Uma análise divulgada recentemente pelo Dr. Warwick Powell, professor adjunto na Universidade de Queensland, no seu Substack, cruza econometria, cadeias de abastecimento e análise militar para observar a guerra na Ucrânia quase como se fosse uma equação em movimento. A sua abordagem usa um modelo de Lanchester adaptado, onde tropas, blindados e munições são convertidos numa métrica comum, as chamadas unidades letais, para medir a evolução do poder de combate.
A conclusão central é dura e simples de enunciar: a guerra tornou-se um conflito de atrito em que vence quem repõe melhor as perdas e o modelo sugere que a superioridade russa na reposição de homens e material está a empurrar a Ucrânia para uma degradação progressiva e difícil de travar. Powell identifica ainda um ponto de ruptura, quando a densidade da força desce abaixo de 73 por cento do pico, a partir do qual as perdas deixam de ser lineares e passam a crescer de forma exponencial, num colapso operacional não linear apoiado na Lei Quadrática de Lanchester. As suas projeções mais recentes colocam esse limiar entre julho e setembro de 2026, apontando para uma possível exaustão funcional das forças ucranianas nos meses seguintes, embora o próprio autor reconheça que variáveis políticas e tecnológicas podem alterar a cadência do processo.
Em 2022, muita gente também acreditou que a guerra na Ucrânia seria decidida em poucos dias. Os modelos eram sofisticados, os computadores eram poderosos e os especialistas falavam com a segurança de quem acredita ter a resposta certa. Mas a guerra, como quase sempre acontece, tratou de desmentir a elegância das previsões. O problema não estava apenas nos cálculos, estava naquilo que os cálculos não conseguiam ver. A corrupção, a improvisação, o medo, a resistência humana e a capacidade de adaptação alteraram por completo a equação.
A guerra na Ucrânia tornou-se, acima de tudo, uma guerra de desgaste. A tecnologia moderna não trouxe apenas mais poder de fogo; trouxe também visibilidade total do campo de batalha. Drones, satélites e sensores transformaram a frente de combate num espaço quase transparente. Já não é fácil concentrar forças sem ser detectado. Já não é simples avançar em massa sem ser imediatamente castigado. A surpresa, que durante séculos foi uma das armas decisivas da guerra, ficou muito mais difícil de obter. E quando a surpresa morre, a manobra perde espaço. O conflito deixa de ser uma corrida rápida e passa a ser uma luta lenta, brutal e persistente para destruir a capacidade do inimigo mais depressa do que ele consegue reconstruir.
É aqui que a matemática entrou de novo em cena pela mão de Powell. As leis de Lanchester ajudam a explicar esta lógica. Numa guerra moderna, em que armas de longo alcance e fogo concentrado contam mais do que o simples número de homens, a vantagem quantitativa pode multiplicar-se de forma implacável. Não basta ter mais forças; importa também saber como as empregar. A força que consegue concentrar melhor o seu fogo, a sua artilharia ou os seus meios de ataque tende a impor perdas desproporcionais ao adversário. Em teoria, isto parece frio e limpo. Na prática, porém, a guerra raramente respeita a pureza dos modelos.
Há uma tensão entre a fórmula e a realidade. De um lado, há a tentativa de transformar soldados, tanques, projéteis e drones em unidades comparáveis. Do outro, há a vida concreta, com todas as suas imperfeições. Um exército pode parecer sólido numa folha de cálculo e estar, no terreno, corroído por problemas invisíveis. Pode ter blindados, mas faltar manutenção. Pode ter munições, mas carecer de logística. Pode ter oficiais, mas sofrer de corrupção. E pode ter planos brilhantes, mas ser traído por pneus baratos, comunicações frágeis ou decisões absurdas.
A guerra dos drones levou esta lógica a um novo patamar. O que antes era um conflito de grandes massas passou a ser também uma guerra de saturação. Um sistema de defesa caro pode ser levado ao limite por enxames de drones relativamente baratos. Aqui, o problema não é apenas militar; é económico. Se um míssil custa muito mais do que o alvo que destrói, o combate deixa de ser apenas uma questão de fogo e passa a ser uma questão de sustentabilidade. Quem gasta mais depressa do que o outro consegue repor acaba por ficar sem fôlego. E numa guerra longa, o fôlego é quase tudo.
Há, contudo, uma lição ainda maior. A guerra não é só feita de metal e números, mas também de sistemas humanos. Muitos modelos falham porque ignoram o caos da corrupção, o efeito da moral, a capacidade de adaptação e a pressão de factores externos como a ajuda internacional ou as mudanças na economia mundial. A Rússia, por exemplo, não colapsou como alguns previam. O impacto das sanções foi real, mas foi amortecido por mecanismos de adaptação, pelo choque dos preços da energia, por redes comerciais alternativas e pela transformação da economia em economia de guerra. Ou seja, os números contam, mas não contam tudo.
No fundo, a grande pergunta que fica no ar é simples e perturbadora: até onde consegue a matemática explicar a guerra? Pode medir perdas, taxas de desgaste, custos e probabilidades. Pode até antecipar pontos de ruptura. Mas não consegue prever inteiramente a teimosia de um povo, a invenção de uma resistência, a capacidade de uma sociedade se reorganizar sob pressão ou a mutação de um conflito convencional em algo novo e imprevisível. A guerra na Ucrânia mostra precisamente que a matemática é indispensável, mas não é soberana.
Talvez seja essa a verdadeira lição. A guerra moderna é uma luta entre sistemas, mas também entre limites. Os modelos ajudam a ver o que os olhos não alcançam. Ainda assim, basta um detalhe humano para desviar uma previsão inteira. E é nessa fricção entre o cálculo e o real, entre a previsão e o improviso, que a História continua a ser escrita. A matemática pode dizer muito sobre a guerra. Não pode, porém, dizer tudo sobre o homem.
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