quarta-feira, 8 de julho de 2026

A ilusão do centro



Há pensamentos que não ficam onde foram ditos. Os de Onésimo Teotónio Almeida são assim. Ouvimo-lo e, de algum modo, continuamos a ouvi-lo, como se a sua voz ficasse a ecoar dentro da nossa própria maneira de pensar.

Desta vez explica-nos a identidade, como é que funciona. Mas não a define de forma abstracta, ele conta-a. E ao contá-la, mostra como ela se move.

Onésimo começa onde tudo parece simples. Nasce em São Miguel. E ali, naquele princípio, não há problema nenhum com a identidade, porque não há distância. É-se. Simplesmente é-se. Mas depois acontece aquilo que tem de acontecer. Vai à Terceira e é aí, como ele diz, que percebe que é de São Miguel. Não porque tenha mudado, mas porque alguém lhe mostra isso. Porque os outros veem. E quando os outros veem, nós começamos a ver-nos também.

É assim que começa. É sempre assim que começa.

Depois vai à Madeira. E já não é micaelense. Ou melhor, é, mas isso já não chega. Passa a ser açoriano. E ele próprio diz isso com uma naturalidade que quase engana, como se fosse apenas uma mudança de palavra. Mas não é só uma palavra. É a escala que muda. E quando a escala muda, muda tudo.

Em Lisboa, acontece outra coisa curiosa. Açorianos, madeirenses, tudo junto, são insulares. É assim que lhes chamam. E ele aceita, e eles aceitam, porque de repente faz sentido. Aquilo que antes parecia importante deixa de o ser. Não desaparece, mas recolhe-se. Fica mais fundo.

Depois vem Badajoz. E aqui Onésimo quase pára, como quem sublinha. É ali que sente o que é ser português. Ali, diz ele. Porque já não tem os seus por perto, porque está do outro lado, porque há os espanhóis. E isso basta. Basta para que a palavra ganhe corpo. Português.

Mas não fica por aí. Nunca fica.

Vai a Paris. E em Paris, com os franceses à volta, aproxima-se dos espanhóis. De repente são ibéricos. Assim, simplesmente. Aquilo que em Badajoz separava, em Paris aproxima. E isto, contado assim, quase em tom de conversa, é talvez a parte mais séria de tudo o que Onésimo nos mostra. A identidade não é fixa. Nunca é fixa.

Depois a América. E ele fala dos europeus, dos encontros, do café, dessa necessidade de estar junto. Já não interessa tanto de que país se vem. Interessa que se vem de lá. Daquele lado. A Europa deixa de ser mapa e passa a ser reconhecimento. Uma espécie de entendimento silencioso.

E depois a China. E aqui há qualquer coisa de inesperado. Ele ouve um tango. Um tango argentino, longe de tudo. E sente-o como seu. E percebe-se ocidental. Não porque tenha decidido, mas porque aquilo lhe acontece. Porque há coisas que nos acontecem e que nos dizem quem somos, ou melhor, de onde estamos naquele momento a ser.

E é então que Onésimo diz aquilo que parece uma hipótese, mas não é. Se um dia chegar a Marte, diz ele, vai sentir-se terrestre. Vai sentir que é da Terra. E, dito assim, quase com leveza, está lá tudo.
Está lá tudo o que importa.

Porque, no fundo, o que Onésimo Teotónio Almeida nos vai mostrando, passo a passo, viagem a viagem, é isto. A identidade não está no início. Não é aquilo com que se nasce e que se guarda intacto. A identidade acontece. Acontece quando alguém nos vê, quando mudamos de lugar, quando a distância nos obriga a dizer quem somos.

E mesmo assim, nunca dizemos a mesma coisa.

Hoje somos de uma ilha. Depois de um arquipélago. Depois de um país. Depois de uma península. Depois de um continente. Depois de um lado do mundo.

E um dia, talvez, apenas de um planeta.

E é nesse momento que se percebe, finalmente, aquilo que Onésimo sempre soube dizer sem precisar de o tornar pesado.

O centro nunca esteve onde pensávamos.

O centro é sempre o lugar onde, naquele instante, nos reconhecem.

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