terça-feira, 12 de julho de 2016

Eles não sabem nem sonham



Révolution des oeillets ao Portugal - 1er mai 1974 - Gérald Bloncourt
 
Não partilho a euforia futeboleira mas se me alhear do vergonhoso aproveitamento mediático, o que não é fácil, reconheço que é o grito de afirmação e de revolta de muitos de nós contra a arrogância, a prepotência e a xenofobia dos que se julgam donos do mundo. Gostaria de o sentir noutras circunstâncias e de forma continuada mas admito que seja somente umas das minhas utopias.
 
Sei de fonte segura que os que se julgam donos do mundo não sabem nem sonham, como disse o poeta, que este pequeno Portugal no extremo sudoeste da Europa tem 900 anos de história. Não sabem nem sonham que o seu povo teve de jogar muitas vezes feio, mesmo muito feio; teve de matar para não o matassem; teve de se aliar com poderosos pouco fiáveis para não ser destruído por outros ainda menos fiáveis; teve de sofrer, trabalhar e lutar em locais distantes e hostis para vencer a pobreza; teve de percorrer o mundo e confiar noutros povos, desconfiando.
 
Eles não sabem nem sonham que na guerra os portugueses tiveram de combater muitas vezes em inferioridade numérica e com armas muito mais fracas, mas mesmo assim atingiram o objectivo. Não sabem nem sonham que um jovem artilheiro de dezoito anos, uma criança transmontana feita homem como marçano nas ruas de Lisboa, não hesitou em abrir a culatra sempre que falhavam as escorvas para que não houvesse interrupção no tiro da peça montada na proa do arrastão de pesca transformado em navio de guerra. E fê-lo, não para vencer um dos mais poderosos cruzadores submarinos alemães, o que era impossível, mas para permitir que com as duas horas de combate, as duas centenas e meia de compatriotas embarcados no San Miguel, na sua maioria açorianos, chegassem a salvo à ilha verde no meio do Atlântico. E eles não sabem nem sonham que este foi apenas um dos muitos episódios protagonizados por milhares e milhares de portugueses ao longo da História na Europa, na Ásia, em África, na América, em todo o mundo.
 
Eles não sabem nem sonham que foi a aceitar e absorver as diferenças dos outros que os portugueses se tornaram únicos. Eles não sabem nem sonham que é isso que nos permite dizer sem medo que somos portugueses e ser recebidos com carinho por povos de todo o mundo. Eles não sabem nem sonham que há uma jovem mãe em Malaca que se diz portuguesa e que desconfiou que eu o fosse porque era muito alto e muito branco para o ser. Eles não sabem nem sonham que essa mãe está certamente a festejar a vitória da selecção de Portugal e a agitar uma bandeira portuguesa. Como estarão milhares de pessoas em todo o mundo, mesmo sem saberem uma palavra de português e nunca terem estado em Portugal.
 
Eu de facto não partilho a euforia futeboleira mas sinto muito orgulho de ser Português, mesmo que os que se julgam donos do mundo digam que sou pequeno, feio, tosco ou mestiço!


A foto foi tirada por Gérald Bloncourt em Lisboa no 1º de Maio de 1974.

terça-feira, 21 de junho de 2016

Contradições



A experiência da vida, ou se calhar o envelhecimento, trouxe-me o respeito pelas contradições. Quando jovem tinha uma visão do mundo isenta delas. Aceitava sem pestanejar a lógica aristotélica de que não se podia dizer de algo que é e que não é no mesmo sentido e, ao mesmo tempo. O modelo do meu mundo era simples e qualquer incompatibilidade lógica entre duas ou mais proposições era imediatamente rejeitada.
A pouco e pouco, quase sem dar por isso, fui aceitando que pode existir verdade na contradição, que a realidade pode resultar da interacção de elementos opostos mas coexistentes. E esta é a semana das minhas contradições.

