quarta-feira, 29 de julho de 2026

A soberania da areia e o destino da liberdade

 


Há épocas em que a História parece avançar por ideias e há outras em que avança por objectos materiais. A nossa pertence a esta segunda família. Não são apenas os discursos, os partidos ou as paixões que moldam o destino das nações. São também os circuitos invisíveis, os wafers de silício, as máquinas que gravam o irrepetível numa superfície quase sem peso. O século XXI não se explica sem essa verdade elementar e perturbadora. A inteligência artificial, essa promessa de fazer a areia pensar, não é um milagre etéreo. É uma construção material, frágil e soberana ao mesmo tempo. E quem não controla a sua base física acabará por depender da vontade alheia.
 
Christophe Wyon da Université Grenoble Alpes, CEA-Leti, Grenoble, França, e Marcel Van de Voorde da Technical University Delft e EU research, Delft, Países Baixos e Bruxelas, Bélgica, lembram-nos no artigo “The European semiconductor industry challenges” que os semicondutores são hoje o cérebro dos dispositivos electrónicos e um dos bens mais estratégicos do comércio global. O artigo é relevante por retirar a IA do plano abstrato e a colocar no terreno concreto da geopolítica e da economia.
 
Aquilo que muitas vezes é apresentado como uma revolução imaterial assenta, afinal, numa infra-estrutura física altamente sofisticada, concentrada e disputada. A ideia de que vivemos na era da “areia que pensa” ganha assim uma leitura literal. De facto, a IA depende de chips de silício produzidos com níveis extremos de precisão, com milhares de milhões de transístores a operarem como unidades elementares de cálculo. Esta base material é hoje o verdadeiro motor da economia digital e o factor que permite a expansão acelerada das capacidades da IA. Por isso, os semicondutores são hoje um activo central de poder.
 
Durante décadas, a humanidade conseguiu comprimir a potência do mundo num espaço cada vez menor, reduzindo custos, multiplicando transístores e transformando a miniaturização numa espécie de religião do progresso. A eficiência da IA, muitas vezes celebrada pela sua rapidez e escala, resulta precisamente de décadas de progresso na miniaturização e redução de custos. Esse progresso exige investimento continuado, coordenação institucional e competências técnicas altamente especializadas. Não é um processo espontâneo nem neutro. Mas toda a escalada tecnológica conhece um ponto em que a vertigem toca o limite. O que antes parecia pura expansão começa então a revelar a sua costura, a sua dependência, a sua vulnerabilidade. A areia continua a pensar, mas já não pensa sozinha. Pensa dentro de uma cadeia global em que cada elo pode tornar-se um acto de poder.
 
É por isso que a questão dos chips deixou de ser técnica para se tornar política no seu sentido mais profundo. Não foi por acaso que as grandes potências passaram a tratar esta indústria como uma questão de segurança nacional. A tendência é clara e traduz-se num esforço crescente de controlo interno das cadeias de valor, com políticas industriais agressivas, restrições à exportação e incentivos à relocalização da produção. A globalização, neste sector, está a dar lugar a uma lógica de blocos. A liberdade moderna já não se decide apenas no parlamento, na praça pública ou na urna. Decide-se também na capacidade de produzir, de proteger e de controlar os instrumentos invisíveis que organizam a vida visível. Um Estado que depende dos outros para fabricar a inteligência das suas máquinas é um Estado com a soberania incompleta. Pode legislar, pode discursar, pode regular. Mas não comanda inteiramente o seu tempo. E um continente que não comanda o seu tempo acaba por viver ao ritmo imposto pelos outros.
 
Neste quadro, a Europa tem uma posição intermédia e desconfortável. Por um lado, dispõe de vantagens tecnológicas relevantes. Tem no seu território uma das maiores jóias industriais do mundo, a ASML, empresa holandesa sem a qual os chips mais avançados não podem sequer existir. Tem conhecimento, tem engenharia, tem memória industrial. Por outro lado, essas vantagens não se traduzem numa cadeia de valor completa. A presença europeia no design de chips é reduzida e a dependência de tecnologias externas permanece elevada. A Europa depende do exterior no design de ponta, na propriedade intelectual, no encapsulamento e em vários segmentos decisivos da produção avançada. Esta assimetria limita a capacidade de afirmação estratégica e expõe o continente a decisões tomadas fora do seu espaço político. Em linguagem simples, a Europa participa no teatro da inovação, mas continua longe de escrever sozinha a peça principal.
 
