terça-feira, 30 de junho de 2026

Inventário do silêncio


Naquela família, a morte não levou logo os mortos.

Primeiro levou-lhes a voz. Depois o calor da casa. Depois o peso dos passos nos corredores. Só mais tarde, quando já ninguém esperava outra forma de violência, começou a levar o resto: o dinheiro, os objectos, os vestígios, as pequenas provas materiais de que duas pessoas tinham vivido ali durante décadas e deixado atrás de si mais do que um nome num assento de óbito.

Helena só percebeu isso tarde demais, que é talvez a forma mais cruel de perceber alguma coisa.

Até então, acreditara na versão visível do sofrimento. A mãe a apagar-se devagar, o pai a desfazer-se depois dela. Pensava que estava apenas a atravessar um duplo luto, essa região suspensa onde os vivos abrem armários sem saber ao certo o que procuram e tratam da papelada como quem pede desculpa aos mortos por ter de continuar.

Não sabia que, por baixo dessa dor tão reconhecível, corria outra história, mais fria e mais exacta. Uma história sem lágrimas, sem flores. Uma história feita de contas antigas, assinaturas deixadas em branco, depósitos desfeitos com urgência, cheques apresentados na hora certa e um dinheiro inteiro a mudar de mãos enquanto o luto servia de cortina.

A verdade não lhe chegou pela boca de ninguém, não se deixou apanhar numa conversa de corredor, não se denunciou num remorso tardio nem numa frase mal medida à saída de um funeral. Ficou escondida durante meses, como certas humidades antigas que não se vêem de imediato, mas que já estão a corroer a casa por dentro. E quando finalmente apareceu, não tinha rosto, nem tremor, nem sangue. Tinha datas. Tinha horas. Tinha montantes. Tinha a secura sem alma dos extractos da agência principal.

A verdade chegou-lhe do banco.

Chegou-lhe quando o pai já tinha morrido, quando ela própria, enfim investida da qualidade de cabeça de casal, entrou na agência principal e pediu os extractos de todas as contas dos pais. Até esse dia, depois da morte da mãe, o cabeça de casal fora o pai. E o pai, por fragilidade, por cegueira, por dependência ou por um silêncio que ninguém já pode interrogar, nunca lhe disse o que se estava a passar. Helena chegara, portanto, atrasada à contabilidade da própria vida.

E há atrasos que não se medem em dias.

Medem-se na distância entre o momento em que uma coisa acontece e o instante em que alguém percebe que foi irremediavelmente deixado de fora dela.

Até esse dia, a morte dos pais tinha sido apenas a morte dos pais. Uma sucessão de perdas, primeiro a da mãe, depois a do pai, como se a família tivesse sido atingida duas vezes pelo mesmo inverno. O resto era luto. Helena acreditava que era isso, apenas isso, que estava a atravessar. Não sabia que o luto, às vezes, é apenas a superfície visível de outra coisa mais funda e mais fria.

A família vivera entre a cidade principal e o litoral, repartida por duas casas que guardavam, cada uma à sua maneira, o corpo imóvel de uma vida inteira. Na cidade estavam os móveis pesados, os retratos antigos, a porcelana boa que saía poucas vezes do armário. Junto ao mar havia outra espécie de memória: o sal nos caixilhos, os verões da infância, as cadeiras de lona, o rumor da maresia nos corredores. As casas tinham a dignidade discreta das famílias que não enriqueceram de repente, mas foram juntando, ao longo dos anos, aquilo a que se chama estabilidade — esse nome sóbrio para a soma de salários, pensões, depósitos a prazo, pequenas privações e uma fé quase religiosa em não gastar mais do que se tem.

António e Beatriz, os pais, pertenciam a essa geração para quem o dinheiro não era um instrumento de ambição, mas de defesa. Guardava-se porque a vida era longa e traiçoeira. Guardava-se porque a doença podia vir, porque a velhice havia de chegar, porque ninguém queria depender de ninguém. As contas bancárias deles tinham sido abertas em tempos diferentes, em agências diferentes, como se o património tivesse crescido com a própria geografia da vida. Uma conta antiga na zona central, outra numa localidade costeira, outra num bairro residencial anterior. Nada ali tinha pressa. Tudo fora sendo acumulado devagar, cêntimo a cêntimo, numa espécie de disciplina quase moral.

As filhas tinham crescido à sombra dessa ordem. Helena, a mais velha, aprendera cedo a falar baixo diante da dor dos outros. Tinha a compostura e o pudor de quem se aproxima em silêncio, não exige lugar e prefere suportar a impor-se. Teresa, a mais nova, trazia outra energia, mais fechada, mais talhada para os atalhos da vida. Não parecia haver nisso tragédia nenhuma. Durante anos, cada uma ocupara o seu lugar sem grande ruído. Mas as famílias não se revelam nos anos calmos. Revelam-se quando a luz muda.

Foi quando Beatriz começou a definhar que o nome de Teresa entrou mais fundo nas rotinas dos pais. Havia consultas, compras, deslocações, pequenos assuntos bancários, contas para pagar, uma dependência crescente que exigia mãos mais disponíveis. E assim aconteceu o que acontece em tantas casas. Para facilitar, para ajudar, para simplificar, o nome da filha mais nova foi sendo acrescentado a algumas contas. À primeira vista, nada parecia sinistro. As tragédias verdadeiras quase nunca começam com uma porta arrombada. Começam com um gesto sensato.

Helena não desconfiou de nada. Não tinha porquê. O pai também não. Talvez porque as coisas mais decisivas da vida se instalam, muitas vezes, com a aparência inofensiva da rotina. Um nome posto num papel. Uma assinatura deixada em branco. Uma chave entregue por conveniência. Depois, tudo prossegue na sua aparência normal, até ao dia em que já não prossegue.

Beatriz morreu no pico do verão. O calor estava imóvel, pegajoso, como se o ar também participasse no sofrimento da família. Depois de uma morte, há sempre um momento em que o mundo parece indecentemente intacto. O frigorífico continua a fazer o seu ruído, a torneira pinga, um telefone toca ao longe, a luz entra pela janela com a mesma indiferença de sempre. É esse o primeiro escândalo do luto — a forma como o mundo não pára.

António ficou destruído. Não apenas triste. Destruído. Quem o visse nesses dias teria talvez dificuldade em dizer onde acabava a dor e começava o esvaziamento. Havia homens que envelheciam; ele, de repente, pareceu desfazer-se. Sentava-se como se o corpo lhe pesasse mais do que antes, movia-se devagar, respondia tarde, como se a vida lhe chegasse abafada por uma qualquer espessura. Helena viu isso. E foi por isso, justamente, que não fez perguntas. Não foi ao banco. Não exigiu bloqueios. Não pediu certidões, extractos, listagens, comunicações. O pai estava vivo. O pai era, ainda, o cabeça de casal. E ela, com aquela forma antiga de entender o dever, julgou que a compaixão devia preceder a burocracia.

Não sabia que a compaixão, às vezes, deixa portas abertas.

Durante meses, Helena viveu num cenário incompleto. Via apenas o lado humano da tragédia, o pai a definhar. O que não via era outra narrativa a correr por baixo dessa superfície, como água negra sob uma ponte. Uma narrativa feita de acessos, transferências, liquidações, numerário, contas de destino. O pai não lhe disse nada. Talvez porque não soubesse explicar. Talvez porque não soubesse sequer o alcance do que se estava a passar. Talvez porque, nessa altura, já estivesse a viver num nevoeiro tão fundo que o mundo lhe acontecia sem passar verdadeiramente por ele. E a ignorância de Helena foi a forma de a manter afastada.

A segunda morte chegou a meio do inverno, de madrugada, com o frio a agarrar-se às paredes como uma segunda pele. Só então Helena passou da condição vaga de filha enlutada para a nitidez seca de cabeça de casal. O nome mudou-lhe a posição no mundo. De repente, podia fazer perguntas. Tinha de fazer perguntas. E foi à instituição bancária.