Contradições 1
No Portugal do Estado Novo, sonhava com a Europa social e democrática. Por isso acreditei na comunidade económica europeia. Com a união política e monetária que se seguiu, percebi que a Europa que impuseram aos europeus não era social nem democrática. Quando o Reino Unido anunciou o referendo sobre o Brexit, pensei que seria uma boa lição para os eurocratas. Mas quando observo a campanha pela saída da UE, quando penso que a City de Londres é o maior centro de corrupção do Mundo e que com a vitória do Brexit os donos do capitalismo criminoso ganham maior liberdade de actuação, nasce a contradição.
Não gosto desta união europeia, abomino esta união monetária mas gostaria que vencesse o sim pela permanência do Reino Unido na UE.

Contradições 2
Quando jovem olhava para a Caixa Geral de Depósitos como uma instituição bancária respeitável. Foi a CGD que me emprestou dinheiro para a minha primeira casa. Era na CGD que depositava as poupanças. Via a CGD como o banco público, necessário e essencial.
Ao longo dos anos apercebi-me da sua ineficiência na relação com os clientes. Depois percebi que era um instrumento de política partidária; que foi muito responsável pelo endividamento nacional; que sustentou muito do compadrio que nos desgovernou; que teve e tem dirigentes e responsáveis pouco confiáveis; que adopta procedimentos internos muito duvidosos.
Quando foi noticiada um inquérito à CGD, concordei logo. Mas quando ouço os que ontem queriam privatizar a CGD defenderem hoje uma comissão de inquérito parlamentar, nasce a contradição.
Defendo a CGD pública, apesar de ter sérias dúvidas que a administração e os trabalhadores da CGD cumpram as regras que vigoram para as empresas do sector onde opera. Por isso concordo com a auditoria forense e discordo da comissão de inquérito parlamentar.

Contradições 3
Quando jovem vibrava com a vitórias das equipas portuguesas e da selecção nacional nos torneios internacionais de futebol. Sem qualquer influência da comunicação social, até porque a cobertura mediática era exígua. Coleccionei autógrafos dos jogadores do Benfica e do Sporting que venceram as taças europeias na década de 60. Segui com atenção os jogos de Portugal no mundial de 1966 nos televisores dos cafés de Portimão, nos intervalos de uma nova aventura para um adolescente lisboeta: a descoberta do Algarve. Revi as jogadas em pormenor nas salas de cinema, onde íamos ver os campeonatos de futebol, os jogos olímpicos ou as corridas de automóveis. Estive com os craques do Benfica na Estalagem Rota do Sol em Carcavelos, onde ficavam alojados durante os estágios; apesar da sua popularidade, Coluna, Eusébio e companhia mantinham uma atitude humilde, sem ponta de vedetismo. Foi assim que aprendi a sentir o futebol.
Depois, talvez um pouco por evolução pessoal mas muito por não gostar do que via, fui-me afastando do futebol português. Por saturação da cobertura televisiva, por aversão ao vedetismo dos Ronaldos e respectivas cortes, por alergia ao negócio obscuro montado à sua volta. E infelizmente a selecção portuguesa parece ampliar todos esses males. É por isso que não me surpreenderia nem ficaria triste se a selecção fosse eliminada na fase de grupos.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Parabéns, meu Pai!



Hoje o meu pai faria noventa e dois anos. É o primeiro aniversário depois da sua morte física.

José Luís Peixoto escreveu um dos mais belos textos sobre a dor de um jovem que perdeu o pai. Um livro magnífico que se lê num fôlego, em menos de uma hora, com um título que conjuga na perfeição o que representa a quebra do elo entre um pai e um filho: morreste-me.

Quando o leio, reconheço-me em muitas passagens. “No quarto, numa cama qualquer que não a tua, o teu corpo, pai. Talvez distante, preso num olhar entreaberto e amarelado, respiravas ofegante. O ar com que lutavas, lutavas sempre, gritava o seu caminho rouco. Pelo nariz, entrava o tubo que te sustinha.” Eu também ”pousei-te as mãos nos ombros fracos. Toda a força te esmorecera nos braços, na pele ainda pele viva. (…) E tu, sincero, a dizeres apenas um olhar suplicante, um olhar para eu nunca mais esquecer. Pai.”

