Vivência
Facto de viver, de ter vida; existência. Experiência de vida. Processo psicológico consciente no qual o indivíduo adopta uma posição valorizante, sintética, que não é apenas passiva e emocional, pois inclui também uma participação intelectual activa. O conhecimento adquirido através da experiência vivida. Não é lido, não é contado, é experimentado.
terça-feira, 7 de julho de 2026
Quo vadis, FIFA?
segunda-feira, 6 de julho de 2026
O luxo na estrada e a desigualdade
sábado, 4 de julho de 2026
Pão, coroas e memória na Califórnia
Foi na Califórnia que percebi, com grande clareza, o valor de certos símbolos quando atravessam o oceano e conseguem resistir ao tempo. Encontrei-me perante uma devoção que ali parecia fazer mais do que recordar uma figura do passado. Parecia manter viva uma comunidade inteira.
O que mais me impressionou não foi apenas a solenidade das cerimónias, nem a forma cuidada como se repetiam gestos antigos. Foi, acima de tudo, a maneira como esse culto, apesar de todas as dúvidas históricas que o rodeiam, continuava a servir como linguagem comum. À volta da Rainha Santa juntavam-se vozes, memórias, famílias, bandeiras, coroas, procissões e afecto. Havia ali religião, sem dúvida. Mas havia também pertença, continuidade e reconhecimento entre pessoas que se sabiam parte da mesma história.
A história da Rainha Santa Isabel não é simples. Entre a rainha que existiu de facto e a santa que a tradição foi construindo ao longo do tempo abriu-se um espaço pleno de interpretações, mudanças e usos do sagrado. Há nessa história uma dimensão lendária que convida à contenção e até levanta algumas questões, sobretudo quando se tenta separar a mulher real da figura idealizada pela devoção popular. Mas foi precisamente essa mistura que me pareceu tão reveladora na Califórnia. Para as comunidades portuguesas que ali viviam, o mais importante não era resolver de uma vez a questão da verdade histórica. O que importava era o que a Rainha Santa permitia fazer no presente.
E permitia fazer muito. Permitia reunir pessoas que vivem longe umas das outras, mas que continuam a reconhecer-se numa mesma origem. Permitia dar forma visível a uma identidade portuguesa e açoriana que, sem estes momentos, correria o risco de se tornar vaga e dispersa. Permitia transformar a saudade em acção colectiva. Nisso vi uma força rara. Uma tradição que não vive apenas na recordação, mas que se encena, se partilha e se renova.
Foi impossível não pensar também na relação com o Divino Espírito Santo. Na Califórnia, como em tantas comunidades portuguesas, essa ligação aparece com naturalidade. A coroa, a mesa, a partilha, a festa, os mais velhos e os mais novos, tudo isso faz parte de um mesmo mundo de sinais e de memória. A Rainha Santa, nesse contexto, não aparece isolada. Surge como uma figura que dá rosto e brilho espiritual a uma forma muito própria de viver a fé em comunidade. O Divino Espírito Santo dá a festa e o seu ritmo. A Rainha Santa dá profundidade e ligação ao passado.
Mas há ainda um outro aspecto que me impressionou e que ajuda a perceber por que razão esta tradição continua tão viva. Na Califórnia, o antigo costume de coroar um idoso ou um pobre foi ganhando uma forma nova ao longo do tempo. A partir do início do século XX, passou a ser comum escolher jovens luso-descendentes, as Rainhas, para carregar a coroa e o ceptro no desfile. Vestidas com longas capas bordadas a fio de ouro e prata, estas jovens representam a própria Rainha Santa Isabel. E esse papel não é apenas decorativo. É um enorme motivo de orgulho para as famílias e funciona também como um rito de passagem, porque aproxima os mais novos, já nascidos nos Estados Unidos, das suas raízes.
| Rainhas em Modesto, CA (foto de José Ávila) |
Outro sinal forte dessa continuidade está nas Sopas do Espírito Santo. Seguindo o exemplo de caridade da Rainha, as festas na Califórnia mantêm a tradição de servir as sopas gratuitamente a qualquer pessoa que apareça no salão da irmandade, o chamado Holy Ghost Hall. Num país marcado pelo individualismo, este gesto de dar comida de forma livre e comunitária a milhares de pessoas afirma, de modo muito claro, a generosidade e a força económica da comunidade portuguesa perante a sociedade americana. Ao mesmo tempo, lembra que a festa não é apenas para os de dentro. É também uma forma de abrir portas, acolher e partilhar.
O mais surpreendente é que tudo isto acontece num país onde tudo parece andar depressa e onde a vida muda com facilidade. E, no entanto, ali estão eles, homens e mulheres de origem portuguesa, muitos já nascidos longe de Portugal, a celebrar a Rainha como se nela reconhecessem não apenas uma santa, mas uma parte viva de si próprios. Há ali uma sabedoria antiga, quase instintiva. A de saber que um povo não vive só de documentos ou de nomes de família, mas também de rituais que lhe devolvem forma, ritmo e rosto.
