terça-feira, 18 de abril de 2023

A Casa e o Forte

 

Foto Ezequiel Santos

Viu os presos de delito comum construírem os novos blocos prisionais. Três pavilhões, o A, o B e o C, arquitectados a pensar nos presos políticos. É verdade que outros prisioneiros já tinham passado pela fortaleza, alemães e austríacos na Grande Guerra, portugueses com o Estado Novo. Mas agora era uma cadeia a sério, de alta segurança.

O Forte, orgulhoso da sua nova condição, continuou a contar à Casa tudo que se passava no seu interior, agora ainda com mais detalhes. E a Casa, curiosa, ouvia-o do outro lado do Campo da Torre e partilhava com ele o que via e ouvia, dentro e fora das suas paredes. Mas nenhum deles, ao longo de décadas, alguma vez revelou a terceiros os segredos que trocaram.

Eu bem tentei que Casa me contasse alguns, mas ela até hoje não me fez a vontade. Guardou para si tudo o que o Forte lhe contou, com o mesmo cuidado com que guardou e guarda os segredos de cinco gerações da família que a habita. Guardou para si as histórias dos presos e da cadeia, os pormenores da fuga de Janeiro de 1960, as conversas dos pides que passaram a abrigar-se junto a ela nas vigílias noturnas, as entradas e saídas das visitas dos presos e até a libertação deles depois do 25 de Abril de 1974.

A Casa soube, porque o Forte lhe disse, da preocupação dos presos e dos guardas quando receberam as primeiras notícias do golpe militar em Lisboa. Assistiu à chegada dos militares do RI10[1] de Aveiro no início da manhã de 25[2], convencidos que as forças do RAP3[3] e CICA2[4], que com eles e o RI14[5] constituam o “Agrupamento NOVEMBER”, já tinham tomado a cadeia do Forte.

Surpreendeu-se com a rapidez com que os feirantes desmontaram as bancas e as tendas da tradicional feira da última quinta-feira do mês no Campo da Torre, depois de terem recebido ordem para abandonarem o espaço em cinco minutos.

Testemunhou a surpresa do Tenente da GNR que comandava o destacamento responsável pela segurança da cadeia quando o comandante da companhia do RI10 bateu à porta e exigiu a rendição. Assistiu ao cerco do Forte pela força do CICA2, maioritariamente constituída por recrutas, depois da partida das restantes forças do agrupamento para Lisboa.

Mas quando pedi que descrevesse a libertação dos presos políticos, a Casa fechou-se em copas e nada disse. Se não fossem os meus amigos Carlos, o Machado dos Santos do lado dos “libertadores”[6] e o Saraiva da Costa do lado dos “libertados”[7], só muito dificilmente teria sabido os detalhes do que se passou no Forte naqueles dois dias.

No dia 25 de Abril de 1974 estavam 36 presos políticos no Forte. O “Carlos libertado” estava no pavilhão B, reservado aos presos políticos das organizações maoistas, da LUAR e oriundos das então colónias africanas. Às 8 horas da manhã do dia 25, ele e alguns dos seus companheiros notaram que o aparelho de rádio fora silenciado. “Uma avaria, já está a ser reparada", explicou o guarda de serviço ao pavilhão. O dia anunciava-se de grande tensão porque iam iniciar uma greve de fome de solidariedade com os presos de Caxias que se encontravam em luta contra as condições prisionais.

Por volta das 11 horas aperceberam-se que a RTP transmitia marchas militares e recearam um golpe militar do Kaúlza de Arriaga. Quando às 13 horas as visitas não foram autorizadas a entrar, insistiram junto do chefe dos guardas que acabou por confessar que ocorrera em Lisboa um levantamento militar, que o Governo de Marcello Caetano fora deposto e que foram detidos os principais responsáveis do regime. Atribuiu a direção do golpe militar a um tal MFA e ao general Spínola.

Receosos de serem utilizados como reféns, os presos políticos romperam o diálogo com as forças prisionais e ergueram barricadas. Exigiam a libertação imediata e por ela mantiveram-se barricados até cerca das 16 horas do dia 26.

