Facto de viver, de ter vida; existência. Experiência de vida. Processo psicológico consciente no qual o indivíduo adopta uma posição valorizante, sintética, que não é apenas passiva e emocional, pois inclui também uma participação intelectual activa. O conhecimento adquirido através da experiência vivida. Não é lido, não é contado, é experimentado.
segunda-feira, 15 de novembro de 2021
Lembram-se do Edifício Arte Contínua?
quarta-feira, 6 de outubro de 2021
Memórias do Moçambique colonial
Já tinha construído tudo de raiz em Inhambane e no Mangorro,
próximo de Inharrime, e voltaria agora a fazer em Quelimane e em Alverca, próximo
do Gurué. Para o jovem agrónomo o importante era criar uma estrutura de apoio
aos cafeicultores da Zambézia porque para as outras culturas já existiam as grandes
companhias. O café era a única cultura que permitia aos pequenos agricultores
libertarem-se dos monopólios da comercialização que existiam para produtos
agrícolas como o chá, o algodão ou o sisal.
Para fazer o seu trabalho e atingir os objectivos, precisava
de muita energia e paciência para lidar com as autoridades administrativas
coloniais; em Quelimane com o governador do distrito da Zambézia, um
funcionário civil da Metrópole em comissão de serviço; em Lourenço Marques com
o governador-geral, um oficial de Marinha que partilhava com o jovem agrónomo
as raízes madeirenses. Talvez para vingar as frustrações de tais
relacionamentos, pôs alcunhas a ambos: o primeiro era o “Narciso” e o segundo,
o “Fadista”.
Se não fossem as eleições presidenciais de 1958, a comissão
do “Narciso” teria corrido sem sobressaltos e de Quelimane poderia ter
descolado para voos políticos bem mais relevantes. Mas a candidatura de
Humberto Delgado exigiu dele uma resposta para a qual não estava preparado e
apesar do empenho com que tentou angariar votos para o candidato da União
Nacional, este acabou derrotado na Zambézia.
Nas eleições do Estado Novo, os poucos eleitores votavam com
os boletins que cada uma das forças concorrentes lhes entregava previamente. A
grande dificuldade da oposição era fazer chegar às pessoas os seus boletins de
voto. No entanto, em 1958, a oposição em Moçambique estava bem organizada e
conseguiu fazer chegar aos sítios mais recônditos os boletins de voto no
Humberto Delgado.
Em Ile, por exemplo, bem no coração da Zambézia, o “Narciso”
esteve na sede da circunscrição três dias antes da eleição para avisar o
administrador do trabalho de sapa da oposição e o administrador garantiu que
tudo estava a correr bem, que ficasse descansado, só contava com 6 ou 7 votos
da oposição. No entanto o administrador não imaginava que quase todos os
funcionários da firma Monteiro & Giro, a maioria dos eleitores da região,
iam votar no Humberto Delgado, isto apesar da gerência da firma lhes ter
recomendado o voto no almirante Américo Tomaz e de terem prometido ao
administrador que iriam cumprir a recomendação. Imagina-se o pânico do homem
quando percebeu, durante o acto eleitoral, que afinal estavam a votar no
Humberto Delgado e já nada podia fazer para o evitar!
Em Quelimane, o “Narciso” pediu ao jovem agrónomo que
convencesse os funcionários da Repartição de Agricultura a votar e lhes
entregasse os boletins de voto no almirante Américo Tomaz. O jovem agrónomo
aceitou com a condição de também distribuir boletins de voto no general
Humberto Delgado, o que naturalmente não foi aceite pelo “Narciso”. Apesar do
revés na Repartição de Agricultura, o “Narciso” manteve-se confiante que a
vitória era certa.
Depois das eleições e contados os votos, o “Narciso” passou
um mau bocado. Como outros governadores dos distritos de Moçambique, teve de
justificar a derrota do candidato da União Nacional. Todos apresentaram as suas
razões em relatórios classificados para o governador-geral em Lourenço Marques,
o “Fadista”, que depois elaborou sobre elas num relatório secreto para o
ministro na metrópole.
