domingo, 12 de julho de 2026

Carta de Amor



Meu Amor,

Se um dia me perguntares quem sou, não te contarei uma história.
Aproximo-me apenas e deixo que a minha presença chegue antes de qualquer palavra.
Talvez diga o meu nome; talvez não. Não importa.
A minha mão fica perto da tua, à espera desse gesto que não precisa de explicação.

Se a luz entrar pela janela e te fizer parar sem saberes porquê, não te interromperei.
Fico onde ela te encontra, quieto, a ver-te presa ao que não se diz.
Não te puxo de volta.
Deixo que a luz faça o que sabe fazer e fico contigo dentro dela.

Se o rádio murmurar ao fundo e te detiver por um momento, como se aquela voz sem nome te chamasse, pararei contigo.
Não explico o que ouves, nem tento fixar o que passa.
Deixo o som atravessar a sala, desaparecer devagar, e permaneço ao teu lado como se isso bastasse.

Se me olhares como se me visses pela primeira vez, aceitarei esse instante.
Inteiro.
Não te dou caminhos de volta, nem te ofereço histórias.
Sento-me ao teu lado, com a luz a mudar e o rádio ao fundo.
E deixo que esse olhar exista sem lhe pedir mais do que pode dar.

Se houver um segundo, fugaz, quase impercetível, em que algo em ti se detenha diante de mim, reconhecê-lo-ei.
Não o prendo, nem procuro repeti-lo.
Fico dentro dele enquanto dura, como se o tempo abrandasse só ali.

E, quando esse segundo não existir, ficarei na mesma.

Se te perderes de mim ao atravessar a casa, não irei atrás.
Permaneço no mesmo lugar, onde a luz se demora ao fim da tarde e o rádio continua a falar.
E deixo que possas voltar sem esperar que me encontres.

Se a tua mão tocar a minha por acaso, não prenderei esse gesto.
Deixo-o ficar, breve e inteiro,
como a luz que passa ou um som que se desfaz no ar.

Se falares, mesmo sem saber para quem, estarei aqui para ouvir.
Escuto-te como se cada palavra nascesse naquele instante.
Não te digo que já a ouvi, nem te peço que expliques.
Recebo apenas, como recebo a luz e o som que atravessa a sala.

Se parares e me olhares um instante mais, pararei contigo.
Fico nele como quem encontra abrigo.
O rádio continua baixo, atravessando o silêncio sem o romper, e a luz permanece pousada sem pedir nada.
Faço o mesmo: não explico, não peço, fico.

Se passares por mim sem parar, não irei embora.
Permaneço, como a luz que volta no dia seguinte e como a voz do rádio que continua a atravessar a casa.
Não te peço que me reconheças, porque há um amor que não precisa disso.

Se nada disto fizer sentido num dia qualquer, não procurarei sentido.
Fico onde sempre estive.
Com a mesma fidelidade silenciosa.

E eu amar-te-ei assim, mais do que alguma vez pensei possível.
Com a mesma fidelidade com que a luz volta e com a mesma persistência com que o rádio continua a falar no fundo da casa.
Mesmo quando ninguém parece escutar.

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