sábado, 29 de junho de 2024

Pedagogia do brincar

 

Brincar é central na forma como as crianças aprendem – a maneira como formam e exploram amizades, a maneira como moldam e testam hipóteses e a maneira como dão sentido ao seu mundo. Sabe-se como o brincar apoia a aprendizagem, mas não há muitos estudos sobre o que pode significar colocar o brincar no centro da escolarização formal.
 
Na última década, uma equipa do Project Zero da Harvard Graduate School of Education, em colaboração e financiada pela LEGO Foundation e com a participação de educadores de escolas da Dinamarca, África do Sul, Colômbia e EUA investigaram o tema e desenvolveram uma Pedagogia do Brincar (“A Pedagogy of Play - Supporting Playful Learning in Classrooms and Schools”).

Em Portugal, a Fundação Santander decidiu ser o motor da introdução nas escolas do método “Learning Through Play” ou “Aprender Através do Brincar". Trata-se de um projecto que está a começar e que precisa do empenho de todos: escolas, autarquias, associações, empresas e academia. Para dar um empurrão, a Fundação Santander Portugal, em colaboração com a Direção-Geral da Educação e a Rede de Bibliotecas Escolares, criou o prémio “Quem Brinca É Quem É” para distinguir e reconhecer projetos destinados a alunos do 1º e 2º ciclo e focados no método de aprendizagem “Aprender Através do Brincar”, criando uma rede de escolas comprometidas com este método com vista à partilha de boas práticas.

Depois de um processo que contou com mais de 400 candidaturas de todo o país, os projetos vencedores, de dez escolas e um município, foram ontem anunciados. Os vencedores vão receber por igual, um prémio no valor de cinco mil euros, uma viagem à LEGO House na Dinamarca, formação na metodologia promovida pela LEGO Foundation em Portugal e um kit LEGO ou uma mesa de reuniões LEGO.

