domingo, 11 de outubro de 2026

Alquimia político-diplomática



Há uma poesia quase tocante na forma como a diplomacia portuguesa consegue conciliar o inconciliável com um sorriso rasgado. Enquanto o Conceito Estratégico de Defesa Nacional (CEDN) consagra solenemente o primado do Direito Internacional, o multilateralismo e o respeito pela Carta das Nações Unidas como os pilares sagrados da segurança e soberania de Portugal, os governantes portugueses desdobraram-se em vénias e elogios ao Secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio — a encarnação viva da doutrina “America First” e do mais puro realismo ofensivo unilateral. É verdadeiramente fascinante observar como a retórica oficial clama por uma ordem internacional baseada em regras enquanto presta vassalagem diplomática a quem encara as alianças globais como meros contratos de protecção mercantilista e de conveniência.

Na conferência de imprensa conjunta, o espectáculo de contorcionismo ideológico roçou o sublime, com o ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, a invocar patrioticamente o vinho da Madeira com que se brindou à independência americana há 250 anos e a gabar-se de que Portugal deu um salto vertiginoso para atingir os 2% do PIB em despesas de defesa logo em 2025. Não satisfeito, o chefe da diplomacia portuguesa proclamou com desarmante candura que os Estados Unidos são o "único interlocutor" capaz de resolver o conflito na Ucrânia, arquivando momentaneamente a autonomia estratégica europeia e o multilateralismo que o próprio CEDN coloca no topo das prioridades nacionais. Por sua vez, o Primeiro-Ministro Luís Montenegro apressou-se a classificar a relação bilateral como "excelente a todos os títulos", celebrando com entusiasmo uma parceria em que a soberania nacional se reduz a conceder "aprovação condicional" para a utilização militar da Base das Lajes na Operação Epic Fury.

Marco Rubio, por seu lado, desempenhou com mestria o papel de patrono benevolente, brindando Portugal com o rótulo de "grande aliado" — um elogio que, no léxico pragmático de Washington, traduz a total disponibilidade de Lisboa para facultar bases e espaço aéreo sem fazer perguntas incómodas sobre a natureza das missões. Confrontado sobre os alertas da Amnistia Internacional e as investigações do Ministério Público português relativamente a eventuais violações do Direito Internacional a partir dos Açores, Rubio despachou a Amnistia Internacional como sendo "uma fraude" e afiançou que o uso das Lajes cumpre escrupulosamente os "protocolos" existentes. Em retribuição por tamanha facilidade geostratégica, o chefe da diplomacia americana acenou com a promessa de transformar Portugal na "porta de entrada ideal" para a tecnologia e o capital dos EUA, aproveitando de passagem para incentivar a compra dos caças norte-americanos F-35 em detrimento de opções europeias.

Consumou-se assim uma admirável alquimia político-diplomática: de manhã, jura-se fidelidade inabalável às instituições multilaterais, à Carta da ONU e à rejeição do domínio das grandes potências; à tarde, estende-se a passadeira vermelha a quem ridiculariza os organismos internacionais e exige 5% do PIB em orçamento militar. No final, resta a lição magistral de diplomacia nacional: os princípios estratégicos de Portugal são absolutamente sagrados e invioláveis — excepto quando entra pela porta um Secretário de Estado norte-americano.

sábado, 10 de outubro de 2026

A lição da guerra na Ucrânia

 


Por mais que a diplomacia e a política internacional tratem a guerra com o cálculo frio dos bastidores, a realidade no terreno nada tem de ficção ou de espectáculo, pois todos os dias morrem pessoas reais, destroem-se famílias e ceifam-se vidas inocentes sob o fogo dos bombardeamentos. É perante o peso esmagador desta tragédia humana que o cinismo e a encenação dos vários actores globais se tornam ainda mais evidentes.

Em Moscovo, o Kremlin trata a destruição com uma frieza burocrática e desumana. Enquanto a propaganda de Vladimir Putin apresenta tudo como uma fatalidade da redistribuição geopolítica, no terreno essa narrativa traduz-se em mísseis e bombas guiadas contra edifícios residenciais e paragens de autocarro em Kramatorsk e Pryluky, na destruição deliberada da rede eléctrica para lançar milhões de civis no gelo do Inverno e na chantagem nuclear a partir de Kaliningrado. O sofrimento de todo um povo é transformado, sem qualquer escrúpulo, num instrumento de pressão sobre o Ocidente.

