quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Pela requalificação do Campo da Torre

 

A identidade de Peniche é moldada por uma dualidade profunda: a monumentalidade da pedra militar da sua praça-forte e a vibrante cultura imaterial do mar. No centro desta geografia encontra-se o Campo da Torre (Campo da República), um espaço de charneira que, apesar do seu potencial, sofre hoje de uma fragmentação funcional que dilui o seu valor.

Situado na transição imediata entre o núcleo urbano consolidado e a imponente frente sul da Fortaleza de Peniche, este plano aberto desempenhou, ao longo dos séculos, um papel multifuncional: defensivamente, como fosso exterior; socialmente, como espaço de feira franca; laboralmente, como suporte à actividade piscatória; e, espiritualmente, como palco de devoção popular.

Uma realidade tão bem descrita por Helena Marcão no seu poema “Campo da Torre”:

Aberto, a Norte
da Torre do Forte,
o Campo da Torre
era o Centro de tudo.
Começava ao fundo
do Alto da Vela
e terminava ali,
quase na Ribeira
ficando no alto
a olhar para ela.

Era a Casa do Sol
todo o santo dia,
tendo em cada porta
um vasto estendal
com peixe escalado
a secar ao sol.

Foi o ponto de encontro
de muita alegria.
O Parque de jogos
do tempo Pascal,
a Banca, o Paulito,
Malha e Futebol
e num monte de areia
lançando um Rebolo.
Ao lado, as crianças
jogavam também
ao Berlinde e Pião,
sob o olhar da mãe

Lugar de chegada
da peregrinação
de famílias inteiras,
em muitas carreiras,
com as águas bentas
pelas orações
e a terra, do Campo das Aparições.

Depois, em Agosto,
no pino do Verão,
tudo em comunhão
na Festa do Mar,
com a Nossa Senhora
vinda em Procissão,
que barcos e redes
vinha abençoar.
E o Campo da Torre
todo iluminado
sentia-se em Festa,
muito povoado.

Largo dos Mercados
que vendem de tudo,
meias e sapatos,
calças, sobretudos.

Campo onde um dia
voaram gaivotas
em forma de cravos,
rumo à Liberdade.

Que mostrou o Sol
há muito vedado
pela Repressão
a quem foi condenado
a viver na cela e na escuridão.

Campo da Torre.
Marco de vida
na Vida de um Povo
nobre e notável.
Agora destinado
a um desumanizado
Parque Automóvel.

Por isso, é imperativo transformar este recinto, hoje relegado a parque de estacionamento ou a recinto de feiras sazonais, num ecossistema interpretativo dinâmico que una a história da resistência política à história viva dos homens e mulheres do mar, devolvendo a este espaço a dignidade que lhe foi sendo subtraída ao longo das últimas décadas.

A requalificação deste espaço não deve limitar-se à substituição de pavimentos. Inspirando-nos em modelos internacionais como Pasajes de San Pedro ou Bergen, devemos reintroduzir a cultura marítima no desenho urbano. Tal pode passar, por exemplo, pela musealização do eixo do “Bota-Abaixo”, assinalando no pavimento o traçado histórico por onde as embarcações deslizavam em direcção ao mar no antigo Portinho de Revés, mediante marcadores em pedra polida e madeira. Complementarmente, a criação de um “Estaleiro Vivo” — uma estrutura de carpintaria naval onde mestres e aprendizes mantenham embarcações tradicionais sob o olhar do público — transformaria a praça num ecomuseu participativo.

Esta visão deve estender-se às áreas de lazer. As esplanadas comerciais devem ser reinventadas como esplanadas interpretativas, com estruturas em pinho e carvalho que evoquem o cavername das traineiras e coberturas em lona que remetam para o cordame tradicional. Nestes espaços, a gastronomia — a sardinha e a caldeirada — deve ser acompanhada por mediação cultural, como guias áudio e exposição de artefactos navais, tornando o acto de comer uma experiência de aprendizagem.