Estes foram os projectos vencedores:
  • Movimento das Galochas – EB1/JI José Jorge Letria (Cascais): aborda o brincar de uma forma curricular, transversal e complementar, proporcionando liberdade aos alunos para descobrir, explorar, desafiar e explorar a natureza como intervenientes e não como espetadores. O projeto contou com o envolvimento da comunidade escolar na fase de diagnóstico e no acompanhamento inicial e prevê a abertura da Escola à Comunidade.
  • Projeto BEE – Bem-Estar na Escola – EB1+2 Dr. Anastácio Gonçalves (Alcanena): promove diversas oficinas criativas, em domínios como as Artes, a Escrita Criativa, a brincadeira livre com materiais diversos, educação física na natureza, atividades sensoriais e de relaxamento, atividades de ciências experimentais, visitas à comunidade. O projeto permite aos alunos experienciar uma grande variedade de experiências a brincar e envolve escola, família e comunidade.
  • Brincar e aprender, à chuva, vento e sol! – EB1/JI de Estrada – Ferreiros (Braga): criar e manter uma horta escolar e ainda construir uma cozinha de lama, promovendo uma aprendizagem ativa, em que a criança vai aprendendo por tentativas, ultrapassando as dificuldades de forma independente, incentivando-se a desenvolver as suas próprias ideias, desenvolvendo o pensamento criativo e crítico.
  • Escape Room Play & Learn – Centro Escolar de Alcobaça/Agrupamento de Escolas de Cister (Alcobaça): desenvolve uma ferramenta pedagógica em cenário de ‘Escape Room’ que desafia os alunos a trabalhar em equipa para desvendar enigmas, decifrar códigos e superar obstáculos.
  • Clube do Poupas – Agrupamento de Escolas de Figueira de Castelo Rodrigo (Figueira de Castelo Rodrigo): promove a educação financeira de forma lúdica através de atividades interativas como simulações financeiras da vida real e gestão de orçamentos, jogos educativos e campanhas de sensibilização. São envolvidas as famílias, e utilizados indicadores de participação, feedback dos alunos e observações diretas para avaliar o impacto das atividades, o desenvolvimento das competências financeiras e o fortalecimento das relações intergeracionais.
  • Executivo Júnior – EB1 Bairro Económico (Braga): consciencializar para a importância da democracia através da simulação durante 1 dia de uma assembleia composta por alunos, que simulam a atividade diária e tomadas de decisão da Junta de Freguesia local.
  • EmocionArte – Centro Escolar de Santiago (Aveiro): cria uma história em cadeia com os alunos do Pré-escolar e 1º ciclo ao longo de todo o ano letivo, culminando na apresentação de um teatro de marionetas no final do ano, protagonizado pelos alunos. Envolveu toda a comunidade, e surgiu em resposta a um desafio da Câmara Municipal de Aveiro, precisamente sobre métodos inovadores de aprendizagem.
  • Ciência Divertida: Saúl Dias Explora – Escola Básica Júlio-Saúl Dias (Vila do Conde): fomentar o gosto pela Ciência através do desenvolvimento de atividades de carácter prático, lúdico e experimental que ajudam as crianças/alunos a compreenderem e a aprenderem conceitos, nas áreas de Biologia, Geologia, Física e Química.
  • MyMachine – Agrupamento de Escolas Josefa de Óbidos (Óbidos): integra as crianças do pré-escolar e 1º ciclo com os alunos do ensino profissional e universidade, em que as crianças propõem e elegem uma ideia de uma máquina para resolver um problema, que depois é construída pela universidade, numa colaboração que combina diversos agentes da comunidade.
  • 4’Plays – Agrupamento de Escolas António Sérgio – EB1 do Marco (Vila Nova de Gaia): cativa os alunos para a aprendizagem através da resposta aos problemas que eles próprios identificam, com o objetivo de melhorar os seus resultados. Estão em implementação as diferentes atividades, incluindo a melhoria dos espaços de recreio, a tarde semanal do brincar na sala de aula, o convite às famílias para a construção de brinquedos e a biblioteca enquanto local para colocar as ideias em prática.
  • Novo Modelo Local de AEC – Eira da Brincadeira (Município de Pampilhosa da Serra): Implementa atividades do programa de enriquecimento curricular (AEC). Este modelo envolve os alunos numa assembleia semanal, onde democraticamente se elege um presidente, secretários e votam nas atividades. Conta com apoio de alguns órgãos. No entanto, dá à criança um papel central na sua educação, promove diferentes atividades, e leva as crianças a procurarem outros caminhos na sua aprendizagem.
  • Brincar na Rua – Academia de Música de Vilar do Paraíso (Vila Nova de Gaia) menção honrosa: ensinar educação rodoviária através de um jogo de tabuleiro, numa primeira fase. Numa segunda fase, interligar os conceitos com as outras disciplinas e diversas atividades na rua. Por fim, é suposto que estas crianças integrem uma equipa de voluntariado que vai disseminar os conceitos aprendidos na restante comunidade. Os objetivos estão bem definidos, o projeto bem estruturado e pretende envolver toda a comunidade, fazendo das crianças agentes de mudança.
Os meus parabéns especiais à EB1/JI José Jorge Letria de Cascais, uma das escolas do projecto “Semear Abril”.

quarta-feira, 26 de junho de 2024

Ainda o passeio

 


Uma brincadeira musical para todos os netos, inspirada por uma vivência com o mais novo, registada pelo mais velho.

domingo, 23 de junho de 2024

O bilhete de identidade de Silva Pais

 


Confesso que depois da visita à sede da PIDE/DGS, na António Maria Cardoso, poucos dias depois da ocupação pelas forças do MFA coordenadas pelo meu camarada e amigo Luís Costa Correia, fiquei com pouca vontade de lá voltar. Passados 50 anos, ainda me lembro do que senti ao percorrer aqueles espaços labirínticos e tenebrosos; ao ver as fotografias dos milhares de portugueses cuja vida foi devassada, destruída e reduzida a pastas de papéis, atadas com fitas e arrumadas em prateleiras; ao encontrar a minha ficha, preenchida à mão por mim, quando me matriculei no Técnico em 1968; ao ver os livros e publicações apreendidas e as centenas de revistas pornográficas que encontrava sempre que abria as gavetas das secretárias.