Em Kiev, no plano da liderança política, Volodymyr Zelensky e o seu governo travam uma batalha diária pela sobrevivência das instituições e do Estado, gerindo um país em ruínas e um sufocante défice orçamental de dezenas de milhares de milhões de dólares. Entre a dependência do apoio financeiro e militar externo e a necessidade de manter operacional a máquina de defesa — mobilizando tecnologia de ponta e novas estratégias no campo de batalha —, a liderança ucraniana enfrenta o desgaste de uma guerra prolongada, equilibrando-se entre as exigências diplomáticas internacionais e as crescentes tensões políticas internas, ilustradas pelas polémicas em torno de propostas pragmáticas de paz, como a do deputado Oleksiy Goncharenko.

Longe dos gabinetes do poder, para a população anónima ucraniana, a realidade resume-se ao luto diário e à dura luta pela sobrevivência. Nas cidades sob bombardeamento, nas trincheiras geladas e nos lares destruídos, os cidadãos comuns enfrentam o trauma da perda de entes queridos, a interrupção abrupta dos seus projectos de vida e a incerteza quanto ao amanhã. É no quotidiano das famílias devastadas pelo conflito que a tragédia humana se revela na sua dimensão mais profunda e dolorosa, uma vez que a resiliência deixou de ser um discurso político para se tornar o único meio de sobreviver à devastação.

Do outro lado do Atlântico, em Washington, a tragédia humana é reduzida a linhas contabilísticas e à conveniência eleitoral. Para a administração Trump, o conflito é encarado como um encargo dispendioso de três mil milhões de dólares por mês, que faz disparar o preço dos combustíveis e irrita os eleitores antes das eleições intercalares. Sem qualquer constrangimento moral, a Casa Branca recusa-se a tratar o agressor como um pária, convida-o abertamente para cimeiras num resort de golfe na Flórida e envia emissários para negociar a compra de gasóleo russo e a partilha de lucros no consórcio do gasoduto Nord Stream e na petrolífera Lukoil.

No centro de Bruxelas e nas capitais da Europa Ocidental, os líderes liberais — de Friedrich Merz a Emmanuel Macron e Ursula von der Leyen — envergam a armadura da virtude moral, enquanto prometem pacotes de armamento e a futura adesão à União Europeia. Contudo, essa mesma solidariedade revela os seus limites práticos no plano da política quotidiana, dado que o trigo e os produtos agrícolas ucranianos continuam a enfrentar restrições de acesso destinadas a proteger os mercados agrícolas de países como a França, a Polónia ou a Irlanda. Fica, assim, evidente que o apoio europeu vacila quando colide com a protecção das suas próprias economias.

Nas bancadas da extrema-direita europeia — da AfD alemã ao Reagrupamento Nacional francês e ao movimento de Roberto Vannacci, em Itália —, o sofrimento humano é encarado como um incómodo que deve ser rapidamente eliminado, cortando-se a ajuda a Kiev para recuperar o gás e o petróleo baratos de Moscovo. Já na extrema-esquerda e em certas correntes do pacifismo abstracto — representadas por figuras como Ségolène Royal ou Jean-Luc Mélenchon —, apela-se a uma mediação imediata através de discursos morais, esquecendo-se que exigir o fim dos combates sem garantias de segurança significa abandonar milhões de civis ao arbítrio de uma ocupação violenta.

Por sua vez, nos bastidores internacionais, mediadores como o presidente turco Recep Tayyip Erdogan e as potências do Sul Global, como o Brasil e a Índia, analisam o conflito à luz do seu impacto no comércio de commodities, nos fertilizantes e nos preços do petróleo, gerindo os seus próprios equilíbrios geopolíticos e económicos.