Talvez haja poucas cenas tão desoladoras como a de alguém que entra numa agência principal para pedir os extractos de todas as contas dos pais mortos. Não por dinheiro, no sentido vulgar do termo, mas porque é nesse lugar impessoal, entre balcões e formulários, que a intimidade de uma família se deixa traduzir em linhas de débito e crédito. Helena sentou-se diante daqueles papéis como quem se prepara para ouvir uma língua que é a sua e que, ainda assim, lhe chega deformada.

Os primeiros movimentos não lhe disseram logo tudo. Mostraram-lhe, antes, a paisagem antiga. Contas abertas em anos distantes, saldos consistentes, depósitos a prazo, a sedimentação financeira de uma vida de trabalho. Era como ver os alicerces da casa por baixo da casa. Depois, pouco a pouco, surgiu o resto.

O nome de Teresa. As datas. A coincidência entre os meses finais da doença da mãe e a entrada dela nas contas. As operações logo a seguir ao primeiro luto. A rapidez. A insistência. A escala.

E então Helena compreendeu que estava a ler não uma contabilidade, mas uma cronologia do desaparecimento.

Menos de um dia depois da morte de Beatriz, quando o funeral ainda não passara de uma tarefa adiada para o dia seguinte, as contas tinham começado a mexer-se como se a família não estivesse em luto, mas em liquidação. Primeiro, pequenas saídas: algumas centenas de euros, uma pequena quantia, numerário miúdo, uma espuma aparentemente banal. Depois, o corpo verdadeiro da coisa: transferências de montantes elevados para a conta pessoal de Teresa. E, numa dessas operações, a liquidação antecipada de um depósito a prazo, como quem não quer apenas usar o que está disponível, mas arrancar depressa o que ainda estava guardado para o tempo.

Helena leu isso e teve a sensação física de um chão a inclinar-se. Não assistira a nada. Não vira acontecer. Descobria tudo depois, quando os gestos já pertenciam ao passado e só o rasto sobrevivia. É talvez esse o pior da verdade tardia. Não corrige; apenas ilumina. Mostra-nos, com uma crueldade exacta, aquilo que já não podemos impedir.

Depois vinha a conta nova.

Aberta poucos dias depois da morte da mãe, numa agência principal, apenas em nome do pai e de Teresa. Para ela convergiam verbas antes dispersas. Cinquenta mil. Mais cinquenta mil. Mais cento e tal mil. O património acumulado durante anos era sugado das contas antigas e reunido ali, como se alguém estivesse a concentrar água num reservatório único antes de abrir a comporta.

E depois, passados poucos dias, a linha que Helena nunca mais esqueceria: uma quantia muito avultada levantada em numerário.

Havia qualquer coisa de monstruoso naquela operação, não apenas pelo valor, mas pela forma. O dinheiro, até aí, ainda pertencia ao reino das contas, dos saldos, das provas. A partir dali entrava no reino opaco das notas físicas, do volume sem rasto, do capital tornado silêncio. Helena imaginou, sem querer, um saco pesado de notas sobre um balcão, mãos trémulas a assinar um talão e a recebê-lo, a gravidade muda do dinheiro quando ainda é só papel e já é, ao mesmo tempo, uma forma de violência.

O que mais a assombrou não foi apenas o montante. Foi a logística invisível que ele implicava. Um levantamento daquele tamanho não se improvisa. Exige pedido, aviso, justificação, abastecimento, vontade. E o pai, nessa altura, mal se tinha de pé dentro da própria vida. Helena procurou depois, com a teimosia de quem já sabe que os papéis são o único tribunal antes do tribunal, o documento que explicaria o destino daquele dinheiro. Um formulário, uma declaração, qualquer vestígio formal de que alguém dissera ao banco para que queria sair dali com uma quantia muito avultada em notas. Encontrou, em vez disso, a muralha baça da burocracia. O banco sabia, mas não dizia. Ou dizia que não podia dizer. O silêncio institucional caiu sobre o caso como um segundo cofre.

Nessa altura, Helena já não lia. Escavava.

E foi assim que chegou às últimas horas de António. António morrera de madrugada. Ao meio-dia e pouco, dois cheques de valor elevado tinham sido apresentados e pagos. Estavam assinados por ele de antemão, mas deixados em branco quanto à data e ao beneficiário. Era o tipo de expediente doméstico que tantas famílias usam quando um velho já não pode deslocar-se e continua, mesmo assim, a querer resolver a vida. Mas a morte é uma fronteira absoluta. O que antes podia ser confiança passa, depois dela, a ser outra coisa. Helena olhou para aquele intervalo de poucas horas entre o último suspiro e a saída do dinheiro e sentiu uma náusea sem nome. Não era apenas o valor. Era a pontualidade do gesto.

Como se houvesse pessoas para quem a morte dos outros é, antes de mais, uma janela horária.

Mas ainda não era tudo.

Porque o dinheiro deixa linhas. As casas deixam sombras.

Depois da morte do pai, Helena não teve acesso imediato às residências dos pais. As chaves ficaram noutras mãos durante semanas. Uma semana, duas, três, mais. Quarenta dias. Quarenta dias é tempo suficiente para uma casa perder o que a torna reconhecível. Quando finalmente entrou, não encontrou o caos bruto de um assalto, essa violência evidente que ao menos permite chamar as coisas pelo nome. Encontrou algo pior. Encontrou a ordem metódica de quem sabe o que leva e o que deixa. As casas não tinham sido destruídas. Tinham sido depuradas.

Faltavam relógios.
Faltavam jóias.
Faltavam pequenas peças de arte.
Faltavam objectos que valiam dinheiro.
E faltavam objectos que valiam mais do que dinheiro.

As alianças dos pais tinham desaparecido.

Foi talvez nesse instante que Helena percebeu que a perda podia ainda descer mais fundo. O dinheiro, por mais doloroso que seja, pertence sempre ao mundo abstracto das quantias. Mas as alianças pertencem ao corpo da vida. Tinham atravessado décadas de casamento, trabalho, rotina, alegrias, doenças, desgostos. Tinham estado nos dedos da mãe e do pai quando ela era criança. Tinham visto a família crescer. Levar aquilo não era apenas subtrair um bem. Era tocar na própria liturgia íntima da família.

Depois vieram outras descobertas, mais pequenas à superfície, mas iguais na lógica. Títulos, valores mobiliários, peças omitidas do retrato da herança. Como se a verdade inteira tivesse sido desmanchada em fragmentos, obrigando Helena a reconstruí-la contra a opacidade de quem partilhou boa parte da vida com ela.

No fim, o que ela tinha diante de si não era apenas uma diferença patrimonial, nem uma sequência de operações, nem sequer um conflito entre irmãs. Era o esqueleto moral de uma família depois de a luz ter sido acesa por baixo. Percebera, tarde demais, que vivera durante meses junto a uma realidade paralela. Enquanto ela acreditava que o essencial era proteger o pai da secura dos papéis, alguém parecia ter compreendido que os papéis, precisamente os papéis, eram o lugar onde o futuro da família podia ser reescrito.

É por isso que esta história não é só sobre herança. É sobre a lentidão com que a confiança se constrói e a velocidade com que pode ser usada contra quem a teve. É sobre a crueldade própria das verdades documentais. Não se exaltam, não insultam, não se justificam. Limitam-se a ficar ali, à espera de quem as leia tarde demais.

Helena saiu da agência com folhas de papel na mão e um vazio novo dentro do peito. Não lhe devolveram os pais. Não lhe restituíram o tempo em que não soube. Não lhe disseram onde estava o dinheiro nem quem tinha levado o que faltava das casas. Mas deram-lhe uma narrativa. E essa narrativa, fria, minuciosa, inapelável, mostrou-lhe que havia muitas formas de roubar uma família.

O que Helena levou da agência não foi apenas uma pasta de extractos.

