Houve um tempo em que o debate político se fazia na praça pública, nos jornais e nos parlamentos, espaços onde a contradição, o escrutínio e a ponderação ainda impunham algum travão ao sensacionalismo. Hoje, a arena democrática foi transferida para o ecrã do smartphone, um território governado pela lógica implacável da economia da atenção. Neste novo ecossistema, não vence quem tem a melhor proposta ou o argumento mais sólido, mas sim quem consegue capturar o olhar e inflamar a emoção em breves segundos.
A arquitectura das plataformas digitais não é neutra. Desenhadas para maximizar o tempo de permanência do utilizador, as redes sociais priorizam algoritmos que promovem conteúdos indignados, coléricos e polarizadores. Em busca do clique, a técnica digital descobriu que o ressentimento é o combustível mais rentável do mercado. O resultado é a criação de câmaras de ressonância e filtros-bolha que devolvem a cada indivíduo o eco das suas próprias obsessões e medos, fazendo com que perspectivas radicais e marginais passem a parecer visões hegemónicas e incontestáveis no ecossistema digital.
Esta mutação tecnológica encontrou o seu casamento perfeito com o populismo radical. Como demonstra a investigação do cientista político Vicente Valentim em O Fim da Vergonha, as ideias nativistas e extremistas já habitavam no seio da sociedade, mas eram travadas pelo estigma social. As redes sociais não só quebraram esse isolamento, como legitimaram o indizível. Ao verem líderes políticos comunicar directamente sem o filtro do jornalismo independente, e ao encontrarem milhares de comentários a replicar os seus próprios preconceitos nas redes, os cidadãos perderam a vergonha de assumir posições anteriormente consideradas tabu.
Para operar esta engrenagem, aperfeiçoou-se a estratégia do chamado "efeito trompete". Através de uma táctica cirúrgica, um boato ou conteúdo fabricado nasce na periferia digital e explode exponencialmente quando uma figura política de grande alcance o partilha nas suas redes sociais. Exemplo paradigmático recente foi o vídeo falso gerado por inteligência artificial partilhado por André Ventura, que mostrava duas mulheres muçulmanas de véu a reprovarem ostensivamente o vestuário de uma jovem de saia curta. Editado com cortes intencionais e com a música da série Dexter ao fundo, o vídeo tinha erros técnicos visíveis como uma mão com seis dedos, mas cumpria a função de alimentar a narrativa de uma oposição de costumes entre muçulmanos e o mundo ocidental. Ao ser propagado por um líder político para acentuar a polarização, o conteúdo alcançou vários milhões de visualizações e gerou um alarme social totalmente fabricado. Em sentido contrário, observamos a divulgação nas redes sociais da suposta capa do Jornal Universitário de Coimbra - A CABRA com a deputada Rita Matias, que obrigou a um desmentido da equipa editorial.
A somar a isto, o contágio estende-se às aplicações encriptadas de mensagens como o WhatsApp e o Telegram. Ali, a coberto da privacidade e valendo-se da confiança entre familiares e amigos, a desinformação sobre imigração e subsídios circula sem qualquer contraditório, minando a coesão social à margem dos factos estatísticos oficiais.
Todavia, há quem argumente que o problema essencial não é a democracia em si, mas sim a erosão do pressuposto básico da vida em sociedade — a necessidade de existir uma correspondência mínima e previsível entre o que parece e o que é. Sob esta perspetiva, o algoritmo seria apenas um bode expiatório, comparável à aguardente ou ao haxixe. A culpa, diz-se, não reside no agente viciante, mas na fraqueza de quem não sabe resistir ao vício, e tentar alterar isso seria incorrer no erro histórico de querer fabricar um "Homem Novo" imune à imperfeição humana.
Esta comparação, contudo, assenta numa falsa equivalência. Uma garrafa de aguardente é um objecto estático numa prateleira. Não estuda os nossos dados pessoais, não mapeia as nossas vulnerabilidades emocionais, não envia notificações personalizadas às três da manhã e não altera a sua composição em tempo real para maximizar a dependência. As plataformas digitais não são substâncias passivas, são sistemas dinâmicos de engenharia comportamental concebidos por milhares de engenheiros e financiados por orçamentos multimilionários para reter e modular a atenção. Culpar a fragilidade individual perante uma máquina assimétrica de optimização comportamental é ignorar a escala desproporcional do confronto.
Por outro lado, enquanto o consumo excessivo de álcool destrói a saúde privada do indivíduo, a manipulação algorítmica destrói o bem comum. Se a vida comunitária exige que exista confiança na percepção da realidade, o algoritmo actua como um poluidor que contamina o poço de água pública. Quando a desinformação orquestrada e a raiva fabricada se tornam a moeda de troca no debate público, o prejuízo deixa de ser um vício individual e passa a ser a destruição do solo factual comum que permite a convivência em paz.
Por fim, exigir a regulação das plataformas não é qualquer tentativa utópica de refundar a natureza humana. A humanidade não precisou de criar um "Homem Novo" para proibir a contaminação alimentar pela indústria, impor cintos de segurança nos automóveis ou proibir a publicidade ao tabaco. Regular o ecossistema digital — exigindo transparência nos algoritmos, limitando a microsegmentação agressiva e travando a capitalização do ódio — é apenas aplicar regras elementares de responsabilidade empresarial a um mercado descontrolado.
Quando o ecossistema informativo substitui a verdade factual pelo impacto emocional, a democracia deixa de ser um exercício de deliberação racional entre cidadãos para se converter numa arena digital de paixões orquestradas. Resignarmo-nos a que o problema é das pessoas é uma paralisia que serve apenas os demagogos que lucram com o medo e as gigantes tecnológicas que enriquecem com o caos e não formos capazes de impor limites e resgatar o valor do contraditório, seremos meros figurantes num espectáculo onde o algoritmo decide o que sentimos, o que tememos, como vivemos em sociedade e, em última análise, em quem votamos.