quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

"Se vogliamo che tutto rimanga come è, bisogna che tutto cambi"


Alexandra Reis
 (foto original do Expresso)


"Se queremos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude”, foi o que Giuseppe Tomasi di Lampedusa escreveu na única obra que lhe conhecemos, “Il Gattopardo”.

A frase deu-lhe a fama que não gozou em vida porque o romance foi rejeitado por vários editores e só foi publicado dois anos depois da sua morte. Mas hoje é repetida em todo o mundo, quase sempre alterada para confirmar o pensamento do autor: "Para que tudo fique na mesma, é preciso que alguma coisa mude."

Lembrei-me de Lampedusa quando ouvi a notícia da demissão de Alexandra Reis. Era a mudança inevitável para que continuemos a acreditar que virão soluções decentes. Soluções que não virão, por mais mudanças que venham a acontecer.

É óbvio que a nomeação de Alexandra Reis não foi uma solução decente, mas duvido que o seu pecado maior tenham sido os 500 mil euros de indeminização da TAP. Quantos pecados destes, e mais graves, foram, e continuarão a ser, cometidos na teia de cumplicidades entre dirigentes partidários e da administração e empresas públicas, sem que houvesse um coro de virgens ofendidas?

Sei por experiência própria que o trabalhador comum não tem direito a tais indeminizações. Sei como é difícil receber indeminizações incomparavelmente mais reduzidas depois de trabalhar durante muitos mais anos, às vezes uma vida. 

Sei o que tive de lutar, até no tribunal, pela indemnização dez vezes menor a que tinha legalmente direito quando fui despedido. Mas o Olimpo dos escolhidos para governar o Estado e as empresas não se rege pelas mesmas regras que o cidadão comum e por isso ouvimos dizer que Alexandra Reis teria, por lei, direito a uma indeminização três vezes superior!

A Alexandra Reis secretária de Estado foi afastada para que a teia de cumplicidades entre dirigentes partidários e da administração e empresas públicas continue como está. Amanhã serão outros, para que tudo mude e as gentes do arco da governação (um termo que também mudou, lembram-se?) continuem a cometer pecados tão ou mais graves do que o dela.

Só peço que nos poupem aos discursos hipócritas. Todos sabemos que as vossas mudanças, tal como Lampedusa escreveu, são para que tudo continue como está.

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

Carta à Mafalda


Rendimento familiar médio líquido equivalente por idade,
 para britânicos nascidos em diferentes décadas


Disseste que pertences à primeira geração que vai viver pior do que as anteriores.

Percebi o que querias dizer e, como tu, também estou preocupado com a quebra do contrato social entre gerações. Sei que com a crise económica se abriu uma brecha geracional e que a ascensão social automática deixou de ser uma certeza para a tua geração.

Com efeito, na última década e meia, as traves-mestras da relação entre gerações foram destruídas. A expectativa de que jovens da tua geração viveriam melhor do que os das anteriores foi desmentida pela realidade e todos sabemos que vocês são os que mais sofreram os efeitos da crise, com a precarização do emprego, a discriminação salarial, a emigração para sobreviver ou, no melhor dos casos, para poder aplicar os conhecimentos adquiridos, a maior parte das vezes com dinheiro público, etc.

Mas como em todas as questões, é preciso tentar ver um pouco mais além, tanto mais que pelo menos desde 2016 se repete até à exaustão, por toda a Europa, que os filhos terão de viver pior que os pais, sem que se pare para reflectir o que isso significa e como pode ser contrariado.
 
O alarme foi dado pelo jornal britânico The Independent quando, em Setembro de 2016, publicou um artigo com o título “Children of Thatcher era have half the wealth of the previous generation”, seguido do sub-título “People born in the early 1980s are the first post-war generation to reach their thirties with smaller incomes than those born a decade earlier”. O artigo, muito crítico das políticas neoliberais, citava dados de um relatório do Institute of Fiscal Studies intitulado “The Economic Circumstances of Different Generations: The Latest Picture”.