Levou a prova de que o luto pode ser usado como instrumento. Levou a cronologia de uma família desfeita por dentro antes de dar por isso. Levou a evidência de que os mortos nem sempre são os primeiros a desaparecer.

Porque os pais morreram duas vezes.

Morreram no corpo, como morrem todos, entregando o peso súbito da ausência. E morreram outra vez nos sinais materiais que tinham deixado no mundo: no dinheiro poupado durante anos, nas contas abertas ao longo de décadas, nas alianças gastas pelo uso, nos relógios guardados em caixas forradas a veludo, nos objectos que não eram apenas objectos, mas pequenas âncoras da memória.

A segunda morte é sempre mais silenciosa.

Não tem médico. Não tem certidão. Não tem flores. Acontece quando abrimos uma gaveta e ela já não contém o que devia. Quando pedimos um extracto e percebemos que o passado foi levantado ao balcão. Quando a casa dos nossos pais continua de pé, mas já sem o peso das coisas que a tornavam reconhecível. Quando percebemos que alguém passou antes de nós pela ruína e escolheu, com método, o que havia de sobreviver e o que havia de desaparecer.

Pode ser possível recuperar dinheiro. Talvez até provar actos, refazer saldos, obrigar restituições, somar o que falta e dar-lhe um nome jurídico. Mas há uma parte da herança que nunca regressa.

Ninguém restitui a inocência com que se entra numa casa de família. Ninguém devolve a confiança depois de ela ter sido perdida em linhas de débito. Ninguém repõe, no lugar exacto onde estavam, as mãos dos pais dentro das alianças que lhes faltam.

Foi isso que Helena percebeu, talvez antes de tudo o resto. Percebeu que uma herança não é apenas aquilo que fica quando alguém morre. É também aquilo que pode ser saqueado sem ruído enquanto os outros choram.

E há crimes íntimos que não deixam sangue no chão. Deixam as gavetas mais leves. As contas mais limpas. As casas mais frias.

E um silêncio tão perfeito, tão metódico, tão completo, que acaba por ser a última coisa verdadeiramente deixada aos herdeiros.

domingo, 28 de junho de 2026

Guerras culturais no Ensino

 


A escola pública deixou de ser apenas um espaço de aprendizagem e passou a ser um dos territórios centrais da disputa política contemporânea, onde se confrontam visões opostas sobre liberdade, autoridade, cidadania e democracia.

O que antes era um debate sobre métodos pedagógicos, desenvolvimento infantil e qualidade do ensino foi sendo capturado por uma lógica de confronto ideológico. Nos Estados Unidos, esse processo ganhou grande visibilidade com movimentos que, sob a bandeira dos direitos dos pais, passaram a atacar conteúdos curriculares ligados à diversidade, à igualdade de género, ao racismo estrutural e à educação sexual. A linguagem é cuidadosamente escolhida. Fala-se em proteção, em neutralidade, em liberdade familiar. Mas, na prática, o objetivo é outro, é condicionar o que se pode ensinar, quem pode ensinar e que ideias podem circular dentro da escola.

Essa tendência não ficou confinada ao espaço norte-americano. Foi exportada, adaptada e reenquadrada em várias democracias europeias. A direita radical percebeu que a escola é um ponto de entrada privilegiado para moldar mentalidades, criar medo moral e mobilizar eleitores em torno de causas emotivas. O resultado é conhecido. Campanhas contra a chamada ideologia de género, ataques à educação sexual, suspeição permanente sobre a Educação para a Cidadania e tentativas de impor mecanismos de veto parental sobre matérias curriculares.

Em Portugal, esta ofensiva assume contornos igualmente preocupantes. A escola pública, que deveria ser um lugar de encontro entre diferenças e de formação para a vida em sociedade, é tratada como inimiga por quem vê a educação não como um bem comum, mas como um campo de batalha. A Educação para a Cidadania torna-se alvo preferencial porque representa exactamente aquilo que estes movimentos mais temem, uma escola que ensina direitos, deveres, respeito pela diferença e consciência crítica.

O problema é que esta agenda não se limita a uma questão cultural. Ela tem também uma dimensão política e económica. Ao descredibilizar a escola pública, enfraquece-se a sua autoridade. Ao fragilizá-la, abre-se espaço à sua mercantilização ou reformulação. A lógica é simples e perigosa. Se a escola pública for apresentada como doutrinária, ineficaz ou moralmente suspeita, cresce a aceitação de modelos privatizadores e de soluções em que a educação deixa de ser um direito universal para se tornar num serviço desigual, fragmentado e subordinado a interesses particulares; ou em que é profundamente reformulada, reduzindo o seu papel cultural e reforçando uma visão mais hierárquica, disciplinar e conservadora do ensino.

Há ainda outro aspeto decisivo. O uso sistemático do medo. Fala-se em crianças ameaçadas, em famílias desrespeitadas, em professores transformados em agentes ideológicos. Esta retórica é eficaz porque explora emoções legítimas, como a preocupação dos pais, a proteção dos filhos e o desejo de segurança, mas desvia-as para um alvo falso. Em vez de melhorar a escola, procura-se domesticá-la. Em vez de fortalecer a confiança entre família, escola e sociedade, alimenta-se a desconfiança. Em vez de educar cidadãos livres, pretende-se formar consciências obedientes a uma moral fechada e a uma visão estreita do mundo.

É por isso que o debate sobre a educação não pode ser tratado como uma guerra de slogans. Está em causa algo mais profundo. O tipo de sociedade que queremos construir. Uma sociedade democrática precisa de escolas que ensinem a pensar, não a repetir. Precisa de professores com autonomia, não de vigilância ideológica. Precisa de alunos expostos à complexidade do real, não protegidos por censuras preventivas. E precisa, acima de tudo, de uma escola pública forte, capaz de integrar, esclarecer e emancipar.

A verdadeira liberdade dos pais não consiste em controlar cada conteúdo que os filhos encontram. Consiste em confiar numa escola que prepara as crianças para viver num mundo plural, exigente e inevitavelmente diverso. Quando a educação é reduzida a trincheira partidária, perdem todos. Perdem os professores, perdem os alunos, perdem as famílias e perde a democracia.

O que está em jogo, portanto, não é apenas uma disciplina ou um programa escolar. É a própria ideia de escola como pilar da cidadania. E essa ideia merece ser defendida com firmeza, sem cedências ao ruído, ao medo e à intimidação ideológica.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Quando Portugal e Castela riscaram o globo


Há épocas em que a História parece menos uma sucessão de factos do que um gesto de audácia levado ao limite. E poucos gestos foram tão desmedidos como este. Dois reinos da Península Ibérica sentaram-se à mesa e, com a serenidade de quem divide uma herança, repartiram o mundo. Como se o mar fosse um tapete. Como se os continentes fossem peças de mobiliário. Como se a Terra, vasta e selvagem, coubesse num pergaminho e obedecesse à batuta dos homens.

Portugal e Castela fizeram isso. E, ao fazê-lo, não repartiram apenas territórios e gentes. Repartiram o futuro.

Tudo começou, como tantas grandes histórias, com uma guerra e uma sucessão contestada. Castela vivia em sobressalto, o trono dividido entre facções, o poder à procura de um rosto legítimo. De um lado, Isabel. Do outro, Joana, a Beltraneja. E, no meio, Portugal, que não assistia de longe, mas entrava de corpo inteiro na disputa. Em terra, Castela acabaria por impor a sua vontade. No mar, porém, o mundo pertencia a Portugal. E essa diferença mudou tudo.

Porque os oceanos não eram, para os portugueses, um vazio azul. Eram rotas, risco, método, ciência, instinto, cálculo. Eram a verdadeira sala do poder. E enquanto Castela ganhava batalhas em solo firme, Portugal dominava as águas com uma superioridade técnica que hoje nos parece quase fabulosa. A batalha da Guiné, com a destruição de uma frota castelhana carregada de ouro africano, é uma dessas cenas que parecem saídas de uma epopeia antiga. A riqueza do reino de Castela afundava-se no Atlântico, a provar que o império não se fazia apenas com espadas, mas com cartas náuticas, velas, correntes e ventos.

