sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

Kurika e Dulcineia

Há 60 anos, na noite de 21 para 22 de Janeiro de 1961, um grupo de activistas políticos constituído por 12 portugueses, 11 espanhóis e 1 venezuelano, comandados pelo ex-capitão do Exército português Henrique Galvão e pelo ex-suboficial da Marinha de Guerra espanhola republicana e combatente da Guerra Civil de Espanha José Fernandéz Vásquez, conhecido como Jorge de Sottomayor, sequestrou o navio de passageiros português “Santa Maria” no mar das Caraíbas, pouco depois de largar de Curaçau com destino a Miami.

Inspirado pela personagem feminina da obra de Cervantes, Henrique Galvão escolheu o nome de código “Dulcineia” para a operação porque, segundo ele, “também éramos românticos lutando por nossa dama – a Liberdade”.

O objectivo político da operação “Dulcineia” era atrair a atenção da opinião pública internacional para a situação sociopolítica dos povos sujeitos às ditaduras ibéricas. O objectivo operacional era um ataque de surpresa à ilha de Fernando Pó e à Guiné Equatorial, para obtenção de munições e de outro material de guerra, incluindo canhoneiras e aviões, e o posterior desembarque em Angola, com o apoio de forças rebeldes locais (sobretudo em Luanda, Benguela e no Lobito). Seguir-se-ia a constituição, em Luanda, de um governo hostil ao regime de Salazar, pois Henrique Galvão estava convicto de que poderia derrubar o regime a partir de África.

Quando no dia 24 a censura deixou que fossem divulgadas as primeiras notícias sobre o assalto ao “Santa Maria”, o regime de Salazar apresentou-o como um ignóbil acto de pirataria executado por um bando de indivíduos de várias nacionalidades com derramamento de sangue e a morte do piloto Nascimento Costa que não chegou a conhecer a filha recém-nascida. Foi logo dito aos portugueses que o “Santa Maria” estaria a ser perseguido por navios de guerra ingleses e americanos.

São bem conhecidos os detalhes do que se passou até ao dia 17 de Fevereiro, quando o “Santa Maria” atracou no cais da Rocha do Conde de Óbidos, saudado por uma multidão e pelo próprio Salazar, que proferiu a célebre frase: "Obrigado, portugueses. O Santa Maria está connosco."

O laconismo de Salazar não terá resultado apenas do facto de o sequestro do “melhor navio português e um motivo de orgulho da navegação comercial” ter sido realizado por quem foi um dos seus mais fiéis apoiantes antes de se tornar o seu mais temível inimigo; nem do facto de os principais aliados de Portugal não terem considerado o sequestro do navio como um acto de pirataria e não terem actuado militarmente contra os sequestradores. Muito provavelmente Salazar já tinha a percepção que a acção quixotesca de Henrique Galvão poderia ser o primeiro de uma série de acontecimentos nefastos para o seu regime.

De facto, 1961 foi o anno horribilis da ditadura salazarista, com uma sucessão de acontecimentos de que nunca se recomporia: em Janeiro, foi a revolta da Baixa do Cassange em Angola e o sequestro do "Santa Maria"; em Fevereiro, foi o assalto às prisão e esquadra da polícia em Luanda; em Março, foram os massacres no norte de Angola pelas forças da UPA; em Abril, foi a tentativa de golpe de Estado perpetrada pelo então ministro da Defesa, general Júlio Botelho Moniz; em Agosto, foi a expulsão da Fortaleza de São João Baptista de Ajudá pelas tropas do Benim; em Novembro, foi o desvio de uma aeronave da TAP em voo entre Casablanca e Lisboa que sobrevoou Lisboa, Barreiro, Setúbal, Beja e Faro, lançando milhares de panfletos contra o regime salazarista, e retornando incólume a Casablanca; em Dezembro foi a invasão militar pela União Indiana dos territórios que constituíam o designado Estado Português da Índia; e, finalmente, na noite de passagem de ano, foi a intentona militar fracassada de Beja.

É certo que para Henrique Galvão os resultados da operação “Dulcineia”, mal planeada e pior executada, com os líderes e os participantes a discutirem a forma de tomar a ponte do navio até poucos minutos antes do início da acção, ficaram muito aquém do sonhado. Sem tropas, sem recursos financeiros e sem o apoio que esperava dos EUA apenas porque o seu projecto político era marcadamente anticomunista, teve de desembarcar no Recife e, com os companheiros de aventura, pedir asilo político ao Brasil. Restou-lhe a consolação de ter atraído a atenção da opinião pública internacional, ao ponto do recém-empossado Kennedy se ter referido ao sequestro do “Santa Maria” nas duas primeiras conferências de imprensa como presidente dos EUA.

