sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Uma vivência e um alerta

 


Hoje quero partilhar uma experiência pessoal recente — daquelas que nos apanham completamente de surpresa — e que traz consigo uma lição valiosa que todos devemos ter presente.

Há umas semanas, preparei-me para realizar um exame médico absolutamente rotineiro e habitual para muitos de nós: uma colonoscopia. Tudo parecia perfeitamente banal e sob controlo. No entanto, o que deveria ter sido um procedimento simples transformou-se, em poucas horas e sem que eu sentisse a menor dor física, numa situação crítica de saúde que me ensinou como o nosso organismo pode ser traiçoeiro nos momentos mais inesperados.

O que aconteceu foi algo silencioso. Durante a preparação para o exame, a combinação de uma solução de limpeza intestinal forte (à base de sulfatos), a ingestão de água simples e o facto de ter tomado um anti-inflamatório uns dias antes para uma dor na coluna (o conhecido Voltaren) provocou uma queda abrupta e severa do sódio no meu sangue — aquilo a que os médicos chamam hiponatremia ou hiponatrémia aguda grave.

O aspecto mais impressionante e perigoso desta situação é que a queda do sódio não dá pontadas, não dá febre nem provoca dor física. Ataca directa e fortemente o cérebro através de um edema e manifesta-se de forma muito subtil através de comportamentos que, para quem está de fora, podem parecer apenas "cansaço", "stresse" ou "distração", mas que são, na verdade, um verdadeiro grito de alarme do organismo.

No meu caso, os sinais foram evidentes para a minha família, embora eu estivesse totalmente alheado de tudo o que se passava:
  • A apatia e o silêncio: No caminho de carro para a clínica e no tempo que lá estive, limitei-me a dormir e a manter um mutismo contínuo, completamente fora do meu comportamento habitual.
  • A perda da memória recente: Quando cheguei à recepção e perguntei o que estava ali a fazer, e a minha mulher me explicou que ia fazer a colonoscopia, respondi-lhe com toda a convicção do mundo que isso era impossível porque eu "não tinha feito preparação nenhuma" — quando tinha passado a noite inteira nisso! O cérebro tinha simplesmente apagado as últimas horas.
  • A quebra do raciocínio lógico: Pedi na recepção da Imagiologia para falar com a minha médica de Radioterapia — uma médica e um serviço que acompanho há anos noutro contexto totalmente diferente —, sem que houvesse qualquer lógica em chamá-la para aquele exame. Perante a confusão mental, o meu cérebro procurou automaticamente a referência de maior familiaridade e segurança.
Felizmente, a atenção da minha família e a intervenção médica a meio do dia permitiram identificar o problema e dar entrada na urgência do hospital São Francisco Xavier, onde a administração de soro salino hipertónico travou a emergência e repôs os níveis de sódio.

Ao contrário do que gostaria, hoje ainda não estou plenamente recuperado. Na realidade, este episódio deixou marcas: sofro actualmente de amnésia retrógrada, com uma falha de memória que cobre pelo menos todo o mês que antecedeu o evento. Contudo, mantenho um esforço diário e faço tudo o que está ao meu alcance para recuperar totalmente a agilidade mental e a capacidade intelectual do costume.

Partilho isto convosco porque sei que todos nós, ou os nossos familiares mais próximos, fazemos exames deste género com regularidade. E há cuidados e regras de segurança fundamentais que todos devemos fixar:
  • Cuidado com os anti-inflamatórios antes de exames: Se tiverem de fazer uma preparação intestinal ou jejum rigoroso, evitem tomar anti-inflamatórios (como Voltaren ou ibuprofeno) nos dias anteriores, pois eles alteram a capacidade do rim para gerir a água e o sódio.
  • Não bebam apenas água pura em excesso na preparação: Ingerir grandes volumes de água simples sem sais ou sem caldos salgados pode diluir perigosamente o sódio do corpo.
  • A desorientação mental é um sinal de alerta real: Se alguém que vos é próximo estiver a fazer uma preparação ou jejum e começar a parecer confuso, sonolento, a esquecer-se do que fez há poucas horas ou a dizer coisas sem nexo, isso exige avaliação médica imediata, de preferência em urgência hospitalar. Não é "cansaço do jejum".
  • Suspensão imediata de exames e sedação: Perante qualquer sinal de desorientação ou confusão mental, o exame e a sedação anestésica devem ser categoricamente suspensos até que seja feita uma avaliação clínica fiável e segura.
  • Valorizem sempre a intuição de quem está convosco: Quem convive connosco é quem primeiro nota quando "não estamos normais".
Se esta minha experiência servir para que um de vós ou um familiar vosso identifique a tempo uma situação destas e evite complicações maiores, todo este susto terá valido a pena.