É impressionante como tudo pode ser igual e ao mesmo tempo diferente. Igual quando “anoitecia devagar e, a esta hora, nesta altura do ano, desenrolavas a mangueira com todos os preceitos e, seguindo regras certas, regavas as árvores e as flores do quintal; e tudo isso me ensinavas, tudo isso me explicavas. E mostravas-me. Pai. Deixaste-te ficar em tudo.” Mas diferente, mesmo muito diferente, porque eu vi-te “velho, velhinho aqui no nosso quintal, a regar as árvores, a regar as flores.”

Vi eu, viram as minhas filhas, viram os meus netos. Essa foi a nossa grande sorte.

Também diferente porque quem estivesse com o meu pai, fosse quem fosse, acabava sempre um pouco mais feliz. Ele tinha o dom de perguntar, ouvir e dizer as palavras certas que faziam o outro sentir-se melhor com a profissão, com a família, com a sociedade, em suma, com a vida.

É por isso que se eu tivesse o talento para escrever um livro sobre a perda do meu pai, ele teria outro título. Seria 'Viveste-me'.

Parabéns, meu Pai!

sábado, 16 de janeiro de 2016

O Alferes Agrónomo



Acabou o curso de engenheiro agrónomo do Instituto Superior de Agronomia em 1948 e foi estagiar na Junta de Hidráulica Agrícola, no Ladoeiro, no projecto de Idanha-a-Nova. Terminado o estágio e ao contrário da promessa inicial de integração nos quadros da instituição, foi informado pelo presidente que a Junta estava com problemas e que poderia até despedir pessoal. Teria portanto de esperar um ano e candidatar-se de novo, sem qualquer garantia de vir a ser admitido.

Desempregado, seria convocado para um ano de tropa para terminar o serviço militar obrigatório. Já tinha feito dois ciclos de instrução como aspirante a oficial miliciano durante as férias académicas, em Vendas Novas e Cascais, mas agora tratar-se-ia da promoção a alferes. E depois, muito provavelmente, continuaria desempregado.

Resolveu então concorrer aos Serviços de Agricultura e Florestas de Moçambique, sua terra natal, já que os pais aceitaram pagar a passagem de regresso. E como o ser casado era um factor de preferência do concurso, combinou com a noiva casar pelo civil e seguir logo para Moçambique. Assim que arranjasse emprego, ela iria ter com ele para então se casarem pela Igreja.

E assim foi. Depois de obter autorização do Estado-Maior do Exército para se ausentar do país, embarcou num navio numa viagem de vinte e oito dias até Moçambique. Durante a viagem conheceu e tornou-se amigo do oficial do exército alemão, Theodore Greef, que depois de ter combatido na Somália ou Eritreia, pelos nazis, terminada a guerra, estava a caminho da África do Sul, para ali se empregar. Mas isso são contas de outro rosário.

Chegado a Moçambique, soube que afinal o concurso para os Serviços de Agricultura estava atrasado, sem data prevista para a decisão final. Iniciou a procura de emprego, mas não estava fácil. Aceitaria qualquer um, mas nada. E sentia-se inútil, a viver à custa dos pais e impossibilitado de mandar a noiva vir para junto de si.

Finalmente, ao fim de uns meses, o problema do emprego foi resolvido de forma simples e inesperada pelo barbeiro do pai. O barbeiro falou no caso ao Director dos Serviços de Agricultura, também seu cliente, que mandou o jovem agrónomo apresentar-se no dia seguinte pois havia uma vaga interina nos serviços.

Foi dessa forma que começou a trabalhar na Secção de Hidráulica Agrícola e pôde finalmente casar-se. Mas a burocracia de Lourenço Marques não permitia fazer qualquer coisa de válido. Quando ocorreu um problema no vale do rio Incomáti, encarregaram-no de ir à Manhiça saber o que se passava. Elaborou um projecto de enxugo e rega para uma parcela do vale mas não o pôde executar por falta de financiamento.

