Já comparei Trump com Salazar. Mas há outras comparações que parecem absurdas até deixarem de o ser. O movimento MAGA nos EUA e o regime de Teerão surgem em polos opostos do mundo político e religioso. Mas, quando se olha para a forma como entendem o poder, a semelhança é difícil de ignorar. Ambos desconfiam do pluralismo, tratam a diferença como ameaça e preferem a obediência à convivência democrática. O que os aproxima não é a fé que proclamam. É de novo a tentação de usar a fé para mandar.
A religião pode inspirar comunidades e orientar consciências. Torna-se perigosa quando se apresenta como licença para capturar o Estado. É aí que a política deixa de servir cidadãos e passa a impor crentes. No nacionalismo cristão que gravita em torno do universo MAGA, essa ambição é cada vez mais visível. Não se trata apenas de afirmar valores conservadores. Trata-se de reescrever a História, ocupar instituições e moldar a lei à imagem de uma verdade única. O resultado é sempre o mesmo. Quem não cabe nessa verdade passa a contar menos ou a não contar.
É por isso que estes movimentos precisam de líderes com aura de eleito. A figura providencial serve para justificar tudo o que, em circunstâncias normais, seria inaceitável. Abusos, mentiras e radicalização deixam de ser defeitos políticos e passam a ser sinais de missão. A disputa democrática transforma-se então numa guerra moral. O adversário deixa de ser adversário e passa a ser inimigo. Quando a política chega a este ponto, o compromisso parece traição e a democracia começa a desfazer-se por dentro.
O perigo real não está no folclore ideológico nem na retórica incendiária. Está na erosão lenta das regras que permitem viver com diferença, liberdade e discordância. Sempre que a política se ajoelha perante uma verdade sagrada, o espaço público encolhe. E quando o espaço público encolhe, cresce a violência, encolhe a cidadania e empobrece a democracia. É por isso que esta convergência deve ser levada a sério. Não como curiosidade intelectual, mas como aviso.
Defender o pluralismo, a liberdade individual e a separação entre fé e poder político não é um luxo teórico nem uma preocupação abstracta. É uma linha de defesa essencial contra projectos que querem capturar o espaço público e fechar o futuro dentro de uma única verdade. Se essa vigilância falhar, o preço será pago não apenas pelas instituições, mas pela vida concreta de quem depende delas para viver com segurança, dignidade e liberdade
Sem comentários:
Enviar um comentário