segunda-feira, 26 de outubro de 2026

A geopolítica do olhar



Nas edições de hoje, a imprensa mundial expõe uma profunda assimetria na forma como retrata as grandes crises do nosso tempo. Quando observadas pela lente local, estas convulsões assumem uma visceralidade existencial. Em Cuba, o Granma e o Trabajadores denunciam os custos humanos do embargo norte-americano — 367 milhões de dólares em prejuízos sanitários, cirurgias à luz de telemóveis, mais de cem mil doentes em espera (incluindo doze mil crianças); no Médio Oriente, relatórios e jornais regionais expõem a devastação de Gaza, a destruição de 48 aldeias no Líbano e o cerco a Hébron, com a expulsão de 2600 palestinianos; em França, a imprensa de Paris divide-se entre o alarme do Le Figaro perante o "choque de descivilização" e a denúncia do L'Humanité contra a violência de extrema-direita e a repressão estatal.

Contudo, ao cruzarem fronteiras, estes acontecimentos passam por filtros ideológicos e estratégicos que alteram radicalmente a sua natureza. Na imprensa ocidental, a tragédia médica cubana é quase totalmente silenciada, surgindo apenas como moeda de troca eleitoral nas eleições intercalares da Florida. Por sua vez, a revolta social francesa é instrumentalizada em Espanha e em Itália como um "espelho de contágio" para combater a oposição interna, enquanto o drama no Médio Oriente é frequentemente reduzido ao xadrez da sobrevivência política de Benjamin Netanyahu e às flutuações do preço do petróleo.

Para lá do eixo atlântico, o alheamento é ainda mais vincado. No diário asiático South China Morning Post, a crise no Médio Oriente é remetida para um breve despacho nas páginas interiores e a situação cubana é simplesmente ignorada, cedendo prioridade absoluta às ambições industriais e à reunificação com Taiwan.

Esta triagem informativa demonstra que a compaixão e a gravidade das crises não são valores universais no espaço público global, mas variáveis dependentes da proximidade geográfica e do cálculo de poder. Quando o sofrimento humano só merece destaque de primeira página se servir uma agenda política local ou um interesse geopolítico distante, o jornalismo tornar-se numa lente distorcida do mundo. O verdadeiro perigo do nosso tempo não é apenas a desinformação, mas a indiferença selectiva que decide quem tem o direito a ser visto e chorado.

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