domingo, 3 de maio de 2020

Dia da Mães


Neste Dia da Mãe podia falar de qualquer uma das Mães da minha vida. Podia claro falar da Senhora minha Mãe. Podia falar da Mãe do meu filho e das minhas filhas e companheira de mais de cinquenta anos de vida. Podia falar da minha Filha lutadora, mãe de quatro dos meus netos. Mas hoje apetece-me falar da minha Filha solidária, mãe dos meus outros quatro netos.

Para falar da Joana escolhi duas fotos. Uma de há cinco anos, com as outras Mães da minha vida e grávida do Miguel. Outra bem mais recente, de há pouco mais de uma semana.


A Joana é uma das minhas heroínas em tempos de pandemia. Desde que a crise sanitária começou, está separada do marido e de três filhos para poder continuar a fazer o que faz há anos: trabalhar para que pessoas com necessidades especiais possam ser cidadãos e ter uma vida digna.
 
Todos os dias sai de casa para, com outras heroínas e heróis, proteger e cuidar de pessoas cujo mundo é a instituição onde vivem e cuja família são a Joana e os colegas. Pessoas de um grupo de risco que na esmagadora maioria não compreendem o que se está a passar. Pessoas para quem o afecto físico é essencial e não percebem o que é isso de distanciamento social. Pessoas que têm de ser protegidas a todo o custo de qualquer contágio pelo vírus.

A Joana sai todos os dias de casa com medo, não de ser contagiada, mas que os seus “meninos” sejam contagiados. Sai de casa para estar com eles todo o dia, para que nada lhes falte. A Joana e as colegas e os colegas fazem tudo o que é necessário para assegurar o seu bem-estar em condições rigorosas de isolamento. A Joana, as colegas e os colegas asseguram a venda de máscaras à população das 9 às 17 horas para ajudar o financiamento da instituição, num ano em que a campanha do Pirilampo Mágico foi cancelada com todas as suas consequências.
 
A Joana, no fim do dia, fala com os filhos pelo WhatsApp. Fala com o João, com a Maria e com o Miguel, um menino que ainda não tem idade para compreender a razão de estar separado da Mãe. Que diz que quer estar com a Mãe e, às vezes, chora sem que a Mãe o possa consolar.

Foi por tudo isto que hoje, no Dia da Mãe, me apeteceu falar da minha Filha Joana, uma das Mães da minha vida.

sábado, 25 de abril de 2020

A cor da Liberdade


"Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha."

As palavras são de Jorge de Sena, o desenho do meu neto Miguel.

quinta-feira, 19 de março de 2020

O meu Pai



O meu Pai era reconhecido mundialmente como um dos maiores cientistas no melhoramento genético do cafeeiro. Era convidado para trabalhar em Angola, no Brasil, na Venezuela, na Colômbia, no México, na Guatemala, na Nicarágua, nas Honduras, na Costa Rica, no Panamá, na República Dominicana, onde criava estações experimentais, ensinava nas universidades, apoiava centros de investigação.

Seleccionava, por cruzamento em ambiente controlado de plantas de diversas origens, espécies de cafeeiros resistentes à ferrugem, a "Hemileia vastatrix", uma doença devastadora que causa a perda de plantações inteiras. Uma vez seleccionadas, as espécies resistentes eram testadas em estações experimentais e se demonstrassem ter qualidades produtivas adequadas, eram distribuídas aos agricultores.
Não conheço os detalhes de todas as suas andanças pelo mundo mas há dois anos, a minha prima Tania, que andou por Timor-Leste, disse-me que tinha de acrescentar aquele país à minha lista e contou-me esta história:

Faz uns 5 anos... trabalhava num projecto com uma senhora timorense... A Néné... Maria Alves e depois de ganhar confiança... um dia perguntou-me meio embaraçada se eu tinha alguma coisa que ver com o Eng. Bettencourt que tinha estado em Timor-Leste a trabalhar na área do café em Aileu e Ermera... como imaginas para mim não era surpresa ... surpresa foi saber que uma senhora que na altura teria 8 anos... ainda se lembrava do teu Pai... o Pai dela tinha trabalhado com o teu.