Decidiu então, por sugestão de um colega botânico, pedir a transferência para Inhambane a fim de poder estudar e trabalhar a cultura do café racemosa, espécie espontânea no litoral arenoso de Moçambique. Aí as coisas mudaram e foram evoluindo até que foi nomeado Delegado da Junta de Exportação do Café e encarregado de iniciar trabalhos sobre o café arábica na Alta Zambézia.

Mas em 1955, seis anos depois e já com dois filhos, recebeu uma convocatória para a tropa por seis meses, para a tal promoção a alferes. A esposa e os filhos viajaram para Portugal para junto dos sogros e ele voltou à vida de aspirante a oficial, a ensinar praças para serem promovidos a cabos.

Mas a agricultura cafeeira não podia esperar e resolveu convencer o comandante da importância do café para Moçambique e da necessidade de ir ao Gurué, na Alta Zambézia, escolher uma parcela de terreno e nela implantar uma estação experimental de arábica. É certo que a autorização superior acabou por depender mais do trabalho do agrónomo no melhoramento dos ajardinamentos do quartel, mas para a história colonial fica registado o contributo do Exército para o desenvolvimento da cultura do café em Moçambique. 

E assim o nosso aspirante arranjou uma forma inovadora de cumprir o serviço militar: no Gurué, a produzir e distribuir sementes de arábica aos fazendeiros, a mais de 1800 km do quartel em Lourenço Marques. O problema só se levantou quando, passados os seis meses, teve de prestar provas perante oficiais do Estado-Maior. Descontando a matemática do tiro de artilharia que tinha aprendido quase dez anos antes na instrução em Cascais, o nosso aspirante pouco mais sabia da faina militar do que dar ordens à companhia com voz forte e enérgica.

Os seus superiores decidiram então que tinha, pelo menos, de aprender a desmontar, e montar de novo, uma pistola de guerra de utilização comum. Para isso teria de receber, e recebeu, instrução intensiva de desmontar e montar a pistola.

E pronto. No dia marcado lá apareceram no quartel os oficiais do Estado-Maior que, por milagre, mandaram fazer o que tinha aprendido nos últimos dias! Foi um sucesso, logo a seguir confirmado com uma sessão de ordens gritadas a plenos pulmões!

Aprovado, foi promovido a alferes e concluiu a brilhante prestação de serviço militar no Quartel da Carreira de Tiro de Lourenço Marques, a capital da Colónia...

Voltou à cultura do racemosa e do arábica até 1959, quando em Quelimane foi proibido de continuar a trabalhar no café. E porquê? Porque "superiormente" tinha sido declarado que a Colónia de Moçambique não dava café, só chá!

Mas estas também são contas de outro conto…

sábado, 31 de outubro de 2015

Sou um Pecador

Há uns sete anos li no Diário de Notícias um manifesto contra a minha geração de um investigador em biotecnologia, presumo que jovem.

Segundo ele a minha geração beneficiou, como nenhuma outra antes ou depois, de empregos vitalícios, salários acima das respectivas qualificações e pensões de reforma muito acima das respectivas contribuições; os seus membros chegaram sem mérito nem trabalho a posições que nunca teriam alcançado se a vida pública não tivesse sido politizada pela revolução; e tem "direitos adquiridos" que estão a ser pagos pelos jovens que, sem emprego vitalício nem reforma garantida, são forçadas a trabalhar para sustentar os privilégios das gerações mais velhas.

E o investigador em biotecnologia concluía a sua tese científica dizendo que a excessiva politização da vida pública não é um valor a promover mas um vício a evitar. As sociedades politizadas premeiam a habilidade política e as demonstrações de força na rua. As sociedades despolitizadas premeiam o mérito individual, o trabalho e a iniciativa empresarial. O eventual desinteresse dos jovens pela política partidária é um bom sinal. É um sinal de que a sociedade falhada construída pela geração do 25 de Abril pode ter os dias contados.