Aprendi com esta experiência que as diásporas resistem menos por guardarem o passado tal como ele foi e mais por conseguirem recriá-lo. E a Rainha Santa Isabel, na Califórnia, é isso mesmo. Uma memória portuguesa reinventada com força e sentido. Pode haver nela controvérsia histórica, e há. Pode haver tradição moldada pela imaginação e pelo tempo, e há. Mas há também uma verdade mais funda, talvez mais importante do que a exactidão dos factos. A de uma comunidade que, ao celebrar a sua Rainha, celebra também a sua própria presença no mundo.
O paradoxo da Liberdade aos 250 anos
quinta-feira, 2 de julho de 2026
O segredo da IA
A explicação técnica da IA
Um chat de IA como o ChatGPT ou o Gemini funciona, de forma simples, como um sistema que lê a pergunta, procura informação relevante e gera a resposta mais provável com base no que aprendeu antes e no que está escrito naquela conversa. Não “pensa” como uma pessoa nem tem consciência; usa um modelo de linguagem treinado em muitos exemplos para prever a melhor continuação possível da conversa.
Nos sistemas mais avançados, há ainda uma peça essencial: a base de dados vectorial, uma espécie de biblioteca de significados. Em vez de guardar informação digitalizada, guarda textos, documentos ou notas transformadas em vectores, representações numéricas do seu significado. Quando alguém faz uma pergunta, o sistema transforma essa pergunta num vector e procura na base vectorial os conteúdos com significados mais próximos, mesmo que as palavras não coincidam.
- uma base documental fiável;
- um conjunto de números que representam significados e;
- um modelo de linguagem capaz de perceber perguntas e gerar respostas.
A IA como dispositivo político e económico
Ao reflectir sobre esta explicação técnica, torna-se evidente que ela, embora útil, é insuficiente. A IA não é apenas um sistema de gestão da informação. É também um dispositivo de apropriação de valor à escala global.
A “biblioteca de significados” não é apenas um repositório técnico, é a cristalização de séculos de produção cultural, científica e linguística. Livros, artigos, código, imagens e discursos constituem o trabalho acumulado de milhões de pessoas que serve de matéria-prima a estes sistemas. Parte desses dados é pública ou licenciada, mas grande parte foi integrada sem mecanismos claros de consentimento ou compensação proporcional.
A ideia de “amnésia” da IA, a noção de que uma interacção individual não altera imediatamente o modelo, é tecnicamente correcta, mas enganadora quando isolada. As interacções podem ser agregadas e reintegradas em ciclos futuros de treino. O que parece efémero ao utilizador individual pode transformar-se, à escala, em valor estrutural. Contributos dispersos tornam-se activos proprietários.
Importa também evitar tanto a ingenuidade técnica como o exagero filosófico. A IA não possui agência humana. Não tem intenções, responsabilidade jurídica ou consciência. Mas dispõe de uma capacidade operacional delegada com efeitos autónomos: decide, classifica, recomenda, prioriza. Essas decisões têm consequências reais sobre mercados, informação e vidas. A fronteira entre ferramenta e agente torna-se politicamente relevante, mesmo que filosoficamente imperfeita.
Há ainda a materialidade da IA. Por detrás da abstracção algorítmica existe uma infraestrutura intensiva em capital e recursos, de centros de dados, processadores de elevado custo, consumo energético massivo, cadeias de abastecimento globais e trabalhadores envolvidos na rotulagem e curadoria de dados, muitas vezes em condições precárias. A imaterialidade da IA assenta numa base profundamente material e altamente concentrada.
Quem controla a IA?
Surge então a questão central: pode a IA ser tratada como um activo exclusivamente privado? A resposta não é simples.
A IA não é um bem comum puro, como o ar ou o oceano. É um híbrido que se alimenta de contributos colectivos, depende de infraestruturas privadas e gera produtos parcialmente excludentes. Quando o valor de um sistema depende estruturalmente de contributos colectivos, a sua apropriação unilateral levanta questões de legitimidade económica e política.
A literacia digital não pode limitar-se à compreensão técnica dos modelos. Deve incluir uma consciência crítica sobre quem contribui, quem beneficia e quem decide. O risco não reside apenas na tecnologia, mas na possibilidade de um dos maiores recursos cognitivos alguma vez construídos ser capturado por um número reduzido de actores.
A História mostra que momentos de transformação tecnológica profunda são também momentos de redefinição de poder. A Inteligência Artificial não é excepção. A questão já não é apenas o que a IA consegue fazer, mas quem a controla e em nome de quem.
terça-feira, 30 de junho de 2026
Inventário do silêncio
domingo, 28 de junho de 2026
Guerras culturais no Ensino