No relatório de 14 de Junho de 1958 para o “Fadista” (as
eleições foram a 8 de Junho), o “Narciso” escreveu: “Logo que se iniciou a
campanha eleitoral, conferenciei com os Presidentes das Comissões Distrital e
Concelhia de Quelimane e assentámos em que, com vista a permitir que a União
Nacional, praticamente reduzida à organização de Quelimane, pudesse ter todo o
tempo livre para trabalhar o eleitorado da sede do Distrito, o Governador se
encarregaria de toda a restante área, mais se combinando que, mesmo em
Quelimane, o Governador, junto das Chefias dos Serviços, das Direcções das
Companhias e Empresas importantes e de mais pessoas influentes no meio com quem
tivesse boas relações e em quem depositasse confiança pública, exercesse na
medida do possível, a sua acção no sentido de se conseguirem eleitores para o
candidato da situação.”
E concretizou: “Perdemos a eleição por uma diferença de 15
dos votos entrados e podemos, com a certeza de não nos enganarmos, atribuir
este insucesso aos funcionários públicos, principalmente aos do Caminho de
Ferro, Correios e Câmara, cuja grande maioria votou contra nós apesar de também
a grande maioria deles ter prometido votar favoravelmente.
Como estes procederam muitos funcionários doutros sectores.
Quando, como no caso desta cidade, mais de 50% dos eleitores
recenseados é constituído por funcionários públicos, melhor se poderá avaliar a
delicadeza da eleição.
Se porventura se tivesse podido formar uma ideia correcta da
verdadeira disposição dos funcionários, eu não teria hesitado em lhes falar
directamente, sendo de admitir que, assim, das centenas de funcionários que
votaram contra, convencesse pelo menos 15 e tantos bastavam para a eleição se
não perder, a alinharem connosco.”
E fez o mea culpa:
“Por minha parte reconheço-me responsável de não ter tido a
percepção da possível traição duma grande parte dos funcionários, que nos
garantiu iriam votar connosco e que foram votar na oposição.
Se a tivesse tido creio que, poderia ter convencido quinze
eleitores dos que nos foram desfavoráveis a votarem na lista da União Nacional.
Em último recurso ainda teria a solução, e tinha-a previsto
em caso de necessidade, de fazer votar em Quelimane, por meio de certidões, 30
ou 40 eleitores seguros da Assembleia de Namacurra e Secção de voto de
Inhassunge que para aqui faria transportar.
Fui atrás do que me disseram e garantiram e esta a minha
culpa que não rejeito.”
O “Narciso” foi tão convincente que o “Fadista” escreveu no
seu relatório para o ministro: “O (governador) de Quelimane trabalhou bastante,
mas confiou infundadamente no eleitorado da sede do Distrito. Pediu a sua
exoneração em consequência do resultado eleitoral em Quelimane, mas entendi não
dever fazer subir o pedido, porque, se errou, foi sem intenção, e a dura lição
deve ter-lhe aproveitado.”
E concluiu: “As últimas eleições, com todos os seus
malefícios, tiveram o mérito de pôr em relevo vários pontos fracos da vida
nacional, entre os quais, julgo, sobressai a “mentalidade” dos jovens
diplomados universitários: advogados, médicos, engenheiros e professores do
ensino liceal e técnico-profissional.”
O "Fadista" deixou o cargo no final de 1958 e no
ano seguinte foi nomeado administrador por parte do Estado do Banco Nacional
Ultramarino. O “Narciso”, aqui fotografado no exercício das suas funções
oficiais, manteve-se em Moçambique e foi nomeado Secretário Provincial em 1960.
O jovem agrónomo foi transferido para Angola em 1959, depois da cultura do café ser proibida em Moçambique por despacho ministerial.
domingo, 22 de agosto de 2021
Lições da História
quinta-feira, 29 de julho de 2021
Recortes da História
sábado, 3 de julho de 2021
O paquete "Angola"
Não escapei de ser julgado, mas no meu caso pessoal, e certamente no de outros que nasceram ou viveram nas antigas colónias africanas, aquela não foi a primeira vez que atravessei o Equador num navio. A minha primeira vez tinha sido muito tempo antes no paquete “Angola”, no final de 1956, na viagem de regresso a Moçambique, depois de uma estadia na Metrópole para conhecer os meus avós maternos. A viagem de Lourenço Marques para Lisboa tinha sido feita de avião, mas o regresso foi por mar, no “Angola”.
