terça-feira, 7 de julho de 2026

Quo vadis, FIFA?



Há torneios que celebram o futebol. O Mundial de 2026 parece celebrar outra coisa qualquer, com o jogo a servir de decoração.

A FIFA gosta de se apresentar como árbitro imparcial do planeta bola. É uma imagem simpática, quase nostálgica. O problema é que, enquanto a narrativa insiste na neutralidade, a prática já entrou no domínio da coreografia diplomática. As regras existem, claro, mas parecem ter adquirido um curioso sentido de oportunidade.

O caso de Cristiano Ronaldo é um bom ponto de partida para este novo realismo mágico. Uma cotovelada, um cartão vermelho, uma suspensão previsível. Tudo dentro da normalidade de um desporto que ainda finge obedecer a critérios objectivos. E depois há um jantar na Casa Branca, com Trump, Mohammed bin Salman e Gianni Infantino à mesma mesa. Um encontro entre amigos, dir-se-á. Talvez tenham falado de futebol. Ou talvez não.

Dias depois, a sanção encolhe. Dois jogos desaparecem com a elegância de um truque de ilusionismo jurídico. O Artigo 27 surge como solução versátil, quase um botão de ajuste fino para inconveniências disciplinares. Ronaldo fica disponível para o Mundial. O futebol agradece, a lógica nem por isso.

Se isto ainda pudesse ser visto como um episódio isolado, Balogun encarregou-se de esclarecer o equívoco. Já em plena competição, o jogador é expulso. Nada de extraordinário. A suspensão automática é uma dessas raras certezas que ainda restavam no regulamento.

Até deixar de ser.

Entra de novo em cena o elemento verdadeiramente decisivo do futebol contemporâneo. Não é o árbitro, nem o VAR. É o telefone. Donald Trump liga diretamente ao presidente da FIFA para discutir a decisão. Não se trata de uma metáfora. É mesmo uma chamada telefónica a interferir com um castigo desportivo.

Há aqui um detalhe que roça a comédia política. Trump intervém em defesa de um jogador cuja cidadania assenta no direito de nascimento, princípio que tem combatido no seu país. No futebol, pelos vistos, há conceitos que ganham utilidade súbita.

A FIFA responde com uma eficiência admirável. Em menos de um dia, a suspensão evapora-se. O mesmo Artigo 27 volta a cumprir serviço, demonstrando uma elasticidade que qualquer ginasta invejaria. Outras normas continuam escritas, mas já com um ar decorativo.

Perante este espetáculo, a indignação internacional cumpre o seu papel protocolar. A UEFA fala em limites ultrapassados. Blatter relembra que cartões vermelhos não se apagam com telefonemas. É difícil não apreciar o sentido de humor involuntário.

O problema não está apenas nas decisões, mas no padrão. A presença da FIFA em espaços de poder político, como a Trump Tower, ou a distribuição de distinções simbólicas ao seu senhorio, não são gestos inocentes. São sinais de alinhamento. São moeda de troca num jogo onde o futebol é apenas o palco.

Entretanto, nas bancadas e fora delas, o nacionalismo atinge níveis dignos de estudo. Em Portugal, a paixão pelo futebol ganhou contornos de missão de Estado. O primeiro-ministro atravessou o oceano com uma regularidade que faria inveja a um navegador quinhentista, marcando presença em sucessivos jogos da selecção como se cada partida fosse uma cimeira internacional. Fica a dúvida se só levou o cachecol. Talvez tenha levado também a pasta diplomática.

Este fervor patriótico encaixa perfeitamente no novo ecossistema do futebol global. Tudo é amplificado, tudo é simbólico, tudo é politicamente útil. O jogo em si continua a existir, mas parece cada vez mais um pretexto conveniente para outras agendas.

No meio disto, a FIFA já nem tenta convencer. Limita-se a gerir o espectáculo, ajustando regras conforme a relevância dos intervenientes. A neutralidade não desapareceu de repente. Foi sendo suavemente substituída por algo mais flexível, mais pragmático e, acima de tudo, mais previsível para quem tem poder.

O futebol continua a ser jogado com uma bola. Mas as decisões mais importantes já não passam necessariamente por ela.

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