sábado, 7 de novembro de 2026

Retrato de uma imigrante



Ao balcão de uma loja, a postura elegante contrasta com a fadiga contida no olhar. Com 48 anos, ostenta um cabelo negro, liso e cuidado. Fala com um tom doce impregnado pelo sotaque do Brasil. Enquanto atende a cliente, deixa escapar uma convicção serena: a vida está muito difícil, mas Deus vai mostrar o caminho.

 A sua vida em Portugal resume-se a uma maratona diária entre três trabalhos. Madruga para começar a jornada a fazer limpezas, mas o que ganha não chega para cobrir todas as despesas. Vive num quarto, sem espaço para a própria privacidade. O esforço de cada hora de trabalho cruza o oceano sob a forma do pagamento da renda da casa no Brasil, onde reside a filha jovem adulta — que rejeita a ideia de se juntar à mãe no destino europeu.

 Após quatro anos de uma rotina implacável, o corpo começa inevitavelmente a ressentir-se da exigência física e emocional. Aguentar este ritmo tornou-se um prova de resistência diária. Perante a interrogação sobre o porquê de não regressar ao seu país, a resposta desvenda o dilema da imigrante: o medo. Habituou-se à segurança das ruas portuguesas e voltar é algo em que nem consegue pensar. 

Pressionada pelo cansaço e pela responsabilidade de sustentar duas vidas em continentes distintos, agarra-se com firmeza à fé que a mantém de pé: “Deus vai apontar o caminho. Tenho a certeza!”.

domingo, 1 de novembro de 2026

A habitação em crise e as lições do passado

 


Entre os anos 1960 e meados da década de 1980, Portugal viveu uma profunda crise de habitação. O êxodo rural, a concentração industrial no litoral e a chegada de população das ex-colónias fizeram crescer a procura. Com pouca oferta pública e preços proibitivos no mercado formal, a construção clandestina nas periferias metropolitanas tornou-se uma via de acesso à casa própria.

Esta expansão explorou uma sobreposição de falhas sistémicas no ordenamento jurídico e institucional português. No plano legal, o desfasamento entre o Direito Registal e o Urbanismo permitiu que o artigo 169.º do Código do Registo Predial de 1967 (Decreto-Lei n.º 47 611) viabilizasse desanexações sucessivas e a venda de parcelas em avos indivisos, contornando a exigência de licença municipal de loteamento instituída pelos Decretos-Leis n.º 46 673/65 e 289/73. No plano institucional, a ausência de planos directores municipais, a morosidade burocrática e a permissividade fiscalizadora — consolidada na célebre “construção à multa” — tornaram a informalidade numa cómoda válvula de escape sociopolítica, suprindo as carências habitacionais da força de trabalho sem custos directos para o erário público.

Para os mais novos, “construção à multa” consistia, essencialmente, na edificação de habitações definitivas sem prévia licença municipal de construção, mas onde o pagamento das coimas aplicadas pela fiscalização autárquica funcionava, na prática, como uma espécie de taxa informal ou autorização tácita para continuar a erguer a obra.

As consequências foram desastrosas: vastas áreas rústicas e agrícolas foram fragmentadas sem redes de saneamento, água potável, electricidade, traçado viário ordenado ou equipamentos colectivos. Gerou-se um pesado passivo de organização do espaço social que deu origem às Áreas Urbanas de Génese Ilegal (AUGI), impondo morosos e onerosos processos de reconversão suportados pelas autarquias e pelos próprios moradores.

Perante a nova crise habitacional, as lições de então são cruciais: a inacção do Estado e a desarticulação das normas face à realidade socioeconómica não anulam a procura, antes a empurram para a precariedade e mercados informais. Sem um planeamento territorial antecipado e uma oferta robusta de habitação a custos acessíveis, os custos do adiamento voltarão a hipotecar o futuro colectivo.

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

A geopolítica do olhar



Nas edições de hoje, a imprensa mundial expõe uma profunda assimetria na forma como retrata as grandes crises do nosso tempo. Quando observadas pela lente local, estas convulsões assumem uma visceralidade existencial. Em Cuba, o Granma e o Trabajadores denunciam os custos humanos do embargo norte-americano — 367 milhões de dólares em prejuízos sanitários, cirurgias à luz de telemóveis, mais de cem mil doentes em espera (incluindo doze mil crianças); no Médio Oriente, relatórios e jornais regionais expõem a devastação de Gaza, a destruição de 48 aldeias no Líbano e o cerco a Hébron, com a expulsão de 2600 palestinianos; em França, a imprensa de Paris divide-se entre o alarme do Le Figaro perante o "choque de descivilização" e a denúncia do L'Humanité contra a violência de extrema-direita e a repressão estatal.

