A identidade de Peniche é moldada por uma dualidade
profunda: a monumentalidade da pedra militar da sua praça-forte e a vibrante
cultura imaterial do mar. No centro desta geografia encontra-se o Campo da
Torre (Campo da República), um espaço de charneira que, apesar do seu
potencial, sofre hoje de uma fragmentação funcional que dilui o seu valor.
Situado na transição imediata entre o núcleo urbano
consolidado e a imponente frente sul da Fortaleza de Peniche, este plano aberto
desempenhou, ao longo dos séculos, um papel multifuncional: defensivamente,
como fosso exterior; socialmente, como espaço de feira franca; laboralmente,
como suporte à actividade piscatória; e, espiritualmente, como palco de devoção
popular.
Uma realidade tão bem descrita por Helena Marcão no seu poema
“Campo da Torre”:
Por isso, é imperativo transformar este recinto, hoje relegado
a parque de estacionamento ou a recinto de feiras sazonais, num ecossistema
interpretativo dinâmico que una a história da resistência política à história
viva dos homens e mulheres do mar, devolvendo a este espaço a dignidade que lhe
foi sendo subtraída ao longo das últimas décadas.
A requalificação deste espaço não deve limitar-se à
substituição de pavimentos. Inspirando-nos em modelos internacionais como
Pasajes de San Pedro ou Bergen, devemos reintroduzir a cultura marítima no
desenho urbano. Tal pode passar, por exemplo, pela musealização do eixo do “Bota-Abaixo”,
assinalando no pavimento o traçado histórico por onde as embarcações deslizavam
em direcção ao mar no antigo Portinho de Revés, mediante marcadores em pedra
polida e madeira. Complementarmente, a criação de um “Estaleiro Vivo” — uma
estrutura de carpintaria naval onde mestres e aprendizes mantenham embarcações
tradicionais sob o olhar do público — transformaria a praça num ecomuseu
participativo.
Esta visão deve estender-se às áreas de lazer. As esplanadas
comerciais devem ser reinventadas como esplanadas interpretativas, com
estruturas em pinho e carvalho que evoquem o cavername das traineiras e
coberturas em lona que remetam para o cordame tradicional. Nestes espaços, a
gastronomia — a sardinha e a caldeirada — deve ser acompanhada por mediação
cultural, como guias áudio e exposição de artefactos navais, tornando o acto de
comer uma experiência de aprendizagem.
Não podemos esquecer a dimensão humana e imaterial. O Campo
da Torre deve homenagear o trabalho feminino, integrando no pavimento elementos
que recordem as mulheres que ali secavam roupas e reparavam redes.
Historicamente, este é também o ponto de encontro entre a "resistência
marítima" e a "resistência política"; foi aqui que os pescadores
lutaram pelos seus direitos e onde, em 1974, a população saudou a liberdade.
Por isso, o itinerário "Do Mar à Liberdade" deve ligar a Ribeira
Velha à Fortaleza num discurso único e coeso.
Neste processo de restauro da identidade, é fundamental
reafirmar a centralidade espiritual do local. A devoção a Nossa Senhora da Boa
Viagem, hoje um dos pilares da identidade marítima penichense, percorreu um
longo caminho histórico. No século XVII, a sua matriz era essencialmente
escatológica, centrada na “boa morte” e na passagem da alma para a vida eterna,
sem qualquer relação inicial com a faina piscatória. A imagem primitiva,
venerada na Capela de Santo António do Portinho, junto à Fortaleza, servia de
amparo espiritual para o “além-túmulo”. Só na década de 1860, com o crescimento
da classe piscatória e perante os riscos permanentes do Atlântico, o culto se
foi transformando. A “boa viagem” passou então a significar o regresso físico
ao porto, e a embarcação nas mãos da Virgem, antes símbolo alegórico da Igreja,
foi apropriada pelos pescadores como o seu próprio barco de pesca.
Foi nesse percurso que o Campo da Torre, espaço de charneira
entre a terra e o mar, se tornou passagem obrigatória da procissão de Nossa
Senhora da Boa Viagem. Essa centralidade espiritual foi consagrada em 1945, com
a Coroação Canónica da imagem de Nossa Senhora da Boa Viagem. A cerimónia
transformou o Campo da Torre num recinto sagrado a céu aberto, onde milhares de
fiéis afirmaram a sua coesão espiritual, precisamente ao lado da Fortaleza,
então usada como prisão política.
É por isso que se lamenta a deriva funcional deste espaço
nas últimas décadas do século XX. A partir dos anos 80 e 90, a vertente profana
da festa — com diversões mecânicas, tasquinhas e comércio — ocupou o Campo da
Torre, relegando a procissão para um percurso periférico pelas ruas do centro
histórico. O que fora o cenário da coroação de uma “rainha” passou a ser um
simples recinto de feira, função que, embora legítima, parece manifestamente
pobre perante a carga histórica e espiritual do lugar.
Os espaços urbanos não são neutros; absorvem e reflectem as
vivências de quem os vive e habita. Manter a procissão afastada do interior do
Campo da Torre é, nesse sentido, uma forma de amnésia urbana. O Campo da Torre
deverá ser o centro nevrálgico da Festa em honra de Nossa Senhora da Boa
Viagem. Por isso, defendo que, para além da procissão marítima nocturna, a
procissão em honra da padroeira deve voltar a passar solenemente pelo interior
deste recinto. Esse regresso simbolizaria a união entre a protecção divina
invocada no mar e a celebração em terra, restaurando a mística do passado. Esta
medida, aliada à transferência das diversões feirantes para um espaço mais
adequado, devolveria ao Campo a sua função de palco monumental para a fé dos
pescadores.
Para concretizar esta ambição, urge elaborar um Plano de
Pormenor e um Regulamento do Espaço Público que regulem materiais e eixos
visuais, garantindo que o Campo da Torre respire em harmonia com a Fortaleza.
Este instrumento de gestão municipal deve fixar regras claras quanto aos
materiais permitidos nas esplanadas — dando prioridade à madeira tratada, ao
ferro e à pedra calcária —, à volumetria das estruturas de sombra e aos limites
de ocupação do solo, impedindo a descaracterização comercial do recinto.
Sugere-se ainda a criação de um arquivo digital de memória
oral e etnográfica focado no quotidiano do Campo da Torre. A recolha
sistemática de testemunhos de carpinteiros de machado-de-costa, calafates,
pescadores e mulheres da comunidade permitiria preservar um acervo imaterial de
valor inestimável, cujos conteúdos poderiam alimentar os guias áudio e os
dispositivos digitais disponibilizados aos visitantes nas esplanadas
interpretativas.
A execução destas medidas permitiria que o Campo da Torre voltasse
a respirar como um monumento singular, convertido num espaço urbano
qualificado, coeso e identitário, onde a arquitectura militar, a história da
resistência, a actividade piscatória e a religiosidade popular se articulassem
harmoniosamente como factor de atracção turística sustentável.