domingo, 3 de maio de 2015

O Dia dos Milagres



Tenho para mim que se comete uma injustiça histórica quando se diz que o 25 de Abril de 1974 foi o Dia da Liberdade. É certo que naquele dia o povo português se libertou de uma ditadura de décadas, mas não deveríamos também assinalar a ocorrência de milhares e milhares de conversões milagrosas em todo o nosso Portugal?

Eu próprio, pouco ou nada crente em milagres, pude, nesse dia e em poucas horas, vivenciar uma boa mão cheia deles. Vivências que se repetiram de forma surpreendente nos dias seguintes, como se de repente um espírito sagrado tivesse iluminado a mente de muitos dos que até então me olhavam e tratavam com desconfiança. Os convertidos vinham até mim e manifestavam o seu apego à liberdade e à democracia, assim como o incondicional apoio ao movimento, como se estivessem diante de um sacerdote da nova religião. É claro que eu, leigo não ordenado, limitava-me a indicar-lhes o nome de 2 ou 3 magistrados que certamente ficariam muitos satisfeitos com tais conversões.

Pensei contar algumas das vivências que bem podiam justificar a atribuição do epíteto de Dia dos Milagres ao dia 25 de Abril de 1974 mas desisti depois de ler um episódio muito mais inspirador narrado pelo Coronel Rosado da Luz, um militar de Abril, a quem coube desempenhar tarefas de coordenação e ligação pessoal entre o Posto de Comando do MFA e as unidades militares sublevadas que, em Lisboa, iam ocupando os vários objectivos que lhes tinham sido atribuídos.

O Rosado da Luz conta algumas das suas riquíssimas vivências do dia 25 de Abril de 1974 no livro “O Dia da Liberdade”, editado pela Verso da História com coordenação do Pedro Lauret. De entre os vários e deliciosos episódios, destaco o mais relevante para a demonstração da minha tese: “Uma Conversão Milagrosa.” Cá está, também a ele foi dado presenciar um milagre que bem justificaria a alteração da referência histórica!

Conta ele que a meio do dia 25 e apesar dos comunicados do MFA, um pacato cívico, a quem o chefe havia dado ordem para ir ao ensaio da récita que a PSP iria levar a cabo daí a dias e na qual era figurante, tinha abandonado a segurança da sua esquadra e tentado furar por entre a multidão que estava junto aos Armazéns do Chiado. É que o ensaio estava marcado para o Governo Civil para daí a alguns minutos e o agente da PSP entendia que não podia faltar senão seria castigado. Mas a multidão, ao ver o pobre do polícia, pressentiu o seu momento de glória e resolveu espancá-lo. Só a intervenção da guarnição de um carro de combate da EPC evitou que a história tivesse um final trágico.

O Rosado da Luz, chamado a intervir, deparou-se com “um típico agente da PSP daquela altura: gordinho, de meia-idade e ar provinciano, muito contundido, cheio de equimoses na cara, com o dólman meio despido, sem armas nem gravata nem botões na farda e na camisa.” Depois de ouvir as razões do pobre polícia, o Rosado da Luz tomou uma decisão que, melhor do que eu, ele sabe contar. Por isso, com a devida vénia, continuo a transcrever o seu testemunho no já citado livro.

“Bem, perante tão pesados argumentos, resolvi ir eu mesmo entregá-lo ao Governo Civil que ficava a menos de 100 metros dali. Segui pela Rua Anchieta, que desemboca mesmo no Governo Civil, e ainda tive que afastar alguns populares que queriam acariciar a cabeça do pobre guarda com uns tijolos de uma construção que ali havia. Quando chego ao Governo Civil, as suas enormes portas de madeira (que hoje são de vidro) estavam encerradas e eu com a coronha da G3 bati à porta que passado algum tempo se entreabriu. A cena que se passou ficou-me para sempre na memória.  
O Governo Civil tem um enorme átrio que termina numa ampla escadaria que depois se bifurca em dois lanços, um para cada lado. Todo aquele átrio e escadaria estavam numa semiobscuridade, apinhados com largas dezenas de polícias e, à frente de todos, o celebérrimo capitão Maltês Soares, ex-comandante da Companhia Móvel da Polícia de Oeiras (a célebre «Polícia de Choque), responsável principal durante muitos anos, pela ferocíssima, desumana e violenta repressão sobre trabalhadores e estudantes que eu, aluno de Económicas, até tinha tido oportunidade de testemunhar pessoalmente em 1972. Era agora o comandante da 1ª Divisão da PSP. Eu não o conhecia pessoalmente, mas tal como acontece com os militares, também os polícias têm sempre o nome escrito na farda e assim soube de imediato quem era aquela bisca. Quando me vêem de G3 em punho meio fardado meio à paisana, com aqueles restos de um polícia, há um movimento generalizado de pânico e toda aquela gente recua pensando certamente: “é agora.” Entretanto, o Maltês Soares, à frente daquela gente toda, lê o meu nome na farda e diz-me: “ó Luz, a PSP está com a Revolução e com o MFA!” Não escondi um sorriso, lá lhes entreguei o polícia, lá lhes disse para se manterem por ali fechados e que nós nunca tínhamos duvidado do seu acrisolado amor pela democracia e regressei ao Carmo a dar ao Maia a novidade, daquela milagrosa conversão.”