Para mim, que só conhecia Henrique Galvão como autor do primeiro romance de que me lembro de ler e gostar muito, tudo o que ouvia sobre a operação “Dulcineia” e o seu mentor foi profundamente perturbador. Não conseguia perceber como é que o escritor do romance “Kurika” podia ser um bandido!

O Kurika de Henrique Galvão é um pequeno leão órfão recolhido pelo negociante branco Conceição e criado no convívio com os homens, juntamente com o cão Janota e a macaca Paulina que o adoptaram, ele como irmão e ela como filho. Aos 21 meses, movido pelo desejo instintivo de liberdade e ajudado pela Paulina, conseguiu libertar-se e fugiu para o mato, atravessando o rio que separava a casa do Conceição da vida selvagem. No seu meio natural, Kurika transformou-se num imponente leão, sem se esquecer do passado junto dos que o criaram.

Consciente de quanto lhe custaria a liberdade, Kurika trocou o conforto da casa e a comida abundante por uma vida incerta e uma subsistência difícil. Preferiu passar fome e dificuldades a viver amarrado a uma coleira. Esta ideia é repetida ao longo de toda a narrativa, não só através da descrição das dificuldades vividas pelo leão e pela macaca nos primeiros tempos na savana angolana, como também no final do romance, quando Kurika recusa voltar para casa do Conceição por causa da coleira: “Se não fora a coleira e a corrente de ferro – quem sabe! – talvez seguisse a tentação do Janota.

Só bem mais tarde percebi a coerência do pensamento do autor do romance “Kurika” e da operação “Dulcineia”. Percebi com Saramago que, Dulcineia, "do sangue de Quixote te alimentas, da alma que nele morre é que recebes a força de ser tudo."

Mas também aprendi o conselho de José Gomes Ferreira em “A Morte de D. Quixote”:

Dulcineia, Dulcineia,
deixe de ser Ideia
e torne-se a carne e a alma
da nova luta.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

A minha crónica dos bons malandros

 

Wilson “Sabu” no julgamento

Teria catorze ou quinze anos quando conheci os irmãos Ormonde. Conheci bem o João, da minha idade, não tão bem o José João, quatro ou cinco anos mais velho.

Os pais Ormonde dos Santos eram proprietários e dirigiam o Colégio Nuno Álvares que funcionava num prédio da praceta João do Rio, perto do Areeiro. Moravam na rua Carlos Mardel e o João, como estava muitas vezes de castigo e proibido de sair de casa, pedia-me para lá ir. Provavelmente o pai, um senhor austero e de poucas palavras, considerava-me uma boa companhia para o filho e autorizava o convívio comigo. Convívio que, por intuição ou qualquer outro indício recolhido no bairro, nunca agradou à minha mãe.

O João tinha perdido uma vista numa brincadeira em criança. Julgo que se sentia complexado por isso e tinha alguma tendência para a asneira. O José João juntava-se a nós de vez em quando, mas sinceramente não tenho grandes recordações dele.

Quando o João tinha autorização paterna para sair, juntava-se ao grupo que se reunia no jardim da praceta João do Rio. Dali partíamos para as incursões a locais mais ou menos recomendáveis, numa descoberta do mundo por jovens adolescentes de origens sociais muito diversas.

Um dos nossos companheiros de aventura, o Joninho, morava na rua Actor Isidoro. Sonhava emigrar para os EUA, tinha uma irmã um pouco mais velha, a Olga Maria e uma mãe simpática, a Dona Suzette. No processo de reunir forças, passávamos muitas vezes pela casa dele sem me aperceber que houvesse uma relação especial dos irmãos Ormonde com a família Coelho.

Os anos passaram e cada um seguiu o seu caminho. Quando a minha família foi viver em Carcavelos, perdi o contacto com a malta da praceta João do Rio e deixei de ter notícias do João, do José João, da Olga e da Dona Suzette. Até ao assalto da dependência da Pinto de Magalhães Banqueiros (Banco Pinto de Magalhães) na Avenida de Roma, no dia 21 de Junho de 1971, já eu estava na Marinha.