Perante esta teia de interesses, torna-se imperativo resgatar as iniciativas equilibradas e profundamente humanas que, no meio da devastação na Ucrânia, colocam a vida acima da propaganda. Destaca-se o trabalho imparcial do Comité Internacional da Cruz Vermelha, cujas equipas trabalham em Kiev e em Moscovo para apoiar mais de 18 mil famílias ucranianas e russas que vivem a angústia de procurar militares e civis desaparecidos na guerra. Ao cruzarem a linha da frente para fazer chegar dezenas de milhares de mensagens pessoais entre prisioneiros e as respectivas famílias, estas equipas recordam a verdade universal de que a dor de uma mãe ou o desespero de um filho que aguarda notícias não têm cor política nem nacionalidade. 

Essa mesma humanidade transparece também em gestos locais, como o do soldado e voluntário Roman Chuhalov, que, na cidade de Oleshki — sitiada e sem electricidade nem água —, utiliza drones não para lançar explosivos, mas para fazer chegar pacotes de comida, medicamentos e pequenas cartas de encorajamento a milhares de civis isolados. A este esforço somam-se os alertas da Missão da ONU liderada por Danielle Bell, que insiste em documentar a tragédia das populações civis para impedir que as vidas humanas sejam reduzidas à designação fria de "danos colaterais".

A verdadeira e mais sombria lição a retirar da guerra na Ucrânia, tal como de muitas outras, reside neste contraste devastador. Enquanto, nos salões do poder global, se trocam acusações, se delineiam estratégias de campanha e se negoceiam comissões no sector da energia, são as populações anónimas, os voluntários de socorro e as equipas humanitárias que preservam o único alicerce sobre o qual o futuro poderá ser reconstruído, ou seja, a certeza de que nenhuma causa política, nenhum ganho territorial e nenhum interesse financeiro justificam o sacrifício de vidas humanas inocentes.

É negócio, estúpido!



A forma como a alta geopolítica trata a União Europeia proporciona momentos de uma ironia quase cruel. Durante anos, cidadãos e empresas europeus foram exortados a fazer votos de castidade energética; fecharam-se as torneiras do gás e do petróleo russos, suportaram-se preços dos combustíveis que levaram o gasóleo a ultrapassar os 2 euros por litro na bomba, sacrificou-se a competitividade da indústria e engoliu-se um choque inflacionista sem precedentes. Em Bruxelas e nas capitais do continente, repetia-se, com solenidade moral, que cada cêntimo poupado na factura energética representava um dever cívico e uma vitória na contenção da máquina de guerra do Kremlin.

Contudo, a geopolítica real é pródiga em lições de pragmatismo perverso, e a ilusão europeia ruiu em pleno ano eleitoral americano. Pressionado pela inflação interna e pela subida vertiginosa do preço dos combustíveis às portas das eleições intercalares, Donald Trump não se deixou prender por escrúpulos morais e, perante a fúria dos seus eleitores, executou uma pirueta diplomática espectacular e fechou um acordo directo com Vladimir Putin para a importação de gasóleo russo. Ou seja, enquanto a União Europeia era obrigada a cumprir à risca o regime de sanções e a suportar a escassez de combustível, a Casa Branca contornava as suas próprias directivas para abastecer os automobilistas americanos com gasóleo vindo de Moscovo.

Para tornar o cenário ainda mais humilhante para a diplomacia europeia, este negócio do gasóleo surge em simultâneo com a pressão exercida por Washington sobre a Europa para que o G7 libertasse milhões de barris das suas reservas estratégicas de emergência, sob a ameaça velada de os EUA proibirem a exportação dos seus próprios produtos refinados para o Velho Continente. A Europa cedeu, abriu as suas reservas para acalmar os mercados globais e, como recompensa, viu o seu principal aliado fechar um pacto energético bilateral com o Kremlin.

Como se esta traição comercial não bastasse, o espectáculo atinge o seu auge satírico nos bastidores financeiros. Intermediários de topo — como Jared Kushner, genro de Trump, e Kirill Dmitriev, chefe do fundo soberano russo e homem de confiança de Putin — dedicam-se a negociar a futura distribuição do abastecimento europeu. O plano, traçado em privado, prevê a entrada de investidores norte-americanos e de fundos do Golfo no consórcio do gasoduto Nord Stream, bem como a compra de activos globais da petrolífera russa Lukoil, garantindo que o gás e o petróleo voltem a fluir para a Europa, mas agora com uma generosa comissão de intermediação cobrada por magnatas americanos e russos.