Digam lá se o 25 de Abril de 1974 foi ou não foi o Dia dos Milagres?

quarta-feira, 18 de março de 2015

O Penico tem de saber vela!





O Manel era um homem bom, humilde e generoso. É como sempre o vi, desde que nos conhecemos na Escola Naval. Fazíamos parte do tal grupo de cinquenta e um jovens que, vá-se lá saber porque estranhas razões, se juntaram num austero edifício na mata do Alfeite.

Para mim, aquele era um mundo novo. Sobre as matemáticas, as físicas e as políticas, tinha a experiência de dois anos de Técnico, da crise académica e das eleições de 69. Mas sobre as artes náuticas, era um zero absoluto. O mar para mim era praia; praia de manhã, à tarde e à noite.

Mas para o Manel, não. Ele era um veterano que conhecia bem os cantos da Escola Naval e ainda por cima dominava as lides náuticas. Podia tirar partido desse ascendente mas nunca o fez, antes pelo contrário. Preocupava-se até com a minha ignorância náutica e dizia-me: ─ O Penico tem de saber vela! Eu vou ensinar-te.

E assim fez. Numa tarde fria de inverno lá fomos levantar um Vaurien no CNOCA e fizémo‑nos ao rio. Velejámos até ao Terreiro do Paço, acenámos às turistas no Cais das Colunas, corria tudo às mil maravilhas. Até que subitamente o vento refrescou e as condições mudaram radicalmente. Tentámos rumar ao Alfeite mas perdemos o leme. Foi o cabo dos trabalhos!

Não vou contar os detalhes da nossa aventura mas digo que foi duro. Durante horas lutámos contra os elementos mas com a liderança do Manel, um leme improvisado e a ajuda da maré, lá conseguimos voltar ao CNOCA, já noite e totalmente enregelados. Lavámos e entregámos a embarcação, corremos para a Escola Naval, fardámo-nos e apresentámo-nos para o jantar na hora limite. E guardámos só para nós o que correu mal.

Não sei se fui capaz de satisfazer as expectativas do Manel quanto à aprendizagem da vela, julgo que não. Mas sei que foi com episódios como este que criei laços de amizade e camaradagem indestrutíveis com homens bons como o Manel. Laços que duram há quase meio século, desde que o tal grupo de jovens decidiu juntar-se num austero edifício na mata do Alfeite

terça-feira, 3 de março de 2015

O Tio Miguel



– Tenho muita pena que o vosso filho morreu – ditou a Mafalda para ser escrito no desenho acabado de pintar para os avós.

A Mafalda tinha e tem muita pena, mesmo sabendo muito pouco sobre o filho dos avós que dizem ser seu tio. Um tio diferente porque todos os tios e tias são gente crescida como os pais, mas este não. Dizem-lhe que é um bebé, mas os bebés que conhece respiram, comem, choram, dormem e crescem, e este não. Nasceu há muito, muito tempo, não cresceu e está num sítio onde às vezes vai com a avó pôr flores.

A Mafalda gostava de perceber melhor e tem razão. Tal como muitas outras histórias da nossa família, esta merece ser mais bem contada. Quarenta e um anos é tempo suficiente para lembrar o essencial e esquecer o acessório.
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Foi uma gravidez feliz. Nada prenunciava o que ia acontecer. A jovem mãe, ainda estudante universitária e já com uma barriga razoável, viveu intensamente os tempos atribulados da revolta estudantil, dos gorilas e das cargas policiais na cidade universitária. Acompanhou o marido e os amigos em tudo o que tivessem vontade de fazer. Eram as tertúlias na sua casa, eram as excursões turístico-gastronómicas pelo país para visitarem as terras-natal dos amigos, eram os dias de praia ou a acampar na Berlenga para fazer mergulho, eram as sessões da oposição na farsa eleitoral de 73, era tudo o que enchia a vida de um jovem casal com sonhos do tamanho do mundo.