Hoje ouvi a fundamentação teológica da tese dos malefícios da politização. Questionado sobre o que Jesus Cristo teria feito nas últimas eleições, um eurodeputado não hesitou na resposta: ter-se-ia abstido!

terça-feira, 28 de julho de 2015

Uma Carta a Garcia



No início de 1993, um pequeno grupo de militares recebeu ordem para negociar, adquirir, e trazer para Portugal o RFA Blue Rover, um small fleet tanker da classe Rover, em fim de vida ao serviço da Marinha do Reino Unido. Foi uma missão atípica, considerada impossível por muitos e cujos detalhes poucos conhecerão. Por isso vale a pena lembrar.

A Marinha Portuguesa estava então sem navio reabastecedor e impossibilitada de cumprir compromissos operacionais internacionais. Precisava urgentemente de substituir o velho e imobilizado São Gabriel, mas não havia verbas orçamentadas para isso. Inesperadamente, os excedentes cambiais resultantes da significativa queda da libra, moeda de referência dos contratos dos equipamentos militares adquiridos no Reino Unido para a Marinha, e o anúncio da venda, quase a preço de sucata, do reabastecedor ligeiro Blue Rover, criaram uma hipótese de solução do problema. Poderia ser o tal navio para dez anos, tempo que se considerava necessário para projectar e construir um novo reabastecedor. Feitas duas vistorias técnicas no final de 1992, o Blue Rover foi considerado útil para a Marinha Portuguesa. Faltava concretizar a sua compra tão rapidamente quanto possível porque o navio ia ser abatido e desmantelado a partir de Fevereiro de 1993.

Eu estava na altura na missão de construção das fragatas Vasco da Gama, a fechar o respectivo período de garantia, e tinha integrado, com o engenheiro construtor naval Silva Paulo, a equipa da segunda vistoria ao Blue Rover. Fui chamado ao gabinete do Superintendente dos Serviços do Material, então o saudoso Almirante Moreira Rato, que me colocou uma questão muito simples:
‑ Assumindo que a Defesa aceita comprar o Blue Rover, de que é que precisa para ir buscar o navio a Inglaterra?
Assim mesmo, claro para militar entender!

Quem serviu com o Almirante Moreira Rato sabe que com ele a relação hierárquica assentava em dois pilares: a confiança e a lealdade. Tive a honra de merecer a sua confiança e por isso mantivemos sempre, em todas as circunstâncias, uma forte relação de lealdade. Quanto a me ter escolhido para aquela missão, nunca conversámos sobre isso, mas admito que estaria satisfeito com a forma com me desenvencilhei de tarefas e imbróglios mais ou menos complexos com estaleiro e fornecedores durante os anos do programa de construção das fragatas Vasco da Gama.

E foi assim que esqueci temporariamente a modernidade e as tecnologias das fragatas Vasco da Gama e esbocei um plano para trazer um navio auxiliar de 1970 para Lisboa. Defini a equipa inicial - um engenheiro construtor naval, os futuros Comandante, Imediato, Chefe de máquinas, Chefe de abastecimento e artífices de máquinas e electrotecnia e eu próprio - para recolher toda a informação possível sobre o navio junto da RFA e da tripulação britânica, preparar a vinda da restante guarnição e elaborar a lista de trabalhos de manutenção e adaptação a contratar localmente. Estimei um orçamento para fabricos, aprestamento inicial e despesas administrativas em Inglaterra e em Portugal, e indiquei os apoios e fornecimentos necessários dos organismos da Marinha. No dia seguinte fui com o Almirante Moreira Rato ao Ministério da Defesa Nacional para apresentar o projecto ao Director Nacional de Armamento e ao Secretário de Estado da Defesa e uns dias depois integrei o grupo que se deslocou a Londres para negociar a compra do Blue Rover à DESO. Depois de regateado e acordado o preço final de 5,5 M£, estabelecemos a data e o processo de entrega.