O quarto navio de bandeira portuguesa, e terceiro paquete, com o nome “Angola” foi encomendado aos estaleiros R & W Hawthorn, Leslie & Co Ltd de Newcastle e entregue à Companhia Nacional de Navegação” (CNN) em Dezembro de 1948, para operar na carreira de África. Com o seu gémeo “Moçambique”, foram os primeiros paquetes portugueses equipados com motores diesel (2 motores “Doxford” de 6 500 HP cada), um salto significativo em termos de economia de exploração.
Em 1956 viajei com a minha mãe e a minha irmã de Lisboa para Luanda para nos reencontramos com o meu pai que estava a fazer um estágio sobre a cultura do café em Angola, com o objectivo de depois dinamizar a sua produção em Moçambique. Embora criança, tenho uma memória muito viva da vida a bordo do “Angola”, da festa de passagem do Equador e, principalmente, do trajecto entre Luanda e Lourenço Marques, depois do meu pai se juntar a nós.
Não há dúvida que as longas viagens de barco nos marcavam de uma forma indelével, em nada comparável com as de avião.
segunda-feira, 21 de junho de 2021
Retratos do Colonialismo Português
quarta-feira, 16 de junho de 2021
O meu Comandante
segunda-feira, 14 de junho de 2021
Coelho à maneira da Avó Joana
domingo, 13 de junho de 2021
“Crónicas da Diáspora”
quinta-feira, 27 de maio de 2021
O outro Bérrio
segunda-feira, 24 de maio de 2021
"Café Milhafre"
domingo, 16 de maio de 2021
Triste consolação
domingo, 25 de abril de 2021
As pátrias de Abril | April's homelands
Escrevi "As pátrias de Abril" a pensar em todos os que como o meu Pai
foram e continuam a ser tratados pelos poderes nacionais e regionais como
portugueses de segunda classe, quer pelos burocratas, eleitos ou não, quer
pelos seus representantes nas embaixadas e consulados espalhados pelo mundo.
Escrevi "As pátrias de Abril" a pensar em todos os que apesar de tudo se sentem
profundamente portugueses, mesmo que cidadãos de outros países.
Escrevi "As pátrias de Abril" a pensar em todos os que como o meu Pai
viveram o dia 25 de Abril de 1974 como um dos mais belos dias da sua vida.
Escrevi "As pátrias de Abril" a pensar em todos os que, mesmo que o não tendo vivido,
continuam como o meu Pai fazia, a celebrar o 25 de Abril com alegria e orgulho,
sem precisarem de desfilar na avenida.
E como para muitos em quem pensei o português não é a língua materna, o
Diniz Borges decidiu traduzir "As pátrias de Abril" para inglês. É o original e a sua
tradução, ilustrado pelo meu neto mais novo, que aqui deixamos como celebração
da universalidade do 25 de Abril.
__________
AS PÁTRIAS DE ABRIL
“Nós precisamos de uma pátria e a minha pátria é o meu
bairro. E quando não a temos, inventamos.” Ouvi isto a Bruno Vieira Amaral, o
escritor criado no bairro problemático do Vale da Amoreira, no Barreiro, que a
família materna alentejana e paterna angolana decidiu, em 1975, trocar pelo
bairro de lata de Lisboa, num dos movimentos de ocupação de prédios em
construção que se seguiram ao 25 de Abril.
