Há obras que não se limitam a narrar a História; moldam-na, corrigem-na, adornam-na e, por vezes, reinventam-na por inteiro. A crónica de Gomes Eanes de Zurara sobre os feitos da Guiné pertence a essa espécie rara e inquietante de textos que não servem apenas para recordar o passado, mas para o ordenar moralmente, justificá-lo e, no limite, torná-lo aceitável. Lida hoje, com a distância crítica que os séculos permitem, essa obra surge menos como um espelho fiel do século XV do que como um artefacto de poder, construído com a sofisticação própria de quem escreve a partir do centro da corte e não à margem dela.
Zurara não foi um observador independente, nem um cronista isolado num mosteiro ou numa torre de arquivo. Foi um homem da casa régia, criado da esfera mais íntima do poder, educado sob a proteção da dinastia de Avis e promovido ao lugar de cronista-mor e guarda-mor da Torre do Tombo. Essa proximidade ao trono não é um dado lateral; é a condição de possibilidade da sua escrita. O que ele regista, o que omite e o modo como ordena os acontecimentos responde, antes de mais, a uma lógica de serviço. A pena de Zurara não descreve apenas o mundo, participa activamente na sua legitimação.
É por isso que a Crónica dos Feitos da Guiné deve ser lida como uma operação literária e política de grande alcance. O seu destinatário não é o leitor neutro, mas a memória régia. O seu protagonista não é apenas o Infante D. Henrique histórico, com as contradições do seu tempo, mas um D. Henrique depurado, elevado e quase santificado. A opção hagiográfica é decisiva. Zurara escreve o Infante como se escrevesse a vida de um santo, e não a biografia de um príncipe envolvido nas engrenagens militares, comerciais e religiosas da expansão portuguesa. A consequência é clara. O que Zurara oferece ao leitor não é tanto uma narrativa de factos, mas uma arquitectura de virtudes.
Essa arquitectura, porém, tem fundações muito mais duras do que as que a superfície deixa ver. Por trás da aura de cruzada, de missão e de ciência, estão as primeiras expedições à costa ocidental africana, cuja realidade material foi, em larga medida, a do corso, do saque e da captura violenta de seres humanos. Não se trata de uma nota marginal, mas da matéria central que o discurso procura transfigurar. A linguagem torna-se, aqui, instrumento de transmutação moral. Ao chamar “mouros” a populações diversas, muitas delas já longe do enquadramento geográfico e cultural do Norte de África, Zurara desloca para sul o imaginário da Reconquista e reinscreve essas gentes no espaço simbólico do inimigo tradicional. A palavra não descreve apenas; acusa, aproxima, simplifica e condena.
É neste ponto que a crónica revela o seu verdadeiro objectivo ideológico. O que era violência aparece como guerra justa; o que era rapto surge como empresa ordenada; o que era lucro converte-se em providência. A expedição de 1444, organizada a partir de Lagos e financiada por mercadores privados, mostra bem essa fusão entre capital e violência. Já não estamos perante uma empresa exclusivamente régia, mas perante uma engrenagem onde o risco marítimo, o investimento comercial e a expectativa de retorno se articulam com a captura de corpos. A conquista torna-se negócio; o negócio precisa de narrativa; e a narrativa, em Zurara, fornece-lhe uma cobertura moral que o protege da sua própria nudez.
Nenhum episódio exprime isso com tanta crueldade como o leilão de Lagos. Ali, a História abandona qualquer máscara decorativa e mostra a sua substância mais brutal. Famílias separadas, mães arrancadas aos filhos, corpos divididos em lotes, vidas submetidas à lógica da partilha mercantil. O próprio Infante, presente no local, observa o processo e reclama o seu quinto, convertendo pessoas em parcela de um sistema de distribuição de poder. Há nessa cena uma obscenidade estrutural que não depende apenas do acto em si, mas do modo como ele é incorporado numa ordem social e política que o torna legível. É precisamente isso que Zurara faz; torna o intolerável narrável.
A parte mais desconcertante da sua escrita talvez esteja na forma como tenta resolver a tensão moral que a própria descrição produz. O cronista admite a compaixão, reconhece o sofrimento, deixa entrever lágrimas — mas logo a seguir transforma a escravização num preço necessário da salvação eterna. O sofrimento temporal dos cativos é apresentado como uma espécie de imposto espiritual, uma mediação dolorosa, mas benéfica para conduzir almas infiéis ao baptismo e, por essa via, à redenção. A operação é intelectualmente fascinante e eticamente devastadora. O mal não é negado; é reinterpretado. E, ao ser reinterpretado, ganha uma forma de legitimidade que o torna historicamente eficaz.