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

O poder do Direito ou o direito do Poder




Quando as superpotências paralisam as instâncias internacionais, a defesa da paz, da integridade das nações e da cooperação global desloca-se para a sociedade civil, para os tribunais e para o plano local.

O palco da Assembleia Geral das Nações Unidas expôs, uma vez mais, a ferida aberta da geopolítica contemporânea. De um lado, a visão abertamente transacional e intervencionista do presidente norte-americano Donald Trump, assente na coerção, no unilateralismo e no desrespeito pela soberania alheia; do outro, o apelo urgente do Secretário-Geral da ONU, António Guterres, à primazia do Direito Internacional, ao repúdio categórico das intervenções militares e ao respeito escrupuloso pela integridade territorial de todas as nações. Para quem assiste a este choque a partir de Portugal, a perplexidade é inevitável: valerá a pena continuar a defender o multilateralismo quando a força armada parece ditar as regras do jogo?

A tentação do desânimo e do cinismo é enorme, mas seria um erro trágico. A História demonstra que, quando os governos centrais entram em paralisia e o Conselho de Segurança da ONU é bloqueado pelo exercício reiterado do direito de veto, a defesa da Carta das Nações Unidas — e do seu princípio basilar de inviolabilidade das fronteiras — não desaparece: redesenha-se. O multilateralismo não morreu; tornou-se policêntrico, descentralizado e dependente da acção da sociedade civil.

Em vez da resignação, abrem-se caminhos concretos de resistência ética e jurídica. No campo da justiça internacional, organizações independentes e redes de juristas devem accionar a jurisdição universal em tribunais nacionais para julgar crimes de guerra, actos de agressão e atrocidades, garantindo que a violação armada da soberania dos povos não fica impune. Na crise climática, a jurisprudência dos mais altos tribunais globais faculta hoje o enquadramento necessário para litígios estratégicos contra governos e corporações poluidoras, exigindo reparações sob a premissa de que o poluidor tem de pagar.

Ao mesmo tempo, as cidades e regiões assumem o leme da diplomacia subnacional. Os municípios portugueses têm nas suas mãos o poder real de acelerar a descarbonização, implementar compras públicas sustentáveis e integrar alianças internacionais de autarquias, provando que a cooperação e o progresso não ficam reféns das decisões ou de aventuras militares decididas em Washington ou Moscovo.

Paralelamente, como cidadãos e eleitores, cabe-nos exigir da diplomacia portuguesa e europeia uma postura de absoluta firmeza moral: o repúdio inequívoco de qualquer intervenção militar unilateral, a defesa intransigente da integridade territorial e da igualdade soberana dos Estados e a recusa absoluta de duplos critérios na condenação de agressões externas.

Defender uma ordem internacional fundada na lei, na paz e no respeito pela soberania de todos os povos não é uma utopia romântica, mas uma exigência pragmática. A força militar de uma superpotência pode violar fronteiras e impor a sua vontade no imediato, mas a estabilidade duradoura do planeta continuará a depender da recusa obstinada em substituir o império da lei pela lei do mais forte.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Não mudamos nada...




Sei que pouco mudamos ao longo da vida adulta. Podemos alterar as feições, perder o cabelo, ganhar barriga, mudar na aparência, mas no essencial, continuamos iguais ao que éramos aos 18 ou 20 anos.

