novas regras podem deixar muitos trabalhadores à margem da protecção social que se exige neste novo mundo laboral.

O único ponto de verdadeira aproximação reside na conciliação entre trabalho e vida, com o reforço da licença parental. Mas, perante o impasse social e sindical, cabe perguntar: queremos uma sociedade mais flexível ou simplesmente mais frágil? Se a lei apenas acelerar o mercado e ignorar a dignidade do indivíduo, a reforma da lei laboral será apenas um passo mais rápido rumo a um futuro desigual.

A proposta de reforma do Governo parece preferir eficiência à equidade, quando o nosso grande desafio como sociedade é não sacrificar a humanidade em nome do progresso. É por isso que devemos reivindicar uma lei que nos prepare para o século XXI sem nos fazer regredir ao século XIX e construa um sistema centrado na pessoa e na segurança universal que a Fátima Carioca defende como o único caminho para um futuro com sucesso em Portugal.

Mensagem de solidariedade

 


Minha Filha,

Ficámos profundamente tocados ao conhecer o teu trabalho incansável nesta semana e a triste beleza do que proporcionaste ao teu 'menino adulto'. Compreendemos o peso no teu coração e o vazio deixado por ele na instituição. Mas queremos que saibas que o que fizeste foi o acto mais nobre de amor e competência que alguém pode exercer.
 
Escolher o caminho da não-hospitalização foi colocar a dignidade dele acima da tua própria tranquilidade. Mantê-lo no seu ambiente, rodeado pelos pais e pela equipa que o conhecia, representa o padrão-ouro da humanização. Dessa forma, transformaste aquele quarto num lugar especial onde a morte não foi uma derrota, mas uma partida serena. Permitir que os pais nonagenários segurassem a mão do filho até ao fim, longe das máquinas frias de um hospital, é algo que eles sempre guardarão como consolo.

Não te sintas derrotada pela tristeza. Essa dor que sentes é a prova de que cada um dos teus 'meninos' é alguém único para ti. Tu foste a ponte, o abrigo e a paz de que ele precisava para fechar os olhos. O teu 'menino adulto' partiu sabendo-se amado, e isso é a maior vitória que uma instituição pode alcançar. Agora descansa, porque a tua missão foi realizada com uma perfeição rara que não se ensina nos livros, mas que vem do coração.

Estamos muito orgulhosos de ti.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Como debater História com populistas



Já alguma vez tentou debater História com alguém cuja única intenção é ganhar, sem nunca ouvir o outro e interrompendo constantemente? Se sim, bem-vindo ao universo dos debates onde o populismo transforma simples conversas em autênticos confrontos verbais. Contudo, existe uma forma de mitigar o mal: compreender as estratégias do adversário e nunca perder a linha de raciocínio.

O populista apresenta sempre uma narrativa de nós contra eles, colocando o povo contra a elite – e rapidamente transforma os historiadores nos vilões. Em vez de procurar a verdade, constrói versões que lhe são favoráveis e tenta silenciar quem o contradiz. A sua táctica é fazer ruído, interromper, lançar ataques pessoais e encher o debate de argumentos, muitos deles sem lógica. O objectivo não é esclarecer, mas confundir e sair vencedor.

Para evitar cair nessas armadilhas, quem debate deve manter a serenidade, focar-se nos factos e fazer perguntas precisas. Em vez de se envolver em discussões acaloradas, é preferível ouvir, repetir o que o outro disse (para impedir que se afaste do tema) e desmontar as contradições uma a uma. O uso de silêncios estratégicos e de humor pode ajudar a quebrar o ritmo do adversário e a conquistar a audiência para o campo da razão.

Defender a História, nestes tempos turbulentos, é manter a dignidade e não permitir que a verdade seja esmagada por versões fabricadas. O essencial é não desistir de clarificar, manter a calma e mostrar que, no fim, a razão prevalece sobre qualquer gritaria. No fundo, o verdadeiro desafio é transformar o confronto num diálogo genuíno, onde todos podem sair beneficiados.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

O Colapso do "Laboratório Iliberal"

 

A queda de Viktor Orbán pode ser mais do que uma simples alternância de poder. Pode representar o colapso do eixo nacional-populista mundial que tinha na Hungria de Orbán a sua estrela guia. Para Trump e a sua administração, Orbán era o laboratório da captura institucional, do controlo absoluto e da erosão do Estado de Direito democrático. Mas nem a intervenção directa de JD Vance nem o peso do “efeito Trump” conseguiram salvar o regime perante uma mobilização cívica sem precedentes, com uma participação eleitoral recorde de 77,8%.

O choque da Guerra contra o Irão, com a inflação a 2,7% e os custos dos combustíveis a dispararem, revelou a vulnerabilidade do modelo autocrático e a crise económica tornou insustentável o contrato populista. Péter Magyar, conhecedor das entranhas do regime e convertido em denunciante, soube usar as redes sociais para romper o bloqueio mediático, centrando o seu discurso na corrupção sistémica e na urgência económica. O resultado foi uma vitória histórica do partido Tisza, que conquistou dois terços do parlamento, enquanto o Fidesz foi reduzido à insignificância política.