Referia-se à sua pátria, o seu lugar de pertença, mas que
não o podia ser para a avó cuja pátria era Montalvão, no Alentejo. No Barreiro
a avó sentia-se deslocada, desenraizada. Tão deslocada e desenraizada como a
esmagadora maioria dos portugueses, migrantes empurrados pela necessidade, se
sentiram ao longo de séculos em muitos lugares do mundo. Tão deslocada e
desenraizada como o meu avô transmontado quando veio trabalhar como marçano em
Lisboa, como os meus avós madeirenses quando foram para Moçambique, como a
minha mãe lisboeta quando viveu em Inhambane e Quelimane ou como o meu pai
moçambicano quando foi obrigado a vir para Portugal. Tão deslocada e
desenraizada como quase todos os que se consideram portugueses e que encontrei
pelo mundo fora, fosse qual fosse a sua nacionalidade.
Na realidade, milhões cujas pátrias, cujos lugares de
pertença são construídos, independentemente do lugar onde nasceram ou
cresceram, com uma cultura que apenas conhecem pelo que lhes foi transmitido
pelos pais e avós, com uma religião professada tanto pelos que rezam na igreja
de São Pedro em Malaca como na igreja das Cinco Chagas em São José na
Califórnia, com uma língua que muitos mal conhecem mas que é a dos seus
antepassados. Pátrias de que gostam embora sejam apenas, como Miguel Torga
escreveu, “uma nesga de terra debruada de mar”, muitas vezes desfocada ou
imaginada, numa serra transmontana, numa planície alentejana, numa caldeira
açoriana ou numa fajã madeirense. O espaço telúrico e moral, cultural e
afectivo onde cada natural se cumpre humana e civicamente”, como o mesmo Torga
definiu.
Foram estas múltiplas e diversas pátrias verdes e vermelhas,
que o 25 de Abril de 1974 libertou.
Foram estas múltiplas e diversas pátrias da cor da Liberdade
que derrubaram e substituíram a pátria única da ditadura, a pátria da minha
infância a papaguear os rios e as linhas de caminho-de-ferro de uma Metrópole
desconhecida numa escola de Quelimane, a pátria da infância dos meninos das
ilhas e das colónias que viram cartazes a proclamar “Aqui também é Portugal!”
durante visitas de presidentes vindos de longe e recebidos com pompa e
circunstância, a pátria dos meninos homens que se alistaram para fugir à
pobreza e foram combater uma guerra distante, a pátria que roubou a saúde e a
vida dos milhares e milhares de jovens que combateram nas matas africanas. A
pátria que não foi ditosa e foi madrasta para gerações de portugueses,
empurrados para outros lugares em busca de melhores condições de vida.
Foram as pátrias que Abril libertou, que como Jorge de Sena
coleccionam “nacionalidades como camisas se despem, se usam e se deitam fora,
com todo o respeito necessário à roupa que se veste e que prestou serviço”, que
são as pátrias do Andrew, da Natasha, da Sabrina, do David, do Miguel, da
Clara, do Tomás e do Afonso. Todos da geração dos “filhos da madrugada”, que em
Filadélfia, em Washington, em Rhode Island, no Silicon Valley ou em Oeiras,
sentem como seu o 25 de Abril de 1974 e lutam para que as nossas pátrias verdes
e vermelhas, da cor da Liberdade, sejam mais humanas, livres e justas.
__________
APRIL'S
HOMELANDS
“We need a
homeland, and my homeland is my neighborhood. And when we do not have it, we
invent it.” I heard this from Bruno Vieira Amaral, the writer raised in the
troubled neighborhood of Vale da Amoreira, in Barreiro, that the family, from
Angola and the Alentejo Region of Portugal decided, in 1975, to exchange for
the slum district in Lisbon - one of the various movements that resulted from
the settlement into the newly constructed empty buildings that followed the
April 25th revolution.
He was
referring to his homeland, his place of belonging, a place that was not his
grandmother’s homeland, hers’ was still Montalvão, in the Alentejo. In
Barreiro, the grandmother felt out of place, uprooted. As out of place and
uprooted as many Portuguese emigrants driven by necessity, have felt for
centuries in many parts of the world. As out of place and uprooted as my
grandfather, when he came to work as a marquis in Lisbon, as my grandparents
from Madeira when they went to Mozambique, as my mother, born and raised in
Lisbon when she lived in Inhambane and Quelimane or as my Mozambican father
when he was forced to come to Portugal.