Perto do meio-dia, pouco antes do encerramento para o almoço, quatro homens entraram na agência bancária armados com dois revólveres e uma pistola-metralhadora. Imobilizaram o polícia e tiraram-lhe a arma, taparam as cabeças dos clientes e funcionários com sacos de pano com a palavra “Pão” bordada a cores, meteram cerca de 2 mil e quinhentos contos numa mala e saíram sem ninguém ter percebido para onde foram.

O subgerente tinha uma arma, mas teve medo e escondeu-se na casa de banho durante o assalto. Quando sentiu que já não havia perigo, veio para a rua e disparou sobre um carro que alguém apontou como dos assaltantes. O condutor, um oficial de Marinha, não gostou da façanha e apresentou queixa à polícia.

A avenida de Roma foi isolada, a PSP, a PJ e a DGS vasculharam toda a zona e foi reforçada a vigilância das fronteiras terrestres e aéreas. Traçavam-se os cenários mais mirabolantes, mas ninguém fazia ideia do paradeiro dos assaltantes e do dinheiro. Até que o telefonema de uma mulher para a PSP esclareceu o caso e levou à detenção dos assaltantes.

Todos ficámos a saber que o assalto foi planeado pelo José João e executado pelo João e três cúmplices aliciados para o efeito!

Meses antes, os irmãos Ormonde contrataram o bate-chapa e ex-marinheiro Wilson Filipe “Sabu”, uma figura do Bairro Alto e do Intendente, para ajudar nas aulas de Educação Física no colégio Nuno Álvares onde o já Dr. José João era subdirector. Não tardou muito que lhe propusessem o assalto e lhe pedissem que contratasse dois cúmplices: o António “Choco” ou “Feio”, engraxador no café Granada do Conde Barão e profissional da “vermelhinha”, e o Fernando Pio, ajudante de mecânico e antigo marinheiro.

O “Sabu”, o “Choco” e o Pio entraram na agência, neutralizaram os clientes, os funcionários e o polícia com um revólver e uma pistola-metralhadora de brincar (só um revólver e a arma que tiraram ao polícia eram a sério) e entregaram a mala com o dinheiro recolhido ao João que tinha ficado no exterior.

Depois do assalto, o “Choco” e o Pio, os dois “indivíduos aciganados” que segundo a descrição das testemunhas tinham “um aspecto terrível, com a barba por fazer, pareciam cadastrados”, foram à sua vida. O “Sabu” foi comprar um fato e cortar o cabelo enquanto o João foi a pé até à casa da Dona Suzette onde o irmão José João o esperava.

É que os irmãos Ormonde viviam agora em casa da Dona Suzette. O José João esteve noivo da Olga até poucos meses antes e instalou-se com o irmão em casa da família Coelho. Os irmãos chegaram mesmo a pedir 447 contos emprestados à Dona Suzette para abrir um restaurante que nunca se concretizou porque o José João preferiu comprar um Abarth 1300 por 100 contos. Com o rompimento do noivado com a Olga e a entrada em cena da Rosalina, convidada pelo José João para viver na casa da Actor Isidoro, a Dona Suzette exigiu o pagamento da dívida.

No final da tarde do assalto, os irmãos entregaram 25 contos à Dona Suzette com a promessa de que em breve lhe dariam mais 230 contos. Guardaram a mala com o dinheiro na despensa com a recomendação de que não deviam mexer porque tinha um frasco com um líquido perigoso que se podia entornar.

Logo que os irmãos saíram de casa, a curiosidade da mãe e da filha venceu o medo que tinham dos irmãos que se intitulavam viscondes. Foram bisbilhotar a mala e descobriram o dinheiro roubado.

Depois de conversarem durante alguns dias sobre o assunto com a vizinha Leonor e a porteira Encestina, decidiram telefonar à polícia. Do telefonema à detenção dos irmãos e cúmplices, foi um ápice. Cinco dias depois do assalto, o dinheiro e as armas foram recuperados e o Abarth 1300 confiscado.

Realizado o julgamento, o José João foi condenado a 14 anos de prisão, o João a 12 anos, o “Sabu” a 7 anos e o “Choco” e o Pio a 6 anos cada.

