domingo, 1 de fevereiro de 2015

A very similar project

Fragata "Salamis", a quarta da classe "Hydra"

Dávamos os primeiros passos no programa de construção das fragatas da classe “Vasco da Gama”, no último terço da década de 80, quando recebemos uma delegação da Marinha da Grécia. A Marinha helénica ia adquirir fragatas Meko 200 semelhantes às portuguesas e os oficiais gregos vinham propor um acordo de cooperação e de troca de informações com a Marinha Portuguesa. Coube-me dialogar com o capitão-de-fragata Stamatis Kloudas sobre os detalhes dos sistemas mecânicos dos navios. Para além do posto, partilhava com o Commander Kloudas a qualificação académica e profissional obtida nos EUA. Embora o programa português estivesse num estádio bem mais avançado, a simpatia dos gregos cativou-nos e o acordo foi fácil.

Um par de anos mais tarde voltámos a encontrar o amigo Kloudas em Hamburgo, no estaleiro alemão da Blohm+Voss, então já capitão-de-mar-e-guerra. O Captain Kloudas chefiava agora a missão de supervisão do programa grego, iniciado cerca de um ano depois do nosso. A delegação grega, muito mais numerosa que a portuguesa, instalou-se num espaço contíguo ao nosso, e passou a ser uma visita assídua. À medida que o projecto dos navios helénicos progredia, habituámo-nos a receber o Captain Kloudas e os seus inúmeros adjuntos, pedindo-nos detalhes sobre os mais diversos aspectos do nosso programa e dos nossos navios. Num dia era isto, noutro dia era aquilo, e assim fomos com cada vez menos paciência e vontade, fornecendo elementos técnicos e de gestão do nosso projecto. Na prática, ensinámos o caminho das pedras que tanto trabalho nos deu encontrar. E tudo porque, como dizia o Captain Kloudas, o nosso era “a very similar project” e, claro, havia o tal acordo de cooperação.

Até fechar a porta do nosso escritório no estaleiro e regressar a Portugal no início de 1992, observei as aventuras daquele grupo heterogéneo e hierarquizado de oficiais de Marinha e de jovens que, residentes e a trabalhar na Alemanha, prestavam serviço militar por força da lei grega. A integração na delegação da Marinha no estaleiro contava como serviço militar obrigatório e para aqueles jovens, maioritariamente nascidos e educados na Alemanha e licenciados em engenharia por universidades alemãs, era uma oportunidade para o prestarem perto da família e de casa. Em troca eram, durante alguns (poucos) meses e para além de técnicos, tradutores e elos de ligação com os técnicos alemães, estafetas e moços de recados, e tudo o que fosse necessário para aligeirar o trabalho do Captain Kloudas e dos seus oficiais. Lembro-me do desconforto dos alemães perante os múltiplos e sofisticados esquemas que os oficiais gregos engendravam para contornar dificuldades do programa ou até satisfazer interesses pessoais, como por exemplo, a aquisição de BMWs topo de gama, a preços reduzidos e totalmente isentos de impostos.

Cerca de um ano depois, numa noite invernosa, estava eu alojado numa messe da Marinha britânica e encarregado de tarefas que já nada tinham a ver com a construção das fragatas, fui acordado pelo clarão de um incêndio num navio ao largo de Portland, no sul de Inglaterra. Soube de manhã que se tratava da novíssima fragata grega "Hydra", recém-saída do estaleiro de Hamburgo. Procurei saber as causas do incêndio, não fosse existir um risco semelhante nas nossas. No fundo eram “a very similar project.” Todas as diligências, primeiro junto do comando do navio e depois junto da Marinha grega, foram infrutíferas. Consegui mais tarde obter a informação no estaleiro, embora com limitações resultantes do litígio que o incidente entretanto provocou. E assim se frustrou a primeira, e julgo que última, oportunidade de inverter o fluxo de informação entre as Marinhas portuguesa e grega.