As out of
place and uprooted as almost all who consider themselves Portuguese, whom I met
throughout the world, whatever their nationality might be. Millions whose homelands, whose places of
belonging are built, regardless of the place where they were born or grew up,
with a culture they know from what was passed on to them by their parents and
grandparents, with a religion professed so much by those who pray in the church
of São Pedro in Malacca as in the Five Wounds church San Jose, California. With
language that many barely now know but was the language of their
ancestors. Homelands that they love,
although they might be, as the Portuguese writer Miguel Torga wrote, “a strip
of land bordered by the sea”, often blurred or imagined, in a mountain range in
Trás-os-Montes, in an Alentejo plain, in an Azorean crater or in a Madeira
basin. “The tellurian and moral, cultural and affective space where each native
is fulfilled humanly and civically” as Torga defined it.
Yes, these
multiple, diverse green and red homelands were liberated by the April 25th
revolution.
Yes, these
multiple and diverse homelands, with the Color of Freedom, overthrew and
replaced the unique homeland of the dictatorship, the homeland of my childhood,
as I parroted the rivers and the railroad lines of an unknown Mainland in a
school in Quelimane; the childhood homeland of the children of the islands and
the colonies who saw posters proclaiming, "This is also Portugal”; during visits by presidents from afar, who
were welcomed with pomp and circumstance; the homeland of young men who
enlisted to escape poverty and went to fight a distant war; the homeland that stole
the health and life of the thousands and thousands of young people who fought
in the African jungles. The homeland that was not a good mother, but a wicked
stepmother for generations of Portuguese, driven to other lands.
These are
the homelands that Abril liberated, who like the Portuguese poet, writer, and
scholar Jorge de Sena, collect “nationalities such as shirts are stripped, used
and thrown away, with all due respect to the clothes that dress and serve our
needs”, that are the homelands of Andrew, Natasha, Sabrina, David, Miguel,
Clara, Tomás and Afonso. All of them, “children of the dawn”, the younger
generation, who, be it in Philadelphia, Washington DC, Rhode Island, Silicon
Valley or Oeiras, feel the Carnation Revolution as theirs and, collectively, do
continue in the continuous transformation of our green and red homelands, with
the Color of Freedom, so they can become more humane, free, and just.
sexta-feira, 9 de abril de 2021
Justiça, Direito e Cidadania
terça-feira, 23 de março de 2021
"Emigrês"
Tem sido de facto um prazer acompanhar o simpósio “Filamentos da Herança Atlântica” organizado pelo meu amigo Diniz Borges, tal o enorme interesse das duas (às vezes três) sessões diárias que desde o dia 18 até ao encerramento amanhã são divulgadas para todo o mundo através do Facebook e do Zoom. Sim, meu caro amigo Diniz, isto não é generosidade, estou apenas a ser justo.
sexta-feira, 19 de março de 2021
O denunciante
domingo, 21 de fevereiro de 2021
A revolta da Baixa de Cassange
![]() |
| Apanha do algodão, 1961. Desenho de Henrique Abranches |
Numa intervenção na RTP a propósito dos 60 anos do início da guerra no norte de Angola, uma historiadora afirmou que não temos memória porque Portugal convive muito mal com o seu passado colonial, que, segundo ela, é um passado brutal. E para provar que assim é, afirmou que a maioria dos portugueses que a estavam a ouvir “não faz a mínima ideia que a guerra colonial começa com um massacre de trabalhadores em greve, de uma zona e de uma empresa que é a Cotonang. Eram trabalhadores forçados, portanto trabalhadores obrigados a trabalhar, que entram em greve por serem trabalhadores forçados, no norte de Angola, e são regados com napalm pelo Exército português, cinco a dez mil terão sido mortos.” Esclareceu ainda a historiadora que “é a partir daí, aliás, que se dá o massacre da UPA, que toda a gente conhece em Portugal e o MPLA decide pegar em armas.”