Foi esse empate desigual que levou ao Tratado de Alcáçovas-Toledo, em 1479. Um tratado que desenhou, pela primeira vez, uma fronteira europeia para lá da Europa. Não uma muralha, não uma fortaleza, mas uma linha imaginária traçada a sul das Canárias. O gesto tinha algo de simples e algo de vertiginoso. Castela ficava com as ilhas. Portugal recebia o sul, a costa africana, o Atlântico profundo. Era uma solução elegante e, ao mesmo tempo, frágil. Servia enquanto a navegação seguia a costa, enquanto o mundo ainda parecia obedecer à lógica da proximidade. Mas o mar, como sempre, tinha mais imaginação do que os tratados.

Quando Colombo atravessou o Atlântico e chegou a terras que julgou serem as Índias, a velha linha começou a ranger. Se tudo o que estivesse a sul das Canárias pertencia a Portugal, então aquelas novas terras poderiam também caber nessa regra. Castela percebeu o perigo e recorreu ao árbitro supremo da época, o Papa. Alexandre VI respondeu com novas bulas e impôs um novo desenho do mundo, agora vertical, como se a Terra pudesse ser cortada de cima a baixo por uma régua divina. A fronteira recuava para oeste. E Portugal, que não tinha chegado ao fim da história, estava longe de aceitar aquele recuo.

Aqui entra uma das grandes ironias do drama. Os mesmos homens que repartiam o globo não conseguiam sequer medi-lo com rigor. A linha existia no papel, mas no oceano era quase um fantasma. E Portugal sabia-o melhor do que ninguém. Sabia-o porque navegava. Sabia-o porque conhecia os ventos. Sabia-o porque a Volta do Mar tornava impossível aceitar uma fronteira demasiado próxima. As naus portuguesas precisavam de fazer grandes arcos pelo Atlântico para regressar a casa. Colocar a linha das 100 léguas tão perto dos arquipélagos era, na prática, estrangular a própria navegação portuguesa.

D. João II percebeu isso com a lucidez de quem lê o mar como outros leem um mapa. E forçou um novo acordo. Assim nasceu Tordesilhas, em 1494. A linha foi empurrada para 370 léguas a oeste de Cabo Verde. O meridiano passava agora a ser mais generoso para Portugal, e esse excesso de generosidade acabaria por ter consequências de escala continental. Porque, num mundo onde a longitude era ainda incerta, uma linha desenhada a régua era também uma linha feita de suposição, de confiança e de pura ficção útil.

Foi nessa zona cinzenta que o Brasil ganhou o seu destino.

Quando Pedro Álvares Cabral chegou à costa brasileira, em 1500, a posse do território já estava, em certa medida, preparada antes mesmo de o solo ter sido pisado. Aquele pedaço do continente sul-americano caía no lado português da fronteira. E o que podia parecer um acidente de cartografia transformou-se em fundamento imperial. Vieram depois as capitanias hereditárias, o pau-brasil, a cana-de-açúcar, a instalação de um sistema colonial que soube usar a linha de Tordesilhas como trampolim e não como limite.

Mas a História não respeita facilmente as linhas que os homens desenham. Portugal cresceu para além do previsto, avançou pelo interior, espalhou-se por rios, planícies e florestas, e acabou por tornar obsoleta a geometria inicial. A União Ibérica, entre 1580 e 1640, ajudou ainda mais a dissolver fronteiras. Com o mesmo monarca nos dois tronos, a linha de divisão perdeu força, e bandeirantes, missionários e aventureiros foram empurrando o mapa para lá da sua moldura original. Quando o Tratado de Madrid, em 1750, veio finalmente reconhecer a posse efectiva, a velha fronteira já era mais memória do que realidade.

Mas havia um problema ainda maior, e esse problema era o planeta em si. Se Tordesilhas cortava o mundo num meridiano, então do outro lado da esfera havia de existir o seu reflexo. E foi assim que as Molucas, ilhas de especiarias e de riqueza quase mitológica, se tornaram o centro de uma disputa feroz. O cravo e a noz-moscada valiam tanto que pareciam não pertencer ao mundo vulgar do comércio, mas a uma economia de luxo, de febre e de império. Quem controlasse aquelas ilhas controlava não apenas um negócio, mas uma máquina de poder.

A junta de Badajoz e Elvas tentou resolver o impasse, mas o problema era mais profundo do que a diplomacia. Sem longitude precisa, sem relógios fiáveis, sem forma de medir com exactidão onde terminava um hemisfério e começava o outro, cada mapa era uma hipótese e cada hipótese um campo de batalha. Portugal e Espanha discutiam como se discutem fronteiras invisíveis, com convicção absoluta e base incerta.

A solução voltou a ser o dinheiro. Em 1529, com o Tratado de Saragoça, Portugal pagou para garantir o Pacífico oriental e fechar a sua esfera de influência no comércio asiático. É difícil imaginar hoje a escala dessa operação sem sentir um ligeiro espanto. Não se comprava apenas terra. Comprava-se amplitude, distância, horizonte. Comprava-se uma faixa do oceano como quem compra silêncio. Portugal pagava ouro para adquirir uma certeza.

Mas a certeza, quando se estende demasiado, provoca sempre reação. Franceses, ingleses e holandeses olharam para o mapa e perceberam que tinham sido excluídos de um mundo repartido sem o seu consentimento. O mar, que durante algum tempo fora proclamado clauso, fechado, domínio de poucos, começou a abrir-se pela força. A pirataria, o corso, os ataques aos galeões espanhóis e às frotas portuguesas não foram apenas actos de saque. Foram também formas de contestação política. E depois veio a doutrina. Hugo Grotius, com o seu Mare Liberum, deu linguagem ao que os canhões já tinham começado a dizer.

Era uma revolução com tinta e pólvora. Os oceanos, dizia-se agora, eram comuns à humanidade. Nenhum rei podia reclamar o vento. Nenhuma coroa podia fechar a água. Por trás da filosofia, claro, estavam também os interesses comerciais, a violência estatal, as companhias armadas, a VOC, os novos impérios do Norte. O mundo já não se repartia em silêncio. Disputava-se. Roubava-se. Contestava-se. E os velhos tratados ibéricos, outrora tão solenes, começaram a parecer pergaminhos de uma idade ingénua.

No fundo, tudo isto revela uma coisa simples e inquietante. Os homens têm uma enorme tendência para desenhar linhas sobre espaços que não lhes pertencem, sobre populações soberanas nos seus territórios. Primeiro fazem-no em nome da fé. Depois em nome do rei. Mais tarde em nome do comércio, do direito ou da civilização. Mas o gesto é o mesmo. Traçar uma fronteira sobre o desconhecido é sempre uma tentativa de domar aquilo que resiste a ser domado.

É por isso que esta história não pertence apenas ao passado. Quando hoje se fala de Lua, de Marte, de recursos espaciais, de soberania extraterrestre, ouve-se ao longe o eco daqueles velhos debates. Quem vai dividir o que ainda não existe? Quem vai escrever o tratado antes de chegar o primeiro colono? Quem vai repetir, com nova linguagem e novas estrelas, o velho sonho de repartir o mundo à mesa?

Talvez a História não seja mais do que isso. A longa repetição da mesma ambição, com mapas diferentes.

terça-feira, 23 de junho de 2026

A matemática da guerra na Ucrânia

 


Uma análise divulgada recentemente pelo Dr. Warwick Powell, professor adjunto na Universidade de Queensland, no seu Substack, cruza econometria, cadeias de abastecimento e análise militar para observar a guerra na Ucrânia quase como se fosse uma equação em movimento. A sua abordagem usa um modelo de Lanchester adaptado, onde tropas, carros de combate e munições são convertidos numa métrica comum, as chamadas unidades letais, para medir a evolução do poder de combate.