O resultado desta peça teatral é uma verdadeira lição de ingenuidade estratégica. A União Europeia destruiu o seu modelo económico assente em energia acessível, suportou a austeridade e cumpriu religiosamente o papel de baluarte das sanções, apenas para ser tratada como o parente ingénuo de quem todos se aproveitam. No grande xadrez da energia, enquanto Trump garante o gasóleo russo para salvar a sua campanha eleitoral e investidores de Washington e Moscovo negociam a partilha dos lucros da futura infra-estrutura europeia, a Europa alcançou a triste proeza de ser o único jogador a pagar a conta, a cumprir as regras e a ficar sem energia nem influência à mesa do jogo.

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

O chão secreto de Lisboa

 


Atravessar as portas de madeira e vidro dos Armazéns Braz & Braz na Rua Dom Antão de Almada, num sábado de Outono no final dos anos 50, foi para a criança um choque sensorial avassalador.

Apenas duas semanas antes, a sua realidade era o calor húmido e constante de Quelimane, as ruas largas com sombra de acácias e mangueiras, as casas de alvenaria térrea, a terra vermelha da Zambézia e a pequena escola primária onde concluíra a 4.ª classe. Na Quelimane de finais dos anos 50, o comércio que a criança conhecia estava moldado pelo ritmo do porto e pelas grandes firmas locais. A maior referência da cidade era o império da Monteiro & Giro, com os seus imponentes armazéns de importação e máquinas, a par das casas comerciais indianas como a Gani e das cantinas de bairro — espaços de penumbra fresca, com portas de fole abertas para a rua, onde se pedia a mercadoria por cima de um balcão de madeira simples e onde a variedade era contida e familiar. Não existia em Quelimane nada, absolutamente nada, que a preparasse para a monumentalidade, a vertigem e a multidão de Lisboa.

Ao lado da mãe, que lhe segurava a mão com uma firmeza nova — fruto do receio de que o filho se perdesse na confusão da metrópole —, a criança pisava um mundo que parecia saído de uma vertiginosa ficção.

Foi então que se impôs o primeiro impacto: o frio, o som e a escala.

A primeira diferença foi a luz e a temperatura. Vinda do sol forte e macio do Índico, a criança sentiu no rosto o ar frio, denso e húmido da Baixa lisboeta. Ao cruzar a entrada do armazém, o cheiro que a envolveu foi uma mistura absolutamente inédita para o seu nariz habituado ao cheiro da maresia do rio dos Bons Sinais, da poeira e do óleo de coco; no Braz & Braz cheirava intensamente a cera de chão, a metal polido, a plástico novo, a borracha sintética, a petróleo de limpeza e a um fundo poeirento de pedra antiga e mofo.

O ruído também era ensurdecedor e claustrofóbico para quem vinha do ritmo pausado da Zambézia; o murmúrio constante de centenas de vozes a ecoar nas abóbadas, o chiar dos sapatos no chão de pedra, o bater seco de panelas de alumínio e o tinir contínuo de moedas e caixas registadoras.

Para um menino habituado aos edifícios do Moçambique natal, a arquitectura do Braz & Braz parecia assustadora e mágica. Olhando para cima, não via os tectos de zinco ou as varandas de madeira de Quelimane; via arcos gigantescos de pedra de cantaria e abóbadas de tijolo escuro que pareciam as de uma fortaleza ou de uma igreja imensa. Incrédulo, percebia que aquela igreja não tinha altares nem santos, mas sim prateleiras metálicas até ao tecto, carregadas de objectos que nunca tinha visto todos reunidos num só lugar.

Mas era diante da abundância e do ritual meticuloso das compras que a vertigem se tornava maior.