Na Marinha conhecemos bem o fenómeno. Sempre que nos reunimos, passados 10, 20, 30, 40, 50 anos sobre a entrada na Escola Naval, repetimos as mesmas brincadeiras, fazemos as mesmas asneiras, dizemos as mesmas piadas, manifestamos as mesmas opiniões, tal e qual como no primeiro dia, na primeira semana, no primeiro mês que nos conhecemos. E o que tem piada é que nunca nos cansamos, e até gostamos, de voltar ao passado vezes sem conta.

Lembrei-me disto ao ouvir o discurso de Guterres hoje na Assembleia Geral das Nações Unidas. Falou, falou, como sempre bem, e de entre tudo o que disse fixei isto: “A paz é o domínio do poder pela lei… Necessitamos de uma multipolaridade em rede, enraizada na Carta da ONU, onde a cooperação prevaleça sobre a força. O poder do direito tem de prevalecer sobre o direito do poder.”

Ao ouvi-lo hoje não pude deixar de regressar a 1968 e ao átrio do Técnico, quando andava a conhecer os cantos à casa e o Guterres veio ter comigo, disse que era da Juventude Universitária Católica e que necessitávamos de solidariedade, de esperança e de princípios morais para juntos superarmos as crises do nosso tempo e fazermos prevalecer a justiça e o direito sobre a força.

Perdeu o bigode, envelheceu, o cabelo embranqueceu e já não cai para a testa, mas continua a falar bem e a defender as utopias em que acredita. E eu, tal como há 58 anos, gostei de o ouvir, mas pensei cá para mim que não será por ali que a crise mundial vai ser resolvida.
De facto, no essencial, não mudamos nada…

Neutralidade, memória histórica e protecção democrática




A consagração constitucional do princípio da separação entre o Estado e as confissões religiosas, expressa no Artigo 43.º da Constituição da República Portuguesa e reiterada na Lei de Bases do Sistema Educativo, estabelece categoricamente que o ensino público não pode ter natureza confessional.
 
A observância rigorosa deste preceito ganha uma relevância particular quando confrontada com eventos formais como a inauguração oficial da nova Escola Secundária de Cascais, onde a bênção das instalações pelo Patriarca de Lisboa figurou no protocolo oficial ao lado do Presidente da República, do Primeiro-Ministro e do Ministro da Educação.
 
A presença proeminente de um ritual católico e a ausência de qualquer outra representação confessional ou laica geram inevitavelmente margem para desconfianças sobre a equidistância e a imparcialidade do Estado. Embora se argumente que a bênção constitui um mero gesto de cortesia sociocultural desprovido de força coerciva, a participação dos titulares dos órgãos de soberania confere ao acto um aval institucional que compromete o dever de neutralidade pública.
 
Esta ambiguidade é tanto mais problemática quanto evoca inevitavelmente a ritualidade do Estado Novo, período em que a bênção episcopal e a afixação obrigatória do crucifixo nas salas de aula — imposta pela reforma de Carneiro Pacheco em 1936 — serviam como instrumentos de sacralização do regime autoritário e de submissão do ensino à dogmática católica.
 
A sobrevivência formal deste ritual nos actos do Estado contemporâneo cria uma penumbra simbólica que pode ser lida como uma continuidade com a praxe salazarista. Num tempo em que grupos extremistas reactivam discursos saudosistas da ditadura e procuram reabilitar narrativas autoritárias, a tolerância de ambiguidades confessionais na esfera escolar enfraquece a barreira de protecção democrática.
 
A laicidade estrita afirma-se, assim, não como um gesto de hostilidade contra a religião, mas como a única garantia de que o espaço escolar permanece invulnerável a tentativas de instrumentalização ideológica ou tradicionalista.
 
Erradicar definitivamente qualquer ritual ou presença confessional dos actos oficiais e do espaço físico da escola pública é a medida mais sensata e necessária para assegurar que a instituição educativa se mantenha rigorosamente neutra, universal, inclusiva e plenamente comprometida com a igualdade de todos os cidadãos.

