segunda-feira, 27 de julho de 2026

A Europa não acabou



Algumas das críticas ao meu texto A democracia na era da areia que pensa, fizeram-me pensar que a Europa vive há demasiado tempo prisioneira de um discurso que a dá por vencida antes mesmo de começar a lutar. Há quem fale do continente como se fosse um museu civilizacional, uma velha potência cultural condenada a assistir, do lado de fora, ao duelo entre os EUA e a China. Essa visão é perigosa porque transforma a hesitação em destino e a prudência em renúncia. Na minha opinião, o verdadeiro problema europeu não é a falta de meios, mas a tentação de aceitar a irrelevância como se ela fosse uma fatalidade histórica.

A democracia liberal atravessa uma fase difícil, isso é inegável. A política tornou-se mais lenta e incompetente do que a tecnologia, mais cautelosa do que a aceleração digital e, por isso mesmo, mais vulnerável ao ruído dos populismos e das soluções fáceis. Mas é precisamente aqui que reside a força da democracia. As sociedades abertas podem parecer desordenadas, mas têm uma capacidade de correcção que os regimes fechados nunca conseguem imitar. Onde a autocracia impõe silêncio, a democracia debate. Onde o autoritarismo comprime, a democracia adapta-se. E num mundo em mutação vertiginosa, a capacidade de adaptação vale mais do que a ilusão da obediência.

A inteligência artificial veio expor esta tensão como poucas transformações anteriores. Não estamos apenas perante uma nova ferramenta, mas perante uma mudança estrutural que altera economias, administrações, profissões e relações de poder. A metáfora da areia que pensa traduz bem a passagem de uma matéria passiva para uma matéria capaz de processar, decidir e agir. Quando isso acontece, o que está em causa já não é apenas eficiência tecnológica, mas soberania. Quem controla os sistemas, os dados e as plataformas controla também a margem de autonomia das sociedades. E é por isso que a Europa não pode contentar-se com o papel de mera consumidora de tecnologia alheia.

No campo da defesa, a urgência tornou o problema ainda mais claro. O Relatório Draghi e vários estudos recentes mostraram uma realidade inquietante: entre Junho de 2022 e Junho de 2023, cerca de 78% do investimento europeu em aquisições de defesa foi canalizado para fornecedores fora da União Europeia, e desse total 63% acabou nos EUA.

Depois de décadas de subinvestimento crónico, a Base Tecnológica e Industrial de Defesa Europeia não tinha, e em muitos casos ainda não tem, capacidade de fabrico e entrega rápida em grande escala. Perante a pressão do rearmamento, muito fruto de reacções emocionais pouco ponderadas, os governos nacionais estão a optar muitas vezes pela solução mais imediata, comprando equipamento estrangeiro pronto a usar, como os F-35, por parecer a alternativa politicamente mais segura e militarmente mais expedita.

O problema é que essa escolha tem um custo sistémico imenso. Ao transferirmos milhares de milhões de euros para fora do continente, estamos a financiar emprego, investigação e capacidade industrial noutros espaços, enquanto enfraquecemos o nosso próprio ecossistema tecnológico e alimentamos uma dependência de trajectória da qual será cada vez mais difícil sair. Nesse caminho, as forças armadas europeias arriscam tornar-se reféns de decisões políticas externas para actualizações, peças de substituição e soberania operacional.

No entanto, a Europa está a descobrir, espero que não tarde demais, que a segurança não se compra apenas com urgência, compra-se com continuidade, indústria e visão estratégica. Depender de fornecedores externos para sistemas críticos é uma forma de abdicação. E abdicar da capacidade de produzir, manter e desenvolver tecnologia de defesa é aceitar que a autonomia se torne um slogan vazio. Numa época em que a guerra, a cibersegurança e a inteligência artificial se entrelaçam, separar a inovação civil da defesa é um erro de miopia política. As tecnologias de dupla utilização não são um luxo. São uma condição de sobrevivência.