Se mesmo nos grandes armazéns da Monteiro & Giro, em Quelimane, a mercadoria estava guardada ou encaixotada por encomenda, no Braz & Braz a criança ficou paralisada perante o espectáculo da superabundância em exposição directa. Primeiro, a montanha de alumínio e esmalte; ver centenas de panelas, caçarolas, sertãs e testos empilhados até ao tecto, a brilhar sob a luz eléctrica, parecia-lhe uma exibição de riqueza quase inacreditável. Pendurados em ganchos no tecto, passadores, funis, baldes de zinco e candeeiros a petróleo de vidro polido flutuavam sobre as cabeças das pessoas. Depois, a revolução do plástico: ao chegar ao antigo claustro coberto — uma imensa nave central sob uma clarabóia —, a criança deparou-se com uma explosão de cores sintéticas que nunca vira na África Oriental: bacias, baldes, garrafas térmicas, caixas e cuvetes em tons berrantes de encarnado, amarelo, azul-bebé e verde-alface.

A forma como compravam parecia-lhe um teatro de precisão. Os empregados de bata azul, com um lápis atrás da orelha, preenchiam o talão em papel químico; a mãe dirigia-se à cabine elevada da Caixa Central, onde uma senhora, diante de uma caixa registadora metálica gigante, carimbava o papel com um estrondoso “tique-clac!”; e o regresso ao balcão culminava com o empregado a embrulhar tudo em papel pardo e a atar o pacote com um nó cego de cordel de ráfia.

Havia, porém, um segredo silencioso sob os seus pés — a dimensão antropológica de um ritual que ninguém ali podia adivinhar.

Enquanto a mãe e a criança caminhavam pelos corredores do claustro coberto, maravilhadas com o brilho dos plásticos e a profusão de utilidades domésticas, pisavam o chão de lajes calcárias e mosaico sem imaginarem a imensa tragédia e a devoção que ali jaziam sepultadas. Sob as solas dos seus sapatos, a escassos palmos de profundidade, repousavam em absoluto silêncio os esqueletos de cerca de três mil crianças e recém-nascidos — uma necrópole infantil secreta que permaneceria desconhecida do mundo durante mais de meio século.

Como explicam os arqueólogos e antropólogos biológicos que mais tarde escavaram o local, a análise dos contextos funerários e do registo ósseo revela muito mais sobre a vida e a cultura dos vivos do que propriamente sobre a morte. Entre o século XVI e o início do século XIX — antes da proibição dos enterramentos dentro dos templos pelo decreto de Costa Cabral (1844) —, a igreja e o claustro do Convento de São Domingos funcionavam como o epicentro espiritual e social das famílias mais humildes de Lisboa.

Numa cidade marcada por taxas avassaladoras de mortalidade infantil, subnutrição e infecções recorrentes, os esqueletos ali depositados revelam uma faixa etária muito específica: perto de 90% das crianças tinham menos de um ano de idade. Sem recursos financeiros para suportar os custos de um funeral formal e impelidas pela devoção popular aos frades dominicanos, centenas de mães amortalhavam cuidadosamente os corpos dos seus bebés falecidos.

Nas caladas da noite, levavam os pequenos corpos até às portas do convento. Os religiosos recolhiam-nos devotamente e sepultavam-nos no solo do claustro — um espaço sagrado onde se acreditava que a proximidade às relíquias e às orações diárias da comunidade dominicana garantiria a protecção das almas infantis. Durante as escavações, a preservação de pequenos alfinetes de bronze junto aos esqueletos revelou o cuidado minucioso com que essas mães envolveram os seus filhos no pano da mortalha antes de os entregarem à terra.

Ali permaneceram, lado a lado, durante séculos, enquanto, por cima, o mundo mudava, o convento era dessacralizado e os Armazéns Braz & Braz instalavam as suas prateleiras de ferro, espanadores e garrafas térmicas.

A revelação só chegaria décadas mais tarde.

Ao sair dos Armazéns Braz & Braz com a mãe, segurando o pequeno pacote atado com cordel, a criança trazia os olhos arregalados e o coração a acelerar. Aquela visita marcara a sua entrada em Lisboa — uma cidade monumental, fria, ruidosa e cheia de mistérios.

Passaram-se décadas. O rapaz cresceu, fez a sua vida, os Armazéns Braz & Braz acabaram por fechar as portas e o próprio tempo transformou o rapaz de Moçambique num avô com netos da idade que ele tinha naquele sábado de Outono dos anos 50.