Não posso falar por todos os portugueses que a ouviam, mas
eu que estudei o que se passou há 60 anos na Baixa de ou do Cassange (também grafada como Cassanje ou Kassanje), um território a
leste de Malanje com uma área duas vezes a de Portugal continental, tenho algumas dúvidas sobre o rigor da narrativa da
historiadora. E nesta coisa da memória histórica, tão negativa é a omissão como
a distorção dos factos.
Antes de tudo o mais, é importante realçar que o que ficou
conhecido pela revolta da Baixa de Cassange não foi um conflito laboral em que trabalhadores
de uma empresa fizeram greve. Foi a luta de uma população contra uma das formas
mais vergonhosas de exploração colonial, que atingia o modo de vida e a
subsistência básica de milhares de famílias de vastos territórios.
O modelo criado pelos belgas foi copiado pelo Estado Novo na
década de 1930 em Moçambique, onde o algodão deixou de ser cultivado por
empresas privadas que para isso tinham ao seu serviço trabalhadores negros
(algodão branco) para passar a ser cultivado obrigatoriamente pelos habitantes
de vastos territórios que eram concessionados a empresas, em regra de capitais
estrangeiros (algodão negro). As concessionárias eram verdadeiros estados
dentro do estado colonial e actuavam com a cumplicidade das autoridades
administrativas e policiais portuguesas, normalmente sem respeito pela lei
porque era necessário promover “a cultura obrigatória do algodão pelos
indígenas por quaisquer processos que se reconheçam convenientes.” O modelo foi
depois estendido a outras culturas e as concessões a empresas, em regra com capitais estrangeiros, eram consideradas pelo regime salazarista como uma forma
moderna de capitalismo e foram usadas em grande escala em Moçambique.
As concessionárias tinham sob a sua jurisdição vastas áreas
de concessão onde encarregavam as famílias residentes de plantar algodão. A
cada uma destas famílias era atribuída uma determinada área de terreno para
desbaste e cultivo, para o que lhes era fornecida a semente, cabendo à empresa
concessionária a organização de mercados de venda e o monopólio da compra do
produto final, ao preço que queriam.
A cultura obrigatória do algodão foi introduzida em Angola
em Março de 1947, quando a Companhia Geral dos Algodões de Angola, um consórcio
luso-belga criada em 1926 e conhecida por Cotonang, conseguiu uma concessão na
vasta zona a Leste e Oeste de Malanje cobrindo uns 80 mil quilómetros
quadrados, quase a área de Portugal. A outra firma, a Lagos & Irmão, foi
também concessionada uma zona da extensa planície ao longo do rio Cuango. Os agricultores africanos, uns 150
mil organizados em 35 mil famílias, eram coagidos a cultivar cerca de 5 mil
toneladas por ano de algodão que tinham de vender à Cotonang e à Lagos &
Irmão, a preços fixos, 5 a 6 vezes menor do
que os preços do mercado mundial. Não havia salários para o seu trabalho e os riscos da
colheita eram integralmente assumidos por eles.
Com a independência do Congo Belga em 1960 e por influência
de militantes do Parti Solidaire African (PSA) congolês, a população da Baixa
de Cassange desencadeou acções contra os agentes das concessionárias e as
autoridades portuguesas, em especial a partir de Janeiro de 1961. A repressão da
Pide, do Exército e da Força Aérea durante o mês de Fevereiro foi violenta e a
revolta foi neutralizada em Março. Quatro meses depois saiu uma lei que acabou
com a cultura obrigatória do algodão, dando um golpe importante nas companhias
concessionárias.
É interessante notar que é normalmente o lado português que considera a "Operação Cassange" como a primeira grande operação da Guerra do Ultramar. A "Operação Cassange" foi realizada pelo "Batalhão Eventual de Caçadores" do Exército comandado pelo General Monteiro Libório que delegou no Major Rebocho Vaz e composto pela 3.ª, 4.ª e 5.ª CCEs (Companhia de Caçadores Especiais), com o apoio da Força Aérea. Certamente que a revolta influenciou acontecimentos futuros, mas parece pouco rigoroso afirmar que a guerra colonial começou com os massacres (não apenas um massacre) das populações da Baixa do Cassange, massacres cujos contornos e dimensão não são conhecidos ao certo.