Neutralidade, memória histórica e protecção democrática



A consagração constitucional do princípio da separação entre o Estado e as confissões religiosas, expressa no Artigo 43.º da Constituição da República Portuguesa e reiterada na Lei de Bases do Sistema Educativo, estabelece categoricamente que o ensino público não pode ter natureza confessional.
A observância rigorosa deste preceito ganha uma relevância particular quando confrontada com eventos formais como a inauguração oficial da nova Escola Secundária de Cascais, onde a bênção das instalações pelo Patriarca de Lisboa figurou no protocolo oficial ao lado do Presidente da República, do Primeiro-Ministro e do Ministro da Educação.
 
A presença proeminente de um ritual católico e a ausência de qualquer outra representação confessional ou laica geram inevitavelmente margem para desconfianças sobre a equidistância e a imparcialidade do Estado. Embora se argumente que a bênção constitui um mero gesto de cortesia sociocultural desprovido de força coerciva, a participação dos titulares dos órgãos de soberania confere ao acto um aval institucional que compromete o dever de neutralidade pública.
 
Esta ambiguidade é tanto mais problemática quanto evoca inevitavelmente a ritualidade do Estado Novo, período em que a bênção episcopal e a afixação obrigatória do crucifixo nas salas de aula — imposta pela reforma de Carneiro Pacheco em 1936 — serviam como instrumentos de sacralização do regime autoritário e de submissão do ensino à dogmática católica.
 
A sobrevivência formal deste ritual nos actos do Estado contemporâneo cria uma penumbra simbólica que pode ser lida como uma continuidade com a praxe salazarista. Num tempo em que grupos extremistas reactivam discursos saudosistas da ditadura e procuram reabilitar narrativas autoritárias, a tolerância de ambiguidades confessionais na esfera escolar enfraquece a barreira de protecção democrática.
 
A laicidade estrita afirma-se, assim, não como um gesto de hostilidade contra a religião, mas como a única garantia de que o espaço escolar permanece invulnerável a tentativas de instrumentalização ideológica ou tradicionalista.
 
Erradicar categoricamente qualquer ritual ou presença confessional dos actos oficiais e do espaço físico da escola pública é a medida mais sensata e necessária para assegurar que a instituição educativa se mantenha rigorosamente neutra, universal, inclusiva e plenamente comprometida com a igualdade de todos os cidadãos.

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

O meu vale




Hoje passam onze anos desde a morte do meu pai. Continuo a dar por mim a recordá-lo nas coisas mais pequenas — num gesto, numa frase, numa história repetida à mesa. E há uma frase que o traz de volta com uma nitidez especial: «Não tem, mas inventa!»

O meu pai trabalhou em quatro continentes e, tanto quanto sei, nunca soube ao certo quanto ganhava. Quando o ordenado era pago em numerário, entregava o envelope à minha mãe, e o assunto ficava por ali. Mais tarde, quando o dinheiro passou a ser depositado diretamente na conta bancária, ficou ainda mais livre dessa preocupação. Nunca o ouvi falar do que tinha ou do que lhe faltava. O dinheiro simplesmente não ocupava espaço na vida dele.

Ao longo dos seus 91 anos, lembro-me de o ver quase sempre com muito pouco dinheiro na carteira — apenas o necessário para os seus raros gastos pessoais. Era a minha mãe quem cuidava do orçamento familiar e de tudo o que a vida prática exigia: das compras diárias aos livros, dos medicamentos aos carros. Para nós, aquela cumplicidade silenciosa era, simplesmente, a forma como a casa funcionava.

Mas havia momentos em que decidia dar dinheiro aos filhos — e, mais tarde, aos netos e bisnetos. Nessas ocasiões, não ter notas ou moedas consigo nunca foi impedimento. Chamava a minha mãe ou, se ela não estava por perto, pegava num pedaço de papel e escrevia: «VALE cinco escudos» — ou outro valor qualquer. Nós recebíamos aquele papel como se fosse dinheiro a sério e lá íamos resgatá-lo junto dela. Já sabíamos o que vinha a seguir: «O teu pai é muito esperto: não tem dinheiro, mas inventa!» Ainda hoje consigo ouvir a voz da minha mãe.