É também por isso que a crónica continua a suscitar debate entre historiadores. Há quem veja nela um dos marcos fundadores de um racismo paternalista, enquanto outros sublinham o seu enraizamento num horizonte estritamente religioso, ainda distante das categorias biológicas modernas. Mas talvez a força perturbadora do texto esteja precisamente em resistir a uma classificação simples. Zurara escreve num mundo em que fé, guerra, hierarquia e diferença se entrelaçam de forma quase inseparável. E, nesse mundo, a linguagem do universal cristão pode servir simultaneamente a conversão, a dominação e o lucro.
A posteridade da obra reforça essa ambivalência. O manuscrito desapareceu dos circuitos visíveis durante séculos, retido na sombra dos arquivos e da política de segredo que rodeava a expansão portuguesa. Quando ressurgiu no século XIX, já não era apenas um documento de memória, era um instrumento de soberania. Num tempo em que Portugal via contestada a sua presença africana pelas grandes potências europeias, a crónica converteu-se em argumento jurídico, prova de prioridade e título simbólico de posse. O texto que antes glorificara um príncipe passou a defender fronteiras imperiais. A História, mais uma vez, foi chamada a servir o presente.
Mais tarde, a leitura britânica voltou a deslocar o sentido da obra. A edição promovida no universo da Hakluyt Society suavizou as passagens mais duras e privilegiou a vertente marítima, técnica e cartográfica, enquadrando o Infante como precursor da ciência e da expansão europeia. O mesmo texto que servira para legitimar a ocupação portuguesa podia agora ser reinscrito numa narrativa imperial britânica mais vasta. Nada mais revelador da plasticidade dos documentos históricos do que essa capacidade de serem sucessivamente apropriados por poderes distintos.
Resta, porém, uma sombra que torna tudo ainda mais complexo. O próprio Zurara afirma ter-se baseado, em parte, num manuscrito anterior, redigido por um homem que efectivamente embarcara nessas expedições: Afonso Cerveira. Esse texto desapareceu. Não o temos. Não o lemos. Mas a sua ausência pesa tanto quanto a presença de tudo o que sobreviveu. Porque se o manuscrito de Cerveira viesse um dia a ser encontrado, talvez nos obrigasse a rever, uma vez mais, o que julgamos saber sobre o início europeu da expansão em África. E talvez então percebêssemos, com ainda maior nitidez, que por baixo de cada versão acabada da História existe quase sempre uma outra, mais áspera, mais imediata e mais verdadeira, ou pelo menos mais próxima daquilo que aconteceu antes de ser convertido em narrativa.
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* O termo “inventou” é aqui empregado em sentido historiográfico e retórico, não literal, pois não se trata de atribuir a Zurara uma ficção arbitrária, mas de assinalar que a sua crónica constrói discursivamente a figura do Infante D. Henrique mediante a selecção, hierarquização e sacralização dos factos, numa operação que transforma um príncipe histórico medieval num emblema político e moral. A pertinência dessa formulação torna-se ainda mais clara quando se observa a longa duração dessa imagem.
O Estado Novo retomou e amplificou, na escola e na propaganda, uma versão sacralizada do Infante, o “Asceta de Sagres”, herói de missão, disciplina e império, ao serviço de uma pedagogia nacionalista e imperial. Na atualidade, esse legado regressa sob novas formas, uma vez que frações da direita radical populista, movimentos de extrema-direita extraparlamentar e agrupamentos nostálgicos do antigo regime têm vindo a operar uma recuperação estratégica da narrativa escolar salazarista, reconfigurando o Infante como símbolo de identidade civilizacional, de combate ao pluralismo multicultural e de resistência às leituras críticas da história.
A figura do Infante D. Henrique é hoje redefinida como um baluarte da cristandade europeia contra a influência islâmica e contra as vagas migratórias contemporâneas, legitimando as reivindicações de encerramento de fronteiras, de rejeição do multiculturalismo e de defesa de uma suposta identidade étnico religiosa homogénea do continente europeu. A diferença entre Zurara e as escolas salazarista e neossalazarista é de época, linguagem e dispositivo institucional. A semelhança reside na função. Em ambos os casos, o Infante é convertido num instrumento de legitimação simbólica do poder.