Mas na hora do bebé nascer, as coisas deixaram de ser fáceis e simples. O pai, que tinha combinado com a médica assistir ao parto, ficou na sala de espera. De uma espera de muitas horas. Quando finalmente viu a mãe e o menino, percebeu que o parto tinha sido muito difícil. As marcas dos "ferros" eram bem visíveis na cabeça do bebé e a mãe estava muito combalida. Notou a imobilidade das pernas do menino mas a inexperiência, a delicadeza da médica e a felicidade de olharem o primeiro filho ofuscaram os sinais de que algo estava errado. Souberam depois que a médica decidiu conceder-lhes uma noite de felicidade.

No dia seguinte o avô foi buscar o pai do menino ao Alfeite, coisa que nunca tinha feito. Disse que havia um problema com o bebé, que era preciso ir à maternidade. A partir desse momento o mundo começou a desabar. Na maternidade, o neurologista explicou que o menino sofria de uma malformação congénita, espinha bífida aberta. A extensão dos danos neurológicos não podia ser avaliada com rigor mas eram significativos e irreversíveis. O tecido nervoso perdido não podia ser reparado e as funções dos nervos danificados não podiam ser restauradas. E era urgente decidir fazer, ou não, a cirurgia para fechar o defeito e eventualmente impedir a infecção nos tecidos expostos e a morte do bebé.

Os pais, mal preparados como a maioria dos pais perante o inesperado e a diferença, enfrentavam um doloroso dilema. Consultaram especialistas mas depressa perceberam que pouco ajudavam. A decisão teria de ser deles e rápida. E decidiram não operar. O menino foi internado em Santa Maria por ser o local com melhores condições técnicas para a sua situação. Faleceu com dez dias de vida.

Foram os dez dias mais duros e intensos do jovem casal. Ao drama pessoal juntou-se a vivência das carências do sistema público de saúde do passado. Numa enfermaria cheia de bebés, muitos deles abandonados pelas famílias, faltava tudo menos o esforço e empenho das enfermeiras. As fraldas dos bebés eram os restos de lençóis rasgados. Não havia roupa decente para as crianças. A roupa, as fraldas, os artigos de puericultura e até a alimentação do menino eram levados pela mãe. O que se passava num dos maiores hospitais nacionais era bem a imagem de um regime que estava prestes a cair.

Mas a mãe do menino, depauperada fisicamente e sujeita a um vendaval de emoções, encontrou a energia e a força de vontade necessárias para o acompanhar, cuidar e mimar com muito amor, até aos últimos minutos de vida. Num ambiente hospitalar desolador, a jovem mãe mostrou a coragem e a determinação que mais tarde constituíram a trave mestra de uma maternidade plenamente realizada.

Depois foi preciso voltar a levantar o mundo, juntos. Um mês e meio depois foi o 25 de Abril. A seguir a gravidez da segunda filha e a ansiedade da espera, com o pai ausente a navegar nas águas do Atlântico Sul e depois do Mediterrâneo. Já ficou dito noutra vivência que o nascimento da Joana foi anunciado ao pai por mensagem no centro de comunicações de um navio americano. Depois veio a Catarina. E mais tarde um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete netos!
Anos e anos cheios e muito felizes!
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Pois é, Mafalda. Sabemos que tens muita pena de o tio Miguel ter morrido. Nós também. 
Mas garanto-te que muito do que é a nossa família foi construído com o que aprendemos nos dez dias de vida do tio Miguel.
As flores que a avó lhe leva são um testemunho do nosso agradecimento.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Quarta-feira de Carnaval


Foi uma quarta-feira de cinzas cheia de máscaras carnavalescas: um marxista a defender a sobrevivência do capitalismo, um professor de economia reformado a falar de contas mal explicadas, um pecador numa confissão sem penitência e uma contabilista humilhada a fazer de arma de arremesso.
Enquanto o vento frio não leva para longe as cinzas deste Carnaval, resta gozar o belo sol de inverno.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

A very similar project

Fragata "Salamis", a quarta da classe "Hydra"

Dávamos os primeiros passos no programa de construção das fragatas da classe “Vasco da Gama”, no último terço da década de 80, quando recebemos uma delegação da Marinha da Grécia. A Marinha helénica ia adquirir fragatas Meko 200 semelhantes às portuguesas e os oficiais gregos vinham propor um acordo de cooperação e de troca de informações com a Marinha Portuguesa. Coube-me dialogar com o capitão-de-fragata Stamatis Kloudas sobre os detalhes dos sistemas mecânicos dos navios. Para além do posto, partilhava com o Commander Kloudas a qualificação académica e profissional obtida nos EUA. Embora o programa português estivesse num estádio bem mais avançado, a simpatia dos gregos cativou-nos e o acordo foi fácil.