A partir dos dados do rendimento familiar médio líquido equivalente (depois de deduzidos os custos de habitação) por idade, para britânicos nascidos em diferentes décadas (ver figura), o estudo do IFS constatou que os nascidos no início da década de 1980 começaram a vida adulta com menores rendimentos do que os nascidos na década anterior (1970).
 
Constituam assim a primeira geração do pós-guerra a iniciar a vida activa com rendimentos menores do que os seus antecessores auferiam com a mesma idade, reflectindo o facto de que a crise económica de 2006 tinha atingido mais duramente o salário e o emprego dos jovens adultos. No entanto, o mesmo estudo teve o cuidado de notar que os nascidos no início da década de 1980 começaram a vida adulta com rendimentos muito mais elevados do que os nascidos nas décadas de 1960 e anteriores.

Embora os números fossem da sociedade britânica, podiam facilmente ser extrapolados para o resto da Europa e, talvez por isso, a mensagem simplificada de que a geração dos Millennials seria a primeira que vai viver pior do que as anteriores, acabou por ser propagada pelos sectores ideológicos mais radicais e sentida, muito em particular, pelos que como tu que se tornaram adultos no auge da pandemia de covid-19.

Em consequência, a crise do capitalismo e da quebra da promessa de que, com preparação e esforço individual, cada geração viveria melhor e num mundo melhor do que a dos seus pais, acabou por ser usada para criar artificialmente uma clivagem geracional que ultrapassa a questão dos rendimentos e afecta as expectativas pessoais mais profundas da tua geração.

Neste contexto, compreendo que a tua geração veja os idosos como pessoas que realizaram os seus sonhos, enquanto os netos sentem que o futuro lhes foi roubado, mesmo que estudem e trabalhem muito. De facto, muitos idosos estão apenas preocupados com um vírus, enquanto recebem uma pensão de reforma significativamente superior ao salário médio a que os seus netos podem aspirar, mesmo a médio prazo.

Confesso, Mafalda, que não foi esta a sociedade que na década de 1970 sonhei para ti, para os teus irmãos e para os teus primos. E que sei que a frustração das expectativas de futuro, materiais e emocionais, é uma das feridas mais difíceis de sarar numa sociedade.

Por isso estou disponível para contigo e com os jovens da tua geração, tentar restaurar a confiança entre gerações que a crise do capitalismo destruiu. É que, apesar do fatalismo da mensagem propagada, a tua geração, à semelhança do que aconteceu com a minha na década de 1970, não está condenada a não ter futuro.

domingo, 20 de novembro de 2022

Não tem, mas inventa!

Há quem diga que o meu pai tinha uma relação muito especial com o dinheiro, mas eu tenho a certeza de que ele não tinha qualquer relação com o dinheiro. Nos cinquenta anos de actividade profissional, nunca soube quanto ganhava. Quando o vencimento era pago em numerário, recebia e entregava o envelope à minha mãe, e não pensava mais no assunto. Quando passou a receber no banco, libertou-se totalmente da preocupação de levantar o ordenado.
 
Viveu noventa e um anos, sempre com muito pouco dinheiro na carteira, só o estritamente necessário para os seus gastos pessoais, que eram diminutos. O orçamento familiar era administrado pela minha mãe, que se encarregava de adquirir todos os bens necessários, dos alimentos aos medicamentos, dos livros à roupa, dos computadores aos carros.
 
Quando o meu pai, por qualquer razão, decidia premiar monetariamente os filhos, ou mais tarde os netos e os bisnetos, chamava a minha mãe ou, na sua ausência, escrevia num pedaço de papel: “VALE cinco escudos”, ou outro valor qualquer. Depois lá íamos nós ter com a minha mãe para resgatar o vale e ouvir o discurso do costume: — O teu pai é muito esperto, não tem dinheiro, mas inventa!

Lembrei-me disto a propósito da sempre ameaçadora crise bancária e de como ela tem servido para nos pôr a pagar a vida faustosa dos bancos e dos banqueiros. Claro que os banqueiros sabem que a apregoada crise não será como a pintam, mas dá muito jeito manter a ameaça.
 