A conclusão central é dura e simples de enunciar: a guerra tornou-se um conflito de atrito em que vence quem repõe melhor as perdas e o modelo sugere que a superioridade russa na reposição de homens e material está a empurrar a Ucrânia para uma degradação progressiva e difícil de travar. Powell identifica ainda um ponto de ruptura, quando a densidade da força desce abaixo de 73 por cento do pico, a partir do qual as perdas deixam de ser lineares e passam a crescer de forma exponencial, num colapso operacional não linear apoiado na Lei Quadrática de Lanchester. As suas projeções mais recentes colocam esse limiar entre julho e setembro de 2026, apontando para uma possível exaustão funcional das forças ucranianas nos meses seguintes, embora o próprio autor reconheça que variáveis políticas e tecnológicas podem alterar a cadência do processo.

Em 2022, muita gente também acreditou que a guerra na Ucrânia seria decidida em poucos dias. Os modelos eram sofisticados, os computadores eram poderosos e os especialistas falavam com a segurança de quem acredita ter a resposta certa. Mas a guerra, como quase sempre acontece, tratou de desmentir a elegância das previsões. O problema não estava apenas nos cálculos, estava naquilo que os cálculos não conseguiam ver. A corrupção, a improvisação, o medo, a resistência humana e a capacidade de adaptação alteraram por completo a equação.

A guerra na Ucrânia tornou-se, acima de tudo, uma guerra de desgaste. A tecnologia moderna não trouxe apenas mais poder de fogo; trouxe também visibilidade total do campo de batalha. Drones, satélites e sensores transformaram a frente de combate num espaço quase transparente. Já não é fácil concentrar forças sem ser detectado. Já não é simples avançar em massa sem ser imediatamente castigado. A surpresa, que durante séculos foi uma das armas decisivas da guerra, ficou muito mais difícil de obter. E quando a surpresa morre, a manobra perde espaço. O conflito deixa de ser uma corrida rápida e passa a ser uma luta lenta, brutal e persistente para destruir a capacidade do inimigo mais depressa do que ele consegue reconstruir.

É aqui que a matemática entrou de novo em cena pela mão de Powell. As leis de Lanchester ajudam a explicar esta lógica. Numa guerra moderna, em que armas de longo alcance e fogo concentrado contam mais do que o simples número de homens, a vantagem quantitativa pode multiplicar-se de forma implacável. Não basta ter mais forças; importa também saber como as empregar. A força que consegue concentrar melhor o seu fogo, a sua artilharia ou os seus meios de ataque tende a impor perdas desproporcionais ao adversário. Em teoria, isto parece frio e limpo. Na prática, porém, a guerra raramente respeita a pureza dos modelos.

Há uma tensão entre a fórmula e a realidade. De um lado, há a tentativa de transformar soldados, tanques, projéteis e drones em unidades comparáveis. Do outro, há a vida concreta, com todas as suas imperfeições. Um exército pode parecer sólido numa folha de cálculo e estar, no terreno, corroído por problemas invisíveis. Pode ter carros de combate, mas faltar manutenção. Pode ter munições, mas carecer de logística. Pode ter oficiais, mas sofrer de corrupção. E pode ter planos brilhantes, mas ser traído por pneus baratos, comunicações frágeis ou decisões absurdas.

A guerra dos drones levou esta lógica a um novo patamar. O que antes era um conflito de grandes massas passou a ser também uma guerra de saturação. Um sistema de defesa caro pode ser levado ao limite por enxames de drones relativamente baratos. Aqui, o problema não é apenas militar; é económico. Se um míssil custa muito mais do que o alvo que destrói, o combate deixa de ser apenas uma questão de fogo e passa a ser uma questão de sustentabilidade. Quem gasta mais depressa do que o outro consegue repor acaba por ficar sem fôlego. E numa guerra longa, o fôlego é quase tudo.

Há, contudo, uma lição ainda maior. A guerra não é só feita de metal e números, mas também de sistemas humanos. Muitos modelos falham porque ignoram o caos da corrupção, o efeito da moral, a capacidade de adaptação e a pressão de factores externos como a ajuda internacional ou as mudanças na economia mundial. A Rússia, por exemplo, não colapsou como alguns previam. O impacto das sanções foi real, mas foi amortecido por mecanismos de adaptação, pelo choque dos preços da energia, por redes comerciais alternativas e pela transformação da economia em economia de guerra. Ou seja, os números contam, mas não contam tudo.

No fundo, a grande pergunta que fica no ar é simples e perturbadora: até onde consegue a matemática explicar a guerra? Pode medir perdas, taxas de desgaste, custos e probabilidades. Pode até antecipar pontos de ruptura. Mas não consegue prever inteiramente a teimosia de um povo, a invenção de uma resistência, a capacidade de uma sociedade se reorganizar sob pressão ou a mutação de um conflito convencional em algo novo e imprevisível. A guerra na Ucrânia mostra precisamente que a matemática é indispensável, mas não é soberana.

Talvez seja essa a verdadeira lição. A guerra moderna é uma luta entre sistemas, mas também entre limites. Os modelos ajudam a ver o que os olhos não alcançam. Ainda assim, basta um detalhe humano para desviar uma previsão inteira. E é nessa fricção entre o calculado e a realidade, entre o planeamento e o improviso, que a História continua a ser escrita. A matemática pode dizer muito sobre a guerra. Não pode, porém, dizer tudo sobre o homem.

domingo, 21 de junho de 2026

Ainda o Infante de Zurara e a lição do mito

 


Lembro-me da minha escola primária em Quelimane como um lugar onde o silêncio tinha peso e onde a autoridade parecia entranhada nas paredes, no cheiro do giz, na madeira das carteiras e na forma como o professor se movia entre nós, como se cada passo ajudasse a manter o mundo seu devido lugar. O crucifixo estava sempre ali, os retratos oficiais alinhavam o poder no mesmo plano da fé, e as caravelas, os mapas e os heróis dos Descobrimentos formavam uma paisagem moral em que tudo parecia obedecer a uma ordem superior. Uma ordem que também se sentia nos rituais, nos desfiles, nos cânticos, nas cerimónias da Mocidade Portuguesa.

A minha escola primária em Quelimane era uma escola onde aprender não era apenas compreender e assimilar lições; era, sobretudo, aprender a ver Portugal com os olhos do regime. E, por trás dessa visão, havia uma mensagem muito clara para mim e para os meus colegas africanos, muitos deles crianças pobres de um país pobre: a de que a obediência era virtude, a resignação era dignidade e o sacrifício era nobreza. E de entre todas as imagens que nos impuseram, nenhuma se gravou com mais força do que a do Infante D. Henrique, apresentado como uma espécie de farol moral, uma figura quase sagrada que pairava sobre os mares, sobre a História e sobre a própria ideia de pátria.

Naquelas aulas, o Infante não surgia como príncipe medieval feito de interesses, cálculo político e ambição. Surgia como o homem da visão pura, o senhor de Sagres, o asceta voltado para o oceano, com o rosto severo e o olhar perdido no horizonte, como se pudesse ver já, no escuro do Atlântico, o destino inteiro de Portugal. A imagem era poderosa porque era simples e porque parecia intocável. Tudo nele era apresentado como grandeza, sacrifício e missão. E nós, crianças, recebíamos essa figura como quem recebe uma verdade antiga, sem suspeitar que estávamos perante uma construção cuidada ao detalhe para servir o regime e a sua maneira de contar a história.

As memórias escolares como esta não se apagam porque não pertencem apenas à infância. Pertencem a um país e ao modo como esse país escolheu narrar-se a si próprio. Para quem frequentou a escola primária portuguesa na década de 1950, o Infante D. Henrique e os Descobrimentos não eram ensinados como matéria de análise, mas como motivo de exaltação. Não se tratava de compreender o passado. Tratava-se de o reverenciar. A História aparecia então depurada de conflitos, amputada das suas zonas sombrias, convertida em catecismo patriótico.

