António Júlio Rosa foi um dos jovens que, em 1966, habilitados com o curso liceal, foram obrigados a cumprir o serviço militar. Depois do Curso de Oficiais Milicianos, em Mafra, e da especialidade de Atirador, em Vendas Novas, embarcou no navio mercante Alfredo da Silva, rumo à Guiné-Bissau, onde desembarcou no dia 20 de Dezembro de 1967. Na madrugada de 3 de Janeiro de 1968, o então Alferes miliciano, foi feito prisioneiro em combate pelo PAIGC e levado para a Guiné-Conacri. Depois de um longo e difícil cativeiro, na noite de 21 para 22 de Novembro de 1970, foi libertado da prisão La Montaigne, com outros 26 militares portugueses, numa acção realizada por um grupo de fuzileiros especiais da Marinha portuguesa sob o comando do Comandante Cunha e Silva, no quadro da Operação Mar Verde.
Durante anos, nunca se referiu ao cativeiro, mesmo em conversa com os familiares ou amigos, até que em Janeiro de 2000 decidiu escrever o livro "Memórias de um Prisioneiro de Guerra" editado pela Campo de Letras. Foi a libertação dos problemas psicológicos que o atormentavam. Faleceu no dia 6 de Abril de 2019.
O relato à maneira de diário do militar mais graduado dos 27 prisioneiros de guerra, cobre o período entre Janeiro de 1967 e Dezembro de 1970, dando maior relevância ao tempo entre o dia em que foi feito prisioneiro e o dia da libertação. Foi recentemente revisto e reeditado pelas Edições Colibri com o título “Memórias de um Prisioneiro na Guerra Colonial (Guiné-Bissau | Guiné-Conacri, 1967-1970)”, com prefácio do oficial libertador, e é de leitura obrigatória para quem quiser estudar aquele período da nossa História.
Mas a razão deste meu texto vai para além da recomendação do livro de António Júlio Rosa. É que a Colibri, no seu mural do Facebook, transcreveu a nota onde o autor nos explicou que “Ao escrever, o meu estado de espírito foi passando pelas diferentes situações anteriormente vividas: angústia, tristeza, nervosismo, incerteza, rancor, medo e alegria por ter sobrevivido e cumprido, dignamente, a minha função de cidadão!...”. Isto depois de nos dizer que “Em Memórias de um Prisioneiro na Guerra Colonial quero, sobretudo, transmitir à juventude o modo de pensar e sentir dum jovem de vinte anos, que após concluir o curso liceal se viu obrigado a cumprir o serviço militar, para poder encontrar um trabalho digno e uma vida futura minimamente estável.” Sem o fazer expressamente, estava implícito que se referia a obter um emprego depois de cumprir o serviço militar.
Nos comentários, alguém pegou nesta última frase e escreveu que não compreendia que em 1967 alguém se visse obrigado ir para tropa para ter um trabalho digno e concluiu que “há aqui algo mal contado.” Instado por quem estranhou o comentário, esclareceu que em 65-67 também andou por lá, mas que não considerava trabalho digno “viver em buracos, nunca comi numa mesa em todo esse tempo e o resto o que vi e vivi não tem nada de digno, mas sim de sobrevivência, estava no meio duma guerra.” E concluiu: “Comparar a tropa a um trabalho digno, nas colónias a fazer o que se fez, eu fico pensando que seria da Legião Portuguesa na altura para si também seria digno, andar a bufar um ou outro, depende do que acha digno.”
Perante o inusitado e ofensivo discurso, tentei perceber quem era o seu autor. Aparentemente trata-se de alguém que também esteve na guerra em Moçambique, no Niassa, onde terá desempenhado funções de enfermeiro. E também aparentemente, estaria em condições privilegiadas para compreender e solidarizar-se com o drama vivido por António Júlio Rosa, mas optou por agredir a sua memória.
Sem querer generalizar, julgo que é mais uma evidência de que as redes sociais podem não ser um instrumento de comunicação entre as pessoas, antes pelo contrário.
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