Quando falo da PIDE/DGS aos jovens, para além de relatar a minha fugaz visita ao edifício da António Maria Cardoso e de mostrar a ficha prisional do meu primo Benjamim, uma das 29 510 fichas dos 148 livros de registo de presos da PVDE/PIDE/DGS de 1934 até 18 de Abril de 1974 que a Torre do Tombo colocou online, e onde, ao longo de 9 anos, vários amanuenses registaram a forma como a repressão salazarista destruiu a vida de um jovem de 18 anos, socorro-me depois dos testemunhos de quem tem credibilidade. Desde logo dos testemunhos do Luís Costa Correia sobre os primeiros meses da ocupação da sede da PIDE/DGS como, por exemplo, a “semimória” que publicou em Agosto de 2020.

Relativamente às muitas outras histórias e historietas sobre essa ocupação sou muito cuidadoso. É o caso, por exemplo, da historieta que o comentador de assuntos soviéticos e russos José Milhazes conta no seu livro "Cunhal, Brejnev e o 25 de Abril - Como a União Soviética não quis a revolução socialista em Portugal", de 2013. Nele relata que um "agente soviético, Guenrikh Borovik," que passando por jornalista em maio de 1974 entra com "facilidade" na sede da PIDE em Lisboa, terá "roubado" o próprio cartão de identidade de Silva Pais, o director da então polícia política, apesar de ter sido revistado pelos militares do Movimento das Forças Armadas que guardavam o edifício.

Acontece que o Bilhete de Identidade de Silva Pais foi depositado pelo Luís Costa Correia no Centro de Documentação 25 de Abril da Universidade de Coimbra, como se pode confirmar pela consulta ao inventário do espólio que entregou àquela instituição.

sexta-feira, 14 de junho de 2024

A lição do Professor

Sei de um Professor que no último dia de aulas escreveu uma mensagem de agradecimento aos 99 alunos. Uma longa mensagem que os alunos não esquecerão, tenho a certeza.
 
Agradeceu a todos, sem excepção, o ano maravilhoso que lhe proporcionaram. Um ano em que não houve um aluno de quem não tenha gostado muito, de quem não tenha guardado pelo menos uma boa recordação e não queira voltar a encontrar no futuro, seja em que circunstância for.

Afirmou que cada um dos alunos tinha sido extraordinário e tinha cumprido, brilhantemente, o seu papel; que cada um deles permitiu que fosse professor de facto, puxando por ele, motivando-o e fazendo com que tivesse acabado o ano letivo um muito melhor ser humano.

Terminou dando os contactos para o caso de algum dos alunos precisar de alguma coisa dele e desejando felicidades para todos nas vidas que ainda mal começaram!

A mensagem é muito recente e bem real, tão real como o Professor que a escreveu. Felizmente é apenas um dos muitos professores exemplares que encontrei nas escolas públicas do ensino básico e secundário que tive a grata oportunidade de conhecer relativamente bem na última década.

terça-feira, 11 de junho de 2024

"Abril Hoje" na escola Fernão do Pó do Bombarral



Na sequência da conversa sobre o 25 de Abril no Agrupamento de Escolas Fernão do Pó no Bombarral no mês passado, a Professora Bibliotecária Célia Bento decidiu afixar na entrada da biblioteca e distribuir aos alunos e professores a "Carta de um jovem de Abril a um jovem de Hoje" que escrevi em 2017 para os alunos que participaram no projecto "Abril Hoje" na Escola Básica e Secundária de Carcavelos.

 
A carta foi o meu contributo para o estudo e debate do tema do desemprego, uma das principais preocupações manifestadas num inquérito inicial aos alunos do 3º ciclo do ensino básico e do ensino secundário. Nela contei a luta do meu Pai pelo emprego e pela dignidade profissional que aqui tenho recordado a propósito do 100º aniversário do seu nascimento. O tema foi então estudado por duas turmas do secundário, de Sociologia e de Economia, que apresentaram um relatório com sugestões de acções futuras.


Se a minha carta também tiver alguma utilidade para os alunos da Fernão do Pó, ficarei muito feliz.

sábado, 8 de junho de 2024

O poder colonial em Moçambique na década de 1950



Quando há uns anos publiquei pela primeira vez um texto sobre o relatório de 14 de Junho de 1958 do governador do distrito da Zambézia, o Inspector Administrativo Álvaro de Gouveia e Melo, para o governador-geral de Moçambique, o Capitão de Mar e Guerra Gabriel Teixeira, sobre as eleições presidenciais de 8 do mesmo mês, o meu amigo e conterrâneo António Sobrinho perguntou-me, compreensivelmente, se o documento fazia parte do espólio do meu Pai.