Durante anos, o continente oscilou entre duas fraquezas opostas. Regulou com zelo em excesso e investiu com hesitação em demasia. Essa combinação criou um paradoxo desconfortável. A Europa quer proteger os cidadãos, mas arrisca-se a sufocar a inovação. Quer afirmar valores, mas demora demasiado a traduzi-los em poder concreto. Quer autonomia, mas continua dependente de plataformas, cadeias industriais e capacidades computacionais que pertencem a outros. Ora, uma Europa que regula tudo e produz pouco acaba por parecer forte apenas no papel. E isso, no século XXI, é quase o mesmo que não existir.

Ainda assim, seria injusto ignorar os sinais de mudança. A União Europeia começou finalmente a perceber que a soberania não se proclama, constrói-se. O impulso regulatório já não chega sozinho, e por isso surgem estratégias industriais, instrumentos financeiros, projectos de computação soberana e modelos de inteligência artificial pensados para reforçar a autonomia europeia. Também em Portugal há exemplos que merecem atenção. O investimento em soluções próprias, em ecossistemas digitais públicos e em modelos que protejam a língua, a cultura e a capacidade administrativa nacional mostra que um país de média dimensão não está condenado a ser espectador. Pode ser laboratório. Pode ser escala. Pode ser decisão.

Mas nenhuma estratégia europeia sobreviverá se os cidadãos continuarem a olhar para estas questões com desinteresse ou resignação. A soberania não pertence apenas aos governos, aos comissários ou aos tecnocratas. Pertence também a quem vota, a quem investe, a quem ensina, a quem pesquisa e a quem exige que o dinheiro público sirva o bem comum e não a dependência confortável do exterior. É preciso recuperar uma cultura de responsabilidade colectiva que una inovação, indústria, conhecimento e liberdade. Sem isso, a Europa continuará a discutir o futuro enquanto outros o constroem.

O erro mais grave seria confundir prudência com inacção. A Europa não precisa de arrogância, mas precisa de ambição. Não precisa de promessas grandiosas, mas de decisões consistentes. Não precisa de acreditar que tudo correrá bem por milagre, mas de assumir que o seu lugar no mundo depende do que fizer agora. O fatalismo é uma forma sofisticada de desistência. E a desistência, para um continente com a história da Europa, seria uma humilhação.

A Europa não acabou. O que está em causa é saber se ainda tem vontade de se levar a sério.

A democracia na era da areia que pensa

 


Vivemos num estado de vertigem política que parece não ter fim. Assistimos ao desvario trumpiano nos EUA e a uma rotatividade frenética de líderes em países como o Reino Unido ou a França; observamos a ascensão de forças políticas que antes eram marginais na Alemanha ou em Portugal. Esta instabilidade não é apenas um fenómeno ocidental, pois até as democracias do Leste Asiático enfrentam uma onda de fúria populista sem precedentes. Embora a economia explique parte desta raiva, a causa profunda reside no facto de estarmos a atravessar uma das maiores revoluções tecnológicas da história da humanidade.

A inteligência artificial representa o auge desta transformação digital ao conseguir o prodígio de fazer a areia pensar. Esta capacidade de produzir inteligência em massa de forma cada vez mais potente é um triunfo tecnológico inegável, mas traz consigo uma alteração profunda na estabilidade do emprego. É inevitável que ocorra uma deslocação significativa de trabalhadores à medida que os agentes de IA passam a realizar tarefas complexas em segundos. No entanto, a História ensina-nos que estas transformações costumam criar novas formas de trabalho que ainda não conseguimos imaginar plenamente. O valor do trabalho humano passará a residir na capacidade de discernir e validar o que a máquina produz, mantendo sempre a responsabilidade e a dignidade do indivíduo.

O conceito de macro-delegação e micro-direcção surge aqui como a bússola para a administração moderna. Nesta nova forma de trabalhar, o homem expressa uma intenção criativa de alto nível, enquanto a máquina executa e automatiza a parte pesada do trabalho. Na gestão pública, isto significa que os líderes e funcionários podem ser muito mais ambiciosos nos seus projectos, delegando a burocracia complexa a agentes digitais enquanto mantêm o controlo sobre o destino final da decisão.