Contudo, ao cruzarem fronteiras, estes acontecimentos passam por filtros ideológicos e estratégicos que alteram radicalmente a sua natureza. Na imprensa ocidental, a tragédia médica cubana é quase totalmente silenciada, surgindo apenas como moeda de troca eleitoral nas eleições intercalares da Florida. Por sua vez, a revolta social francesa é instrumentalizada em Espanha e em Itália como um "espelho de contágio" para combater a oposição interna, enquanto o drama no Médio Oriente é frequentemente reduzido ao xadrez da sobrevivência política de Benjamin Netanyahu e às flutuações do preço do petróleo.

Para lá do eixo atlântico, o alheamento é ainda mais vincado. No diário asiático South China Morning Post, a crise no Médio Oriente é remetida para um breve despacho nas páginas interiores e a situação cubana é simplesmente ignorada, cedendo prioridade absoluta às ambições industriais e à reunificação com Taiwan.

Esta triagem informativa demonstra que a compaixão e a gravidade das crises não são valores universais no espaço público global, mas variáveis dependentes da proximidade geográfica e do cálculo de poder. Quando o sofrimento humano só merece destaque de primeira página se servir uma agenda política local ou um interesse geopolítico distante, o jornalismo tornar-se numa lente distorcida do mundo. O verdadeiro perigo do nosso tempo não é apenas a desinformação, mas a indiferença selectiva que decide quem tem o direito a ser visto e chorado.

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

O eco do passado

 


Há palavras que atravessam o tempo e nos trazem um eco distante. Quando, à chegada para uma reunião do Conselho Europeu em Bruxelas, Luís Montenegro comentou os protestos pelo direito à habitação no Porto e a intervenção da PSP, pediu que partidos e movimentos sociais não caiam na tentação de "importar para Portugal climas de instabilidade" sem "respaldo na sociedade portuguesa", motivados por razões "meramente egoísticas". Adicionalmente, assegurou que o país não vive em turbulência e que os protestos eram a expressão de “escassas pessoas”.

A linguagem não é neutra. Para quem viveu no Estado Novo, é difícil não notar o paralelismo com um expediente discursivo desse tempo. A ideia de que a contestação social é um produto "importado do estrangeiro" remete, inevitavelmente, para a retórica de António de Oliveira Salazar. Durante décadas, a propaganda da ditadura alimentou o mito de um Portugal ordeiro e pacífico — um "oásis de paz" —, onde qualquer sobressalto só podia ser fruto de agitação externa ou de traição aos interesses da Pátria.

A estrutura do argumento é surpreendentemente idêntica. Em primeiro lugar, recorre-se à tese do contágio externo. A tensão não nasceria dos problemas reais do país, como a crise no acesso à habitação, mas da cópia de modas e métodos de protesto vindos de fora. Em segundo lugar, desqualificam-se as intenções de quem protesta, fazendo com que o descontentamento deixe de ser uma exigência legítima para passar a ser uma falha moral individual (egoísmo) e um atentado contra o bem comum. Por fim, nega-se a representatividade ao protesto, traçando uma linha entre uma suposta maioria silenciosa e trabalhadora e uma minoria ruidosa sem respaldo real.

Significa isto que vivemos sob o salazarismo? Evidentemente que não. As diferenças de enquadramento são profundas e essenciais. Salazar usava esta narrativa para fundamentar a ditadura, criminalizar a oposição e justificar a repressão violenta, a censura prévia e a perseguição da PIDE. Hoje, vivemos numa democracia, onde o direito à manifestação e à greve são pilares constitucionais. A frase de Montenegro insere-se no debate político de um país livre, sujeita ao contraditório de jornalistas, da oposição e dos próprios cidadãos.

Ainda assim, o recurso a esta fórmula discursiva merece reflexão, pois a comparação entre a intervenção de Luís Montenegro e a doutrina oficial do Estado Novo mostra a continuidade de um repertório conservador de gestão de conflitos sociais. Confrontado com manifestações no espaço público, o poder executivo recorre a esquemas discursivos que enquadram o protesto como inautêntico, exógeno e egoísta, apelando à preservação da ordem e da tranquilidade.