Respondi que não porque o meu Pai tinha fechado definitivamente o capítulo moçambicano da sua vida em 1961, raramente falava sobre ele e não guardou documentos da parte final daquele período. Como tive oportunidade de contar nas anteriores publicações sobre o 100º aniversário do nascimento do meu Pai, as autoridades coloniais moçambicanas, em 1959, expulsaram-no da terra onde nasceu, cresceu, casou, criou os dois filhos e exerceu uma intensa e desafiante actividade profissional. Foi um choque violento que o deitou abaixo e por pouco não acabou com a sua vida. Felizmente conseguiu ultrapassar os graves problemas de saúde e reconstruir a carreira profissional, primeiro em Portugal, depois no Brasil e mais tarde noutros países do Mundo, em moldes bem mais gratificantes e psicologicamente mais saudáveis do que em Moçambique.

Por mero acaso, encontrei o tal relatório numa pesquisa na internet, nos arquivos digitais da Fundação Mário Soares, como peça de um conjunto documental depositado pelo meu Camarada e Amigo Luís Costa Correia. Embora o arquivista tenha identificado o conjunto como “Relatório-Secreto n.º 2/G, das Eleições Presidenciais de 1958”, na realidade é uma colecção de documentos em que alguns são relatórios - o “Relatório-Secreto n.º 2/G” é apenas um deles - sobre aquelas eleições presidenciais, fundamentalmente em Moçambique. Como mais tarde o Luís Costa Correia me explicou, o conjunto documental em causa foi um dos dois únicos que retirou dos arquivos da DGS/PIDE, em Maio de 1974, quando coordenou a sua ocupação, para entregar posteriormente a entidades responsáveis por Arquivos históricos, por considerar que seria lamentável que fossem extraviados nos prováveis processos de transferências futuras. No entanto, quando retirou os documentos teve o cuidado de deixar no respectivo arquivo uma anotação explicativa da intenção de serem enviados a adequada entidade que estudasse os métodos eleitorais do Estado Novo, o que viria a ocorrer mais tarde.

Em boa hora o fez porque permitiu que ao ler aqueles documentos, confirmasse o que o meu Pai me tinha contado sobre as eleições presidenciais de 1958 em Moçambique. Embora sem provas, suspeito que ele, não sendo um oposicionista militante, acabou por ser fortemente penalizado por se ter mantido imparcial e não ter colaborado com as iniciativas manipuladoras e fraudulentas do governador do distrito Gouveia e Melo e do governador-geral Gabriel Teixeira.
 
Os dois relatórios do governador-geral Gabriel Teixeira que integram aquele conjunto documental são excelentes demonstrações da mentalidade de quem tinha a responsabilidade do governo da colónia de Moçambique: a obsessão pela ameaça dos comunistas e dos interesses externos que segundo ele dominavam a oposição, o elogio da vigilância e controlo policial dos cidadãos, a falta de confiança na maioria dos correligionários governadores de distrito e o desprezo pelos directores de serviço e equiparados (“todos frouxos, e talvez até, muitos deles, piores do que frouxos”). Segundo ele as “eleições, com todos os seus malefícios, tiveram o mérito de pôr em relevo vários pontos fracos da vida nacional” e “puseram também a nu a duplicidade de uns e a tibieza de outros, muitos ocupando posições de comando nos quadros do funcionalismo. Foram, enfim, uma lição, e se soubermos aproveitá-la, e estou certo que saberemos, o saldo, em efeitos, das eleições será benéfico para a Nação.”

A repressão que se seguiu às eleições presidenciais de 1958 nos diversos sectores sociais, políticos e económicos de Moçambique − a proibição da cultura do café com enorme prejuízo para os cafeicultores, especialmente da Zambézia, foi apenas uma das acções retaliatórias do poder colonial −, mostrou o entendimento que tinha do que era “benéfico para a Nação”.
 
Para mal dos povos português e moçambicano.