Mais alguns anos passados, já perto da viragem do milénio, fui integrado numa delegação enviada pelo Ministério da Defesa Nacional a Atenas para renovar o velho acordo de cooperação com a Marinha grega. Chegados ao ministério da defesa grego, fomos recebidos com toda a pompa e simpatia. E por quem? Pelo nosso amigo Kloudas, agora já contra-almirante e chefe daquilo tudo! Mais de dez anos depois, mantendo-me eu no posto de capitão-de-fragata, voltei a ouvir as mesmas loas ao acordo de cooperação entre as duas Marinhas, agora sobre a manutenção e modernização das fragatas, tudo porque eram “a very similar project.”

Não sei o que se passou depois da renovação do acordo porque entretanto passei à reserva e dediquei-me a outras guerras. Mas sei que o Vice-almirante Kloudas chegou a "Inspector General of the Hellenic Navy" e, para mal dos nossos pecados, Portugal e Grécia continuam envolvidos no que dizem ser “a very similar project.”

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Pódio





Dos meus livros de 2014?
Em terceiro lugar "O Capital no Século XXI", de Thomas Piketty, um ensaio sobre a realidade.
Em segundo, "Galveias", de José Luís Peixoto, um romance da portugalidade.
Em primeiro, a edição bilingue de "As Portas Que Abril Abriu" de Ary dos Santos, pelo Portuguese Studies Program do Institute of European Studies da University of California, Berkeley, um poema à realidade, à portugalidade, e acima de tudo, à Liberdade!

Sobrevivência



Em 1872, Émile Boutmy definia assim a missão do ensino superior da ciência política:
"Constrangidos aos direitos da maioria, as classes que se consideram a si próprias como classes superiores não podem conservar a sua hegemonia política se não invocarem o direito do mais capaz. É preciso que, por trás do fórum decrépito das suas prerrogativas e da tradição, a vaga da democracia enfrente uma segunda muralha feita de méritos brilhantes e úteis, de superioridade cujo prestígio se impõe, de capacidades de que não possamos privar-nos se não estivermos dementes."

Foi por instinto de sobrevivência perante o avanço da democracia que as classes privilegiadas abandonaram o ócio e inventaram a meritocracia.

Hoje basta dominarem a banca e as instituições supranacionais.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Ladrões há 150 anos



"Toda a gente sabe que o frio está insuportável, e que quem não anda bem agasalhado soffre inclemencias. Pois o sr. José Garrido, sebeiro, tambem é d'esta opinião, e carecendo de albernoz envergou hontem um na feira da ladra, enamorou-o, e ficou captivo.
Captivo?
- Captivo do bom panno do albernoz, e captivo pelo ter roubado ao seu proprietario o sr. Francisco Prudencio Apolinario, respeitavel adello, que estabelece a sua tenda ambulante n'aquelle mercado de bagatellas todas as terças feiras."

Como eram mais interessantes as notícias sobre ladrões há 150 anos! E  nesse tempo podia ainda ler-se no Diário de Notícias:

"Não temos noticia de nenhum acontecimento notavel da politica do nosso paiz. Continuam a circular boatos desencontrados àcerca da substituição de algum ou alguns dos cavalheiros que constituem o gabinete, indigitando-se sobretudo vários nomes para a pasta da marinha, e affeiçoando-os cada grupo às suas predilecções pessoaes ou partidarias. A espectativa publica, porém, está fixa na abertura do parlamento."

Já então o mar era um desígnio dos boatos nacionais!

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Conto de Natal

Namaacha, Natal de 1957

O miúdo gostava do Natal. Por muitas razões, sabe-se lá qual a mais importante.

Era uma época em que sentia os pais ainda mais felizes. Estivesse a família onde estivesse, fosse em Lourenço Marques, em Inhambane, em Palhais, na Namaacha ou em Quelimane, era sempre um tempo de alegria.

Os pais diziam que naquela noite vinha o menino Jesus e que deixava prendas para quem se portasse bem. Para o receberem, adultos e crianças, preparavam um presépio com os materiais apanhados no mato. Faziam o melhor que sabiam e podiam para criar o presépio mais bonito das redondezas.