Foi só depois de 2020, quando os jornais noticiaram as escavações arqueológicas realizadas para a reconversão do antigo edifício no hotel Convent Square, que aquele homem, agora grisalho, leu a notícia, estupefacto. Descobrira-se a maior necrópole infantil do mundo sob o solo do antigo armazém, revelando o perfil biológico e a história social daquela população anónima.

Ao ler a reportagem, o avô fechou os olhos e regressou instantaneamente a 1959; viu-se de novo pequeno, pela mão da mãe, recém-chegado da soalheira Quelimane, a caminhar sobre as lajes frias daquele labirinto de abóbadas. Só então compreendeu que, no dia em que descobriu a vertigem do mundo moderno e do comércio da metrópole, pisava sem saber o chão onde repousava o sono silencioso de três mil crianças lisboetas do passado.

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Bem-vindos ao Principado de Cascais



Parecia uma partida de 1 de Abril fora de época, mas é mesmo a mais recente pérola da engenharia financeira autárquica. A Câmara Municipal de Cascais quer municipalizar a Estrada Marginal (EN6) e instalar portagens para quem não tiver no Cartão de Cidadão uma morada do concelho.

A ideia é digna de um tratado geopolítico da Idade Média. Imagine-se a cena: o cidadão sai despreocupado de Oeiras e, de repente, ao chegar a Carcavelos, depara-se com um pórtico de portagem e uma guarita de controlo fronteiriço.
— Documentos e passaporte, por favor. Motivo da viagem?
— Vou só ali comprar pão à Parede e apanhar um pouco de sol em São Pedro do Estoril…
— Muito bem. São 2,50 € de taxa de trânsito, mais 1,00 € de suplemento pela vista para o mar.

A lógica é simplesmente deslumbrante. Um residente de Oeiras — que durante décadas partilhou a EN6 para ir trabalhar, passear ou levar os miúdos à praia — passa de vizinho de toda a vida a forasteiro poluidor assim que atravessa a fronteira invisível do concelho. Para tomar um café no Estoril, terá de pagar taxa de entrada no Principado, como se estivesse a entrar numa auto-estrada alpina ou a atravessar o Mónaco — mas com mais rotundas.

Resta saber até onde levará esta luminosa visão da gestão territorial. Cobrança automática por via Via Verde em Carcavelos, com tarifa agravada nas horas de ponta? Apresentação de atestado de residência para ir à farmácia em São Pedro sem pagar direitos aduaneiros? Acordos bilaterais entre Oeiras e Cascais, trocando direitos de circulação por lugares de estacionamento?

A Marginal, concebida como uma travessia aberta ao mar e à contemplação, corre assim o risco de se tornar a primeira estrada de bairro do mundo com portagens selectivas por código postal. Uma ideia verdadeiramente inovadora — sobretudo para quem ainda julgava, com enternecedora ingenuidade, que a livre circulação era um direito constitucional e não um bem sujeito a facturação autárquica.

Lado a lado contra o ódio




Três anos após os trágicos acontecimentos de 7 de Outubro de 2023, dois homens marcados por perdas devastadoras decidiram transpor o abismo da divisão e encontrar-se em Nova Iorque para um diálogo promovido pelo programa norte-americano PBS NewsHour.

De um lado, está Jonathan Dekel-Chen, residente no kibutz Nir Oz, em Israel, cujo filho, Sagui Dekel-Chen, foi baleado, raptado e mantido refém pelo Hamas em Gaza durante quase 500 dias, até ser finalmente libertado.

Do outro lado, está Jaser Abu Mousa, um palestiniano natural de Khan Yunis, na Faixa de Gaza. A 15 de Outubro de 2023, um ataque aéreo israelita destruiu-lhe a casa e matou a mulher e dois dos filhos, Hmaid e Abdulrahman. Os dois filhos sobreviventes tiveram de ser evacuados para os Emirados Árabes Unidos, onde foram submetidos a cirurgias complexas. Mais tarde, um novo bombardeamento tirou também a vida à mãe de Jaser.

