quinta-feira, 11 de junho de 2026

Salazar, Trump e o poder como arma sagrada

 

António de Oliveira Salazar e Donald Trump, apesar da distância histórica e geográfica, partilham a mesma lógica de poder. Para ambos, o Estado deixa de ser uma estrutura civil e passa a ser o executor de uma vontade divina. A liderança política apresenta-se assim como escolha sagrada e converte a governação num mecanismo de consagração do poder contra inimigos descritos como ameaças políticas e espirituais.

No Estado Novo, Salazar fundiu o destino de Portugal com o catolicismo sob o lema "Deus, Pátria e Família". A expansão colonial foi elevada a missão civilizadora e usada para revestir a dominação de legitimidade religiosa. Quando a Guerra Colonial começou em 1961, a propaganda do regime transformou o conflito num imperativo sagrado. O sacrifício militar no Ultramar foi vendido não como cálculo geopolítico, mas como cruzada contra o ateísmo comunista. No interior do regime, a repressão surgia como defesa de uma ordem natural, em que a autoridade era apresentada como dom providencial e a dissidência era tratada como ofensa à própria Nação.

Donald Trump consolidou, por sua vez, uma imagem messiânica através do "Paradigma de Ciro", a ideia de um líder moralmente falho, mas escolhido por Deus para salvar os Estados Unidos de uma alegada ruína iminente. Depois de sobreviver ao atentado de 2024, lido por apoiantes como milagre, reforçou a pose de guerreiro santo. Essa visão legitima a guerra externa e o recurso à força como cruzada justa contra globalistas e marxistas. No plano interno, a agressividade política e a retórica de vingança apoiam-se em leituras selectivas da Bíblia que apresentam o governo como instrumento divino de punição dos maus.

Nos dois casos, a fé deixa de orientar a consciência e passa a blindar o poder. Salazar usou o altar para sustentar um império imóvel. Trump mobiliza um nacionalismo cristão agressivo para depurar uma nação que descreve como doente e quebrada. A guerra, militar ou cultural, surge assim como instrumento de purificação política revestido de mandato divino.

A sacralização do Estado e do líder não eleva a fé. Degrada-a ao convertê-la em instrumento de obediência, violência e legitimação do abuso de poder.

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