Entrei na Chinatown sob um arco vermelho e dourado, como se atravessasse um portal. A ordem vitoriana cedeu aos telhados recurvos e o ar mudou. Primeiro um cheiro espesso a gengibre, chá e peixe seco, misturado com fumo de incenso que saía de uma porta entreaberta. Depois veio o som, uma cadência rápida de vozes, sílabas que se atropelavam, interrompidas pelo tilintar metálico de loiça e pelo arrastar de caixas nas calçadas íngremes. Em 1977, no coração de São Francisco, a América parecia suspender-se ali.
As fachadas erguiam-se em varandas estreitas, lanternas vermelhas oscilavam ligeiramente, e nas montras alinhavam-se patos lacados de pele brilhante, raízes contorcidas, frascos de vidro com conteúdos indecifráveis. Nada ali era decorativo: tudo parecia necessário, funcional, vivido. Pensei então que aquele bairro não nascera por acaso. Lembrei-me das leis que, décadas antes, tinham fechado portas aos chineses, empurrando-os para dentro de limites invisíveis, mas rigorosos. O Exclusion Act de 1882 ainda ecoava, mesmo depois de revogado.
E comparei, inevitavelmente, com os portugueses. Os nossos, homens do mar e da terra vindos sobretudo dos Açores, tinham-se espalhado pela Califórnia como quem encontra terreno familiar: trabalharam, casaram, misturaram-se. As suas marcas ficaram nas festas do Espírito Santo, em algumas igrejas, em apelidos dispersos. A integração fez-se por dissolução lenta.
Aqui, pelo contrário, tudo resistia. Os camponeses chineses, primeiro atraídos para as minas e ferrovias e depois expulsos da mineração por ataques violentos, tinham-se refugiado nas cidades em nichos de serviços que a América branca desdenhava. Assim, esta estética de gueto étnico não nasceu de um exotismo cultural, mas foi a resposta à hostilidade histórica. Cada letreiro em caracteres chineses era uma afirmação; cada loja, uma peça de uma economia própria; cada rosto, a continuidade de uma história que recusava apagar-se. Percebi que a Chinatown não era apenas memória. Era estratégia, era defesa, era comunidade forjada sob pressão.
Ao sair, o cheiro a incenso ficou-me preso à roupa. E pensei que para uns o American Dream tinha o sabor do leite e da terra conquistada no Vale Central; para outros, tinha o som das máquinas de costura e a luz dos candeeiros de rua em becos estreitos, onde a liberdade foi conquistada centímetro a centímetro contra a corrente da lei.
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