Tenho saudades do meu pai — da sua maneira simples de estar, da generosidade sem alarde e até daquela despreocupação com o dinheiro que tão bem o definia. Onze anos depois, daria tudo para voltar a receber das suas mãos um daqueles pequenos «vales». Não pelo que lá estivesse escrito, mas por ter de novo diante de mim a sua letra, o seu gesto e o seu sorriso.
 
Hoje, este texto é o meu vale: vale uma memória, vale uma saudade e vale, por instantes, a sensação de ainda o ter comigo.

domingo, 13 de setembro de 2026

A globalização como arma e os riscos para Portugal



Numa conversa recente com os cientistas políticos Henry Farrell e Abraham Newman, o economista Paul Krugman abordou uma mudança decisiva no modo como olhamos para a globalização: a visão ingénua de um mundo em que o comércio aproximaria os países e reduziria os conflitos deu lugar a um ecossistema dominado por redes do poder e pela interdependência beligerante (weaponized interdependence).

Por outras palavras, as ligações que unem a economia mundial também podem ser usadas para vigiar, pressionar ou bloquear países. Uma potência que controla redes essenciais — como sistemas de pagamentos, plataformas digitais, semicondutores, energia, minerais ou cabos submarinos — pode transformá-las em instrumentos de poder. Numa autoestrada internacional cuja única portagem pertence a um só país, quem controla a portagem consegue ver quem passa, cobrar mais ou até impedir a passagem. É precisamente esta lógica que os Estados Unidos e a China têm vindo a explorar.

Os EUA tiram partido da centralidade do dólar, do seu sistema financeiro e do domínio de tecnologias avançadas para aplicar sanções, limitar transações e restringir o acesso de rivais a semicondutores e equipamentos essenciais. A China, por seu lado, usa o peso do seu mercado, das suas cadeias industriais e do controlo de minerais críticos, como as terras raras, para condicionar empresas e países que dependem desses recursos. Em ambos os casos, relações económicas criadas para gerar eficiência e prosperidade tornam-se meios de influência e pressão.

Mas este confronto entre gigantes não é um assunto distante. É que, de um dia para o outro, Portugal pode deixar de conseguir comprar tecnologia, energia ou matérias-primas essenciais. Sendo uma economia pequena, aberta e muito dependente do exterior, o país não fica à margem e uma guerra comercial, uma sanção ou uma falha no abastecimento pode aumentar o preço da energia, dos telemóveis, dos automóveis e de muitos outros bens do dia a dia. Por outro lado, as decisões tomadas em nome da segurança também têm custos. No 5G, por exemplo, afastar fornecedores considerados de risco pode proteger as comunicações, mas obriga as empresas a substituir equipamentos e a fazer novos investimentos.

Ainda assim, Portugal não tem apenas fragilidades — também possui trunfos. Sines, com os seus cabos submarinos e centros de dados, pode tornar-se uma ponte digital estratégica entre continentes. O lítio do Barroso pode ajudar a Europa a depender menos de fornecedores externos e a acelerar a transição energética. Estas oportunidades, porém, exigem decisões responsáveis. Não basta receber infraestruturas ou extrair recursos; é preciso criar conhecimento, proteger o ambiente, envolver as comunidades e garantir que o valor fica no país.

No fundo, autonomia estratégica não significa fechar o país ao mundo nem produzir tudo dentro de fronteiras. Significa escolher dependências com consciência, preparar alternativas e garantir que decisões tomadas no exterior não bloqueiam por completo a nossa economia. Num mundo mais fragmentado, a verdadeira segurança económica nasce do equilíbrio entre abertura, proteção e capacidade própria. Quanto maior for a nossa capacidade para compreender, produzir e decidir, menor será a dependência das escolhas dos outros.

Mas será que nós, enquanto país, estamos preparados para pagar hoje o custo da prevenção ou continuaremos a pagar amanhã o preço da dependência?