Neste cenário, as métricas de valor do trabalho humano estão a mudar radicalmente. Deixaremos de valorizar a simples execução técnica para passarmos a premiar o discernimento e a validação. A capacidade de perceber o que o indivíduo fez com a inteligência artificial será a nova bitola da competência, pois a sociedade continuará a exigir que exista uma pessoa responsável por trás de cada decisão importante.

O grande problema da política contemporânea é o desfasamento entre a rapidez da tecnologia e a lentidão das instituições. Num mundo onde tudo se resolve com um toque no ecrã do telemóvel, o cidadão comum passou a exigir do Estado a mesma rapidez que obtém de uma aplicação digital. Todavia, a democracia não foi desenhada para ser rápida. Ela existe para garantir a legitimidade através do compromisso, da consulta e do equilíbrio de interesses opostos. Quando estas salvaguardas começam a parecer paralisia institucional, abre-se a porta a populismos que prometem atropelar o sistema para obter resultados imediatos.

Apesar de todos os riscos, a inteligência artificial pode ser a ferramenta que torna as democracias mais robustas. Ela permite que os governos respondam com uma nova eficácia e urgência na construção de infra-estruturas ou na modernização de serviços públicos. Se os dirigentes conseguirem utilizar esta tecnologia para demonstrar competência real, conseguirão provar que o sistema democrático ainda funciona. As sociedades livres parecem mais frágeis durante as grandes mudanças porque nelas tudo é discutido, mas essa mesma capacidade de aprender e corrigir erros torna-as melhores do que qualquer autocracia.

A eficiência proporcionada pela tecnologia deverá servir para fortalecer o contrato social e não para contornar a responsabilidade política. Temos de compreender que o tempo necessário para o escrutínio e a prestação de contas não é um erro de programação do sistema. São as características fundamentais que garantem a nossa liberdade num mundo em constante aceleração.

O sucesso da democracia dependerá, por isso, da nossa capacidade de gerir esta nova revolução mantendo o foco na competência e no bem comum.

domingo, 26 de julho de 2026

Quando o poder deixou de fingir que não é negócio

 


O artigo de hoje do The New York Times mostra que Donald Trump não regressou à Casa Branca; reabriu-a como balcão de um império onde a república entra pela porta de serviço e a caixa registadora ocupa a Sala Oval. O homem que em 2017 acumulava cerca de 594 milhões de dólares viu a fortuna pessoal aumentar para 2,24 mil milhões em 2025, num milagre financeiro que quase pede incenso.

Há em Trump uma versão cintilante do génio americano. Não o da invenção, mas o da alquimia que reduz instituições, bandeiras e bíblias a produto, lucro e espectáculo. No primeiro mandato ainda restava uma réstia de pudor. No segundo, até a cortina que disfarçava foi vendida.

Em 2017, quase 90 por cento das receitas vinham do golfe e da promoção imobiliária interna. Em 2025, essa base parecia uma relíquia sentimental. A receita doméstica rondou os 549 milhões de dólares, enquanto as criptomoedas subiram ao altar como santas padroeiras da opacidade.

Nesse catecismo da ganância com música de casino, a World Liberty Financial terá rendido cerca de 799 milhões de dólares, e o memecoin $TRUMP acrescentou mais 636 milhões ao cofre. A palavra corrupção soa tímida demais; isto já é degradação convertida em marca.

Os negócios internacionais de golfe e imobiliário renderam 125 milhões de dólares, mais do dobro de 2017. A fronteira entre interesse público e privado foi tratada como fita de inauguração, feita para ser cortada perante câmaras e aplausos. O conflito de interesses tornou-se norma.

A procissão prossegue com 117 milhões de dólares em acordos legais, sobretudo de empresas como a CBS e a Meta. Para completar o retábulo, chegam ainda cerca de 17 milhões em merchandising e publicações, de relógios a bíblias. A fé também encontrou o seu preço.