Como só dispúnhamos de dois meses para receber o navio, o plano inicial foi afinado e detalhado numa reunião das mais altas chefias da Marinha no gabinete do Chefe do Estado-Maior da Armada, ficando assente que os três Almirantes Superintendentes assegurariam a sua execução e os recursos mínimos necessários. Tratava-se de “fazer uma omelete com muito poucos ovos” e em muito pouco tempo. Foi nessa reunião que se definiu a nomeação e ida da guarnição por bordadas, a primeira até à entrega do navio e a segunda até o navio estar tecnicamente pronto para navegar para Lisboa. Foi-me dada autorização e cobertura para actuar com grande autonomia, mas com o rigor necessário para atingir o objectivo.

O RFA Blue Rover era em tudo um navio mercante. A tripulação tinha a formação, hierarquia e organização da Marinha Mercante e o navio era operado e mantido de forma significativamente diferente dos navios da Marinha militar. A todos os outros desafios, juntou-se mais um: transformar um navio mercante num navio militar em 2 ou 3 meses. Era necessário adaptar os alojamentos e redefinir as funções de bordo para uma nova estrutura da guarnição, alterar os modos de operação e manutenção para os aproximar das práticas correntes da Marinha Portuguesa, tudo em simultâneo com a recepção, aprestamento e reparação do navio. A minha experiência anterior na recepção e transformação do N/M Cabo Verde no NRP São Miguel era já longínqua e pouco ajudava numa conjuntura muito mais exigente.

O grupo inicial, muito heterogéneo e com poucas afinidades de personalidade e experiência, foi constituído por alguns voluntários como os engenheiros Silva Paulo e Cunha Lopes, este com seis anos de experiência no São Gabriel, e por pessoal nomeado de entre os disponíveis naquele momento. Aliás, dada a falta de tempo, o mesmo aconteceu com o resto da guarnição. Lembro-me do imediato, um oficial especializado em informática que pouco tinha navegado e necessitava do tirocínio para a promoção, do mestre que sabia tudo sobre o aparelho de vela da Sagres mas nada sabia sobre o aparelho de reabastecimento e mal entendia o inglês, do artífice que era especialista na montagem de antenas de televisão por satélite mas dizia não ter o curso do radar de navegação, lembro-me de muitas outras singularidades que a Direcção do Pessoal foi corrigindo ou minorando à medida que eram detectadas.

O que se passou a partir da ida do pequeno grupo inicial para Inglaterra não é fácil de resumir aqui, mas toda a estrutura de pessoal e do material da Marinha procurou dar resposta aos pedidos que íamos fazendo para Lisboa, enquanto o Ministério da Defesa Nacional, onde o comandante Mendes Calado era um elemento essencial, nos dava apoio financeiro. O Gabinete de Estudos, com o esforço do engenheiro Costa Alves, e a Direcção de Abastecimento, onde estava o saudoso Comandante Monteiro Marques, foram inexcedíveis no fornecimento do material de aprestamento, transportado num contentor pela Força Aérea e entregue no navio com o empenho do adido naval em Londres, o Almirante Teles Palhinha. Houve realmente uma convergência de vontades e esforços que ultrapassou todas as expectativas. E nós que estávamos no terreno, com a nossa diversidade, os nossos defeitos e as nossas qualidades, as nossas fraquezas e as nossas forças, fomos aprendendo uns com os outros, concentrados no essencial que era atingir um objectivo bem definido. Como disse mais tarde o Silva Paulo, tornou-se mais fácil para todos actuar num ambiente em que sabíamos ao que íamos, o que tínhamos de fazer e quais os critérios do processo.

