Se até ontem não sabia quem era Tucídides, não se aflija. É bem provável que os doutos comentadores do seu canal de notícias favorito também o confundissem com uma sobremesa helénica com pretensões probióticas. A comunicação social contemporânea possui esse dom, ao mesmo tempo admirável e alarmante, de converter um lugar-comum em revelação estratégica com a simples ajuda de um grafismo e de um tom suficientemente grave. Basta que Xi Jinping insinue uma metáfora num banquete oficial para que, na manhã seguinte, o comentário televisivo acorde transformado em autoridade sobre a geopolítica da Antiguidade Clássica.
De repente, ficámos todos cativos da "Armadilha de Tucídides". O comentário fast-food, sempre lesto a parecer profundo, adoptou a expressão sem se dar ao trabalho de ir além da introdução da Wikipédia. O resultado é a habitual confusão conceptual, em que o realismo clássico e o marketing académico contemporâneo são atirados para o mesmo liquidificador mediático.
Convém, por isso, restituir alguma ordem ao teatro. A formulação do historiador grego Tucídides, no século V a.C., centrou-se na psicologia da guerra do Peloponeso e na sua aparente inevitabilidade. Para ele, a guerra resultou do crescimento do poder de Atenas e do medo concreto que essa ascensão suscitou em Esparta. Trata-se de uma reflexão sobre a propensão para o conflito, alimentada por paixões humanas como a honra, o interesse e o medo.
Já a formulação do politólogo norte-americano Graham Allison, em 2015, recuperou o nome do historiador para uma metáfora contemporânea com ambição analítica. A sua "Armadilha" é um aviso de que quando uma potência emergente, como a China, ameaça ultrapassar uma potência dominante, como os Estados Unidos, o risco de guerra aumenta significativamente, mas, e este ponto é importante, não é inevitável. Tudo depende, para desilusão dos apaixonados pelo catastrofismo de estúdio, da política, essa arte de decidir antes que o comentário se transforme em destino.
Mas, claro, quem precisa de rigor conceptual ou de contextualização histórica quando a falsa erudição, servida em dose apocalíptica, oferece tão bons dividendos de audiência e tão reconfortante sensação de inteligência instantânea? Continuemos, então, entretidos a fingir intimidade com os gregos antigos, enquanto a máquina mediática prepara, com diligência industrial, a próxima epifania descartável.
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