Quando o poder político prefere colar a etiqueta da "instabilidade importada" ou do "egoísmo" aos movimentos sociais, esquiva-se ao essencial, que é debater as causas profundas que levam as pessoas para a rua. Em democracia, contestar não é um acto de egoísmo nem uma importação indesejada — é o exercício pleno da cidadania.

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Como o algoritmo destrói a democracia

 


Houve um tempo em que o debate político se fazia na praça pública, nos jornais e nos parlamentos, espaços onde a contradição, o escrutínio e a ponderação ainda impunham algum travão ao sensacionalismo. Hoje, a arena democrática foi transferida para o ecrã do smartphone, um território governado pela lógica implacável da economia da atenção. Neste novo ecossistema, não vence quem tem a melhor proposta ou o argumento mais sólido, mas sim quem consegue capturar o olhar e inflamar a emoção em breves segundos.

A arquitectura das plataformas digitais não é neutra. Desenhadas para maximizar o tempo de permanência do utilizador, as redes sociais priorizam algoritmos que promovem conteúdos indignados, coléricos e polarizadores. Em busca do clique, a técnica digital descobriu que o ressentimento é o combustível mais rentável do mercado. O resultado é a criação de câmaras de ressonância e filtros-bolha que devolvem a cada indivíduo o eco das suas próprias obsessões e medos, fazendo com que perspectivas radicais e marginais passem a parecer visões hegemónicas e incontestáveis no ecossistema digital.

Esta mutação tecnológica encontrou o seu casamento perfeito com o populismo radical. Como demonstra a investigação do cientista político Vicente Valentim em O Fim da Vergonha, as ideias nativistas e extremistas já habitavam no seio da sociedade, mas eram travadas pelo estigma social. As redes sociais não só quebraram esse isolamento, como legitimaram o indizível. Ao verem líderes políticos comunicar directamente sem o filtro do jornalismo independente, e ao encontrarem milhares de comentários a replicar os seus próprios preconceitos nas redes, os cidadãos perderam a vergonha de assumir posições anteriormente consideradas tabu.

Para operar esta engrenagem, aperfeiçoou-se a estratégia do chamado "efeito trompete". Através de uma táctica cirúrgica, um boato ou conteúdo fabricado nasce na periferia digital e explode exponencialmente quando uma figura política de grande alcance o partilha nas suas redes sociais. Exemplo paradigmático recente foi o vídeo falso gerado por inteligência artificial partilhado por André Ventura, que mostrava duas mulheres muçulmanas de véu a reprovarem ostensivamente o vestuário de uma jovem de saia curta. Editado com cortes intencionais e com a música da série Dexter ao fundo, o vídeo tinha erros técnicos visíveis como uma mão com seis dedos, mas cumpria a função de alimentar a narrativa de uma oposição de costumes entre muçulmanos e o mundo ocidental. Ao ser propagado por um líder político para acentuar a polarização, o conteúdo alcançou vários milhões de visualizações e gerou um alarme social totalmente fabricado. Em sentido contrário, observamos a divulgação nas redes sociais da suposta capa do Jornal Universitário de Coimbra - A CABRA com a deputada Rita Matias, que obrigou a um desmentido da equipa editorial.

A somar a isto, o contágio estende-se às aplicações encriptadas de mensagens como o WhatsApp e o Telegram. Ali, a coberto da privacidade e valendo-se da confiança entre familiares e amigos, a desinformação sobre imigração e subsídios circula sem qualquer contraditório, minando a coesão social à margem dos factos estatísticos oficiais.

Todavia, há quem argumente que o problema essencial não é a democracia em si, mas sim a erosão do pressuposto básico da vida em sociedade — a necessidade de existir uma correspondência mínima e previsível entre o que parece e o que é. Sob esta perspetiva, o algoritmo seria apenas um bode expiatório, comparável à aguardente ou ao haxixe. A culpa, diz-se, não reside no agente viciante, mas na fraqueza de quem não sabe resistir ao vício, e tentar alterar isso seria incorrer no erro histórico de querer fabricar um "Homem Novo" imune à imperfeição humana.

Esta comparação, contudo, assenta numa falsa equivalência. Uma garrafa de aguardente é um objecto estático numa prateleira. Não estuda os nossos dados pessoais, não mapeia as nossas vulnerabilidades emocionais, não envia notificações personalizadas às três da manhã e não altera a sua composição em tempo real para maximizar a dependência. As plataformas digitais não são substâncias passivas, são sistemas dinâmicos de engenharia comportamental concebidos por milhares de engenheiros e financiados por orçamentos multimilionários para reter e modular a atenção. Culpar a fragilidade individual perante uma máquina assimétrica de optimização comportamental é ignorar a escala desproporcional do confronto.