Para mim não foi surpresa. O outro sempre esteve no centro das preocupações do meu Pai.

segunda-feira, 2 de março de 2020

Sardinhada em Monterey



Estes marinheiros, dois Jorge de sua graça, moravam em Monterey, num bairro de americanos bem-comportados. Os vizinhos eram muito simpáticos, convidavam, a eles e às famílias, para os regulares BBQ onde degustavam os tradicionais burgers, bebiam coke, jogavam soccer e eram todos felizes.

Só que o Carlos Jorge, setubalense de gema, não aguentava as saudades de uma sardinhada. O Jorge moçambicano era mais caril de marisco, mas o Carlos não resistiu. Um dia foram a San Jose e trouxeram um carregamento de sardinhas congeladas, naturalmente de Peniche. O Carlos montou o fogareiro e preparou tudo para a grande sardinhada.

Reza a história que os vizinhos, embora convidados para a festa, assim que sentiram os primeiros odores da preparação, trancaram-se em casa e só mostraram as caras zangadas através das janelas fechadas. Alguns ainda se aproximaram do pátio do Carlos para apresentarem a devida reclamação mas não resistiram à prova. E o Carlos, de tão concentrado que estava na função, como a imagem demonstra, não lhes deu atenção.

Uns tempos depois, durante a crise dos reféns na embaixada americana no Irão, os dois marinheiros passeavam na baixa de Monterey e foram confundidos com iranianos. Responderam naturalmente com uns palavrões ao convite de um grupo de americanos loiros para que regressassem à sua terra.

Mas apreciado o episódio a esta distância, os locais tinham razão: o imaculado ambiente da Califórnia não podia ser poluído por gente que fazia sardinhadas no pátio de casa.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Escravos "canários"

 

Em 25 de Fevereiro de 1869 foi decretada a extinção da escravatura em todos os domínios portugueses. A história da escravatura em Portugal não é fácil de fazer porque o escravo, pela sua posição marginal na sociedade, não ocupa um local de relevo nos documentos disponíveis, que reflectem a vida dos grupos dominantes. Se para a generalidade dos escravos é difícil encontrar o rasto do seu quotidiano, para os grupos minoritários como os escravos “canários”, expressão usada na Madeira para designar os indígenas trazidos das Canárias, é quase impossível.

A presença deste grupo de escravos na Madeira foi um dos resultados da pretensão do infante D. Henrique à posse das Canárias, uma disputa complexa que chegou mesmo a envolver um contrato de compra do território a um meu antepassado longínquo, o normando Maciot de Bettencourt.
 
Menos de três décadas depois do início do povoamento da Madeira, os portugueses da ilha da Madeira empenharam-se nas expedições henriquinas, não apenas pelo serviço ao infante mas também por objectivos económicos, uma vez que as Canárias era então a principal área de aprovisionamento de escravos. Até à década de noventa do século XV, portugueses e castelhanos fizeram sucessivos assaltos e várias razias da população indígena das Canárias.

Os guanches eram essencialmente utilizados como pastores e mestres de engenho de açúcar. O problema é que sendo um povo aguerrido e insubmisso, fugiam com frequência e criavam inúmeros problemas aos senhores madeirenses, em especial pelo roubo do gado. O estigma da sociedade madeirense para com este grupo fez com que em 1490 o senhorio da Madeira desse ordem de expulsão de todos os escravos “canários”, exceptuando os mestres de engenho, as mulheres e as crianças.
 
O problema persistiu por alguns anos até que os guanches que ficaram acabaram por se integrar na sociedade madeirense, deixando marcas culturais como palavras do seu dialecto, o consumo do gofio ou a técnica de tratamento dos couros. As grutas escavadas na rocha para habitação e culto religioso, que quando visitei a Madeira pela primeira vez em 1971 ainda eram ocupadas por artesãos de vime, são também uma herança dos escravos “canários”.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Uma amarga prenda de aniversário



Este senhor, de nome Emanuel Francisco dos Santos Rocha de Abreu Gonçalves, decidiu dar-me uma prenda amarga no dia em que celebrei 70 anos.

