domingo, 12 de julho de 2020

O outro Frei Liís de Sousa

 


Conversava ontem com um amigo e ele lamentava que os intelectuais portugueses queiram que a sociedade portuguesa se adapte aos seus modelos em vez de tentarem compreender o seu passado para encontrarem o melhor caminho para o futuro. Opinei que muitos dos radicalismos ideológicos e das falsas narrativas históricas e sociais resultam da ignorância dos defensores. Só a ignorância pode explicar a defesa cega de um Portugal ideal de impolutos e esforçados heróis civilizadores ou, no extremo oposto, de um Mundo de grandes civilizações que os marinheiros e exploradores portugueses terão encontrado e prejudicado com o esclavagismo, o colonialismo, o fascismo e o racismo português.

É certo que no caso da minha geração, anos e anos de propaganda salazarista nas escolas tinham de fazer mossa e só por milagre poderiam formar cidadãos cultos e capazes de uma análise isenta da realidade portuguesa. Provavelmente o mal já vinha de trás mas o regime não perdia uma oportunidade para nos incutir os seus valores e a sua visão do mundo. Lembro-me, por exemplo, do efeito que o “Frei Luís de Sousa” de Almeida Garret teve em mim quando o estudei no 4º ano do liceu (actual 8º ano). É certo que muitos esqueciam rapidamente os detalhes da obra-prima de Garret mas o realce dado ao alegado patriotismo do protagonista Manuel de Sousa Coutinho contra o domínio filipino ("Há-de saber-se no mundo que ainda há um português em Portugal"), cujo gesto de incendiar a própria casa foi a prova máxima, ficava facilmente na memória.

A dimensão patriótica do comportamento do futuro frei Luís de Sousa não mereceria discussão se se tratasse de uma personagem de ficção criada por Garret. Mas como nos era dito e salientado que Manuel de Sousa Coutinho existiu, que de facto tinha incendiado a sua casa na rua Direita de Almada porque um dos governadores de Lisboa ao serviço de Filipe II a queria ocupar durante a peste e que pouco tempo depois tinha entrado no convento, perturbado pela morte da filha, vale a pena perceber melhor quem era na realidade o fidalgo Manuel de Sousa Coutinho e se de facto se revoltou contra o soberano castelhano.

Acontece que três dos irmãos Coutinho, o João Rodrigues, o Gonçalo Vaz e o nosso Manuel de Sousa, foram apoiantes da causa filipina e por ela beneficiados. João Rodrigues foi governador e contratador em Luanda onde interveio de forma privilegiada no tráfico de escravos e foi-lhe adjudicado o “asiento” das Índias de Castela. Gonçalo Vaz sucedeu-lhe no contrato e Manuel de Sousa foi administrador geral do “asiento” na Cartagena da Índias e em Buenos Aires durante pelo menos quatro anos. Manuel de Sousa terá sido a vertente americana do circuito Buenos Aires-Rio de Janeiro-Luanda estabelecido pelos irmãos Coutinho, negociando escravos, prata e cavalos durante uma boa parte dos mais de dez anos entre o incêndio da casa de Almada e fuga para Madrid e a entrada na vida eclesiástica em 1613.

Os irmãos Coutinho mantiveram sempre uma excelente relação com Felipe II e, na sucessão, estabeleceram com Felipe III um pacto em torno do tráfico de escravos entre a África Centro-Ocidental e as Índias Ocidentais. A partir de 1608 a aliança passou por uma crise por acção dos comerciantes de Sevilha vinculados à Casa de Contratación mas o plano falhou e o monarca castelhano voltou a incluir portugueses, já não os irmãos Coutinho, no negócio colonial, particularmente no tráfico de escravos.

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