Do João e do José João nunca mais ouvi falar. Do Wilson “Sabu” tive notícias em 1975 quando, libertado depois do 25 de Abril, liderou a ocupação da famosa herdade Torre Bela e a cooperativa que lá se constituiu. Vi-o discutir com o homem que não queria entregar a ferramenta à "comprativa". Morreu há menos de um mês, na véspera do Natal de 2020.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Aniversário de uma vitória diplomática

 

A primeira fragata da classe “Vasco da Gama” foi entregue à Marinha no dia 18 de Janeiro de 1991 nos estaleiros da Blohm+Voss, em Hamburgo, faz hoje precisamente 30 anos. Tendo feito parte da missão de acompanhamento da construção daquelas fragatas, não podia deixar passar o aniversário sem partilhar uma memória desse dia, naturalmente importante para mim.

A fase final da construção da “Vasco da Gama” tinha sido atribulada. A entrega do navio atrasou dois meses relativamente ao estabelecido contratualmente, um mês em consequência de uma alteração da especificação contratual pedida pela Marinha e outro por causa de um forte temporal poucas semanas antes do Natal de 1990. O domo do sonar foi danificado durante a noite de tempestade e o navio teve de ser docado para a sua reparação. O aprestamento final foi feito em condições muito adversas e nem tudo estava pronto no dia da entrega.

Depois da cerimónia oficial e da entrada da guarnição portuguesa a bordo, o estaleiro organizou uma recepção para os participantes e convidados. Estava a atacar o primeiro croquete quando o Almirante Isaías Gomes Teixeira, chefe da missão, se aproximou e ordenou: “Bettencourt, vá saber o que se passa porque o Comandante queixou-se que os alemães não deixam o pessoal entrar nos compartimentos do navio.” Tínhamos enfrentado muitas adversidades ao longo dos quatro anos do projecto e da construção do navio mas uma disputa territorial era a última que podíamos esperar no dia da entrega à Marinha.

Lá fui a bordo saber o que se passava e deparei com um grave conflito luso-alemão: o Herr Spät, o funcionário do estaleiro responsável pela organização dos chaveiros do navio continuava o seu trabalho e, indiferente aos protestos da guarnição, recusava entregar as chaves dos compartimentos antes de terminar a tarefa. O diálogo era impossível porque o Herr Spät não falava (ou não queria falar) inglês e os elementos da guarnição não falavam alemão.
 
A minha chegada atenuou a tensão e o Herr Spät esboçou um sorriso quando me viu. Negociei um prazo para a entrega dos chaveiros ao oficial da guarnição que ficaria responsável por eles e o Herr Spät cumpriu rigorosamente o acordado.

E eu hoje celebro o trigésimo aniversário de uma importante vitória diplomática!

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

O meu melhor Natal




Há sessenta anos o meu Pai estava doente, muito doente.

Cerca de um ano antes, estava a trabalhar na Estação Experimental que tinha montado no Gurué e teve uma tontura. Com trinta e cinco anos e cheio de energia, não sabia o que era uma tontura. Parou, ficou à espera, e a tontura foi-se embora. – Bem, isto foi qualquer coisa que eu comi – pensou. Mas passada meia hora, sentiu outra. Depois vieram em sucessão, cada vez com maior frequência. Um quarto de hora, cinco minutos depois, até que se tornou uma tontura permanente e perdeu a capacidade de fazer fosse o que fosse. Mandou o motorista ir buscar o carro e deitou-se no banco de trás.

E foi deitado no banco de trás que fez os 400 km até casa, em Quelimane.

A minha Mãe chamou um médico que o auscultou e não encontrou nada. – Ah, isso deve paludismo – concluiu perante o sintoma de tosse seca. Receitou uma boa dose de antibióticos, mas o estado de saúde do meu Pai agravou-se. Sentia-se angustiado, sem força, nem os braços mexia. A minha Mãe dava-lhe a comida na boca porque não conseguia comer.

O médico aconselhou-o a ir para Lourenço Marques, talvez lá resolvessem o problema. A minha Mãe Coragem, Mãe Força, com duas crianças e um marido que não conseguia andar, embalou tudo e partiu para a capital da colónia. Aí os médicos, reunidos numa junta de saúde nomeada de urgência, decidiram unanimemente despachar o meu Pai para a Metrópole para ser internado no Hospital do Ultramar (actual Egas Moniz).

Fizemos a viagem para Lisboa em condições dramáticas. Lembro-me do meu Pai prostrado, a tremer de frio quando todos tínhamos calor. O “Super-Constellation” da TAP fez uma escala técnica prolongada em Kano e todos os passageiros tiveram de desembarcar, excepto o meu Pai. Não sei o que me marcou mais naquela noite passada no aeroporto nigeriano, se os trajos escuros e os rostos tapados das mulheres muçulmanas ou o vulto do avião onde o meu pai tinha ficado sozinho, na escuridão da pista.