Por outro lado, enquanto o consumo excessivo de álcool destrói a saúde privada do indivíduo, a manipulação algorítmica destrói o bem comum. Se a vida comunitária exige que exista confiança na percepção da realidade, o algoritmo actua como um poluidor que contamina o poço de água pública. Quando a desinformação orquestrada e a raiva fabricada se tornam a moeda de troca no debate público, o prejuízo deixa de ser um vício individual e passa a ser a destruição do solo factual comum que permite a convivência em paz.

Por fim, exigir a regulação das plataformas não é qualquer tentativa utópica de refundar a natureza humana. A humanidade não precisou de criar um "Homem Novo" para proibir a contaminação alimentar pela indústria, impor cintos de segurança nos automóveis ou proibir a publicidade ao tabaco. Regular o ecossistema digital — exigindo transparência nos algoritmos, limitando a microsegmentação agressiva e travando a capitalização do ódio — é apenas aplicar regras elementares de responsabilidade empresarial a um mercado descontrolado.

Quando o ecossistema informativo substitui a verdade factual pelo impacto emocional, a democracia deixa de ser um exercício de deliberação racional entre cidadãos para se converter numa arena digital de paixões orquestradas. Resignarmo-nos a que o problema é das pessoas é uma paralisia que serve apenas os demagogos que lucram com o medo e as gigantes tecnológicas que enriquecem com o caos e não formos capazes de impor limites e resgatar o valor do contraditório, seremos meros figurantes num espectáculo onde o algoritmo decide o que sentimos, o que tememos, como vivemos em sociedade e, em última análise, em quem votamos.

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

A inteligência artificial e a epopeia humana

 


A imagem gerada por inteligência artificial que o matemático francês Hugo Duminil-Copin projectou durante uma intervenção na Société Mathématique de France, transmite um sentimento que transcende a frieza da apresentação. Revelada nas páginas do jornal Le Monde — na reportagem assinada por Hervé Morin no caderno Science & Médecine da edição de hoje —, a ilustração de um coelho prestes a ser esmagado por um camião para descrever o impacto de um recente anúncio da OpenAI, deu voz ao sobressalto de toda uma comunidade científica. A sua confissão pública de ter chorado na noite em que a empresa americana disponibilizou mais de 719 documentos de trabalho científicos na internet, pretendendo resolver centenas de problemas matemáticos por solucionar, é o retrato comovente do confronto entre a sensibilidade humana e a brutalidade dos algoritmos.

O que a OpenAI operou não foi um avanço científico tradicional, mas uma demonstração de força. Ao publicar mais de 3 500 páginas de demonstrações geradas por inteligência artificial — abordando de uma só vez 16 questões essenciais em que Duminil-Copin e a sua equipa trabalhavam —, a gigante tecnológica procurou demonstrar uma capacidade de "massacre" e "desmantelamento" da actividade matemática humana. Mais grave do que a velocidade foi o atropelo ético. Como revela a investigação do Le Monde, a empresa ignorou as recomendações do comité consultivo de investigadores, utilizou modelos internos não comercializados e produziu textos amplamente ilegíveis e sem a devida formalização lógica, vendo-se até forçada a retirar três artigos no dia seguinte devido a erros flagrantes.

Como bem denunciou o matemático francês ao diário parisiense, a OpenAI actuou com uma total indiferença pela comunidade científica, demonstrando que "não quer saber da epopeia humana" e rotulando todo este processo como genuinamente "inhumano". A leitura de uma demonstração matemática perde o seu sabor e o seu sentido quando deixa de ser o fruto da cooperação e do génio de pessoas com rostos conhecidos, transformando-se num produto industrial. Além disso, esta pilhagem algorítmica ameaça destruir o ecossistema de partilha e discussão livre de ideias que sempre fez a riqueza da ciência, forçando investigadores a fecharem-se sobre si mesmos por receio de verem os seus raciocínios capturados por agentes virtuais — uma violência que penaliza, acima de tudo, os jovens cientistas em formação.