Na qualidade de Vice-Presidente da Câmara Municipal de Oeiras, numa intervenção na sessão da Assembleia Municipal de Oeiras do passado dia 18, difundida em directo para todo o mundo através da Internet, decidiu tecer insinuações caluniosas sobre o projecto “Edifício Arte Contínua” (EAC) e sobre a associação cultural sem fins lucrativos “Colectivo a Postos” (CAP), de que sou membro fundador e cujos órgãos sociais integro, e que o dinamiza no antigo Posto de Vigilância e Defesa da Entrada do Porto de Lisboa - PVDEPL desde 2018.

Dando a entender que a CMO só foi convidada a ter um papel activo na utilização e conservação do edifício do antigo PVDEPL depois do protocolo que assinou com o Ministério da Defesa Nacional em Outubro de 2019; que desconhece o papel dos serviços da CMO na concepção e arranque do projecto EAC em 2018; que não teve conhecimento da intervenção realizada pelo CAP e pelos seus parceiros, na fase inicial com o apoio da CMO, para a recuperação do edifício e do espaço envolvente depois de uma década de abandono, saque, vandalismo e ocupação com práticas degradantes; que não sabe que a CMO foi informada de todas as iniciativas e propostas para que o projecto EAC e as suas iniciativas tivessem a mais ampla participação de todas as entidades públicas, privadas, de solidariedade social e associativas do Concelho de Oeiras, incluindo a própria CMO; que desconhece que nada foi realizado no edifício do antigo PVDEPL sem conhecimento do proprietário e da CMO; que ignora que depois do CAP ter tido conhecimento, através das redes sociais, da assinatura do protocolo com Ministério da Defesa Nacional, se reuniu com a presidência da CMO para discutir e definir o futuro do projecto EAC; que desconhece que o responsável pela cultura da CMO informou o CAP que o EAC poderia permanecer no edifício do antigo PVDEPL até Junho de 2020; o Vice-Presidente da CMO resolveu tecer publicamente uma série de considerações surpreendentes sobre o projecto EAC e a associação CAP que o dinamiza, considerações essas que, no mínimo, considero caluniosas.

Depois de uma vida e de uma carreira profissional que procurei que fosse exemplar como cidadão, militar, democrata e homem de bem, foi preciso chegar aos setenta anos para que um político que tem idade para ser meu filho e não me conhece de lado nenhum, ouse insinuar publicamente, entre outros dislates, que não cumpro as regras e a lei; que fiz um “gato” ou baixada eléctrica da rede pública, que roubo água sabe-se lá de onde e que ocupo ilegalmente um edifício público, sem autorização do proprietário, no caso o Ministério da Defesa Nacional.

E o problema é que as insinuações caluniosas do Vice-Presidente da CMO não atingiram só a mim, atingiram também as minhas filhas, os meus amigos e os inúmeros cidadãos que comigo e, principalmente, com as minhas filhas, se têm esforçado para, a expensas próprias, voluntariamente, com sacrifício dos tempos livres e sem nenhuma contrapartida financeira ou de qualquer outra natureza, num acto singelo de cidadania, contribuir para a construção de uma sociedade melhor.

Quanto à alegada surpresa do representante do Ministério da Defesa Nacional, iremos esclarecer junto dos respectivos serviços.