O Estado Novo compreendeu, como poucos regimes, que a escola é um dos lugares onde se fabrica a continuidade política. O livro único, a repetição das lições, a solenidade dos símbolos, a disciplina dos gestos e das palavras, tudo concorria para formar não espíritos críticos, mas consciências moldadas pela obediência. As crianças aprendiam cedo que a pátria era uma entidade moral superior, anterior à dúvida, e que certos nomes, entre os quais o Infante D. Henrique e Salazar, deviam ser pronunciados com uma espécie de respeito quase litúrgico, como se ambos pertencessem à mesma ordem de veneração cívica e moral.

O Infante D. Henrique era apresentado como o homem providencial, o pioneiro visionário, o arquiteto de uma missão histórica cujo sentido parecia prolongar-se naturalmente até ao século XX. Salazar surgia como o estadista austero, silencioso e inflexível, o guardião da ordem, o homem do trabalho discreto e da autoridade serena, aquele que, do alto da sua contenção quase monástica, parecia encarnar a continuação moderna dessa antiga vocação nacional. Em ambos os casos, não se tratava de descrever pessoas reais, mas de elevá-las à categoria de figuras exemplares, destinadas a conferir ao regime uma aparência de continuidade histórica e de legitimidade moral.

Essa construção não nasceu do nada. O salazarismo soube ir buscar à crónica de Zurara uma matriz narrativa útil, a da expansão como desígnio, a da cruzada como justificação, a do príncipe como figura eleita. A crónica já oferecia uma imagem moralizada do poder imperial régio, em que a conquista se confundia com a providência e a violência se dissolvia numa linguagem de elevação espiritual. O Estado Novo limitou-se, em larga medida, a radicalizar e a modernizar essa operação. Enquanto Zurara escrevia ao serviço da memória do poder, Salazar adaptou o mesmo enredo às necessidades do nacionalismo imperial do século XX. O resultado foi uma história sem asperezas, em que a grandeza se impunha sobre a realidade concreta do comércio, da guerra, da captura de pessoas e da exploração colonial. 

O que me impressiona, olhando hoje para trás, é a forma como a escola fazia dessa imagem uma presença diária, quase doméstica, mas também solene. As paredes falavam e não havia neutralidade nisso. A sala de aula era um pequeno teatro de fidelidades, um lugar onde a pátria, a religião e a autoridade se juntavam para nos ensinar que Portugal fora grande por destino e não por conflito, violência ou domínio. É aqui que a pedagogia do regime revela a sua verdadeira natureza. O objetivo não era apenas ensinar o passado. Era moldar o presente. Ao ensinar o Infante como símbolo de desinteresse, fé e clarividência, o regime ensinava também a aceitar uma certa ideia de Portugal, disciplinado, hierárquico, missionário, obediente à sua própria lenda. A violência da expansão foi minimizada, o tráfico negreiro foi silenciado, as motivações económicas foram obscurecidas, e o império foi apresentado às crianças como herança moral, não como estrutura de dominação.

O Infante D. Henrique era o centro dessa encenação. Nos manuais, ele aparecia isolado em Sagres, cercado de cartas náuticas, astrolábios e pergaminhos, como se tivesse inventado o futuro com a calma de um sábio e a pureza de um santo. As caravelas, ao fundo, avançavam sobre um mar aberto e misterioso, quase como se fossem enviadas por uma vontade divina. Os Descobrimentos eram apresentados como uma epopeia luminosa, uma marcha heroica rumo ao desconhecido, e não como aquilo que também foram, uma empresa de conquista, de comércio, de exploração e de violência. Na escola do Estado Novo, o mar era promessa; a dor, o saque, o cativeiro e a escravatura ficavam fora do quadro. Foi assim que nos ensinaram a admirar antes de compreender. O Livro Único repetia a mesma história com a firmeza de uma reza, e a repetição dava-lhe a aparência de verdade natural. A infância é um tempo em que se acredita facilmente no que é dito com autoridade, e o regime sabia aproveitar essa confiança. O Infante não era apenas uma personagem histórica. Era um modelo de carácter. Um homem sem vaidade, sem luxo, sem hesitação, consagrado à fé e à missão de Portugal

Os Descobrimentos eram contados como o grande nascimento de Portugal para o mundo. Falava-se de Ceuta, de Sagres, das viagens pela costa africana, da abertura dos mares, da coragem dos navegadores, da cruz nas velas e da expansão da fé. Em Moçambique, tal como na metrópole, falava-se do génio português como se fosse uma espécie de claridade natural. Mas não se falava do que vinha agarrado a essa claridade. Não se falava dos homens arrancados às suas terras, das rotas do tráfico, das feitorias, da violência sobre populações inteiras, da economia do saque e da dominação. E também se esquecia, quase por completo, o estudo paciente, a competência náutica, o conhecimento das correntes e dos ventos, a aprendizagem feita à força de erro e experiência, bem como o sacrifício dos homens que de facto embarcavam para atravessar oceanos sem garantia de regresso. A escola queria que víssemos a epopeia como milagre, quando ela foi também trabalho, técnica, sofrimento e risco humano. O que o regime queria era uma memória limpa, heroica, quase litúrgica, porque uma história sem sombra é muito mais fácil de usar como instrumento político. Assim se fazia política através da memória. Assim se convertia a História em instrumento de legitimação.

Também por isso a famosa escola de Sagres ganhou, naquele ensino, uma importância quase mítica. Era apresentada como se ali tivesse existido uma verdadeira universidade náutica, um lugar onde sábios, cartógrafos e astrónomos se reuniam sob a direção do Infante para desenhar o futuro do mundo. Era uma imagem fascinante, sem dúvida, mas profundamente útil ao regime. Dava ao passado português uma aura de ciência, método e superioridade intelectual e, ao mesmo tempo, permitia sugerir que o Estado Novo era o herdeiro dessa mesma ordem, dessa mesma disciplina, desse mesmo comando centralizado. Se o Infante teria conduzido os Descobrimentos com visão e rigor, Salazar seria o continuador natural dessa missão, agora no século XX.

Na prática, tudo isto servia um propósito muito concreto. Portugal precisava, naquele tempo, de justificar o império e de resistir às pressões internacionais pela descolonização. Por isso, o regime reinventava a história para fazer dela um argumento político. O Infante tornava-se o pai fundador de uma nação pluricontinental, o iniciador de uma missão civilizadora que chegava até Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde, São Tomé e Timor. A mensagem era clara e insistente. Portugal não era um pequeno país europeu, mas uma nação maior, espalhada pelo mundo, una e indivisível. Essa ideia entrava na escola como doutrina, com naturalidade aparente e autoridade absoluta.

As comemorações de 1960 levaram essa operação ao auge. O Padrão dos Descobrimentos, em Belém, apareceu como monumento de pedra e de propaganda, com o Infante na proa, a comandar simbolicamente a marcha da nação sobre o mar. Tudo aquilo tinha uma força visual enorme. Era impossível não sentir o peso da imagem. Mas essa solenidade escondia o que não se queria ver. Escondia a violência das conquistas, o tráfico de escravizados, a exploração económica, a imposição colonial. Escondia também o modo como a memória tinha sido moldada para fazer da expansão portuguesa uma história de benevolência e fraternidade, quando na realidade havia nela sangue, dominação e desigualdade.

A escola era assim um prolongamento da sala de aula para o espaço público. O aluno não era só aluno. Era um futuro soldado da memória oficial. Aprendia-se a marchar, a cantar, a saudar, a aceitar. E, sem darmos por isso, preparava-se toda uma geração para ver a Guerra Colonial como continuação natural dos Descobrimentos, como se a aventura marítima de quinhentos anos antes tivesse de prolongar-se nas selvas africanas.