A essa hora, na Cova da Moura[8], em Lisboa, o Coronel Vasco Gonçalves entrou no gabinete onde estavam os oficiais da Armada e pediu um voluntário para participar na libertação dos presos políticos do Forte de Peniche. O Capitão-tenente Machado dos Santos, o “Carlos libertador”, ofereceu-se para a missão e, com o Major Moreira de Azevedo, foi levado por Vasco Gonçalves à presença do General Spínola.

Spínola, depois de uma dissertação sobre as limitações que impunha à libertação dos presos − os que estivessem acusados de crimes tais como homicídio, assalto a bancos, falsificação de documentos, não seriam libertados − e de um murro na mesa depois do “Carlos libertador” o contrariar, ordenou que os dois oficiais partissem de imediato para Peniche, acompanhados de três advogados que resolveriam todas as questões jurídicas.

Feita a viagem no Mercedes do ex-Ministro da Defesa, o grupo chegou ao Campo da Torre por volta das 22 horas, onde cerca de um milhar de populares e de familiares dos presos os aplaudiram e criticaram por virem tarde. Bateram à porta do Forte e foram recebidos pelo tenente da GNR que comandava a guarnição que ali se manteve após a ocupação.

Quando se aperceberam que o comandante da força do Exército que tinha ocupado o Forte não se encontrava em condições de poder colaborar, substituíram-no pelo seu segundo numa espécie de tribunal que foi constituído no gabinete do Director da prisão: o “Carlos libertador” a presidir, o segundo da Companhia do Exército à sua esquerda e os três advogados nomeados por Spínola à sua direita.

Chamado o primeiro preso, o “Carlos libertador” fez sentir aos advogados que não estavam ali a fazer nada pelo que o processo de libertação avançou rapidamente até chegarem aos quatro presos acusados de crimes de sangue: Francisco Martins Rodrigues, João Pulido Valente e Rui d'Espiney, ligados à FAP (Frente de Acção Popular), por causa da execução de um informador da PIDE que os denunciara e Filipe Viegas Aleixo, envolvido no assalto ao paquete Santa Maria, na noite de 21 para 22 de janeiro de 1961.

Depois de terem saído os presos ligados ao PCP, encarcerados nos outros pavilhões, os presos do pavilhão B, onde estava o “Carlos libertado”, decidiram unanimemente: "Ou saímos todos ou não sai ninguém!" E assim, de facto, aconteceu. Só depois de o “Carlos libertador” ter proposto que fosse lavrado um termo de responsabilidade, em papel timbrado da prisão e em triplicado, assinado por Moreira de Azevedo, Machado dos Santos e o advogado Macaísta Malheiros, que declarou que os três presos acusados de crimes de sangue permaneceriam na sua residência particular, em Lisboa, nos Olivais, aguardando decisão definitiva da Junta de Salvação Nacional, é que o processo de libertação foi concluído.

E foi assim que, já no dia 27, a Casa viu sair do Forte todos os restantes presos políticos para receberem o abraço inesquecível do povo de Peniche. E soube que o Tenente da GNR, antes do regresso do grupo a Lisboa no Mercedes ministerial, convidou os dois oficiais e os três advogados a atacar uma ceia de peixe acabado de chegar do mar e assado “in loco”, acompanhado pelos adequados complementos sólidos e líquidos.

A Casa e o Forte não souberam, mas eu soube porque o “Carlos libertador” contou, que no dia 27 à tarde, os dois oficiais do MFA foram à Cova da Moura procurar o General Spínola para relatarem a missão e colocarem a questão dos libertados condicionais.

Só encontraram o Almirante Rosa Coutinho, que tendo presenciado a cena da véspera e ao lhe ser apresentado o termo de responsabilidade de Macaísta Malheiro, nele escreveu e assinou um despacho de prescrição da custódia, enquanto dizia: “Sabem, isto está a andar muito mais depressa do que aquilo que se previa!”


[1] Regimento de Infantaria N.º 10 – Aveiro.

[2] CONTREIRAS, Carlos de Almada. Operação “Viragem Histórica” - 25 de Abril de 1974 (1ª Edição), pág. 287. Edições Colibri, 2017.

[3] Regimento de Artilharia Pesada N.º 3 – Figueira da Foz.

[4] Centro de Instrução de Condução Auto Nº 2 – Figueira da Foz.

[5] Regimento de Infantaria N.º 14 – Viseu.

