quinta-feira, 4 de setembro de 2014

O Requerimento

image

Os cadetes davam os primeiros passos da formação militar e naval na Escola Naval. Sabe‑se lá porque estranhas razões, cinquenta e um jovens decidiram juntar-se num austero edifício na mata do Alfeite. Vieram dos locais mais díspares, do nordeste transmontano às terras moçambicanas. Se alguém tivesse calculado a probabilidade de cada um deles se encontrar com os outros cinquenta, teria concluído que era inferior à de sair o jackpot do Euromilhões! Mas apesar da baixíssima probabilidade da ocorrência, ali estavam num novo mundo, a aprender a conviver uns com os outros. Havia de tudo: os altos e os baixos, os gordos e os magros, os militarões e os paisanos, os vivaços e os tímidos, os brincalhões e os alvos das brincadeiras.
De entre os ingénuos, houve um que se destacou logo no primeiro dia das provas de ingresso, quando pediu ao candidato sentado na carteira da frente que o deixasse copiar as respostas aos testes psicotécnicos. Depois, no mês de instrução militar básica, passou a ser a vítima de muitas das partidas. Por exemplo, quando o comandante de companhia pernoitava na Escola Naval como oficial de serviço, o candidato acordava-o a meio da noite, ansioso, só porque os brincalhões do costume passavam o serão a convencê-lo que tinha sido excluído pelas razões mais estapafúrdias. As alvoradas prematuras do oficial de serviço tinham naturalmente consequências para o pobre candidato que, para além da chacota dos pares, sofria as represálias do oficial, em regra consubstanciadas numa multa convertida em bebidas do bar. Mas apesar dos percalços, o candidato atingiu finalmente a honrosa condição de cadete.
As semanas dos cadetes eram passadas com aulas teóricas e práticas, educação física, ordem unida, desporto, estudo e o que já esqueci, tudo o que servisse para ocupar um grupo de jovens habituados a tudo menos ao regime intensivo de uma escola militar. Mas como aquilo era Marinha, tinham de ir mais longe. E nada seria melhor que ocupar um ou outro fim de semana com embarques no draga-minas Ribeira Grande, a navegar entre o Alfeite e Setúbal, para habituar os estômagos mais sensíveis ao balanço. O Ribeira Grande era um navio velho, construído em 1957 nos estaleiros da CUF (atual NavalRocha) a partir de planos ingleses e não primava pela habitabilidade. Os espaços exíguos e as péssimas condições de navegabilidade propiciavam o tratamento de choque dos cadetes nos primeiros contactos com o mar.
Logo que foi anunciado o primeiro embarque, os brincalhões do costume vislumbraram uma excelente oportunidade para uma nova partida: decidiram convencer o nosso cadete de que era possível embarcar num navio moderno desde que fosse apresentada oficialmente uma razão ponderosa que desaconselhasse o velho draga-minas. E se bem o pensaram, melhor o concretizaram. Depois de devidamente industriado pelos camaradas, o cadete foi falar com o “penico” (o mais antigo do curso), pedindo conselho sobre a entrega do requerimento que tinha preparado. Pensava entregá-lo na secretaria do Comando, o que o “penico” percebeu logo ser arriscado para o camarada. Convenceu-o a fazê-lo através do comandante de companhia, assim como assim o oficial já estava habituado aos desvarios do cadete.
E foi assim que em plena formatura para o almoço, o “penico” pediu autorização ao comandante de companhia para que o cadete lhe fizesse a entrega formal de um requerimento. O oficial anuiu e recebeu uma folha de papel almaço azul de 25 linhas, manuscrita e conforme os preceitos legais da época, onde o cadete requeria respeitosamente ao Senhor Comodoro Comandante da Escola Naval que o autorizasse a realizar o embarque de fim de semana numa das então modernas fragatas da classe “João Belo”, dado que não podia embarcar no Ribeira Grande por sofrer de … claustrofobia!

Não me recordo da extensão exata do castigo decretado pelo comandante de companhia mas estou certo que se traduziu numa conta calada no bar do refeitório. Quanto ao famoso requerimento, julgo que está algures entre os papéis que coleccionei na Escola Naval.

Sem comentários:

Enviar um comentário