Hoje, quando vejo os saudosistas do Estado Novo e de Salazar recuperarem o Infante D. Henrique e os Descobrimentos como bandeira, reconheço logo o velho mecanismo. Tiram-lhe as sombras, limpam-lhe a imagem, transformam-no outra vez em herói sem mácula e usam-no para atacar a crítica histórica, o multiculturalismo, a imigração e tudo o que desconfiam que enfraqueça a sua ideia fechada de país. Mudou a linguagem, mudaram os meios, mudaram os inimigos eleitos, mas a operação continua a ser a mesma. É sempre a tentativa de converter o passado num escudo para o presente, e a História, nessa versão, deixa de ser conhecimento para passar a ser arma.

Talvez seja por isso que esta memória me pesa tanto. Porque não se trata apenas de recordar uma escola antiga. Trata-se de rever uma máquina inteira de formação de consciências, feita de imagens sugestivas, de silêncios bem calculados e de uma glória cuidadosamente encenada. E no centro dessa máquina estava o Infante D. Henrique, rodeado dos Descobrimentos como se o mar tivesse sido aberto apenas pela vontade de um homem e não também pelo sofrimento de tantos outros. A minha geração foi ensinada assim, entre a fé, a pátria e o império, e só muito mais tarde percebeu que, por trás daquela grandeza, havia um país a ensinar os seus filhos a venerar o espelho e a não olhar para o que ele escondia.

A História, quando é reduzida a bandeira, torna-se pobre. E uma nação que só se reconhece nas suas epopeias acaba por perder contacto com a verdade do seu percurso. Portugal não precisa de negar o Infante para o compreender. Precisa de o situar. Não precisa de destruir a memória dos Descobrimentos. Precisa de a libertar da função catequética que o Estado Novo lhe impôs. Nenhum povo amadurece enquanto continuar a confundir grandeza com infalibilidade. A maturidade histórica começa quando se aceita que o passado é feito de feitos notáveis e de sombras indeléveis, de ambição e de violência, de génio e de cálculo, de cultura e de dominação.

É precisamente por isso que importa desconfiar das nostalgias políticas que hoje se alimentam de velhos símbolos. Não há inocência no uso seletivo da memória. Quando Salazar é recuperado como modelo e o Infante e os Descobrimentos como estandarte, não estamos perante um simples exercício de evocação histórica. Estamos perante uma tentativa de reabilitar uma certa gramática do poder. E essa gramática assenta sempre na mesma operação. Transformar a complexidade em pureza, a história em lenda, a cidadania em disciplina.

Hoje, o nosso dever cívico é olhar o passado sem o adornar, sem o falsificar e sem o domesticar. Só assim a História deixa de ser um espelho de conveniências e passa a ser aquilo que deve ser, um instrumento de conhecimento e, por isso mesmo, uma forma de liberdade.

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Quando o país muda depressa demais

 


O mapa político português mudou depressa demais para que muitos tenham querido ver a extensão da transformação. Durante anos, o país habituou-se a uma paisagem relativamente estável, em que os grandes partidos se sucediam no governo com a regularidade de uma maré antiga e previsível. PS e PSD alternavam no poder, a esquerda mantinha bastiões sólidos e o voto de protesto tinha expressão limitada. Essa ordem, porém, começou a desfazer-se quando os fluxos migratórios e a consequente pressão demográfica, a crise da habitação e a fragilidade dos serviços públicos se encontraram no mesmo território e no mesmo tempo. O resultado foi uma perturbação silenciosa, mas profunda, que alterou o comportamento eleitoral, enfraqueceu as velhas lealdades e abriu espaço a novas formas de protesto.

Nada disto aconteceu por acaso. A imigração não se distribuiu de forma homogénea. Concentrou-se sobretudo onde a economia mais a exigia, nos campos intensivos do Alentejo, no turismo do Algarve, na construção e nos serviços das áreas metropolitanas e periurbanas. Em teoria, esse movimento respondia a necessidades produtivas. Na prática, produziu efeitos muito mais vastos. Em certos concelhos, a chegada rápida de milhares de pessoas coincidiu com a escassez de habitação, a sobrecarga dos centros de saúde, a pressão sobre as escolas e a degradação da sensação de segurança e de pertença. O país real, aquele que se vive no quotidiano e não nas estatísticas, sentiu a mudança antes de a política a saber nomear.

Foi nesse desfasamento que a esquerda começou a perder o seu antigo lugar. O PCP viu esvair-se a base operária que durante décadas lhe servira de chão histórico. A envelhecer a sua militância, a rarear a densidade sindical, a desaparecerem os laços comunitários que sustentavam a sua influência, o partido deixou de falar com a mesma autoridade para os territórios onde antes era quase uma extensão da paisagem social. A chegada de mão de obra imigrante, frequentemente mais precária e sem direitos de participação política, não substituiu essa base, antes a diluiu. O mundo do trabalho mudou, mas o PCP permaneceu preso a uma gramática que já não alcançava plenamente a ansiedade de quem ficou para trás.

O Bloco de Esquerda enfrentou outro tipo de erosão, menos ligada à memória de classe e mais ao desalinhamento com a experiência concreta das populações locais. O seu discurso, fiel aos direitos humanos, ao acolhimento e à crítica da xenofobia, manteve coerência ideológica. Ainda assim, essa coerência tornou-se insuficiente perante a angústia material de muitos eleitores que viam o preço das casas subir, os serviços rarear e a concorrência pelos recursos básicos intensificar-se. Quando a vida quotidiana se torna mais dura, a linguagem da dignidade universal pode soar nobre, mas nem sempre consola. E a política, quando perde a capacidade de consolar, começa a perder também a capacidade de representar.

É nesse vazio que o Chega encontrou o seu terreno fértil. Não se limitou a explorar o ressentimento. Soube traduzi-lo em linguagem política com eficácia rara. De um lado, apropriou-se da ideia de que o Estado favorece quem chega em detrimento de quem cá vive e trabalha há muito. Do outro, transformou a alteração do perfil social de certos territórios numa narrativa de perda, ameaça e desordem. A sua força não reside apenas na denúncia da imigração, mas na maneira como entrelaça insegurança económica, medo cultural e sensação de abandono numa mesma proposta política.
A sua ascensão revela menos uma súbita conversão do país ao radicalismo e mais a falência de mediação das instituições tradicionais. Quando os partidos que historicamente representavam o trabalho deixam de oferecer respostas credíveis à precariedade, à habitação e à fragmentação social, o espaço que abandonam acaba ocupado por quem fala mais alto e promete soluções simples. É um mecanismo antigo, quase sempre perigoso, porque converte frustração em identidade política e dor social em arma eleitoral.

Importa, no entanto, não simplificar o fenómeno. A questão não se reduz à presença de imigração, mas à incapacidade do Estado para a enquadrar, distribuindo recursos, prevenindo assimetrias e impedindo que a mudança se faça por compressão em vez de se fazer por integração. O problema não é a circulação de pessoas em si mesma. O problema é a aceleração sem planeamento, a concentração sem resposta e o abandono das comunidades que sentem a transformação como imposição e não como escolha.

Se a esquerda quiser voltar a ser uma força de maioria, terá de reaprender a falar do país concreto. Terá de recuperar uma linguagem que una justiça social, regulação séria e atenção às condições materiais da vida quotidiana. Não basta proclamar princípios correctos se, na prática, eles chegam tarde ou não chegam a quem mais precisa. A política, no fim de contas, vive menos de abstrações do que de confiança. E a confiança só renasce quando as pessoas sentem que o seu medo foi ouvido antes de ser explorado por outros.

