domingo, 12 de maio de 2019

A vingança



O miúdo não tinha nada contra os polícias. Apesar do jogo do foge e esconde-te ao grito “Olha o Chui!” quando jogava a bola na rua com os amigos, não sentia qualquer razão para não gostar dos cívicos, gordos e com ar sério, que passavam pelas ruas do bairro.

Até que um dia, no regresso de um passeio dominical com os pais e a irmã no Fiat 600, um polícia sinaleiro, ali para os lados do Saldanha, mandou o pai encostar e parar o carro. Pediu os documentos, mirou-os e remirou-os, e disse ao pai que saísse do carro e o acompanhasse. Depois de uma longa conversa, o pai voltou com o polícia e pediu ao miúdo e à irmã que se encostassem para o polícia se sentar no banco traseiro, ao lado deles.

Depois de uma manobra complicada, o corpulento cívico lá conseguiu vencer a estreita passagem deixada pelo banco dianteiro e alapou-se em quase toda a largura do banco. O miúdo ainda tentou tirar a laranja que tinha ficado para trás mas não foi a tempo, o polícia aterrou pesadamente sobre o citrino e os irmãos só puderam olhar um para o outro e segurar o riso.

O pai explicou a inusitada boleia ao polícia. Não sabia que a carta de condução tinha data de validade, tinha caducado há um mês e iam à esquadra resolver o assunto. O polícia assegurou que era uma coisa simples e rápida mas depois de entrarem na esquadra, o pai já não voltou.

Para grande aflição da mãe e espanto dos miúdos, souberam depois que o pai ia ficar preso pelo crime grave de conduzir com uma carta fora do prazo de validade. Voltaram para casa de táxi e viveram horas dramáticas até que o pai foi libertado no dia seguinte, depois de uma noite passada numa espelunca sem condições.

A partir daquele dia o miúdo passou a olhar os polícias de maneira diferente. Sempre que passava por um deles, ria-se. Lembrava-se da laranja esborrachada e colada ao imenso rabo do polícia quando, após várias tentativas, conseguiu sair do banco traseiro do Fiat 600.

E assim se vingava da maldade que fizeram ao pai.

segunda-feira, 22 de abril de 2019

O outro sinal para o 25 de Abril

      

Não me obriguem
A vir para a rua
Gritar
Que é já tempo
D'embalar a trouxa
E zarpar


Este é o refrão da canção “Venham mais cinco” do álbum com o mesmo nome com canções originais de José Afonso, escolhida inicialmente como sinal a ser emitido através da Rádio Renascença para todo o país.

O álbum foi gravado em Paris para a etiqueta Orfeu e editado no Natal de 1973. Para além da lírica e dos temas musicais, o disco foi também marcante pela qualidade da gravação porque o estúdio de Paris tinha capacidades tecnológicas ainda não disponíveis em Portugal. Os arranjos foram de José Mário Branco, que já gravara em 1971, igualmente em Paris, o “Cantigas do Maio”, outro álbum de José Afonso com capa do pintor José Santa Bárbara e de que fazia parte a canção “Grândola Vila Morena”.

No lançamento do "Venham mais cinco" em Portugal, estava prevista a divulgação das suas canções no programa “Página 1” de José Manuel Nunes na Emissora Nacional, mas quando a estação submeteu o álbum à Censura, foi proibido e apreendido pela PIDE/DGS. 

Foi por isso que quando na tarde do dia 22 de Abril de 1974 o Álvaro Guerra lhe disse que o “Venham mais cinco” estava proibido e a canção não podia ser transmitida no programa “Limite” na Rádio Renascença, o Almada Contreiras escolheu um novo sinal, a “Grândola Vila Morena”.

sábado, 20 de abril de 2019

Benjamim Inácio Garcia

Uma pena de dois anos depois de sete no Tarrafal


Benjamim Inácio Garcia

Os pais do Benjamim Inácio Garcia tinham uma sapataria na Rua de São Bento e ajudaram o meu avô José na aventura de menino transmontano feito marçano nas ruas da Lisboa de 1912. Já falei deles em O Tenente Martins

Ficha da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE)

O Benjamim, primo direito da minha avó materna, foi carpinteiro de moldes no Arsenal da Marinha e lutou contra o regime salazarista. Quando a Torre do Tombo colocou online as 29 510 fichas dos 148 livros de registo de presos da PVDE/PIDE/DGS de 1934 até 18 de Abril de 1974, recuperei a ficha prisional do Benjamim. Para além de confirmar o que escrevi há cinco anos, apercebi-me de um detalhe processual que ilustra bem o que era a repressão na ditadura salazarista.

Comprovado pela ficha, o Benjamim foi preso em 5/9/1935, tinha então 18 anos e meio de idade, passou por Peniche e Aljube, foi julgado e absolvido, foi preso novamente depois de quase um ano de liberdade e voltou ao Aljube, esteve mais de sete anos no Tarrafal e recolheu a Caxias para ser libertado em 7/11/1944. A ficha não diz mas eu sei, foi libertado porque estava a morrer de tuberculose.

Mas antes, diz ainda a ficha, foi julgado outra vez “em 1/11/1944, tendo sido condenado na pena de 23 meses de prisão correcional, dada por expiada com a prisão preventiva de 7 anos e 238 dias e na perda dos direitos políticos por 5 anos”!


sábado, 13 de abril de 2019

Programa do Movimento das Forças Armadas



Documento apresentado na exposição organizada pelo Arquivo Histórico da Presidência da República,
em 13 de dezembro de 2012.

O golpe militar foi uma surpresa para o regime de Marcello Caetano? 

Esta é uma das perguntas que me fazem com maior frequência nas conversas sobre o 25 de Abril. A resposta que dou normalmente é "Sim e não…", o que não me agrada porque prefiro dar respostas claras, do tipo sim ou não.

A resposta é sim quando falamos apenas da operação militar do dia 25 de Abril de 1974. A rapidez da decisão de avançar para o derrube do regime através de uma operação militar, a preparação dessa operação e a forma como foi executada, foram certamente uma surpresa, e dela há testemunhos claros do lado derrotado. Uma surpresa que se deve à competência e experiência de oficiais do Exército habituados a conduzir uma guerra com grande autonomia na tomada de decisões e na sua concretização. E que explica que no final do dia 24 de Abril de 1974, numa recepção na embaixada da RFA onde estavam, calmos e descontraídos, Silva Cunha, ministro da Defesa Nacional, Rui Patrício, ministro dos Negócios Estrangeiros e Moreira Baptista, ministro do Interior, este último tenha dito que não estava preocupado com o mal-estar nas Forças Armadas e que o Silva Pais, director da PIDE/DGS, o teria informado que esperava apenas problemas no 1º de Maio, mas nada de especial; e que o mesmo Silva Pais tenha telefonado ao Silva Cunha às 3h30 de 25 dizendo – Pode dormir descansado, Sr. Ministro.

A resposta é não, não foi surpresa, quando falamos da percepção generalizada de que algo estava para acontecer em qualquer momento. Era voz corrente nos círculos mais ou menos próximos do poder, assim como nas tertúlias dos cafés da Grande Lisboa, que estava para ocorrer um golpe militar. Independentemente do grau de conhecimento de cada opinante, posso assegurar que esse era um dado adquirido nas mesas do São Jorge em Carcavelos, o café que então frequentava depois do jantar. Aliás a natureza semi-aberta do Movimento dos Capitães, os vários abaixo-assinados e os comunicados que difundiu nos meses que antecederam a operação militar, não permitem supor que o governo e a sua segurança interna desconhecessem o que se passava, por mais incompetentes que pudessem ser, o que também não é seguro que fossem.

Então porque é que o regime não se preparou para resistir e neutralizar o golpe militar? A questão terá várias respostas mas eu tendo a concordar com a explicação dada pelo meu camarada Almada Contreiras no livro “Operação Viragem Histórica”: o desconhecimento ou pouca importância dada ao documento que veio a ser o “Programa do Movimento das Forças Armadas” e a convicção dos responsáveis de que seriam apenas a liderança e as teses do general Spínola expressas no livro “Portugal e o Futuro”, teses aliás comungadas por sectores do regime próximos das cúpulas militares, que inspiravam os capitães.
Aparentemente, o desconhecimento ou desvalorização da existência de um programa político coerente, inspirado nas teses do Congresso da Oposição Democrática de 1973, assim como o menosprezo pela capacidade da cúpula do Movimento não-alinhada com o general Spínola resistir às tentativas de o desvirtuar ou ignorar, terão sido os factores que levaram o regime a olhar para as movimentações dos Capitães com menor cuidado.

O próprio general Spínola, a quem o programa foi apresentado com antecedência e nele fez cortes e introduziu alterações, terá provavelmente pensado que não passava de mais um papel e que depois do golpe prevaleceriam as suas teses, o seu poder pessoal e a sua rede de seguidores. Quando na noite de 25 foi obrigado a adoptar o Programa do MFA como programa da Junta de Salvação Nacional, ainda fez cortes e introduziu alterações de última hora que acabaram por se revelar negativas. As relativas à libertação dos presos políticos e à neutralização da PIDE/DGS serviram para a atrasar até 27 de Abril; a eliminação da alínea onde constava o “Claro reconhecimento dos Povos à autodeterminação e adopção acelerada de medidas tendentes à autonomia administrativa e política dos territórios ultramarinos, com efectiva e larga participação das populações autóctones”, causou dificuldades muito graves na resolução do problema colonial.





A versão do Programa do MFA que enquadrou politicamente as operações militares do dia 25 de Abril foi publicada pelo jornal "República" no dia 26. Os leitores mais atentos perceberão que não é o programa assinado pelo Presidente da Junta de Salvação Nacional, António de Spínola, e reconhecerão o que foi alterado por ele na noite de 25 para 26 de Abril. É que a versão publicada pelo “República” foi a que o Martins Guerreiro entregou na manhã de 25, como testemunho das intenções do Movimento no caso do golpe militar falhar.






segunda-feira, 8 de abril de 2019

Memórias de infância

 


Fui conversar sobre o Moçambique da minha infância com alunos do secundário de uma escola de Oeiras.

Na preparação da conversa procurei os vestígios das minhas memórias primordiais, das memórias dos meus pais, dos meus avós e de quem conheceu e estudou a realidade do Moçambique colonial. Parti da tragédia das cheias para falar da topologia do território, dos seus povos, das suas culturas, do comércio de escravos, dos 'prazos' e das companhias concessionárias, da administração colonial, das políticas desenhadas na metrópole para os “indígenas”, dos episódios vividos nas escolas e nas ruas de Inhambane e de Quelimane, da luta do meu pai para apoiar os cafeicultores, etc. Foi para mim um exercício enriquecedor mas, no final, interroguei-me se teria sido útil para os alunos.

Uma das professoras disse-me depois que fez a “avaliação da ‘aula’ e os miúdos mostraram-se muito agradados, tendo uma aluna comentado que continuamos com uma história ‘oficial’, demasiado eurocêntrica, onde se estudam as descobertas (ainda à Estado Novo) e onde a colonização é um conceito abstrato, somente económico...” Agradeceu-me ter “tornado a colonização uma realidade concreta, humanizada, e ter permitido tão grande aprendizagem através das memórias pessoais.” Concluiu que já estava “contratado” para o próximo ano!

Claro que depois desta avaliação, terei muito gosto em voltar para o ano!

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

A estratégia dos parasitas



A Anelosimus eximius é uma espécie de aranha social que vive em colónias de centenas ou milhares de membros com comportamentos igualitários e não discriminatórios. Todas cooperam na proteção e no cuidado das crias e na captura das presas grandes que ficam presas numa teia de grandes dimensões, mantida por todas as aranhas da colónia.

Mas existe uma espécie de vespa que descobriu a forma de alterar o comportamento social destas aranhas. Espera pacientemente que aranhas juvenis, mais independentes e menos agressivas, se aventurem fora da segurança da teia e deposita os ovos no seu abdómen.

As larvas da vespa penetram o revestimento macio do abdómen e libertam um químico que afeta o cérebro do aracnídeo e desencadeia um comportamento antissocial. A aranha afasta-se da colónia e tece uma teia à sua volta que a isola do mundo, enquanto a larva se alimenta do seu abdómen.

A larva completa o seu ciclo de vida comendo o resto da aranha e usando a teia como casulo, até se transformar numa vespa adulta.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

O amor não é caça de altanaria




A garça

No dia em que ele a tentou matar, Ângela levantou‑se às 7 e 15 da manhã para estar no centro de saúde à hora da consulta*. A onda de calor dos últimos dias não abrandava, saiu de casa com a temperatura bem acima dos 20 graus mas às duas da tarde devia rondar os 40. Não foi trabalhar depois da consulta médica e voltou para casa, sozinha. Os pais passavam os dias nos empregos e a mãe arranjou‑lhe uma ocupação na empresa onde trabalhava para estar ocupada durante as férias escolares e ganhar algum dinheiro, mas naquele dia pediu para ficar em casa. Sentia-se inquieta, não pelo calor excecional daquele Agosto. A inquietação da Ângela tinha um rosto e um nome: Felício. Namoraram quase um ano e meio, até há cerca de quatro meses. Em Abril a Ângela decidiu acabar o namoro por causa do comportamento do Felício. É que se tudo estivesse de acordo com o que ele queria, não havia problemas, mas isso era muito difícil. O Felício tinha ciúmes de todos os amigos e amigas da Ângela e ela afastou‑se deles para que o namoro corresse bem; queria saber as passwords do telemóvel e das redes sociais e ela cedia na esperança que ele deixasse de ser tão ciumento e possessivo. O Felício decidia com quem a Ângela se podia relacionar e com quem podia falar; as discussões entre os dois eram frequentes, em especial quando o Felício encontrava a Ângela a conversar com amigos. Terminada a relação, o Felício não se conformou e durante três meses tiveram encontros esporádicos, alguns de cariz íntimo, mas a Ângela nunca aceitou reatar o namoro. Depois, com o restabelecimento da normalidade das relações com amigas e amigos, antigos e novos, a Ângela decidiu encerrar definitivamente aquele capítulo da sua vida e deixou de responder às tentativas de contacto do Felício. Durante quase um mês, em diversas ocasiões, por SMS e por outras formas, o Felício tentou insistentemente conversar com Ângela, sempre sem sucesso. Ao contrário das amigas e dos amigos, os pais da Ângela, e em especial o pai, não conheciam a natureza e os problemas do relacionamento da filha com o Felício, mesmo quando nos últimos dias o assédio se tornou mais intenso porque o seu novo namoro com o Vítor começou a ser falado. Se conhecessem, compreenderiam a reação da Ângela quando saiu com o cão e viu o Felício parar a carrinha à porta da sua casa.

O falcão

Os pais do Felício são operários fabris. Divorciaram-se há dois anos depois de um casamento que sofreu algumas ruturas e reconciliações ao longo do tempo, com uma vivência marcada pela conflitualidade associada ao facto de o pai ter sido consumidor de substâncias aditivas e de a mãe sofrer de um problema de saúde mental. O Felício decidiu ir viver com o pai e a avó paterna, acamada e tratada pela tia com a ajuda do sobrinho, mas mantem uma boa relação com a mãe. Fez um percurso escolar sem incidentes e depois do 9º ano optou pela via profissionalizante no curso de técnico auxiliar de saúde. Conheceu a Ângela na escola que ambos frequentavam e durante o tempo de namoro, não partilhava os problemas com os colegas e amigos. Na instituição de solidariedade social onde estagiou e posteriormente fez voluntariado, o Felício era considerado um rapaz calmo, solidário, participativo, meigo com os utentes de todas as idades, pronto a ajudar os outros colaboradores e muito bem‑educado. O estágio decorreu bem, a nota foi excelente, e faltava‑lhe apenas um módulo do curso para obter a equivalência ao 12º ano de escolaridade. Tentou reatar a relação com a Ângela por diversos meios. Andava em baixo, triste, especialmente a partir do princípio de Agosto, quando desconfiou que a Ângela teria um novo namorado. Com o insucesso das persistentes tentativas, radicalizou o teor das mensagens que enviava e chegou a escrever a colegas e amigas “Eu não a quero com ele” e “Não consigo eu vou tentar matá-la”, sem ouvir os conselhos para ter calma. Foi como motorista recém-contratado pela fábrica onde a mãe trabalha que passou pela casa da Ângela às 2 e 30 da tarde daquele dia quente de Agosto, que a viu no exterior com o cão e que decidiu parar para falar sobre a consulta médica que sabia que ela tinha tido de manhã e para, uma vez mais, tentar reatar o namoro.

O ataque

O Felício pediu para entrar e conversarem mas não esperou pela resposta da Ângela. Já na cozinha, perguntou-lhe se namorava com o Vítor e a Ângela deu uma resposta evasiva. Discutiram, cada vez mais exaltados, até que o Felício pegou na faca de cozinha pontiaguda que estava na bancada, apontou-a à Ângela e gritou que sabia que se ia encontrar com o Vítor naquela tarde. Quando o Iphone tocou, a Ângela disse – É o Vítor – e atendeu. Tentou avisar que estava em casa e que o Felício estava a ouvir. O Felício tirou‑lhe o telemóvel e ao ver a fotografia dos pés da Ângela e do Vítor, atirou o aparelho contra a parede e partiu‑o. A Ângela começou a chorar com receio que o pai lhe batesse por causa do telemóvel e fugiu para o quarto. O Felício seguiu-a, sempre com a faca na mão, e a Ângela voltou para a cozinha. Desesperada, confessou que namorava com o Vítor. O Felício aproximou-se da Ângela, desferiu um golpe com força e espetou os 12 cm de lâmina da faca na zona central do tronco, entre o peito e o abdómen. A Ângela caiu ao chão a gemer e o Felício disse apenas – Não acredito que fiz isto, a minha avó não me vai perdoar.**

Epílogo

Apesar dos pedidos angustiadas da Ângela e da perda de sangue, o Felício não a socorreu. Antes da chamada cair, o Vítor percebeu que a Ângela estava em casa e que disse a medo – Ele já te ouviu... Ligou de novo mas como o telemóvel não chamou, foi imediatamente para casa dela. Bateu várias vezes à porta mas o Felício só abriu depois da Ângela insistir que o deixasse entrar senão ela morria. Logo que abriu a porta, o Felício disse que tinha dado uma facada à Ângela e fugiu. O Vítor encontrou-a sentada numa cadeira, a chorar, a dizer que ia morrer e a pedir que a levasse para o hospital. Uma hora depois da agressão, a Ângela deu entrada no hospital, com um buraco na blusa e no sutiã e com uma “lesão perfurante na zona do epigastro/hipocôndrio direita, lesão essa que atingiu a totalidade da parede e com perfuração do fígado.” Foi sujeita a uma intervenção cirúrgica e várias transfusões de sangue e doze horas depois da agressão foi‑lhe dito que já não corria perigo de vida.

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* Paráfrase do primeiro parágrafo da Crónica de uma morte anunciada de Gabriel Garcia Márquez: “No dia em que iam matá-lo, Santiago Nasar levantou-se às 5 e 30 da manhã para esperar o barco em que chegava o bispo.” Gabriel Garcia Márquez escolheu um excerto de uma obra de Gil Vicente para epígrafe da sua obra: “A caça de amor é de altanaria.” A novela não indica a fonte concreta, mas a citação é retirada da Comédia de Rubena, uma peça de Gil Vicente de 1521. Ambas as obras têm como tema amores clandestinos que levam à perda da honra da personagem feminina, à vergonha pública e à condenação social. Os excertos da obra de Gil Vicente presentes em Crónica de uma morte anunciada são: “La caça de amor / Es d’altanaría” e “Halcón que se atreve / con garça guerrera, / peligros espera.

** As muitas semelhanças com o acórdão do Tribunal da Relação de Guimarães de 9 de Abril de 2018 não são coincidência.