Quanto às insinuações caluniosas do senhor Emanuel Francisco dos Santos Rocha de Abreu Gonçalves, Vice-Presidente da Câmara Municipal de Oeiras, aguardo que apresente em sede própria as provas do que insinuou na sessão pública da Assembleia Municipal de Oeiras ou que, caso se tenha tratado de um gesto irrefletido, apresente um pedido público de desculpas à associação “Colectivo a Postos” e a todos os que com ela têm lutado desinteressadamente pelo projecto “Edifício Arte Contínua.

domingo, 16 de fevereiro de 2020

"As mãos de Abraão Zacut"

 


aqui escrevi que a memória é como um rio com muitos afluentes e defluentes. Hoje a memória trouxe a peça de Sttau Monteiro, “As mãos de Abraão Zacut”; o afluente foi o judeu de Salamanca do “Almanach Perpetuum que fugiu da Inquisição no século XV e o defluente foi a personagem homónima que Sttau Monteiro pôs num campo de concentração nazi a motivar os outros prisioneiros a tentar a fuga para depois morrer na evasão de David Levi.

Vi “As mãos de Abraão Zacut” em 1970 no Teatro Vasco Santana, no espaço da antiga Feira Popular de Lisboa, em Entrecampos. Foi levada à cena pela companhia Teatro Estúdio de Lisboa da actriz Helena Félix e da encenadora Luzia Maria Martins, sob a direcção desta. Para além da Helena Félix, faziam parte do elenco Joaquim Rosa, Jorge de Sousa Costa, Isabel de Castro, Luís Santos, Margarida Mauperin, Filipe de La Féria, José Raymond, Amílcar Botica, Ermelinda Duarte e José Manuel Osório.
 
Sttau Monteiro contou que a sua peça sobre a infâmia, o medo e a esperança foi escrita em 1967 no isolamento da cadeia de Caxias, nas costas dos maços de cigarros que fumava, e que saiu "cá para fora" metida no fundo falso duma moldura feita de fósforos, queimados expressamente para esse efeito. Embora todas as seis peças anteriores tenham sido alvo da censura, com as editoras responsáveis pela sua publicação invadidas, os exemplares apreendidos e a representação proibida, “As mãos de Abraão Zacut” foi autorizada e estreou com poucos cortes em 18 de Dezembro de 1969, numa aparente demonstração de abertura do regime de Marcelo Caetano.

O processo de autorização foi, contudo, longo e complexo e mostra como funcionava a censura do regime. Depois de uma reprovação em Agosto de 1968, Luzia Maria Martins insistiu e acabou por obter a autorização para a representação um ano depois, em Novembro de 1969. A peça foi lida por vários membros da Comissão de Censura que apontaram muitas razões para a reprovação, como por exemplo, a linguagem obscena, as ofensas à religião cristã e instituições militares, a desadequação da temática à realidade portuguesa e à história nacional, a instigação à violência e o tom de contestação política e social, o aparecimento, demasiadas vezes, de palavras como “liberdade, perseguição e cadeia”.

Mas a questão que de facto assustava os censores e que os levava a manter a proibição da representação da peça era outra bem mais subtil: se o Abraão Zacut, uma personagem vulgar igual a qualquer um de nós, motivava as outras personagens da peça, não seria ele capaz de motivar um público que também se sentisse descontente e coarctado na sua liberdade? No entanto foi o argumento de um dos censores, Geraldes Cardoso, que prevaleceu e desbloqueou a autorização. Segundo ele, ao proibir aquela peça estar-se-ia a validar a identificação entre a estrutura da peça e as instituições portuguesas; quando se queria mostrar que em Portugal havia uma democracia e não havia repressão política, devia-se sim autorizar a representação da peça. O censor acreditava que, ao ser apresentada ao público, ela perderia o seu valor de contestação.

Não sei que efeito a peça teve na generalidade das pessoas que a viram no Teatro Vasco Santana. Posso apenas falar por mim e confesso que senti as palavras de uma personagem que acusou as outras de não terem feito nada enquanto o mal não lhes tocou de perto, que apontou directamente para o público e perguntou às outras personagens: “Vêem alguém capaz de arriscar um dia de vida seja por quem for? Não, não! Só quando chegar a vez de eles serem presos é que abrem os olhos!”

Há 50 anos, estas palavras abriram-me os olhos.