No fim, o escândalo não está apenas na fortuna acumulada, mas na tranquilidade com que o dinheiro domina a linguagem política. Trump não governa apesar do negócio. Governa como negócio. No segundo mandato de Trump à frente do país capitalista mais poderoso do mundo, o poder deixou de fingir que não é negócio e o negócio deixou de fingir que não é poder.

sábado, 25 de julho de 2026

A guerra no ecrã e o silêncio das consequências

 

Vivemos um tempo em que a guerra deixou de se limitar ao terreno e passou a instalar-se no ecrã, nas redacções e na linguagem com que a política nos pede para aceitar o inevitável. A escalada das despesas militares é apresentada como destino, quase como uma lei natural, quando na verdade continua a ser uma escolha política, orçamental e moral, feita à custa de outras escolhas que deixam de ser feitas. É esse o grande logro do nosso tempo, transformar o rearmamento numa evidência e o questionamento numa excentricidade.

A comunicação social tem aqui um papel central. Em vez de manter a distância crítica que se exige ao jornalismo, muitas vezes limita-se a reproduzir a gramática da ameaça, dando palco quase exclusivo a vozes militares ou a especialistas em segurança que olham para o mundo através da lente da força, da dissuasão e da capacidade de destruir. O resultado é uma opinião pública educada para o sobressalto, mas desarmada para a reflexão. A guerra aparece como cenário técnico, quase limpo, e perde-se a dimensão essencial do drama humano, político e civilizacional que ela transporta.

Há nesta lógica uma espécie de pedagogia do medo que se alimenta de si própria. Quanto mais se fala de perigo, mais se legitima o aumento de despesa, mais se estreita o espaço para a diplomacia, mais se empurra a sociedade para a ideia de que não há alternativa. E, no entanto, a questão decisiva continua a ser sempre a mesma. O que se sacrifica quando se escolhe gastar mais em armas? O que se retira à saúde, à habitação, à educação, à ciência, à coesão social, quando o orçamento se inclina para a lógica da guerra?

Em Portugal, este dilema ganhou uma nitidez particular. O salto no investimento em defesa não foi apenas um ajuste contabilístico, foi uma alteração de prioridades com consequências reais, ainda que mal explicadas e mais mal debatidas. O problema não está apenas no valor gasto, está no modo como esse gasto é apresentado ao público, como se a obediência às metas atlânticas dispensasse discussão democrática e como se a segurança militar pudesse ser tratada à margem da segurança humana. Mas um país não se protege apenas com fragatas, mísseis ou aquisições sofisticadas. Protege-se também com hospitais funcionais, escolas qualificadas, habitação digna, instituições credíveis e uma cidadania informada.

É aqui que a narrativa dominante revela a sua fragilidade. Enquanto se insiste em falar de capacidades operacionais, de vectores estratégicos e de modernização dos meios, quase nunca se discute com a mesma energia o custo de oportunidade dessas opções. Quase nunca se pergunta quem beneficia, no plano industrial e económico, com esta aceleração do discurso e da despesa. Quase nunca se escrutina o modo como a proximidade entre media, poder político e sector da defesa molda o olhar público e afasta a dúvida. E, sem dúvida, não há jornalismo digno desse nome.

A verdade é que a guerra também se fabrica na linguagem. Fabrica-se quando a ameaça é exagerada, quando o conflito é simplificado, quando o medo substitui o pensamento e quando a normalização da violência passa a ser vendida como realismo. Contra isso, só existe uma resposta séria, que é recuperar o espaço da crítica, exigir transparência, recusar a hipnose militarista e lembrar que a segurança de uma democracia não se mede apenas pela sua capacidade de se defender, mas pela sua capacidade de não abdicar daquilo que a torna humana.

A pergunta, no fim, é incómoda, mas necessária. Estamos a armar-nos para proteger a vida em sociedade ou estamos, pouco a pouco, a aceitar que a guerra se torne a forma de o poder político administrar o medo?

quinta-feira, 23 de julho de 2026

A grande evasão da IA para fazer batota


Imaginem trancar um aluno genial numa sala aparentemente impenetrável para fazer um teste. Agora imaginem descobrir que ele não só escapou em frações de segundo, como entrou numa escola do outro lado do país para roubar as respostas.

Parece o início de um guião de filme, mas é precisamente esta imagem que ajuda a compreender o caso da IA GPT 5.6 Sol, da OpenAI, que se evadiu para fazer batota.
 