De acordo com os estudos realizados por vários investigadores, tudo indica que nas operações militares de repressão na Baixa de Cassange não foi usado napalm (só terá sido a partir de meados de 1961 noutras regiões), mas houve de facto a intervenção da Força Aérea com aeronaves para fazer fogo e lançar granadas incendiárias sobre grupos de revoltosos e aldeias. Em Janeiro e em Fevereiro, período que durou a revolta na Baixa de Cassange, os meios eram os existentes na colónia antes do início da luta armada e por isso muito limitados. Depois de Março de 1961, a situação tornou-se muito mais complexa e o teatro de operações muito mais alargado, abrangendo o Uíge e utilizando outros meios militares enviados da metrópole.
Sabe-se que foram mortos muitos africanos nas várias acções
repressivas, mas o número exacto, tenha sido trezentos, mil, cinco mil ou dez mil, continua a ser uma incógnita. Parece, contudo, possível afirmar que a rebelião teve um
carácter espontâneo e localizado e talvez por isso nenhum dos movimentos de
libertação angolanos tenha reivindicado a autoria da acção. No entanto, há hoje quem procure recuperá-la como a génese da luta pela libertação que se seguiu nas antigas colónias portugueses.
sábado, 20 de fevereiro de 2021
As camaratas da Escola Naval
sexta-feira, 22 de janeiro de 2021
Kurika e Dulcineia
Há 60 anos, na noite de 21 para 22 de Janeiro de 1961, um grupo de activistas políticos constituído por 12 portugueses, 11 espanhóis e 1 venezuelano, comandados pelo ex-capitão do Exército português Henrique Galvão e pelo ex-suboficial da Marinha de Guerra espanhola republicana e combatente da Guerra Civil de Espanha José Fernandéz Vásquez, conhecido como Jorge de Sottomayor, sequestrou o navio de passageiros português “Santa Maria” no mar das Caraíbas, pouco depois de largar de Curaçau com destino a Miami.
Inspirado pela personagem feminina da obra de Cervantes,
Henrique Galvão escolheu o nome de código “Dulcineia” para a operação porque,
segundo ele, “também éramos românticos lutando por nossa dama – a Liberdade”.
O objectivo político da operação “Dulcineia” era atrair a
atenção da opinião pública internacional para a situação sociopolítica dos
povos sujeitos às ditaduras ibéricas. O objectivo operacional era um ataque de
surpresa à ilha de Fernando Pó e à Guiné Equatorial, para obtenção de munições
e de outro material de guerra, incluindo canhoneiras e aviões, e o posterior
desembarque em Angola, com o apoio de forças rebeldes locais (sobretudo em
Luanda, Benguela e no Lobito). Seguir-se-ia a constituição, em Luanda, de um
governo hostil ao regime de Salazar, pois Henrique Galvão estava convicto de
que poderia derrubar o regime a partir de África.
Quando no dia 24 a censura deixou que fossem divulgadas as
primeiras notícias sobre o assalto ao “Santa Maria”, o regime de Salazar
apresentou-o como um ignóbil acto de pirataria executado por um bando de
indivíduos de várias nacionalidades com derramamento de sangue e a morte do
piloto Nascimento Costa que não chegou a conhecer a filha recém-nascida. Foi
logo dito aos portugueses que o “Santa Maria” estaria a ser perseguido por
navios de guerra ingleses e americanos.
São bem conhecidos os detalhes do que se passou até ao dia
17 de Fevereiro, quando o “Santa Maria” atracou no cais da Rocha do Conde de
Óbidos, saudado por uma multidão e pelo próprio Salazar, que proferiu a célebre
frase: "Obrigado, portugueses. O Santa Maria está connosco."
O laconismo de Salazar não terá resultado apenas do facto de
o sequestro do “melhor navio português e um motivo de orgulho da navegação
comercial” ter sido realizado por quem foi um dos seus mais fiéis apoiantes
antes de se tornar o seu mais temível inimigo; nem do facto de os principais
aliados de Portugal não terem considerado o sequestro do navio como um acto de
pirataria e não terem actuado militarmente contra os sequestradores. Muito
provavelmente Salazar já tinha a percepção que a acção quixotesca de Henrique
Galvão poderia ser o primeiro de uma série de acontecimentos nefastos para o
seu regime.
