Hoje quero partilhar uma experiência pessoal recente — daquelas que nos apanham completamente de surpresa — e que traz consigo uma lição valiosa que todos devemos ter presente.
Há umas semanas, preparei-me para realizar um exame médico absolutamente rotineiro e habitual para muitos de nós: uma colonoscopia. Tudo parecia perfeitamente banal e sob controlo. No entanto, o que deveria ter sido um procedimento simples transformou-se, em poucas horas e sem que eu sentisse a menor dor física, numa situação crítica de saúde que me ensinou como o nosso organismo pode ser traiçoeiro nos momentos mais inesperados.
O que aconteceu foi algo silencioso. Durante a preparação para o exame, a combinação de uma solução de limpeza intestinal forte (à base de sulfatos), a ingestão de água simples e o facto de ter tomado um anti-inflamatório uns dias antes para uma dor na coluna (o conhecido Voltaren) provocou uma queda abrupta e severa do sódio no meu sangue — aquilo a que os médicos chamam hiponatremia ou hiponatrémia aguda grave.
O aspecto mais impressionante e perigoso desta situação é que a queda do sódio não dá pontadas, não dá febre nem provoca dor física. Ataca directa e fortemente o cérebro através de um edema e manifesta-se de forma muito subtil através de comportamentos que, para quem está de fora, podem parecer apenas "cansaço", "stresse" ou "distração", mas que são, na verdade, um verdadeiro grito de alarme do organismo.
No meu caso, os sinais foram evidentes para a minha família, embora eu estivesse totalmente alheado de tudo o que se passava:
- A apatia e o silêncio: No caminho de carro para a clínica e no tempo que lá estive, limitei-me a dormir e a manter um mutismo contínuo, completamente fora do meu comportamento habitual.
- A perda da memória recente: Quando cheguei à recepção e perguntei o que estava ali a fazer, e a minha mulher me explicou que ia fazer a colonoscopia, respondi-lhe com toda a convicção do mundo que isso era impossível porque eu "não tinha feito preparação nenhuma" — quando tinha passado a noite inteira nisso! O cérebro tinha simplesmente apagado as últimas horas.
- A quebra do raciocínio lógico: Pedi na recepção da Imagiologia para falar com a minha médica de Radioterapia — uma médica e um serviço que acompanho há anos noutro contexto totalmente diferente —, sem que houvesse qualquer lógica em chamá-la para aquele exame. Perante a confusão mental, o meu cérebro procurou automaticamente a referência de maior familiaridade e segurança.
Felizmente, a atenção da minha família e a intervenção médica a meio do dia permitiram identificar o problema e dar entrada na urgência do hospital São Francisco Xavier, onde a administração de soro salino hipertónico travou a emergência e repôs os níveis de sódio.
Ao contrário do que gostaria, hoje ainda não estou plenamente recuperado. Na realidade, este episódio deixou marcas: sofro actualmente de amnésia retrógrada, com uma falha de memória que cobre pelo menos todo o mês que antecedeu o evento. Contudo, mantenho um esforço diário e faço tudo o que está ao meu alcance para recuperar totalmente a agilidade mental e a capacidade intelectual do costume.
Partilho isto convosco porque sei que todos nós, ou os nossos familiares mais próximos, fazemos exames deste género com regularidade. E há cuidados e regras de segurança fundamentais que todos devemos fixar:
- Cuidado com os anti-inflamatórios antes de exames: Se tiverem de fazer uma preparação intestinal ou jejum rigoroso, evitem tomar anti-inflamatórios (como Voltaren ou ibuprofeno) nos dias anteriores, pois eles alteram a capacidade do rim para gerir a água e o sódio.
- Não bebam apenas água pura em excesso na preparação: Ingerir grandes volumes de água simples sem sais ou sem caldos salgados pode diluir perigosamente o sódio do corpo.
- A desorientação mental é um sinal de alerta real: Se alguém que vos é próximo estiver a fazer uma preparação ou jejum e começar a parecer confuso, sonolento, a esquecer-se do que fez há poucas horas ou a dizer coisas sem nexo, isso exige avaliação médica imediata, de preferência em urgência hospitalar. Não é "cansaço do jejum".
- Suspensão imediata de exames e sedação: Perante qualquer sinal de desorientação ou confusão mental, o exame e a sedação anestésica devem ser categoricamente suspensos até que seja feita uma avaliação clínica fiável e segura.
- Valorizem sempre a intuição de quem está convosco: Quem convive connosco é quem primeiro nota quando "não estamos normais".
Se esta minha experiência servir para que um de vós ou um familiar vosso identifique a tempo uma situação destas e evite complicações maiores, todo este susto terá valido a pena.

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