A Irlanda provou, em 1970, que era possível passar sem os banqueiros que fizeram uma greve e fecharam os bancos para vergar os trabalhadores bancários. Ao fim de seis meses os banqueiros recuaram porque nada de grave se tinha passado. A população criou um sistema de trocas, com instrumentos semelhantes aos vales do meu pai, e mostrou que os bancos eram menos necessários que a maioria dos serviços camarários.

É certo que os irlandeses precisaram de uma espécie de sistema financeiro, mas provaram que passavam bem sem os edifícios majestosos, os bónus e as remunerações obscenas, a especulação de risco e os resgates pagos pelos bolsos dos contribuintes. E que também passavam bem sem os reguladores e as guerras, reais ou inventadas, com os governos.

sábado, 17 de setembro de 2022

Vamos Semear Abril!



“De uma vez por todas o país tem de compreender que o maior défice que temos não é o das finanças. O maior défice que temos é o défice que acumulamos de ignorância, de desconhecimento, de ausência de educação, de ausência de formação e de ausência de preparação. É esse défice histórico que temos de vencer se quisermos – e não podemos deixar de querer – sermos (…) melhor do que os melhores. (…) É essa a ambição que temos que ter. É essa ambição que temos que concretizar.”

Quem disse isto há cinco anos foi António Costa, primeiro-ministro de Portugal desde 2015, num tempo em que o projecto “Abril Hoje” dava os primeiros passos na Escola Básica e Secundária de Carcavelos. Anotei o improviso do PM porque resumia o objectivo dos professores e alunos empenhados no sucesso do projecto.

Cinco anos depois, a ambição do PM parece ter esmorecido tal como esmoreceu o projecto “Abril Hoje”, depois de dois anos seguidos de realizações positivas na escola de Carcavelos e na Ibn Mucana. A pandemia não ajudou, mas não explica tudo o que de negativo aconteceu à cidadania e à Educação em Portugal.

Por exemplo, não explica a mediocridade, a iliteracia e a mistificação que dominam a comunicação social e a relação dos políticos com os cidadãos. Não explica a falta de respeito do Estado e da sociedade pelos professores e pelos outros profissionais da Educação. Não explica o abandono escolar e o desejo de emigrar de muitos jovens.

Professores maltratados e alunos desmotivados não contribuem para a formação de cidadãos, de homens conscientes, cultos, livres e iguais, verdadeiros protagonistas da democracia conquistada em 25 de Abril de 1974. Contribuem antes para o acumular da ignorância, do desconhecimento, da ausência de educação, formação e preparação de que falava o PM há cinco anos.

Sou um dos que acreditam que o défice histórico que continuou a agravar-se desde o discurso do PM não se atenua e elimina com a retórica, aparentemente progressista mas inconsequente, dos principais responsáveis pela Educação em Portugal.
 
Atenua-se e elimina-se com a valorização das Escolas e dos profissionais que nelas trabalham, em particular dos professores. Atenua-se e elimina-se com a participação e debate, pelos principais interessados, das soluções concretas para os problemas concretos que afectam a Educação, à semelhança do que fizeram os militares envolvidos na preparação e execução do 25 de Abril.

É por isso que a melhor forma de comemorar os 50 anos do 25 de Abril nas Escolas é fazer dele uma fonte de inspiração, actual e viva. É convocar as novas gerações para uma cidadania activa que acrescente à memória e legado de Abril um sentido actual de juventude e de futuro.

As comemorações dos 50 anos do 25 de Abril nas Escolas devem contribuir para a eliminação do nosso principal défice histórico e semear acção, vontade e liberdade no espírito das nossas crianças e jovens.
 
Em síntese, devem Semear Abril!

domingo, 11 de setembro de 2022

11 de Setembro de 2001

 


A Maria João entrou no meu gabinete e disse-me:
- Sabe que um avião chocou com uma torre em Nova Iorque? 
Fiquei surpreendido, mas não dei muita atenção, tinha de me despachar para ir buscar o meu tio ao São José. No trajecto fui ouvindo a TSF e percebi que a coisa estava complicada.