Não podemos esquecer a dimensão humana e imaterial. O Campo da Torre deve homenagear o trabalho feminino, integrando no pavimento elementos que recordem as mulheres que ali secavam roupas e reparavam redes. Historicamente, este é também o ponto de encontro entre a "resistência marítima" e a "resistência política"; foi aqui que os pescadores lutaram pelos seus direitos e onde, em 1974, a população saudou a liberdade. Por isso, o itinerário "Do Mar à Liberdade" deve ligar a Ribeira Velha à Fortaleza num discurso único e coeso.

Neste processo de restauro da identidade, é fundamental reafirmar a centralidade espiritual do local. A devoção a Nossa Senhora da Boa Viagem, hoje um dos pilares da identidade marítima penichense, percorreu um longo caminho histórico. No século XVII, a sua matriz era essencialmente escatológica, centrada na “boa morte” e na passagem da alma para a vida eterna, sem qualquer relação inicial com a faina piscatória. A imagem primitiva, venerada na Capela de Santo António do Portinho, junto à Fortaleza, servia de amparo espiritual para o “além-túmulo”. Só na década de 1860, com o crescimento da classe piscatória e perante os riscos permanentes do Atlântico, o culto se foi transformando. A “boa viagem” passou então a significar o regresso físico ao porto, e a embarcação nas mãos da Virgem, antes símbolo alegórico da Igreja, foi apropriada pelos pescadores como o seu próprio barco de pesca.

Foi nesse percurso que o Campo da Torre, espaço de charneira entre a terra e o mar, se tornou passagem obrigatória da procissão de Nossa Senhora da Boa Viagem. Essa centralidade espiritual foi consagrada em 1945, com a Coroação Canónica da imagem de Nossa Senhora da Boa Viagem. A cerimónia transformou o Campo da Torre num recinto sagrado a céu aberto, onde milhares de fiéis afirmaram a sua coesão espiritual, precisamente ao lado da Fortaleza, então usada como prisão política.

É por isso que se lamenta a deriva funcional deste espaço nas últimas décadas do século XX. A partir dos anos 80 e 90, a vertente profana da festa — com diversões mecânicas, tasquinhas e comércio — ocupou o Campo da Torre, relegando a procissão para um percurso periférico pelas ruas do centro histórico. O que fora o cenário da coroação de uma “rainha” passou a ser um simples recinto de feira, função que, embora legítima, parece manifestamente pobre perante a carga histórica e espiritual do lugar.

Os espaços urbanos não são neutros; absorvem e reflectem as vivências de quem os vive e habita. Manter a procissão afastada do interior do Campo da Torre é, nesse sentido, uma forma de amnésia urbana. O Campo da Torre deverá ser o centro nevrálgico da Festa em honra de Nossa Senhora da Boa Viagem. Por isso, defendo que, para além da procissão marítima nocturna, a procissão em honra da padroeira deve voltar a passar solenemente pelo interior deste recinto. Esse regresso simbolizaria a união entre a protecção divina invocada no mar e a celebração em terra, restaurando a mística do passado. Esta medida, aliada à transferência das diversões feirantes para um espaço mais adequado, devolveria ao Campo a sua função de palco monumental para a fé dos pescadores.

Para concretizar esta ambição, urge elaborar um Plano de Pormenor e um Regulamento do Espaço Público que regulem materiais e eixos visuais, garantindo que o Campo da Torre respire em harmonia com a Fortaleza. Este instrumento de gestão municipal deve fixar regras claras quanto aos materiais permitidos nas esplanadas — dando prioridade à madeira tratada, ao ferro e à pedra calcária —, à volumetria das estruturas de sombra e aos limites de ocupação do solo, impedindo a descaracterização comercial do recinto.

Sugere-se ainda a criação de um arquivo digital de memória oral e etnográfica focado no quotidiano do Campo da Torre. A recolha sistemática de testemunhos de carpinteiros de machado-de-costa, calafates, pescadores e mulheres da comunidade permitiria preservar um acervo imaterial de valor inestimável, cujos conteúdos poderiam alimentar os guias áudio e os dispositivos digitais disponibilizados aos visitantes nas esplanadas interpretativas.

A execução destas medidas permitiria que o Campo da Torre voltasse a respirar como um monumento singular, convertido num espaço urbano qualificado, coeso e identitário, onde a arquitectura militar, a história da resistência, a actividade piscatória e a religiosidade popular se articulassem harmoniosamente como factor de atracção turística sustentável.

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