A derrota de Orbán não abalou apenas a Hungria. No xadrez internacional, é um revés para a agenda MAGA/Project 2025 e para a diplomacia kingmaker de Mar-a-Lago. Pode ser o primeiro passo para a derrota da extrema-direita global liderada por Trump, provando que o retrocesso democrático é reversível e nem o controlo absoluto das instituições resiste ao divórcio com a realidade económica e à vontade soberana de uma nova geração decidida a recuperar o seu futuro. O autoritarismo moderno, por mais blindado que pareça, não é imune à exigência de dignidade de um povo.

terça-feira, 7 de abril de 2026

O brinde da Liberdade


A imagem de dois homens de cabelos brancos, brindando com um copo de vinho tinto enquanto uma cópia da Constituição da República Portuguesa repousa sobre a mesa, encerra em si mais do que uma celebração de amizade; é o retrato da síntese histórica que permitiu a transição de Portugal para a modernidade democrática. À direita, Jorge Manuel Moura Loureiro de Miranda, o jurista que deu forma normativa à liberdade; à esquerda, Luís Manuel Dias Costa Correia, o oficial de Marinha que garantiu a integridade logística da vontade popular. O encontro original entre eles, ocorrido há seis décadas, não foi apenas uma coincidência de escalas de serviço, mas o prelúdio de uma cooperação silenciosa entre o pensamento jurídico e a acção militar que viria a ser o garante da estabilidade constitucional portuguesa.

Para compreender a profundidade do vínculo entre Jorge Miranda e Luís Costa Correia, é imperativo recuar ao Portugal de 1966. O país encontrava-se mergulhado no esforço da Guerra Colonial, e a Marinha, enquanto ramo tecnologicamente mais avançado das Forças Armadas, servia como um ponto de confluência entre a elite militar de carreira e a elite intelectual universitária convocada através da Reserva Naval.

A Direcção do Serviço de Armas Navais (DSAN) era o centro nevrálgico da manutenção, desenvolvimento e gestão dos sistemas de armas da Armada. Num período em que a Marinha Portuguesa modernizava a sua frota para responder aos desafios nos teatros de operações africanos e aos compromissos no âmbito da NATO, a DSAN exigia um rigor administrativo e técnico sem precedentes. Foi neste ambiente de precisão e hierarquia que o Oficial da Reserva Naval Jorge Miranda foi colocado após concluir o 8.º CEORN - Curso Especial de Oficiais da Reserva Naval.

A Reserva Naval (RN) funcionou, involuntariamente por parte do regime de Salazar e Caetano, como um "cavalo de Tróia" da democracia. Ao recrutar os melhores licenciados para servirem como oficiais, a Marinha permitiu que o pensamento liberal e democrático circulasse entre os oficiais de carreira. Jorge Miranda, já então um jurista distinto, trazia consigo o rigor do Direito Público, enquanto Luís Costa Correia possuía a experiência de quem vira a realidade do país e das colónias de perto, imbuído de um espírito democrático que remontava à sua juventude.

Nascido em Setúbal em 1939, Luís Costa Correia representa a linhagem de oficiais da Marinha que souberam distinguir a lealdade à Pátria da obediência cega a um regime caduco. Integrou o Movimento das Forças Armadas (MFA) e teve um papel activo na ocupação da PIDE/DGS no 25 de Abril de 1974, um acto simbólico e prático de desmantelamento do aparelho repressivo. Mas o maior contributo de Luís Costa Correia para a democracia portuguesa ocorreu fora da Marinha, utilizando a disciplina nela aprendida. Como Director-Geral do Secretariado Técnico dos Assuntos para o Processo Eleitoral (STAPE) entre 1975 e 1977, foi ele o arquitecto do primeiro recenseamento eleitoral democrático em Portugal e o organizador das primeiras eleições livres para os novos órgãos de soberania.

Jorge Miranda, nascido em Braga em 1941, percorreu um caminho que o elevou ao estatuto de "Pai da Constituição" de 1976. A sua passagem pela Marinha como oficial da Reserva Naval não foi um mero parêntese na sua vida académica, mas uma experiência fundacional que lhe permitiu compreender a importância da autoridade do Estado submetida à lei. Eleito deputado pelo Partido Popular Democrático (PPD) em 1975, Jorge Miranda foi um dos principais redactores da Constituição de 1976. Uma missão delicada, pois era necessário criar um texto que aceitasse as conquistas sociais da Revolução, mas que as enquadrasse num Estado de Direito democrático clássico, com separação de poderes e garantias de direitos fundamentais. O seu contributo foi essencial na definição da estrutura do sistema político português — o chamado semipresidencialismo — que permitiu um equilíbrio de poderes entre o Presidente da República, o Governo e o Parlamento. Jorge Miranda foi também o defensor acérrimo da fiscalização da constitucionalidade, assegurando que nenhuma lei, por mais popular que fosse no momento, pudesse violar os princípios basilares da dignidade humana.

A fotografia que suscitou este texto é assim o epílogo feliz de uma narrativa de serviço e amizade. O brinde entre Jorge Miranda e Luís Costa Correia celebra os 60 anos passados desde que se conheceram e tudo começou. O facto de terem à mesa a Constituição da República Portuguesa não é um adereço, mas o testemunho do seu trabalho comum: um deu-lhe o espírito e a letra; o outro deu-lhe a base material e a legitimidade do voto.

A importância destas duas personalidades para o regime democrático reside na sua capacidade de transcender as suas funções originais. Costa Correia não foi apenas um marinheiro; foi um democrata que operou a máquina do Estado para devolver a palavra ao povo. Jorge Miranda não foi apenas um professor; foi o arquitecto que garantiu que essa palavra se tornasse uma lei perene. Juntos, representam o melhor da transição portuguesa: a união entre a autoridade responsável e a liberdade ordenada. O brinde que hoje partilham é, em última análise, um brinde de todos os portugueses à estabilidade de uma democracia que, apesar de tudo, soube encontrar o seu porto seguro na lei e na vontade soberana.