Soube nos dias seguintes que o atentado causara cerca de três mil mortos e que era obra de uma organização fundamentalista islâmica fundada pelo milionário saudita Osama bin Laden, sem, no entanto, perceber o seu impacto no futuro do mundo.

Só um mês depois, com a invasão do Afeganistão para alegadamente encontrar Osama bin Laden e outros líderes da Al-Qaeda, destruir a organização e remover do poder o regime talibã, comecei a perceber a dimensão e a natureza do problema.
 
E melhor percebi quando em Março de 2003, contra a opinião pública mundial e os milhões de cidadãos que se manifestaram na rua em centenas de cidades de todo o mundo, os EUA, com o apoio militar do Reino Unido, da Austrália e da Polónia, e o apoio político de governos como o de Portugal e o de Espanha, invadiram o Iraque, alegadamente para desarmar todo o seu arsenal nuclear, químico e biológico, e derrubar o regime de Saddam Hussein, que apoiaria e financiaria grupos terroristas como a Al-Qaeda. Observei e senti na Florida o fervor patriótico e a euforia da população americana naquele mês de Março.

Nenhum dos pretextos para a invasão do Iraque se confirmou e descobrimos rapidamente que todo o processo de decisão se baseou numa enorme mentira que abalou seriamente os alicerces do mundo democrático.
 
É verdade que as centenas de milhares de civis mortos e os milhões de desalojados resultantes das invasões do Afeganistão e no Iraque, a descredibilização de regimes democráticos e das instituições internacionais, a institucionalização da mentira e do logro como forma de governo, o clima generalizado de insegurança pública, ocorreram na sequência do 11 de Setembro de 2001.
 
É também verdade que a invasão militar de países independentes como forma de resolver conflitos internacionais, como recentemente sucedeu na Ucrânia, passou a ser justificada por muitos com base nas invasões posteriores ao 11 de Setembro de 2001.

Mas a responsabilidade por tais ocorrências só marginalmente pode ser atribuída aos que fizeram os aviões chocar com as torres de Nova Iorque.

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

Os responsáveis


Ao ouvir o primeiro-ministro e o presidente da República justificarem as medidas governamentais para minimizar os efeitos negativos da inflação nos rendimentos dos portugueses, lembrei-me de um texto que publiquei há seis anos no Facebook: Sinto que o debate ideológico sobre a união europeia é cada vez mais uma versão pobre das discussões inconsequentes entre Settembrini e Naphta no sanatório da Montanha Mágica de Thomas Mann. Receio que independentemente da simpatia que possam ter pelo humanismo de um ou pelo nacionalismo de outro, muitos dos jovens de hoje acabem como Castorp, o engenheiro naval de Hamburgo, arrastados para o “macabro baile” de um conflito europeu.

Tudo o que se passa hoje em Portugal e na Europa, incluindo o “macabro baile” de um conflito europeu e a consequente crise económica, depende da vontade de gente que não escolhemos democraticamente.

As políticas económicas adoptadas pelo governo de Portugal são determinadas ou condicionados por burocratas e políticos da união europeia que o PR classificou ontem como “radicais financeiros”. São eles que nos trouxeram até aqui, independentemente da vontade dos portugueses. Mas pouco ou nada falamos deles.

É como se concordássemos que tudo o que não conseguimos resolver hoje, pode ser explicado por um passado inventado ou ser resolvido num lugar imaginário a que chamamos futuro.

Consciente ou inconscientemente, ao esquecermos quem são os verdadeiros responsáveis pelo presente e que são eles que devem prestar contas, rejeitamos também a possibilidade de resolver o problema num tempo dilatado e denso, com gente dentro.

sábado, 3 de setembro de 2022

Legado


Alguém disse que as nossas conquistas interiores modificam a realidade exterior.
 
Não sei se é uma verdade universal, mas, no caso da minha Mãe, estou certo de que a sua força interior, a sua vontade de melhorar o mundo, a sua presença, fazem com a vida dos outros seja bastante melhor.
 
É esse o seu mais valioso legado aos bisnetos, a grande lição dos 95 anos de uma vida plena.