A prontidão operacional de um navio não depende apenas da sua guarnição. Depende também de uma estrutura de apoio em terra capaz de assegurar, entre outros requisitos, que existem os sobressalentes certos no momento certo. Aparentemente, a fazer fé na entrevista do Chefe do Estado-Maior da Armada (CEMA), Almirante Jorge Nobre de Sousa, no Jornal Nacional da TVI do passado dia 17, o planeamento dos lotes de sobressalentes evoluiu de modo muito significativo entre a classe Vasco da Gama e as futuras FREMM EVO.
No caso das fragatas da classe Vasco da Gama, a Marinha adoptou pela primeira vez um modelo científico para calcular os lotes de sobressalentes. Esse modelo baseava-se na metodologia de Apoio Logístico Integrado, conhecida internacionalmente por Integrated Logistic Support ou ILS, e estava alinhado com normas militares do Departamento de Defesa dos Estados Unidos e da US Navy. Entre essas referências encontravam-se as especificações da série MIL-STD-1388, relativas à Logistic Support Analysis, bem como os manuais de engenharia de suporte logístico. O planeamento incidia sobretudo sobre um horizonte de 2 anos.
A lógica seguida era essencialmente estatística. Recorria-se a fórmulas matemáticas, em especial à distribuição de Poisson, para estimar quantas vezes um determinado componente poderia avariar, tendo por base o histórico fornecido pelo fabricante. Ao mesmo tempo, avaliava-se a criticidade de cada componente. Os componentes críticos exigiam níveis de confiança acima de 95%, o que significava que o lote de sobressalentes deveria garantir que a sua falta fosse uma situação muito pouco provável.
Aparentemente, nas novas fragatas FREMM EVO, a abordagem deixa de se concentrar apenas em ter peças sobressalentes disponíveis para a fase inicial de operação. Passa a privilegiar a sustentabilidade a longo prazo, procurando assegurar que os navios se mantêm operacionais de forma estável durante um período mais alargado.
A primeira diferença relevante está no horizonte de planeamento do lote de sobressalentes inicial incluído no contrato ou acordo de aquisição dos navios. Em vez de se calcular o lote apenas para os primeiros 2 anos, como acontecia no modelo anterior, o novo cálculo cobrirá os primeiros 5 anos de operação. Esta alteração permitirá uma visão mais robusta das necessidades logísticas e reduz o risco de rupturas prematuras de stock.
A segunda diferença prende-se com a manutenção integrada. Pela primeira vez, o pacote de peças adquirido juntamente com os navios inclui também tudo o que será necessário para a primeira grande manutenção planeada, prevista para 2035. Esta opção liga desde o início a compra inicial de sobressalentes ao ciclo real de manutenção dos navios.
A terceira diferença está na autonomia. Ao adquirir antecipadamente sobressalentes para um ciclo mais longo, a Marinha reduz a dependência de orçamentos anuais incertos e aumenta a probabilidade de manter os navios operacionais durante os primeiros cinco anos.
Mas embora não referido pelo Almirante CEMA, a grande vantagem da abordagem associada às FREMM EVO, que não era tecnicamente possível na classe Vasco da Gama, poderá ser a Manutenção Baseada na Condição, também conhecida por CBM, apoiada por Gémeos Digitais. Esta mudança alterará a forma como se decide quando intervir nos equipamentos.
Na classe Vasco da Gama, a manutenção é feita sobretudo de duas formas. Pode ser reativa, quando a intervenção acontece apenas depois de uma avaria, ou pode seguir um calendário fixo, por exemplo com a substituição de uma peça a cada determinado número de horas de funcionamento ou período de calendário, mesmo que essa peça ainda esteja em bom estado.
Nas FREMM EVO, a lógica poderá ser diferente. Os navios poderão estar equipados com sensores avançados capazes de acompanhar, em tempo real, o desgaste efectivo de componentes de sistemas e equipamentos críticos. Com essa informação, a decisão de manutenção passará a basear-se no estado real do equipamento e não apenas numa previsão estatística ou num prazo fixo.
As vantagens desta nova política serão muito relevantes. Em primeiro lugar, há menos desperdício, porque um componente só é substituído quando os dados indicam que se aproxima uma falha, e não apenas porque passou determinado tempo. Em segundo lugar, aumenta a previsibilidade, já que o sistema pode avisar os serviços de apoio em terra com antecedência, permitindo que esteja disponível quando o navio chega à base.
Além disso, esta abordagem poderá contribuir para reduzir os stocks parados. Com previsões mais exactas, a Marinha não precisará de manter tanto capital imobilizado, ou seja, dinheiro parado em prateleiras sob a forma de peças guardadas para prevenir avarias aleatórias. A incerteza estatística diminuirá porque passa a ser complementada por telemetria real proveniente dos navios.
Em suma, passar-se-á de um modelo centrado em prever o azar, assente na estatística de falhas aleatórias, para um modelo orientado para gerir o estado de saúde do navio. O objetivo será garantir maior prontidão operacional, enquanto se melhora a eficiência financeira da gestão logística.

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