Algumas das críticas ao meu texto A democracia na era da areia que pensa, fizeram-me pensar que a Europa vive há demasiado tempo prisioneira de um discurso que a dá por vencida antes mesmo de começar a lutar. Há quem fale do continente como se fosse um museu civilizacional, uma velha potência cultural condenada a assistir, do lado de fora, ao duelo entre os EUA e a China. Essa visão é perigosa porque transforma a hesitação em destino e a prudência em renúncia. Na minha opinião, o verdadeiro problema europeu não é a falta de meios, mas a tentação de aceitar a irrelevância como se ela fosse uma fatalidade histórica.
A democracia liberal atravessa uma fase difícil, isso é inegável. A política tornou-se mais lenta e incompetente do que a tecnologia, mais cautelosa do que a aceleração digital e, por isso mesmo, mais vulnerável ao ruído dos populismos e das soluções fáceis. Mas é precisamente aqui que reside a força da democracia. As sociedades abertas podem parecer desordenadas, mas têm uma capacidade de correcção que os regimes fechados nunca conseguem imitar. Onde a autocracia impõe silêncio, a democracia debate. Onde o autoritarismo comprime, a democracia adapta-se. E num mundo em mutação vertiginosa, a capacidade de adaptação vale mais do que a ilusão da obediência.
A inteligência artificial veio expor esta tensão como poucas transformações anteriores. Não estamos apenas perante uma nova ferramenta, mas perante uma mudança estrutural que altera economias, administrações, profissões e relações de poder. A metáfora da areia que pensa traduz bem a passagem de uma matéria passiva para uma matéria capaz de processar, decidir e agir. Quando isso acontece, o que está em causa já não é apenas eficiência tecnológica, mas soberania. Quem controla os sistemas, os dados e as plataformas controla também a margem de autonomia das sociedades. E é por isso que a Europa não pode contentar-se com o papel de mera consumidora de tecnologia alheia.
No campo da defesa, a urgência tornou o problema ainda mais claro. O Relatório Draghi e vários estudos recentes mostraram uma realidade inquietante: entre Junho de 2022 e Junho de 2023, cerca de 78% do investimento europeu em aquisições de defesa foi canalizado para fornecedores fora da União Europeia, e desse total 63% acabou nos EUA.
Depois de décadas de subinvestimento crónico, a Base Tecnológica e Industrial de Defesa Europeia não tinha, e em muitos casos ainda não tem, capacidade de fabrico e entrega rápida em grande escala. Perante a pressão do rearmamento, muito fruto de reacções emocionais pouco ponderadas, os governos nacionais estão a optar muitas vezes pela solução mais imediata, comprando equipamento estrangeiro pronto a usar, como os F-35, por parecer a alternativa politicamente mais segura e militarmente mais expedita.
O problema é que essa escolha tem um custo sistémico imenso. Ao transferirmos milhares de milhões de euros para fora do continente, estamos a financiar emprego, investigação e capacidade industrial noutros espaços, enquanto enfraquecemos o nosso próprio ecossistema tecnológico e alimentamos uma dependência de trajectória da qual será cada vez mais difícil sair. Nesse caminho, as forças armadas europeias arriscam tornar-se reféns de decisões políticas externas para actualizações, peças de substituição e soberania operacional.
No entanto, a Europa está a descobrir, espero que não tarde demais, que a segurança não se compra apenas com urgência, compra-se com continuidade, indústria e visão estratégica. Depender de fornecedores externos para sistemas críticos é uma forma de abdicação. E abdicar da capacidade de produzir, manter e desenvolver tecnologia de defesa é aceitar que a autonomia se torne um slogan vazio. Numa época em que a guerra, a cibersegurança e a inteligência artificial se entrelaçam, separar a inovação civil da defesa é um erro de miopia política. As tecnologias de dupla utilização não são um luxo. São uma condição de sobrevivência.
Durante anos, o continente oscilou entre duas fraquezas opostas. Regulou com zelo em excesso e investiu com hesitação em demasia. Essa combinação criou um paradoxo desconfortável. A Europa quer proteger os cidadãos, mas arrisca-se a sufocar a inovação. Quer afirmar valores, mas demora demasiado a traduzi-los em poder concreto. Quer autonomia, mas continua dependente de plataformas, cadeias industriais e capacidades computacionais que pertencem a outros. Ora, uma Europa que regula tudo e produz pouco acaba por parecer forte apenas no papel. E isso, no século XXI, é quase o mesmo que não existir.
Ainda assim, seria injusto ignorar os sinais de mudança. A União Europeia começou finalmente a perceber que a soberania não se proclama, constrói-se. O impulso regulatório já não chega sozinho, e por isso surgem estratégias industriais, instrumentos financeiros, projectos de computação soberana e modelos de inteligência artificial pensados para reforçar a autonomia europeia. Também em Portugal há exemplos que merecem atenção. O investimento em soluções próprias, em ecossistemas digitais públicos e em modelos que protejam a língua, a cultura e a capacidade administrativa nacional mostra que um país de média dimensão não está condenado a ser espectador. Pode ser laboratório. Pode ser escala. Pode ser decisão.
Mas nenhuma estratégia europeia sobreviverá se os cidadãos continuarem a olhar para estas questões com desinteresse ou resignação. A soberania não pertence apenas aos governos, aos comissários ou aos tecnocratas. Pertence também a quem vota, a quem investe, a quem ensina, a quem pesquisa e a quem exige que o dinheiro público sirva o bem comum e não a dependência confortável do exterior. É preciso recuperar uma cultura de responsabilidade colectiva que una inovação, indústria, conhecimento e liberdade. Sem isso, a Europa continuará a discutir o futuro enquanto outros o constroem.
O erro mais grave seria confundir prudência com inacção. A Europa não precisa de arrogância, mas precisa de ambição. Não precisa de promessas grandiosas, mas de decisões consistentes. Não precisa de acreditar que tudo correrá bem por milagre, mas de assumir que o seu lugar no mundo depende do que fizer agora. O fatalismo é uma forma sofisticada de desistência. E a desistência, para um continente com a história da Europa, seria uma humilhação.
A Europa não acabou. O que está em causa é saber se ainda tem vontade de se levar a sério.
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