De facto, 1961 foi o anno horribilis da ditadura
salazarista, com uma sucessão de acontecimentos de que nunca se recomporia: em
Janeiro, foi a revolta da Baixa do Cassange em Angola e o sequestro do
"Santa Maria"; em Fevereiro, foi o assalto às prisão e esquadra da
polícia em Luanda; em Março, foram os massacres no norte de Angola pelas forças
da UPA; em Abril, foi a tentativa de golpe de Estado perpetrada pelo então
ministro da Defesa, general Júlio Botelho Moniz; em Agosto, foi a expulsão da
Fortaleza de São João Baptista de Ajudá pelas tropas do Benim; em Novembro, foi
o desvio de uma aeronave da TAP em voo entre Casablanca e Lisboa que sobrevoou
Lisboa, Barreiro, Setúbal, Beja e Faro, lançando milhares de panfletos contra o
regime salazarista, e retornando incólume a Casablanca; em Dezembro foi a
invasão militar pela União Indiana dos territórios que constituíam o designado
Estado Português da Índia; e, finalmente, na noite de passagem de ano, foi a
intentona militar fracassada de Beja.
É certo que para Henrique Galvão os resultados da operação
“Dulcineia”, mal planeada e pior executada, com os líderes e os participantes a
discutirem a forma de tomar a ponte do navio até poucos minutos antes do início
da acção, ficaram muito aquém do sonhado. Sem tropas, sem recursos financeiros
e sem o apoio que esperava dos EUA apenas porque o seu projecto político era
marcadamente anticomunista, teve de desembarcar no Recife e, com os
companheiros de aventura, pedir asilo político ao Brasil. Restou-lhe a
consolação de ter atraído a atenção da opinião pública internacional, ao ponto
do recém-empossado Kennedy se ter referido ao sequestro do “Santa Maria” nas
duas primeiras conferências de imprensa como presidente dos EUA.
Para mim, que só conhecia Henrique Galvão como autor do
primeiro romance de que me lembro de ler e gostar muito, tudo o que ouvia sobre
a operação “Dulcineia” e o seu mentor foi profundamente perturbador. Não
conseguia perceber como é que o escritor do romance “Kurika” podia ser um
bandido!
O Kurika de Henrique Galvão é um pequeno leão órfão
recolhido pelo negociante branco Conceição e criado no convívio com os homens,
juntamente com o cão Janota e a macaca Paulina que o adoptaram, ele como irmão
e ela como filho. Aos 21 meses, movido pelo desejo instintivo de liberdade e
ajudado pela Paulina, conseguiu libertar-se e fugiu para o mato, atravessando o
rio que separava a casa do Conceição da vida selvagem. No seu meio natural,
Kurika transformou-se num imponente leão, sem se esquecer do passado junto dos
que o criaram.
Consciente de quanto lhe custaria a liberdade, Kurika trocou
o conforto da casa e a comida abundante por uma vida incerta e uma subsistência
difícil. Preferiu passar fome e dificuldades a viver amarrado a uma coleira.
Esta ideia é repetida ao longo de toda a narrativa, não só através da descrição
das dificuldades vividas pelo leão e pela macaca nos primeiros tempos na savana
angolana, como também no final do romance, quando Kurika recusa voltar para
casa do Conceição por causa da coleira: “Se não fora a coleira e a corrente de
ferro – quem sabe! – talvez seguisse a tentação do Janota.”
Só bem mais tarde percebi a coerência do pensamento do autor
do romance “Kurika” e da operação “Dulcineia”. Percebi com Saramago que,
Dulcineia, "do sangue de Quixote te alimentas, da alma que nele morre é
que recebes a força de ser tudo."
Mas também aprendi o conselho de José Gomes Ferreira em “A
Morte de D. Quixote”:








