sábado, 18 de agosto de 2018

A Raleigh preta roda 26


Marginal de Inhambane, 21.07.1957

Confesso que nunca me libertei completamente da imagem que em adolescente criei da Guarda Nacional Republicana. Para mim eram então os tipos fardados, pouco simpáticos, que andavam aos pares pelas estradas e caminhos rurais e que me pediam os documentos da bicicleta. Sim, leram bem, da bicicleta, porque naquele tempo não se podia andar de bicicleta sem documentos.

Por isso o meu avô, cumpridor escrupuloso da lei, levou-me um dia, a mim e à minha bicicleta Raleigh preta roda 26, à Câmara Municipal do Cadaval para registar o velocípede e tirar a respectiva licença de condução. Depois de ter provado que a bicicleta tinha sido adquirida regularmente e concluído com sucesso o exame teórico e prático de condutor perante o funcionário da Câmara  - mostrei que sabia os sinais de trânsito e fazia um oito sem me desequilibrar -, saí com o livrete e chapa da dita e com a licença de condução de velocípedes número qualquer coisa, com fotografia e tudo o que a lei exigia, sem esquecer o aviso: "Esta licença, passada de harmonia com o disposto no nº1 do art. 54º do Código da Estrada, deve acompanhar sempre o seu titular quando conduzir." Naturalmente que quando tal não acontecia, os guardas da GNR tratavam da autuação do prevaricador.

Bem, disse ter provado que a bicicleta Raleigh preta roda 26 tinha sido adquirida regularmente, mas o rigor histórico exige uma clarificação. De facto, a bicicleta foi adquirida regularmente em Inhambane pelos meus pais, em 1957. Mas quando cinco ou seis anos mais tarde fui com o meu avô à Câmara do Cadaval, depois de uma mudança para Quelimane e outra para Portugal, já ninguém sabia do paradeiro do documento de compra. E sem ele, nada feito, a burocracia camarária não registava o velocípede! A solução foi passar pela loja e oficina de bicicletas à entrada do Cadaval e pedir uma fatura de venda da Raleigh preta roda 26, uma espécie importada de Inglaterra e muito rara nas terras da Metrópole. O dono amigo fez-nos o favor e lá fomos à Câmara, tudo para que a lei se cumprisse.

Mas mesmo devidamente habilitado, nunca me senti confortável quando era interpelado pelos guardas e tinha de mostrar os documentos e esperar pela conclusão da inspecção do velocípede. Pelo sim pelo não, procurava evitá-los, coisa que não era difícil porque uma rede informal de miúdos e graúdos que passavam a palavra: "Vem aí a Guarda!", controlava a ameaça com eficácia.

Depois percebi que a GNR tinha outras funções, umas sinistras como a repressão política ou a guarda da prisão de Peniche, outras pacíficas como a fiscalização do trânsito, mas a percepção original permaneceu até hoje.

sábado, 21 de julho de 2018

A culpa é sempre dos outros!



Confesso que sempre considerei o argumento da responsabilidade individual um dos mais fortes da direita liberal. Simpatizo com a noção de que cada um deve assumir a responsabilidade dos seus actos, e só não o adoptei como dogma político e social porque entendia e entendo importante considerar o contexto do indivíduo, a responsabilidade da comunidade e o papel do Estado como almofada e alavanca social.

Muitas vezes, foi difícil conciliar os meus princípios ideológicos com os exemplos que testemunhei de irresponsabilidade, de incompetência e de oportunismo individual, disfarçados de defesa do interesse colectivo.

Mas hoje, para uma parte significativa da população, as fronteiras ideológicas esfumaram-se. O sentimento de vitimização e de lamúria é partilhado por muitos, independentemente do posicionamento ideológico, e fundamenta um comportamento padronizado de irresponsabilidade individual.

Para esses indivíduos, há sempre alguém, há sempre uma entidade real ou imaginária, que os representa mal, que os menospreza, que os rouba, que afecta o seu bem-estar, que ameaça o seu estatuto socioeconómico ou a sua liberdade religiosa; são os media, os políticos, o governo, os bancos, os migrantes, os liberais, os comunistas, os eurocratas, os muçulmanos, os judeus, os vizinhos, os professores, os funcionários públicos, a família. Um exército de malfeitores que conspira contra a soberania nacional, a pureza racial, a homogeneidade étnica, a superioridade moral, os direitos inalienáveis, a paz social e, especialmente, contra os seus interesses pessoais.

Mas questionados sobre o que fazem ou se propõem fazer para alterar a situação, aos costumes dizem nada, não têm nem querem ter qualquer relação com quem luta por uma sociedade melhor.

E nas próximas eleições abster-se-ão ou votarão no primeiro Trump que se lhes apresentar.

terça-feira, 26 de junho de 2018

A palavra LIBERDADE


Tira um papelinho e escreve
uma palavra que, para ti,
signifique LIBERDADE.
Coloca o papelinho escrito na urna.
Voará com o vento

domingo, 20 de maio de 2018

Dia da Marinha

 


Quando partilhei no Facebook o cartaz da exposição patente no Museu de Marinha sobre a vida do Comandante Carvalho Araújo, as primeiras reacções, quase simultâneas, foram da sua bisneta Ana Guerreiro e da minha filha Joana Bettencourt. A Ana já escreveu que apesar de ter nascido 53 anos após a morte do seu bisavô José, sempre sentiu uma forte ligação com ele. Sei que a Joana, que nasceu pouco mais de 3 anos depois da morte do seu bisavô José, também sente uma forte ligação com ele.

Provavelmente nem a Ana nem a Joana conhecem os detalhes da ligação entre os seus bisavôs. O da Joana, então com 20 anos e 2º artilheiro do Navio da República Portuguesa “Augusto de Castilho”, conheceu o da Ana quando este, com 37 anos, assumiu o cargo de Comandante do navio em Agosto de 1918, há quase 100 anos.

Imagino que o 2º Artilheiro José Francisco Martins terá visto o 1º Tenente José Botelho de Carvalho Araújo entrar a bordo, terá conversado com outros elementos da guarnição sobre o novo Comandante, terão eventualmente comentado os rumores sobre o seu estado de saúde; mas estou certo que a partir daquele momento passou a ser o seu Comandante, aquele a quem devia total obediência na defesa da Pátria, mesmo com o sacrifício da própria vida. Já por duas vezes tinha lutado contra submarinos alemães, depois de se ter apresentado a bordo no último dia de 1917, e tudo indicava que voltaria a ter que lutar numa outra qualquer missão no mar.

Provavelmente o bisavô da Ana não terá tido oportunidade de conhecer bem o bisavô da Joana. É certo que ambos tinham as suas raízes em Trás-os-Montes, mas essa era a única afinidade entre eles. Quando o bisavô da Joana nasceu na casa da avó materna em Chaves, já o bisavô da Ana tinha frequentado os preparatórios na Academia Politécnica do Porto e ingressado na Marinha. E enquanto o bisavô da Joana se fez homem como marçano nas ruas de Lisboa, o bisavô da Ana cumpriu uma carreira brilhante como oficial da Armada, foi Deputado por Vila Real à Assembleia Constituinte da República e Governador do Distrito de Inhambane, em Moçambique.

Mas as circunstâncias históricas e a natureza do serviço na Marinha fizeram com que partilhassem dois meses das suas vidas a bordo do mesmo navio. E na madrugada de 14 de Outubro, o bisavô da Joana viveu um dos momentos mais dramáticos da sua quando testemunhou a morte honrosa do bisavô da Ana, a poucos metros do seu posto de combate.

Ouvi muitas vezes o bisavô da Joana homenagear a coragem e o comportamento do bisavô da Ana quando se sacrificou para salvar mais de duas centenas de passageiros do paquete "San Miguel", na maioria portugueses dos Açores. Talvez tenha sido essa a razão de um dia ter escolhido a mesma profissão dos bisavôs da Ana e da Joana e ingressado na Marinha.

E lembrá-lo foi a melhor forma de celebrar o Dia da Marinha, da Marinha deles e nossa.

sábado, 12 de maio de 2018

A Cidadania e a Fúria Desmatadora



No regresso do exercício matinal gostei de ver o grupo de jovens que limpava a mata junto ao Centro de Juventude de Oeiras. Desconheço as suas motivações assim como eles também não conhecem as razões do meu contentamento e muito menos a relação do seu acto com o que entendo ser o exercício pleno e bem-sucedido da cidadania.

Como já aqui disse, para mim a cidadania não é um código de boas maneiras, é uma relação de poder que envolve o povo soberano e todos os que, em seu nome, são chamados a governar, a administrar e a julgar. E nessa relação, o povo soberano que somos nós, cidadãos, perde sempre que os que são chamados a governar, a administrar e a julgar em seu nome, impõe a sua vontade contra os nossos interesses. É por exemplo o caso da fúria desmatadora que atingiu governo e autarquias depois da tragédia dos incêndios e que, no meu caso pessoal, obriga a abater pinheiros mansos que há décadas ajudei o meu pai a plantar. Tenho a certeza que o meu pai partilharia comigo a revolta pela destruição, em nome de uma muito suspeita política da floresta, da mata onde quis que depositasse as suas cinzas.

Mas também tenho a certeza que o meu pai ficaria tão contente como eu por ver a mata de Nova Oeiras ser poupada à loucura da desmatação nacional, ser bem preservada por um município que noutros locais não tem a mesma racionalidade e ser cuidada por um grupo de cidadãos jovens. É que foi ele que me ensinou que o exercício da cidadania é uma tarefa dura e que cada vitória, por mais pequena que seja, é conquistada dia-a-dia por cada um de nós, cidadãos deste país.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

O exosqueleto




Confesso que no liceu detestava Camões. Descontando o episódio da Ilha dos Amores, que o pensamento medíocre do Estado Novo mantinha afastado dos adolescentes para que não fossem contaminados pela moral pagã, a análise da poesia de Camões era uma tremenda seca. Todos os esquemas eram válidos para lutar contra a ditadura do programa de Português, personificada na pobre professora. A libertação veio com a opção de ciências e os caminhos das engenharias.

Alguns anos mais tarde aprendi a gostar da poesia de Camões. Primeiro timidamente com João Villaret e Amália, depois convictamente com José Mário Branco e, naturalmente, José Afonso. Até que há dias vi um teste de Português do meu neto. As perguntas sobre o soneto “Enquanto quis Fortuna que tivesse” trouxeram-me memórias com mais de cinquenta anos e voltei a sentir a mesma aversão.

Tal como eu, o meu neto tenta sobreviver à provação. Na luta contra as velhas e sempre iguais questões da professora, usa novas e mais sofisticadas artimanhas mas o objectivo é infelizmente o mesmo: libertar-se de Camões e da sua poesia!

Mudaram os tempos mas não mudaram as vontades. Apesar de todas as mudanças do Mundo, parece que o ensino nas nossas escolas tem um exosqueleto cultural que limita o crescimento. E ao contrário dos artrópodes, não tem a capacidade de o substituir, de mudar de forma e de se adaptar a novos ambientes e objectivos.