[6] CONTREIRAS, Carlos de Almada. Operação “Viragem Histórica” - 25 de Abril de 1974 (1ª Edição), pág. 636. Edições Colibri, 2017.

[7] COSTA, Carlos Saraiva da. Os "últimos dias" de Peniche. Diário de Notícias, 27 Abril 2019 (https://www.dn.pt/poder/os-ultimos-dias-de-peniche-10838196.html).

[8] Palácio da Cova da Moura, sede da Junta de Salvação Nacional.

sábado, 18 de março de 2023

As lições do Comandante Saturnino Monteiro

Escola Naval - 25 de Novembro de 2010

O Comandante Saturnino Monteiro prestou serviço na Escola Naval (EN) em dois períodos distintos, o primeiro na viragem da década de 1960 e o segundo dez anos depois, na viragem da década de 1970 (de Outubro de 1968 a Julho de 1972).

Muitos anos depois, num depoimento sobre a sua experiência na EN para o projecto de História Oral da Academia de Marinha, afirmou que o segundo período representou uma diferença “como de água para vinho” em relação ao primeiro. “O ambiente era completamente diferente, existia uma descrença muito grande entre os cadetes da Escola, e muitos deles, entre os mais ativos, criavam um clima claramente subversivo.” E especificou: “Isto passa-se mais ou menos entre 1970 e 1972, já na fase final da guerra em que havia uma grande propaganda nos meios académicos, e esses rapazes, através das namoradas, muito ligadas pelas Universidades, estavam perfeitamente contagiados.

Ora eu, que entrei na EN em 1970 e tinha uma namorada na Faculdade, não podia ficar indiferente e escrevi um texto intitulado “A culpa foi das namoradas” sobre a explicação do Comandante Saturnino Monteiro para a minha descrença na ditadura e na guerra. Mas não interpretem a minha ironia como uma manifestação de menor respeito pelo autor do depoimento, tanto mais que o Comandante Saturnino Monteiro, embora conservador, era um oficial educado, íntegro, coerente e leal, e foi um dos quatro que mais me influenciaram na EN.

O Comandante Saturnino Monteiro, para além de Comandante do Corpo de Alunos, foi o nosso professor de Organização e Arte de Comando. Foi ele que nos transmitiu os valores essenciais da condição militar e nos ensinou como as leis que a regem, desde logo o Regulamento de Disciplina Militar, obrigam tanto os subordinados como os superiores hierárquicos. Certamente por isso, convidámos o Comandante Saturnino Monteiro para proferir uma lição no 40° aniversário da entrada do nosso curso na EN.

Pois foi no tal período de 1970 a 1972, em que segundo o Comandante Saturnino Monteiro existiam “cenas e ações que excediam todos os limites da disciplina”, que ocorreu um Juramento de Bandeira assim descrito pelo próprio Comandante Saturnino Monteiro:

Na véspera do Juramento [os cadetes] puseram a Escola em pé de guerra, aqueles bustos das figuras históricas foram postos em situações incríveis, cortaram os botões das fardas aos oficiais, mas isso não era uma rapaziada, isso estava inserido naquele ambiente subversivo, que então existia a Escola Naval. No dia em que se ia realizar a cerimónia de Juramento, de manhã, achei por bem dizer ao Comandante da Escola que telefonasse ao Chefe do Estado-Maior explicando que não podia haver Juramento, e que pedisse um pelotão de Fuzileiros para ir á Escola e mandasse esses cadetes todos presos para o Corpo de Marinheiros, porque era inacreditável o seu comportamento.

Foi assim neste contexto que, como chefe do meu curso, acabei por participar em várias reuniões da hierarquia da EN com os mais antigos de todos os cursos para tentarem resolver os sucessivos impasses que foram criados. Nesses concílios ouvi de tudo, assisti à desorientação total, aos convites à delação, à discussão das mais estapafúrdias sugestões e ameaças. Mas apesar disso, observei que o Comandante Saturnino Monteiro acabou por ser o oficial que se manteve mais lúcido, que assumiu a liderança do processo de resolução do imbróglio, sempre dentro das regras da arte de comando e da disciplina militar. Aliás, se não fosse ele a coisa podia ter sido muito mais feia.