Admito que tenha também havido alguma temeridade, que chegou mesmo a surpreender os ingleses que nos entregaram o navio. Logo após a recepção do navio e para navegarmos de Portsmouth para Falmouth, onde se situava o estaleiro contratado para o reparar e preparar para a viagem para Lisboa, não foi uma guarnição que pegou no navio, foi meia guarnição! Como a segunda bordada só embarcou no final dos fabricos em Falmouth, o navio saiu de Portsmouth conduzido por uma bordada que mal o conhecia e cujo treino foram duas a três semanas atracados em auto-aprendizagem e uma saída de um dia, sob comando inglês, para assistir ao reabastecimento da Exceter. Mas correu tudo bem. O navio navegou até Falmouth, pouco mais de um mês depois navegou até Lisboa e entrou a barra ainda antes do processo administrativo estar instruído!

E como não podia deixar de ser, também houve maledicentes. No plano inicial ficou logo definido que em Inglaterra só se fariam as reparações necessárias para assegurar a navegabilidade com segurança e as adaptações para a guarnição portuguesa, mesmo que a cor da ferrugem dominasse o exterior do navio. Como o navio estava a poucos meses de ir para a sucata, a RFA tinha de facto deixado degradar, e muito, os espaços e estruturas exteriores. Sabendo o que a casa gastava, tentei minorar o impacto visual e usei uma pequena parte do escasso orçamento de que dispunha para um tratamento de cosmética, necessariamente superficial e pouco duradouro. Mesmo assim, as más-línguas desconhecedores das circunstâncias do projecto, pegaram no óbvio e propalaram que tínhamos comprado sucata. O facto de o Bérrio continuar operacional e a servir a Marinha Portuguesa vinte e dois anos depois, quase tantos quantos navegou com bandeira britânica, é a melhor resposta para os maledicentes de então.

O padre António Vieira escreveu que “... o efeito da memória é levar-nos aos ausentes, para que estejamos com eles, e trazê-los a eles a nós, para que estejam connosco.” É por isso que recordo três camaradas ausentes que bem representam todos os que se empenharam nesta missão. Na cúpula da Marinha, o Almirante Pedro Joaquim da Costa Moreira Rato. Nos organismos de terra, o Comandante Paulo Manuel Monteiro Marques. E no navio, o Comandante Mário Ceríaco Dores Sousa, primeiro comandante do NRP Bérrio.

Concluída a missão, tivemos a certeza de ter levado a “carta a Garcia” quando observámos a festa que reuniu a bordo do Bérrio todos os Almirantes e comandos da Marinha Portuguesa, pouco tempo depois da chegada a Lisboa. Se tivéssemos falhado, a festa seria muito diferente.

Notas:

A Royal Fleet Auxiliary (RFA) é uma frota de navios mercantes do Ministério da Defesa do Reino Unido cuja missão é apoiar a Royal Navy, eventualmente em situações de combate.

O Defence Export Service Organisation (DESO) é o departamento do Ministério da Defesa britânico que promove a venda de equipamento militar, novo e usado, produzido por empresas do Reino Unido.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

A Morte das Borrachas



Segundo a imprensa britânica, o professor Guy Claxton do King’s College de Londres, que publicou trabalhos sobre cognição inconsciente e criatividade, terá defendido que as borrachas devem ser banidas das salas de aulas porque criam uma cultura de vergonha do erro e são um instrumento do diabo.

Receio que o professor Claxton esteja a praticar um lamentável plágio. Há muito tempo que as escolas dos jotinhas portugueses ensinam que os erros não se apagam, valorizam-se. Eles aprendem que se cometerem um erro, não há problema, basta seguir as três regras de ouro:
  • Regra n.º 1 – Ignorar todas as críticas, não corrigir o erro e nunca o reconhecer.
  • Regra n.º 2 – Esperar alguns meses e vangloriar-se do que fez errado. Os eleitores têm memória curta e vão acreditar que se tratou de uma acto de coragem de um visionário, incompreendido pelo comum dos mortais e avaliado injustamente pelos maldizentes e pessimistas.
  •  Regra n.º 3 – Repetir o erro em nome da coerência e da continuidade. Na primeira vez só os fiéis aceitam, na segunda a maioria aplaude, reconhecida e agradecida.