No Hospital do Ultramar concluíram que o meu Pai sofria do Mal ou Doença de Addison, uma doença incurável cuja causa não sabiam identificar. Foi tratado com cortisona, administrada em doses cada vez maiores. Começou a andar, com grande esforço, mas continuava a sentir-se muito mal. Em vez dos habituais 60 quilos, passou a pesar mais de 80 e perdeu progressivamente faculdades. Mal conseguia ler porque estava a perder a visão. 

Sentia a vida a fugir, lenta e inexoravelmente.

Esta é a memória do Natal de há sessenta anos na casa dos meus Avós em Palhais, no sopé da serra de Montejunto. Apesar do esforço da minha Mãe e dos meus Avós, foram dias de “morte cansada, de raiva e agonias, e nada”, como no poema de Saramago!

Como pouco mais podia fazer, o meu Pai procurava distrair-se com os livros que encontrou na estante do escritório do meu Avô. Folheava-os lentamente, com a ajuda de uma lupa, até que num deles, de um médico nutricionista norte-americano, viu descritos, com extraordinária precisão, todos os sintomas que sentia. Leu atentamente todo o livro, estudou as recomendações que lá eram feitas e tomou uma decisão drástica: abandonar toda a medicação e seguir as instruções do nutricionista.

Durante dois meses não ingeriu alimentos sólidos e só tomou, de duas em duas horas, alternadamente, um copo de sumo de cenoura e uma chávena de um caldo antioxidante, um concentrado resultante da cozedura lenta e prolongada de vários vegetais. Foi perdendo peso, dos 80 chegou aos 40 e poucos quilos, ao mesmo tempo que se sentia com cada vez mais energia e a angústia desaparecia. Sentia necessidade de fazer exercício e por isso, diariamente, saía de casa no Areeiro, descia a Almirante Reis, ia até ao Terreiro do Paço e voltava para casa, sempre a andar em passo rápido.

Depois, lentamente, o meu Pai foi acrescentando novos alimentos à dieta. Leu e estudou tudo o que encontrou sobre nutrição e acabou por definir, para si e para a família, o que considerava ser uma alimentação saudável. Regressou ao trabalho e reiniciou uma nova carreira profissional e científica onde atingiu o topo, antes de se reformar em 1993.

Foi assim que, há sessenta anos e sem me aperceber logo, aconteceu o melhor Natal da minha vida. Um Natal que se prolongou por vários meses, fora da época, mas que trouxe de volta o meu Pai, quando pensava que o ia perder.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Fronteiras



Confesso que sempre convivi mal com os serviços que guardam as fronteiras, sejam de alfândega, de emigração ou outra coisa qualquer. Em Portugal e no estrangeiro. Não sabia a razão, talvez fosse porque não gostava de fronteiras. Uma das coisas boas que a União Europeia e o tratado de Schengen nos trouxeram foi a possibilidade de viajar na Europa como se não houvesse fronteiras.

Sentia-me sempre desconfortável nas longas filas e interrogatórios para ultrapassar os balcões dos passaportes e nas passagens pelos controlos alfandegários. Sem nenhum motivo para isso, era um mal-estar que não conseguia evitar. Mas das muitas passagens de fronteiras, esqueci todos os episódios excepto um, e já passaram mais de quarenta anos.
 
Quando regressámos de Monterey, a Marinha pagou o transporte de três metros cúbicos de bagagem. Como não tínhamos dinheiro para extravagâncias, concentrámos tudo o que era importante num caixote com aquele volume. Nem mais um centímetro cúbico de bagagem.

Logo que o caixote chegou a Lisboa, o despachante convocou-me para o cais da Rocha de Conde de Óbidos para estar presente na passagem pela Alfândega. Esperámos junto ao caixote e à hora marcada, apareceu a comitiva chefiada por um guarda-fiscal, com ar de poucos amigos. Depois das formalidades burocráticas, mandou abrir o caixote de madeira e as caixas de cartão do interior.

Abri a primeira caixa de cartão e caíram várias peças de jogos. Mandou passar à segunda e saíram bonecos, livros infantis e brinquedos, muitos brinquedos usados, de todos os tamanhos, cores e feitios. É que para nós o importante eram os brinquedos da Joana e da Catarina. A mudança para uma terra que não conheciam, ou já não se lembravam, sem os brinquedos e os objectos familiares seria uma violência, não podia ser.