E a verdade é que o comportamento e as lições do Comandante Saturnino Monteiro foram uma ferramenta essencial para as iniciativas contestatárias do nosso curso ao longo dos quatro anos na EN. Até sairmos da EN, procurávamos não fazer nada que pudesse ser atacado como acto de indisciplina militar. E depois de sairmos da EN, cada um de nós continuou a usar as lições de Arte de Comando do Comandante Saturnino Monteiro nas situações difíceis que tivemos de enfrentar como oficiais.

Não sei se os efeitos práticos foram relevantes, mas não era fácil apanharem-nos em falso. E essa aptidão, que parece faltar a alguns dos protagonistas dos mais recentes acontecimentos na Marinha, aprendemos com o Comandante Saturnino Monteiro.

quarta-feira, 8 de março de 2023

A cadela que morava na lua

 


Era uma vez uma cadela que morava na lua. Era uma cadela muito curiosa e brincalhona, que gostava de explorar a superfície lunar. Brincava com tudo o que encontrava, embora na lua não tivesse muito com que brincar. Pegava nas pedras, atirava-as ao ar, corria para as apanhar, mas pouco mais podia fazer.

Por isso a cadela que morava na lua olhava para as estrelas no céu e imaginava que eram os amigos que não tinha na lua. Sonhava que um dia iria ter com eles e se assim pensou, melhor o fez. Construiu uma nave espacial e partiu em direcção à bola azul que via no céu.

Quando chegou, abriu a porta da nave e viu um menino a correr para ela, a sorrir. Surpreendida, correu para ele e latiu.
– Olá, amiguinha, eu sou o Miguel! Quem és tu, como te chamas? – perguntou o menino.
– Eu venho da lua – respondeu a cadela, abanando o rabo.
– Se vens da lua, então és a Lua! – decidiu o Miguel.
– Está bem, gosto, é um nome bonito! E que lugar é este? – perguntou a Lua, sempre curiosa.
– Isto é a Terra e se quiseres vir comigo eu mostro o que aqui há – disse o Miguel.
– Oh, sim! Vamos! – disse a Lua, pulando de alegria.

A Lua e o Miguel gostaram logo um do outro. O Miguel mostrou à Lua as árvores, as flores, os animais, as montanhas, os vales, os mares e as praias da Terra. Apresentou a Lua aos amigos, aos pais e aos irmãos, que ficaram muito felizes por conhecerem uma visitante da lua.

A Lua e o Miguel divertiram-se muito e tornaram-se os melhores amigos. Jogaram à bola, fizeram construções, contaram histórias e cantaram canções. Também aprenderam um com o outro. A Lua ensinou ao Miguel sobre a vida na lua, o Miguel ensinou à Lua sobre a vida na Terra.

Mas quando o Miguel ia para a escola, a Lua voltava a ficar sozinha, sem ninguém para brincar. Por isso a mãe do Miguel levava a Lua para o trabalho para estar com meninos que viviam sozinhos e não sabiam brincar. E a Lua, sempre brincalhona, ensinou-os a brincar. E eles ficaram muito felizes.

Assim, todos os dias, a Lua e o Miguel abraçavam-se e despediam-se. O Miguel ia para a escola e a Lua ia brincar com os meninos que moravam sozinhos. Até se reencontrarem no fim do dia e, juntos, olharem as estrelas no céu.

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The dog who lived on the moon

Once upon a time there was a female dog that lived on the moon. She was a very curious and playful dog, who liked to explore the lunar surface. She played with everything she found, although there was not much to play with on the moon. She picked up the rocks, threw them in the air, ran to catch them, but little else she could do.

The dog that lived on the moon looked at the stars in the sky and imagined they were the friends she didn't have on the moon. She dreamed that one day she would go with them and if she thought so, better she did. She built a spaceship and headed towards the blue ball she saw in the sky.

When she arrived, she opened the door of the ship and saw a boy running towards her, smiling. Surprised, she ran to him and barked.

– Hello, little friend, I'm Miguel! Who are you, what's your name? – asked the boy.

– I come from the moon – answered the dog, wagging her tail.

– Wow, that's amazing! Then I'll call you Lua, because that means moon in my language! – decided Miguel.

– Okay, I like it, it's a beautiful name! And what place is this? – asked Lua, always curious.

– This is Earth and if you want to come with me, I'll show you what's here – said Miguel.

– Oh, yes! Let's go! – said Lua, jumping with joy.