Portugal está numa fase em que o conflito entre identidade, recursos e representação passou a definir a sua paisagem política. A eleição já não é apenas um espelho de ideologias. É também um indicador das tensões acumuladas nas periferias, nos concelhos sobrecarregados e nas zonas onde o Estado aparece mais como promessa do que como presença. Quem quiser compreender o futuro terá de partir daí. E quem quiser governá-lo terá de provar, primeiro, que ainda sabe olhar para o país sem o reduzir a números, slogans ou medos reciclados.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Como Zurara inventou* o Infante D. Henrique




Há obras que não se limitam a narrar a História; moldam-na, corrigem-na, adornam-na e, por vezes, reinventam-na por inteiro. A crónica de Gomes Eanes de Zurara sobre os feitos da Guiné pertence a essa espécie rara e inquietante de textos que não servem apenas para recordar o passado, mas para o ordenar moralmente, justificá-lo e, no limite, torná-lo aceitável. Lida hoje, com a distância crítica que os séculos permitem, essa obra surge menos como um espelho fiel do século XV do que como um artefacto de poder, construído com a sofisticação própria de quem escreve a partir do centro da corte e não à margem dela.

Zurara não foi um observador independente, nem um cronista isolado num mosteiro ou numa torre de arquivo. Foi um homem da casa régia, criado da esfera mais íntima do poder, educado sob a proteção da dinastia de Avis e promovido ao lugar de cronista-mor e guarda-mor da Torre do Tombo. Essa proximidade ao trono não é um dado lateral; é a condição de possibilidade da sua escrita. O que ele regista, o que omite e o modo como ordena os acontecimentos responde, antes de mais, a uma lógica de serviço. A pena de Zurara não descreve apenas o mundo, participa activamente na sua legitimação.

É por isso que a Crónica dos Feitos da Guiné deve ser lida como uma operação literária e política de grande alcance. O seu destinatário não é o leitor neutro, mas a memória régia. O seu protagonista não é apenas o Infante D. Henrique histórico, com as contradições do seu tempo, mas um D. Henrique depurado, elevado e quase santificado. A opção hagiográfica é decisiva. Zurara escreve o Infante como se escrevesse a vida de um santo, e não a biografia de um príncipe envolvido nas engrenagens militares, comerciais e religiosas da expansão portuguesa. A consequência é clara. O que Zurara oferece ao leitor não é tanto uma narrativa de factos, mas uma arquitectura de virtudes.

Essa arquitectura, porém, tem fundações muito mais duras do que as que a superfície deixa ver. Por trás da aura de cruzada, de missão e de ciência, estão as primeiras expedições à costa ocidental africana, cuja realidade material foi, em larga medida, a do corso, do saque e da captura violenta de seres humanos. Não se trata de uma nota marginal, mas da matéria central que o discurso procura transfigurar. A linguagem torna-se, aqui, instrumento de transmutação moral. Ao chamar “mouros” a populações diversas, muitas delas já longe do enquadramento geográfico e cultural do Norte de África, Zurara desloca para sul o imaginário da Reconquista e reinscreve essas gentes no espaço simbólico do inimigo tradicional. A palavra não descreve apenas; acusa, aproxima, simplifica e condena.

É neste ponto que a crónica revela o seu verdadeiro objectivo ideológico. O que era violência aparece como guerra justa; o que era rapto surge como empresa ordenada; o que era lucro converte-se em providência. A expedição de 1444, organizada a partir de Lagos e financiada por mercadores privados, mostra bem essa fusão entre capital e violência. Já não estamos perante uma empresa exclusivamente régia, mas perante uma engrenagem onde o risco marítimo, o investimento comercial e a expectativa de retorno se articulam com a captura de corpos. A conquista torna-se negócio; o negócio precisa de narrativa; e a narrativa, em Zurara, fornece-lhe uma cobertura moral que o protege da sua própria nudez.

Nenhum episódio exprime isso com tanta crueldade como o leilão de Lagos. Ali, a História abandona qualquer máscara decorativa e mostra a sua substância mais brutal. Famílias separadas, mães arrancadas aos filhos, corpos divididos em lotes, vidas submetidas à lógica da partilha mercantil. O próprio Infante, presente no local, observa o processo e reclama o seu quinto, convertendo pessoas em parcela de um sistema de distribuição de poder. Há nessa cena uma obscenidade estrutural que não depende apenas do acto em si, mas do modo como ele é incorporado numa ordem social e política que o torna legível. É precisamente isso que Zurara faz; torna o intolerável narrável.

A parte mais desconcertante da sua escrita talvez esteja na forma como tenta resolver a tensão moral que a própria descrição produz. O cronista admite a compaixão, reconhece o sofrimento, deixa entrever lágrimas — mas logo a seguir transforma a escravização num preço necessário da salvação eterna. O sofrimento temporal dos cativos é apresentado como uma espécie de imposto espiritual, uma mediação dolorosa, mas benéfica para conduzir almas infiéis ao baptismo e, por essa via, à redenção. A operação é intelectualmente fascinante e eticamente devastadora. O mal não é negado; é reinterpretado. E, ao ser reinterpretado, ganha uma forma de legitimidade que o torna historicamente eficaz.

É também por isso que a crónica continua a suscitar debate entre historiadores. Há quem veja nela um dos marcos fundadores de um racismo paternalista, enquanto outros sublinham o seu enraizamento num horizonte estritamente religioso, ainda distante das categorias biológicas modernas. Mas talvez a força perturbadora do texto esteja precisamente em resistir a uma classificação simples. Zurara escreve num mundo em que fé, guerra, hierarquia e diferença se entrelaçam de forma quase inseparável. E, nesse mundo, a linguagem do universal cristão pode servir simultaneamente a conversão, a dominação e o lucro.

A posteridade da obra reforça essa ambivalência. O manuscrito desapareceu dos circuitos visíveis durante séculos, retido na sombra dos arquivos e da política de segredo que rodeava a expansão portuguesa. Quando ressurgiu no século XIX, já não era apenas um documento de memória, era um instrumento de soberania. Num tempo em que Portugal via contestada a sua presença africana pelas grandes potências europeias, a crónica converteu-se em argumento jurídico, prova de prioridade e título simbólico de posse. O texto que antes glorificara um príncipe passou a defender fronteiras imperiais. A História, mais uma vez, foi chamada a servir o presente.

Mais tarde, a leitura britânica voltou a deslocar o sentido da obra. A edição promovida no universo da Hakluyt Society suavizou as passagens mais duras e privilegiou a vertente marítima, técnica e cartográfica, enquadrando o Infante como precursor da ciência e da expansão europeia. O mesmo texto que servira para legitimar a ocupação portuguesa podia agora ser reinscrito numa narrativa imperial britânica mais vasta. Nada mais revelador da plasticidade dos documentos históricos do que essa capacidade de serem sucessivamente apropriados por poderes distintos.

Resta, porém, uma sombra que torna tudo ainda mais complexo. O próprio Zurara afirma ter-se baseado, em parte, num manuscrito anterior, redigido por um homem que efectivamente embarcara nessas expedições: Afonso Cerveira. Esse texto desapareceu. Não o temos. Não o lemos. Mas a sua ausência pesa tanto quanto a presença de tudo o que sobreviveu. Porque se o manuscrito de Cerveira viesse um dia a ser encontrado, talvez nos obrigasse a rever, uma vez mais, o que julgamos saber sobre o início europeu da expansão em África. E talvez então percebêssemos, com ainda maior nitidez, que por baixo de cada versão acabada da História existe quase sempre uma outra, mais áspera, mais imediata e mais verdadeira, ou pelo menos mais próxima daquilo que aconteceu antes de ser convertido em narrativa.
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* O termo “inventou” é aqui empregado em sentido historiográfico e retórico, e não literal, pois não se trata de atribuir a Zurara uma ficção arbitrária, mas de assinalar que a sua crónica constrói discursivamente a figura do Infante D. Henrique mediante a seleção, hierarquização e sacralização dos factos, numa operação que transforma um príncipe histórico medieval num emblema político e moral. A pertinência dessa formulação torna-se ainda mais clara quando se observa a longa duração dessa imagem (https://aminhavivencia.blogspot.com/2026/06/ainda-o-infante-de-zurara-e-licao-do.html).