O guarda-fiscal, enfastiado, exclamou: ─ Não vale a pena, só sai quinquilharia! Voltou-nos as costas e foi-se embora, sem se despedir. A partir desse dia passei a ter uma boa razão para embirrar com os funcionários das alfândegas.

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Uma história para o Miguel




O Miguel telefonou e pediu: — Gostava de ter conhecido o teu Pai... conta uma história do teu Pai.

— Está bem, mas o meu Pai contou-me tantas histórias que não sei por onde começar... Deixa-me pensar… Talvez possa começar por uma que se passou numa terra muito longe, onde ele e eu nascemos, quando o meu Pai tinha mais ou menos a tua idade.

Um dia, um amigo trouxe três embrulhos, três prendas para os três irmãos. O meu Pai era o mais novo e por isso foi o primeiro a escolher. Sem hesitar, escolheu o embrulho maior, devia ser o melhor brinquedo! Era uma cadeira com uma ovelha a fingir que puxava e três rodas: duas grandes atrás e uma pequena à frente. Um triciclo com pedais seria melhor, mas mesmo assim ficou contente. 

O problema foi quando se sentou no brinquedo. A ovelha levantou-se no ar, a cadeira caiu para trás e o meu Pai bateu com a cabeça no chão! Sentou-se de novo, com mais cuidado, mas passado um bocado caiu outra vez para trás. Não havia nada a fazer, o brinquedo era assim... Não era defeito, era feitio…

Deixou de brincar com a cadeira da ovelha até que um dia os três irmãos foram tirar uma fotografia. Vestiram-se para a ocasião e o fotógrafo arranjou um grande brinquedo para os mais velhos. Para o mais novo foram buscar a cadeira da ovelha e sentaram-no, contrariado.

Para a posteridade ficou a foto dos três irmãos, com o mais novo na cadeira da ovelha, com cara de poucos amigos, à espera de cair para trás! Muitos anos depois, o meu Pai mostrou-me a fotografia e contou-me a história da cadeira da ovelha. E explicou-me porque é que estava com aquela cara:
— Não gostava do brinquedo. Foi castigo por ter escolhido o embrulho maior!

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Força de vida

 

Em Palhais, com a neta Joana

A consulta com a médica de família estava marcada para as quatro da tarde.

A imobilização do braço por causa da recente fractura do colo do úmero não a deixa conduzir e por isso pediu-me para a levar ao centro de saúde. Mas antes ia ao cabeleireiro, estava a precisar: “Vens-me buscar à uma e um quarto e deixas-me lá”.

Faltava um quarto para a uma, telefonou: “Então onde estás, já estou à tua espera?” Fez confusão com as horas de outro compromisso e estava na rua. Saí logo que pude mas quando a vi já tinha andado mais de um quilómetro. “Vim andando… fez-me bem andar…”
 
Entrou no carro e deu-me as instruções para a tarde: “Tenho aqui os pingos para vista, são de duas em duas horas. Às duas peço à cabeleireira que mos ponha, mas às quatro tens de ser tu”. A operação que fez na semana passada às cataratas de uma vista obriga a esta rotina.

Deixei-a na cabeleireira e voltei às três e meia. “Mas que grande corte! Está bonita” – disse eu. “Estava mesmo a precisar… Fiz tudo, cabelo, depilação e mãos! Mandei vir o almoço do restaurante moçambicano e comi no cabeleireiro, soube-me muito bem!”

Depois da série de três pingos com intervalos de cinco minutos, entrou no centro de saúde às quatro em ponto. As cinco e meia, telefonou-me: “Saí agora da médica, podes vir buscar-me. Sabes lá, esperei uma hora para ser atendida!

À porta do cento de saúde, recebi mais umas instruções: “Se não te importas, levas-me ali ao supermercado, preciso de fazer umas compras. Mas antes pões-me os pingos das seis".
 
E assim foi, depois de lhe pôr os pingos, entrámos no supermercado para as compras que só gosta de fazer naquela loja… Já passava bem das seis e meia da tarde quando a deixei em casa. "Obrigada e até amanhã, filho. Amanhã espero por ti ao meio dia” – lembrou, não fosse eu esquecer-me do teste à covid para a operação à outra vista na sexta.

A agenda de uma senhora com noventa e três anos é muito cansativa!