Lua and Miguel liked each other right away. Miguel showed Lua the trees, flowers, animals, mountains, valleys, seas, and beaches of Earth. He introduced Lua to his friends, parents, and siblings, who were very happy to meet a visitor from the moon.

Lua and Miguel had a lot of fun and became best friends. They played ball, made constructions, told stories, and sang songs. They also learned from each other. Lua taught Miguel about life on the moon, Miguel taught Lua about life on Earth.

But when Miguel went to school, Lua went back to being alone, with no one to play with. So Miguel's mother took Lua to work to be with children who lived alone and didn't know how to play. And Lua, always playful, taught them how to play. And they were very happy.

From then on, every day, Lua and Miguel hugged and said goodbye. Miguel went to school and Lua went to play with the children who lived alone. Until they met again at the end of the day and, together, looked at the stars in the sky.

segunda-feira, 6 de março de 2023

A queda de um mito

 
Quando ouço falar de reestruturações de empresas, lembro-me logo de uma empresa e de uma marca: Philips. E adianto já que não é pelas melhores razões.

É que sou de uma geração que cresceu rodeado de equipamentos que ostentavam um destes logotipos, em especial os dois primeiros, que a gigante holandesa Philips colocava nos seus produtos. Uma geração que se habituou a associar a marca Philips a inovação tecnológica e empreendedorismo, fosse na iluminação, na radiofonia, no áudio, na televisão, na electrónica de consumo, nas tecnologias de informação, nas comunicações, nos semicondutores, etc. Arrisco-me a dizer que em determinada altura não havia uma divisão das casas, um espaço dos locais de trabalho onde não fosse possível encontrar um dos logos da Philips.

Até mesmo quando na Marinha, na segunda metade da década de 1980, dei os primeiros passos no programa de aquisição das fragatas da classe Vasco da gama, lá apareceu a Philips como proprietária da solução de comando e controlo dos sistemas de combate dos navios. A Philips era omnipresente e simbolizava o sucesso empresarial nos mais variados sectores da economia mundial.

A partir da década de 1990, restruturação após restruturação, todas ela justificadas por presidentes executivos brilhantes e qualificados com os melhores MBA, a Philips foi-se desfazendo das áreas de negócio que tinham feito dela um dos mais conglomerados mundiais. A razão das reestruturações, quase sempre com o despedimento de trabalhadores, era sempre a mesma: livrar-se do que dava prejuízo para se concentrar no que, na opinião dos responsáveis, seria rentável. E assim a Philips acabou reduzida ao negócio original criado pelos seus fundadores, a iluminação, e ao dos equipamentos médicos, para tirar partido da crescente procura induzida por uma população cada vez mais envelhecida e doente.

A realidade, contudo, mostrou-se bem diferente do que os “reestruturadores” anunciaram. Várias das unidades descartadas, entres elas, por exemplo, a TSMC de Taiwan que é apenas o segundo maior produtor mundial de semicondutores, acabaram por se valorizar e obter lucros muito superiores aos da empresa mãe. E a fazer fé do relatório de resultados de 2022 (https://www.results.philips.com/), tudo leva a crer que até o negócio da saúde da Philips não tem a rentabilidade que foi anunciada em 2016.

Sem querer ser faccioso, mas não posso deixar de citar o comentário que li algures: “A Philips é um exemplo do que acontece quando se substitui engenheiros por MBA's e contadores de feijões.”

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

Bodas de ouro

De facto, as nossas vidas cruzaram-se há mais tempo, quando fomos morar para o mesmo prédio em Lisboa, teria eu uns dez anos e a João oito. Mas há cinquenta anos decidimos fazer a nossa festa. Primeiro em Lisboa, na igreja de São Roque, com a família, as amigas e os amigos.

Uma festa bonita, em que dois dos protagonistas não seguiram o guião: o noivo porque não acreditava no ritual e o sacerdote, porque falava para um tipo que não sabia as orações e não abria a boca. A verdade é que, por mérito do simpático clérigo, correu tudo bem. Certamente convencido que um dia o noivo veria a luz, cumpriu a sua função, abençoou a união e desejou-nos felicidades.
 