Apesar do sofrimento avassalador, Jonathan e Jaser recusaram-se a ceder ao ressentimento e à espiral de vingança. Questionado sobre a razão pela qual decidiram expor-se publicamente em conjunto, Jaser formula a questão essencial: "Qual é o custo de não termos esta conversa?" Lembra, assim, que o preço do silêncio e da ausência de diálogo já é dolorosamente conhecido por todos nas vidas destruídas de ambos os lados da fronteira.

Para estes dois pais, a raiz da tragédia reside no facto de extremistas e exércitos deixarem de ver o ser humano por detrás do conflito, reduzindo pessoas reais a alvos ou a meros danos colaterais. Como adverte Jonathan, as populações não podem dar-se ao luxo de esperar que líderes políticos ou ideólogos resolvam o problema, pois continuar a alimentar o ódio por razões políticas apenas garantirá que os seus filhos e netos voltem a enfrentar os mesmos horrores no futuro.

Num mundo cada vez mais polarizado, em que o debate público é frequentemente dominado pela desumanização do outro, pelo desejo de vingança e pela divisão em facções irreconciliáveis, a atitude de Jonathan e Jaser constitui uma lição de enorme coragem cívica. Mostra-nos que a verdadeira força não reside em perpetuar o conflito, mas na capacidade de reconhecer a humanidade de quem se encontra do outro lado e de romper o ciclo da dor. Se dois homens que perderam quase tudo conseguem sentar-se lado a lado para construir pontes de entendimento, que desculpa temos nós para continuar a erguer muros no nosso quotidiano?

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

O que a luz revela quando a memória se apaga

 


Quando soube que o Prémio Nobel da Medicina tinha sido atribuído a Karl Deisseroth, Peter Hegemann e Georg Nagel pelo desenvolvimento da optogenética, senti um interesse muito pessoal. Para muitas pessoas, foi apenas mais um marco científico noticiado nos jornais. Para mim, porém, esta distinção ajudou a compreender um episódio recente da minha vida.

Há pouco tempo, como aqui contei, sofri uma hiponatremia aguda grave, provocada pela preparação para uma colonoscopia. O nível de sódio no sangue desceu para 120 mmol/L, um valor perigosamente baixo, e o cérebro desenvolveu edema, ou seja, inchaço. Quando recuperei, percebi que a memória tinha sido afectada de duas formas. Uma amnésia retrógrada apagou o mês anterior ao exame. Além disso, uma amnésia anterógrada acompanhou-me durante cerca de três semanas após o episódio. Três semanas em que o presente parecia escapar-me entre os dedos, em que o que vivia hoje não fixava amanhã e guardar uma memória recente era como tentar escrever na água.

É neste contexto que o trabalho destes três cientistas ganha, para mim, um significado especial. Em termos simples, a optogenética é uma técnica que permite controlar a actividade de células do cérebro através da luz. Deisseroth, Hegemann e Nagel descobriram como usar, em neurónios específicos, proteínas sensíveis à luz, originalmente identificadas em algas e outros microrganismos. Essas proteínas funcionam como um interruptor e um feixe de luz pode activar ou desactivar determinados neurónios com grande precisão temporal.

Esta técnica também tem sido aplicada ao estudo das redes de memória, conhecidas como engramas. A investigação sugere que, em certas situações, uma memória pode não estar destruída, mas apenas temporariamente inacessível. O edema e as alterações na actividade eléctrica do cérebro podem perturbar a comunicação entre as células e tornar alguns circuitos difíceis de activar. É o que se descreve como “engramas silenciosos”, em que a informação poderá continuar armazenada, embora o cérebro não consiga aceder-lhe normalmente. Em experiências com optogenética, os investigadores conseguiram reactivar alguns desses circuitos e recuperar memórias que pareciam perdidas.

Conhecer esta possibilidade ajudou-me a olhar para a experiência com mais serenidade. Pensar que o mês anterior ao exame e as três semanas seguintes podem corresponder a uma falha temporária no acesso ou na formação de memórias, e não necessariamente a uma perda definitiva, altera a minha perspectiva. Este trabalho mostra como o cérebro pode reorganizar-se e recuperar funções à medida que o equilíbrio do organismo é restabelecido e a neuroplasticidade entra em acção.