Um par de anos mais tarde voltámos a encontrar o amigo Kloudas em Hamburgo, no estaleiro alemão da Blohm+Voss, então já capitão-de-mar-e-guerra. O Captain Kloudas chefiava agora a missão de supervisão do programa grego, iniciado cerca de um ano depois do nosso. A delegação grega, muito mais numerosa que a portuguesa, instalou-se num espaço contíguo ao nosso, e passou a ser uma visita assídua. À medida que o projecto dos navios helénicos progredia, habituámo-nos a receber o Captain Kloudas e os seus inúmeros adjuntos, pedindo-nos detalhes sobre os mais diversos aspectos do nosso programa e dos nossos navios. Num dia era isto, noutro dia era aquilo, e assim fomos com cada vez menos paciência e vontade, fornecendo elementos técnicos e de gestão do nosso projecto. Na prática, ensinámos o caminho das pedras que tanto trabalho nos deu encontrar. E tudo porque, como dizia o Captain Kloudas, o nosso era “a very similar project” e, claro, havia o tal acordo de cooperação.

Até fechar a porta do nosso escritório no estaleiro e regressar a Portugal no início de 1992, observei as aventuras daquele grupo heterogéneo e hierarquizado de oficiais de Marinha e de jovens que, residentes e a trabalhar na Alemanha, prestavam serviço militar por força da lei grega. A integração na delegação da Marinha no estaleiro contava como serviço militar obrigatório e para aqueles jovens, maioritariamente nascidos e educados na Alemanha e licenciados em engenharia por universidades alemãs, era uma oportunidade para o prestarem perto da família e de casa. Em troca eram, durante alguns (poucos) meses e para além de técnicos, tradutores e elos de ligação com os técnicos alemães, estafetas e moços de recados, e tudo o que fosse necessário para aligeirar o trabalho do Captain Kloudas e dos seus oficiais. Lembro-me do desconforto dos alemães perante os múltiplos e sofisticados esquemas que os oficiais gregos engendravam para contornar dificuldades do programa ou até satisfazer interesses pessoais, como por exemplo, a aquisição de BMWs topo de gama, a preços reduzidos e totalmente isentos de impostos.

Cerca de um ano depois, numa noite invernosa, estava eu alojado numa messe da Marinha britânica e encarregado de tarefas que já nada tinham a ver com a construção das fragatas, fui acordado pelo clarão de um incêndio num navio ao largo de Portland, no sul de Inglaterra. Soube de manhã que se tratava da novíssima fragata grega "Hydra", recém-saída do estaleiro de Hamburgo. Procurei saber as causas do incêndio, não fosse existir um risco semelhante nas nossas. No fundo eram “a very similar project.” Todas as diligências, primeiro junto do comando do navio e depois junto da Marinha grega, foram infrutíferas. Consegui mais tarde obter a informação no estaleiro, embora com limitações resultantes do litígio que o incidente entretanto provocou. E assim se frustrou a primeira, e julgo que última, oportunidade de inverter o fluxo de informação entre as Marinhas portuguesa e grega.

Mais alguns anos passados, já perto da viragem do milénio, fui integrado numa delegação enviada pelo Ministério da Defesa Nacional a Atenas para renovar o velho acordo de cooperação com a Marinha grega. Chegados ao ministério da defesa grego, fomos recebidos com toda a pompa e simpatia. E por quem? Pelo nosso amigo Kloudas, agora já contra-almirante e chefe daquilo tudo! Mais de dez anos depois, mantendo-me eu no posto de capitão-de-fragata, voltei a ouvir as mesmas loas ao acordo de cooperação entre as duas Marinhas, agora sobre a manutenção e modernização das fragatas, tudo porque eram “a very similar project.”

Não sei o que se passou depois da renovação do acordo porque entretanto passei à reserva e dediquei-me a outras guerras. Mas sei que o Vice-almirante Kloudas chegou a "Inspector General of the Hellenic Navy" e, para mal dos nossos pecados, Portugal e Grécia continuam envolvidos no que dizem ser “a very similar project.”

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Pódio





Dos meus livros de 2014?
Em terceiro lugar "O Capital no Século XXI", de Thomas Piketty, um ensaio sobre a realidade.
Em segundo, "Galveias", de José Luís Peixoto, um romance da portugalidade.
Em primeiro, a edição bilingue de "As Portas Que Abril Abriu" de Ary dos Santos, pelo Portuguese Studies Program do Institute of European Studies da University of California, Berkeley, um poema à realidade, à portugalidade, e acima de tudo, à Liberdade!