Mas a festa continuou no dia seguinte, em Cascais, no pavilhão do Dramático de Cascais. O jovem casal não podia perder um dos dois concertos dos Procol Harum, uma novidade absoluta no Portugal cinzentão daquele tempo. Tinha acabado de sair o álbum “Grand Hotel” e “A Whiter Shade of Pale” era umas das músicas de namoro. Por isso, com alguns dos amigos do noivo que aparecem na foto, rumaram a Cascais na tarde do dia 25 para o segundo concerto.

O primeiro tinha acabado de madrugada porque a banda chegou depois da meia-noite e à saída a polícia de choque aconchegou com bastonadas os espectadores que tardaram a dispersar. Mas o segundo correu sem problemas. E para o casal foi um começo de lua-de-mel inesquecível!

Passados cinquenta anos, não vi a luz de que o sacerdote falou, mas o amor que nos levou à igreja de São Roque é hoje muito mais forte. E a festa fazemo-la com duas filhas, dois genros e oito netos.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

Estúpidas são as galinhas

 



Hoje, a bordo do projecto “Semear Abril”, fui com os meus amigos José Curado e Carlos Costa debater temas como a “Gestão de Conflitos”, “Liderança e Disciplina” e ”Responsabilidade e Limites das Liberdades Individuais” com o 4º ano da EB1 José Jorge Letria, em Cascais.

A partir do conto “Estúpidas são as Galinhas” do Carlos Costa, falámos também de “Segurança no Mar” e mostrámos que é imperativo que a vida a bordo seja dominada por um espírito cooperativo e solidário dominado pelo princípio da unidade de mando.

O conto “Estúpidas são as Galinhas” foi inspirado pela carta do Vice-Rei da Índia, marquês de Távora, para a Secretaria de Estado em Lisboa acerca da sua viagem a Goa em 1750, onde afirmava que “a insensibilidade e falta de caridade por parte dos marinheiros são indescritíveis. Posso assegurar-lhes que, regra geral, este tipo de gente sente mais a morte de um dos seus frangos do que a perda de cinco ou seis dos seus companheiros de viagem”.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

"Se vogliamo che tutto rimanga come è, bisogna che tutto cambi"


Alexandra Reis
 (foto original do Expresso)


"Se queremos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude”, foi o que Giuseppe Tomasi di Lampedusa escreveu na única obra que lhe conhecemos, “Il Gattopardo”.

A frase deu-lhe a fama que não gozou em vida porque o romance foi rejeitado por vários editores e só foi publicado dois anos depois da sua morte. Mas hoje é repetida em todo o mundo, quase sempre alterada para confirmar o pensamento do autor: "Para que tudo fique na mesma, é preciso que alguma coisa mude."

Lembrei-me de Lampedusa quando ouvi a notícia da demissão de Alexandra Reis. Era a mudança inevitável para que continuemos a acreditar que virão soluções decentes. Soluções que não virão, por mais mudanças que venham a acontecer.

É óbvio que a nomeação de Alexandra Reis não foi uma solução decente, mas duvido que o seu pecado maior tenham sido os 500 mil euros de indeminização da TAP. Quantos pecados destes, e mais graves, foram, e continuarão a ser, cometidos na teia de cumplicidades entre dirigentes partidários e da administração e empresas públicas, sem que houvesse um coro de virgens ofendidas?

Sei por experiência própria que o trabalhador comum não tem direito a tais indeminizações. Sei como é difícil receber indeminizações incomparavelmente mais reduzidas depois de trabalhar durante muitos mais anos, às vezes uma vida. 

Sei o que tive de lutar, até no tribunal, pela indemnização dez vezes menor a que tinha legalmente direito quando fui despedido. Mas o Olimpo dos escolhidos para governar o Estado e as empresas não se rege pelas mesmas regras que o cidadão comum e por isso ouvimos dizer que Alexandra Reis teria, por lei, direito a uma indeminização três vezes superior!

A Alexandra Reis secretária de Estado foi afastada para que a teia de cumplicidades entre dirigentes partidários e da administração e empresas públicas continue como está. Amanhã serão outros, para que tudo mude e as gentes do arco da governação (um termo que também mudou, lembram-se?) continuem a cometer pecados tão ou mais graves do que o dela.

Só peço que nos poupem aos discursos hipócritas. Todos sabemos que as vossas mudanças, tal como Lampedusa escreveu, são para que tudo continue como está.