sexta-feira, 9 de abril de 2021

Justiça, Direito e Cidadania



Como a maioria dos portugueses, tenho opinião sobre os seis anos da governação de José Sócrates. Mas no meu caso, por razões puramente circunstanciais, essa opinião acabou por se consolidar a partir de vivências pessoais e profissionais particulares que gostaria de não ter experimentado, mas que permitiram ficar com poucas dúvidas sobre quanto foi negativa para a sociedade e para a democracia portuguesas.
 
Assisti nas primeiras filas da plateia às movimentações e às manifestações de poder e influência tentacular de Sócrates. Por isso, ao ouvir hoje o que a acusação disse sobre elas, senti-me regressar ao passado. Mas talvez por saber que ele não actuou isoladamente e que teve consigo um impressionante exército de cúmplices e servidores, no sector público e no sector privado, nunca acreditei que a Justiça portuguesa tivesse capacidade para as investigar e julgar adequadamente.

Aliás estou bem ciente que a Justiça portuguesa emana da sociedade que gera tais personagens e por isso nunca fará justiça. Admito que um dia, neste como em muitos outros processos, seja capaz de aplicar o Direito mas fá-lo-á tão tarde e de tal maneira que terá pouca ou nenhuma eficácia.
 
Se o que está escrito nas 6728 páginas da Decisão Instrutória servisse para os portugueses, num exercício de cidadania, fazerem uma reflexão sobre a sociedade que criaram e sobre o que devem mudar nos seus comportamentos para que não se repitam casos Sócrates e operações “Marquês”, já ficaria satisfeito.
 
Mas a avaliar pelas reacções na comunicação social e nas redes sociais, receio que sirva apenas para fazer surgir e fortalecer outras aberrações, tão ou mais negativas que a governação de Sócrates.

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