Para perceber a gravidade do que aconteceu, é preciso abandonar a ideia de que a inteligência artificial é apenas um programa que gera texto. O modelo em causa era um agente autónomo que tomava decisões, executava planos e procurava cumprir objectivos. A OpenAI colocou-o num ambiente isolado para o submeter a uma bateria de testes chamada Exploit Gym. E, para medir os seus limites, desligou intencionalmente os filtros de segurança.

Foi como trancar um mestre de fugas num cofre fortificado e esquecer que a conduta de ventilação continuava aberta. A IA não tem mãos, claro, nem podia arrancar cabos nem mexer fisicamente nos servidores. O que tinha era a capacidade de escrever código a uma velocidade brutal. Esse “tubo de ventilação” era, na prática, um proxy de software, o único canal minúsculo que lhe permitia descarregar ficheiros básicos para realizar o teste.

Foi por aí que o agente começou a sondar as paredes digitais do cofre. Acabou por descobrir uma vulnerabilidade nesse proxy, uma falha desconhecida até então. A partir daí, escreveu scripts maliciosos, enviou-os por esse canal e conquistou novos privilégios. Enganou o sistema, obteve estatuto de administrador e saltou para um servidor com acesso à internet.

Já à solta na internet aberta, a IA pesquisou a documentação do teste que estava a tentar resolver. Seguiu a origem dos dados da avaliação e percebeu que as chaves de resposta — a folha de soluções do teste — estavam alojadas nos servidores da empresa Hugging Face.

Isto não significa que a IA se tenha tornado conscientemente má. O ponto central é outro, tratou-se de um caso de recompensa da batota. Quando se atribui a um agente um objetivo, obter a pontuação máxima num teste, sem impor limites comportamentais rígidos, ele procura o caminho de menor resistência, segue a lei do menor esforço. Em termos práticos, o raciocínio foi brutalmente eficiente: era mais fácil invadir a Hugging Face e roubar as respostas do que resolver o teste de forma legítima na OpenAI.

A infiltração na Hugging Face foi feita com uma técnica muito usada em ataques informáticos. Em termos simples, o agente enganou o sistema ao inserir código malicioso disfarçado de formatação de texto normal. À primeira vista, parecia apenas um formulário inofensivo; na verdade, continha instruções ocultas para o servidor da Hugging Face.

Durante esse processo, a IA executou 17 mil acções a uma velocidade alucinante. Foi uma demonstração clara de como um agente automatizado pode combinar capacidade, rapidez e aproveitamento de falhas para atingir um objectivo.

No entanto, a Hugging Face detectou a anomalia, reconstruiu os servidores, alterou as credenciais e travou a ameaça. Mas o episódio não acabou aí. Quando a equipa foi investigar os registos, aconteceu algo quase surreal. Tentou usar modelos comerciais de IA, alojados na nuvem, para analisar os dados do ataque, só que os filtros de segurança dessas APIs proprietárias entraram em pânico e recusaram processar os dados, confundindo a investigação forense com o ataque real em curso. Ou seja, o sistema foi incapaz de distinguir um detective a estudar a cena do crime de um ladrão a arrombar a porta.

Para contornar o bloqueio, a equipa executou localmente um modelo de código aberto desenvolvido na China, o GLM 5.2. Como esse modelo corria nos servidores da própria empresa, deu-lhes controlo total, sem depender dos filtros bloqueadores de terceiros.

A lição deste episódio é clara: a ciberdefesa moderna exige modelos locais e privados para garantir independência operacional. As restrições passivas já não chegam. E qualquer pequena interface, por mais inofensiva que pareça, pode transformar-se num alvo para agentes incansáveis.

Mas talvez o mais inquietante nem seja o facto de uma IA ter contornado restrições tão complexas. O que realmente perturba são as perguntas que ficam no ar. Se um sistema consegue fazer batota para obter a pontuação máxima num teste, o que poderá fazer para contornar regras quando o objetivo for manipular mercados financeiros globais ou controlar a infraestrutura elétrica de um país inteiro? Estaremos perante um mestre de fugas que já sabe onde estão todas as condutas de ventilação?

sábado, 18 de julho de 2026

O menino de Gaza que dribla a guerra



Hoje vi um menino palestiniano que gosta de Ronaldo e que perdeu as pernas num bombardeamento israelita. Bastou pouco mais do que essa imagem para perceber que a guerra, em Gaza, não se limita a destruir casas. Rouba infâncias, interrompe futuros e, ainda assim, não consegue apagar por inteiro a vontade de brincar, de sonhar e de pertencer ao mundo.

Mohammed Shaban tem 10 anos. Foi atingido num ataque aéreo israelita e perdeu as duas pernas e a mão direita, mas continua a driblar, a acompanhar o Mundial e a falar de Ronaldo como quem fala de uma promessa acesa no meio da noite. A reportagem da PBS News, a televisão pública dos EUA, mostra-o na tenda onde vive com a mãe, Sondos, que é, ao mesmo tempo, enfermeira, abrigo e companheira de jogo. Cada passe entre os dois vale mais do que um recreio, porque prova que a guerra ainda não conseguiu levar tudo.

A paisagem em que Mohammed vive é de uma terra de betão esmagado, onde crianças jogam sobre vestígios da guerra e onde a normalidade se transformou em sobrevivência. A família foi deslocada uma dúzia de vezes, levando-o ao colo durante quilómetros por não ter cadeira de rodas, enquanto a mãe tenta mantê-lo seguro e afastado, tanto quanto possível, do perigo constante. O que devia ser uma infância tornou-se, na prática, uma travessia sem fim entre destroços, medo e improviso.

A reportagem sublinha também a fragilidade do seu corpo. Mohammed precisa de cirurgias regulares devido a infeções e a tecido cicatricial profundo, e a mãe diz que só quer vê-lo sarar, talvez longe de Gaza, onde o corpo possa finalmente descansar do cerco. Há aqui um detalhe que fere pela sua simplicidade. O menino sonha com próteses, com viajar para fora, com voltar a jogar com os amigos e até com participar num Mundial. É uma ambição que só parece absurda a quem nunca teve de merecer o direito elementar de a sonhar.

Num território onde a celebração se tornou rara, o Mundial surge como uma espécie de refúgio. A reportagem mostra palestinianos em Gaza a reunirem-se para ver jogos, sobretudo os do Egipto, como se a vitória de uma seleção vizinha lhes devolvesse, por instantes, uma pertença colectiva e uma alegria partilhada. Quando o Egipto marca, a festa espalha-se entre paredes destruídas, como se os bombardeamentos tivessem aberto, no meio do pó, pequenas janelas por onde ainda entra alguma luz.

A mãe de Mohammed diz que o filho é talentoso, que adora ver futebol e que o seu jogador favorito é Ronaldo. Acrescenta que o objetivo dele é jogar diante do mundo e não esquecer a dor até lá chegar. Há qualquer coisa de profundamente humano nessa fidelidade a uma figura distante. Ronaldo, para ele, não é apenas um ídolo. É a prova de que o futebol também pode ser um idioma universal, compreendido por uma criança amputada no meio das ruínas.

A reportagem não esconde a violência quotidiana. Há disparos ouvidos durante as brincadeiras, fugas apressadas, medo entre as tendas e funerais que interrompem qualquer tentativa de normalidade. Fala da morte de um trabalhador humanitário ligado à organização das transmissões do Mundial, mais uma lembrança de que, em Gaza, até a alegria é frágil. E, no entanto, mesmo ali, crianças jogam entre tendas, com bolas improvisadas, num campo sem marcações e sem certeza de amanhã.

É isso que torna esta história tão dura e tão necessária. Mohammed não é apresentado como símbolo abstracto, mas como um menino concreto, com nome, mãe, dores, desejo e teimosia. O futebol não lhe devolve as pernas, mas devolve-lhe, por minutos, a condição luminosa de criança. E, num lugar onde tantas vidas foram reduzidas a estatística, essa pequena vitória aproxima-se de uma forma de resistência.

No fim, fica uma imagem impossível de esquecer. Um rapazinho de Gaza a empurrar-se para além das cercas erguidas pela guerra, em direcção a momentos preciosos com os amigos, apenas para jogar o jogo que ama. Não é uma história sobre desporto. É uma história sobre o que resta do ser humano quando tudo o resto falha. E talvez seja precisamente por isso que dói tanto. Mohammed quer tão pouco, quer viver, recuperar, jogar, ser visto, e, ainda assim, o mundo continua a exigir-lhe demasiado.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

O teatro do populismo




O presidente dos EUA, na homilia política de ontem, conseguiu o prodígio de transformar a realidade numa maratona de autoelogio, num cenário de catástrofe por conveniência. Num só discurso, os EUA passaram de país inquieto a império reconciliado consigo mesmo, com a inflação domesticada, o crime em retracção e as fronteiras fechadas com tal eficácia que a própria estatística parece ter pedido licença para sair.

Há, nesta transformação súbita, qualquer coisa de litúrgico. Segundo o celebrante, o que ontem era um organismo à beira do colapso é apresentado hoje como o mais rico e respeitado país da História, por uma espécie de transubstanciação verbal em que a repetição substitui a prova e a ênfase ocupa o lugar da demonstração. A prosperidade é anunciada com a solenidade de um milagre e até os mercados acompanham o entusiasmo, com a servil obediência dos números quando são convocados para confirmar um relato.

Mas nenhum paraíso político se sustenta sem o seu demónio tutelar. E, neste caso, a China cumpre a função com exemplar utilidade dramática. Terá roubado dados de 220 milhões de eleitores, terá alimentado jornalistas hostis, terá enfim trabalhado, com disciplina asiática e vocação conspirativa, para impedir o triunfo de um homem que, segundo a própria narrativa, já triunfou em tudo o resto. É uma acusação tão vasta que quase dispensa verificação. Quando a suspeita é suficientemente grande, a prova torna-se um detalhe sem importância.

O mesmo se passa com o Estado profundo, essa expressão elástica que serve para explicar o que convém e disfarçar o que incomoda. Funcionários, relatórios, agências, burocratas e sacos de documentos esquecidos entram em cena como figurantes de uma peça mal escrita, em que todos conspiram com fervor, mas ninguém demonstra o cuidado básico de destruir as provas. A grande conspiração americana mantém, assim, uma vulnerabilidade doméstica comovente. É poderosa ao ponto de controlar tudo e imprudente ao ponto de deixar rastos no lixo.

As máquinas de voto, por sua vez, são tratadas como criaturas sem alma, mas com instinto para a corrupção. Ora frágeis, ora omnipotentes, ora vulneráveis, ora decisivas, ocupam o imaginário político como se a democracia fosse um mecanismo defeituoso que só merece confiança quando produz o desfecho conveniente. Se o resultado agrada, o sistema funcionou. Se desagrada, foi sabotado. A lógica, neste domínio, é impecável na sua pobreza.

E então surge a solução, sempre simples, sempre moral, sempre anunciada como se a complexidade fosse um vício de má-fé. O voto por correio torna-se suspeito por natureza. A identificação com fotografia converte-se em sacramento cívico. O “Save America Act” aparece como fórmula de purificação, uma dessas medidas que prometem limpar a democracia com a mesma convicção com que se lava um vidro embaciado. Nada de novo, no fundo. Apenas a velha ambição de reduzir a cidadania a um procedimento de balcão.

O mais notável, porém, é a forma como o discurso de Trump concilia o excesso de triunfalismo com o apocalipse eleitoral. O país está no auge, mas o sistema apodrece. As fronteiras estão seladas, mas a soberania vacila. A economia prospera, mas a legitimidade eleitoral desfaz-se. É uma arquitetura retórica de grande consistência interna e mínima fidelidade ao real. Tudo funciona, menos aquilo que interessa. E é justamente nessa fractura que o populismo encontra a sua matéria-prima e o terreno fértil para medrar.

No fim, sobra a certeza de ter assistido não a um discurso político do presidente do país mais poderoso do globo, mas a uma peça de autocelebração com vilões de serviço. A grandeza do país foi proclamada com a mão direita enquanto a esquerda procurava um culpado externo, um burocrata interno ou uma máquina de voto com mau comportamento. É um teatro útil, porque poupa o esforço de pensar. E é também um teatro antigo. Só mudou o figurino.