Contudo, a resposta de Hugo Duminil-Copin perante este terramoto oferece uma lição de dignidade. Recusando-se a capitular ou a resignar-se a ser um mero leitor de milhares de páginas produzidas por máquinas, o investigador lembra que a verdadeira matemática não reside apenas na acumulação bruta de teoremas, mas na capacidade de compreender, digerir, ensinar e criar comunidade em redor do conhecimento. O futuro da ciência humana continuará a passar pela busca de "pérolas" intelectuais e pela paixão de transmitir aos outros o encanto da descoberta. Se a inteligência artificial consegue produzir milhares de páginas em poucas horas, só o ser humano é capaz de dar sentido à caminhada.

A sombra da dívida francesa

 


Há uma profunda ironia na forma como a história financeira se desenrola. Durante mais de uma década, os manuais de ortodoxia orçamental da Zona Euro foram ditados a partir do eixo central francês e alemão, enquanto os países do Sul carregavam o estigma dos desequilíbrios. Hoje, o cenário inverteu-se de forma dramática, com a França a transformar-se no principal foco de instabilidade da economia europeia, aprisionada numa espiral de dívida, défices fora de controlo e paralisia política.

Os números que inquietam os mercados são inequívocos, destacando-se uma dívida pública de 3,6 biliões de euros, equivalente a 119% do PIB, e um défice orçamental de 5,4%. Com os rendimentos dos títulos do Tesouro francês a dez anos a roçarem os 5% — mínimos de confiança não eram vistos há mais de duas décadas — e o diferencial face às obrigações alemãs a ultrapassar os 140 a 150 pontos-base, assiste-se a um facto histórico e perturbador. Os investidores exigem agora juros mais elevados para emprestar dinheiro a Paris do que a Lisboa, Madrid ou Roma. O risco de contágio sistémico levou mesmo economistas como Paul Krugman a alertar para o pesadelo de uma França que se tornou demasiado grande para falir e simultaneamente demasiado grande para ser salva.

Se o impacto económico é devastador, a forma como a crise é descrita na imprensa internacional permite traçar um fascinante mapa da ansiedade europeia, variando de forma expressiva consoante a geografia dos jornais.

Na imprensa francesa, o tom oscila entre a amargura do orgulho ferido, o escrutínio institucional e o sarcasmo político. O Le Figaro lamenta a perda dolorosa do estatuto privilegiado do país na Zona Euro, enquanto o Le Monde destaca o bloqueio no Parlamento, onde a oposição chumba o orçamento e força o Governo a equacionar governar por lei especial de emergência perante a contestação social nas ruas. Já a imprensa satírica resume a incapacidade governamental com a máxima irónica de que se tornou mais fácil fechar liceus do que fechar um orçamento.

Nas páginas da imprensa portuguesa, sobressai uma mistura de surpresa, alívio cauteloso e inquietação estratégica. O Jornal de Negócios assinala sem rodeios que a perda de credibilidade francesa representa uma ameaça explosiva, destacando com um toque de orgulho contido que Portugal se apresenta hoje com contas equilibradas e saldo nulo, imune ao castigo imediato dos mercados. No entanto, os analistas nacionais não ignoram que um incêndio na segunda maior economia da União Europeia acabará por sobrecarregar os custos de financiamento de todo o bloco.

Por sua vez, a imprensa espanhola, através de jornais como o El Economista, adopta uma linguagem incisiva e puramente financeira. Divulga com pragmatismo o novo e azedo acrónimo criado por gestores de fundos — a sigla FROGS (FRench Over-sized Government and Social Security) — surgida em contraponto ao antigo e pejorativo termo PIIGS para sinalizar que o verdadeiro risco fiscal reside agora no modelo de despesa pública de Paris.

Por fim, na imprensa anglo-saxónica e global, o olhar revela-se clínico, severo e por vezes moralista. O The Wall Street Journal nota que a França continua a cavar o seu próprio buraco, comparando a resistência gaulesa aos cortes com a disciplina nórdica. O Financial Times avisa que os vigilantes dos mercados de obrigações estão de volta para punir a irresponsabilidade fiscal, ao passo que crónicas internacionais denunciam uma recusa da realidade por parte de uma sociedade que exige serviços públicos de excelência, mas recusa pagar a respectiva factura.

Em última análise, a crise da dívida francesa desmonta a ilusão de que o centro do continente está imune às leis da gravidade económica. Enquanto o Sul da Europa já pagou uma conta pesada para reorganizar as suas finanças, o coração do continente aprende agora que, no mundo capitalista, desafiar os mercados e ignorar quem empresta dinheiro é o caminho mais curto para deixar de mandar na sua própria casa e perder o controlo do seu próprio futuro.