E enquanto isso, os EUA e a China travam uma guerra de longa duração pela supremacia tecnológica. Washington aperta o acesso de Pequim aos chips mais avançados e aos softwares que os tornam possíveis. Pequim responde com uma estratégia de autonomia acelerada, investindo em escala, em controlo e em substituição. A Europa assiste, muitas vezes, como quem contempla uma tempestade pela janela de uma casa velha. Sabe que o relâmpago pode cair sobre ela, mas continua a hesitar entre a prudência e a passividade. Essa hesitação é perigosa. Num mundo em que a tecnologia se tornou a gramática do poder, quem não define a sua própria gramática acabará por obedecer a frases escritas noutro idioma.
 
A discussão sobre IA não pode ser separada da questão industrial. Sem capacidade própria de produção e desenvolvimento, a Europa arrisca-se a desempenhar um papel secundário num sistema tecnológico que molda a economia, a segurança e a própria organização das sociedades. Se as democracias europeias não forem capazes de acompanhar esta exigência, o risco não é apenas económico. É também institucional. A dependência de infra-estruturas críticas controladas por outros pode traduzir-se numa perda efectiva de autonomia política.
 
É aqui que a vertigem política ganha o seu verdadeiro rosto. A impaciência dos cidadãos, a fúria populista, a desconfiança perante a lentidão das instituições, não nascem apenas da pobreza ou da frustração social. Nascem também do choque entre duas temporalidades inconciliáveis. De um lado, a promessa instantânea da máquina, a eficácia de um clique, a ilusão de um mundo sem espera. Do outro, a democracia, esse regime que vive da discussão, do contraditório, do compromisso e da responsabilidade partilhada. Quando a primeira começa a parecer mais convincente do que a segunda, abre-se espaço para os vendedores de atalhos, os profetas da pressa, os demagogos que prometem resolver tudo sem respeitar nada.
 
Mas a resposta não pode ser a capitulação. Não pode ser a entrega das chaves do futuro a potências exteriores, sejam elas norte-americanas ou chinesas. A Europa tem de se decidir. Por isso defendo que a IA deixou de ser apenas uma questão tecnológica. É hoje uma questão de soberania. Para a Europa, a escolha é relativamente simples na formulação, ainda que difícil na execução. Ou transforma as suas competências parciais numa estratégia industrial coerente e integrada com investimento pesado na concepção, na produção e no domínio dos sectores críticos da inteligência artificial e dos semicondutores, ou aceitará um lugar periférico num dos eixos centrais do poder contemporâneo, vivendo numa dependência dourada, confortável na aparência e humilhante na substância. Não basta regular o mundo. É preciso ainda ter algum poder sobre aquilo que se regula. Não basta moralizar a tecnologia. É preciso também fabricá-la.
 
O trabalho humano, neste cenário, ganha um novo lugar. Já não será definido pela mera execução, mas pela capacidade de julgar, validar e assumir responsabilidade. A máquina fará muito, talvez até demasiado. Mas a decisão final deve continuar a ter um rosto humano, uma assinatura humana, uma consciência humana. Só que essa dignidade só subsiste se a infra-estrutura tecnológica não estiver inteiramente fora do nosso alcance. Caso contrário, a autonomia do indivíduo será uma ficção administrada por sistemas opacos, e a liberdade reduzir-se-á a uma escolha entre interfaces.

A conclusão parece simples. Ou a Europa compreende que a soberania da areia é também o destino da liberdade, ou continuará a falar de independência enquanto depende das cadeias industriais alheias para pensar, produzir e decidir. A História não perdoa os que chegam atrasados. E nenhuma comunidade chega mais tarde do que aquela que se resigna a não dominar os instrumentos do seu próprio futuro.

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