E a verdade é que, fosse pela beleza do presépio ou fosse pelo comportamento do miúdo, ano após ano, fizesse calor ou fizesse frio, em Moçambique ou em Portugal, o menino Jesus não falhava. Em cada dia de Natal, ao acordar, o miúdo ia espreitar o sapato deixado junto do presépio e lá estava ele, rodeado de prendas.

Seguia-se o ritual da abertura dos embrulhos, uma festa para todos, em especial para os pais. O miúdo não percebia bem porquê, eram só brinquedos para ele e para a irmã, mas parecia que os pais ficavam tão ou mais felizes do que eles.

O Natal tinha assim uma magia que o miúdo não queria perder. Mesmo quando a escola das brincadeiras de rua ensinou que o menino Jesus não existia e que eram os pais que davam os brinquedos, o miúdo calou-se bem calado e continuou como se nada soubesse.

Mas o avô José Francisco é que não estava muito satisfeito com a situação.
– Um matulão e ainda acredita no menino Jesus? Não pode ser! – terá ele pensado. E assim que achou oportuno, perguntou de chofre:
– Ouve lá, tu ainda acreditas no menino Jesus? Claro que o miúdo não podia mentir, em especial àquele avô, e respondeu naturalmente:
– Não, mas tenho de fingir por causa dos meus pais!

O miúdo não sabe o que o marcou mais, se a expressão de gozo do avô se a desilusão dos pais quando este lhes contou o que tinha descoberto. O que sabe é que o Natal não voltou a ser o mesmo, apesar do menino Jesus ter continuado a trazer brinquedos para a irmã mais nova. Que saudades de quando os pais acreditavam no menino Jesus!

Um feliz Natal, acreditem ou não no menino Jesus!

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

A Cerca Furada


Consegui viver seis décadas sem perceber o mundo da finança nem entender “financês”, fosse ele nacional ou internacional. Confesso que até tinha algum desdém por quem se preocupava com as questões do capital. Gosto de pensar que é uma característica genética mas sou capaz de admitir algum preconceito ideológico.

A crise financeira e a torrente de termos anglo-saxónicos debitados pelos analistas e comentadores que brotam na comunicação social veio perturbar, e de que maneira, o meu sossego. Os swaps e os futures, os hedge e os private equity funds, a leverage e a debt, passaram a martelar-me a cabeça e obrigaram-me a fazer o que julgava ser impossível. Primeiro procurar o significado dos palavrões (abençoados sites da Investopedia, do Financial Times Lexicon, e outros similares!), depois ler artigos da especialidade cada vez mais técnicos (pasmo-me!) e, por fim, estudar livros de economia! Estou empanturrado de matéria indigesta mas conformado porque conclui que não sou o único ignorante; estou acompanhado pela maioria dos políticos, dos analistas e dos comentadores responsáveis pelo meu desassossego.

Recentemente, o colapso do BES colocou na ribalta pública o conceito do ring fence. Teria sido uma das várias orientações do banco central que entrou a 100 e saiu a 200 das cabeças dos administradores do grupo. Não certamente porque estivessem no mesmo estado de ignorância que eu. Acredito até que o conceito lhes era bem familiar, em especial quando transferiam e protegiam a sua riqueza do lobo mau dos impostos, de preferência em offshores ou no santuário luxemburguês.

Mas eu, talvez por influência das bandas desenhadas juvenis, sempre que ouvia falar em ring fence pensava nas pradarias americanas e nas artes de conduzir e cercar o gado. Vinham-me logo à memória histórias fantásticas, de um mundo distante, cheio de bons e maus, ladrões e justiceiros. É certo que nelas apareciam sempre uns pistoleiros feios e malandros mas o herói, forte e invencível, punha-os na ordem e acabava escolhido pela miúda mais gira.

Depois do estoiro do império dos primos e associados, fiquei a saber que ring fence é afinal um faz-de-conta numa história sem graça nenhuma. Uma história onde só há bandoleiros, onde não há herói nem miúda gira. 
Que desilusão!