sábado, 3 de setembro de 2016

Coincidência

 
Em Setembro de 1974, o ano de todas as experiências, estávamos em Angola.

Março tinha sido um mês muito triste para a João e para mim. A Isabel, já com uma bela barriguinha, e tu, tentaram animar-nos mas não era possível fazer mais. Lembro-me de dizermos que a partir daquele momento a preocupação era a vossa criança.

Abril foi o mês da liberdade. Festejámos juntos, com a sensação de que estava tudo por fazer. E cada um de nós tentou fazer o seu melhor.

A partir de Junho navegámos no mesmo navio. Luanda, Moçâmedes, Cabinda, São Tomé, São Vicente, foram alguns dos portos onde percebemos que o mundo iria mudar para quem vivia na África colonial portuguesa. Assustámo-nos com a ilusão vivida por muitos, apesar dos sinais de que a situação caminhava rapidamente para o descontrolo. A reacção ao assassinato de um taxista em Luanda foi o sinal de alarme.

No terceiro dia de Setembro, em prevenção rigorosa por causa dos conflitos nos musseques de Luanda, recebeste a notícia do nascimento da tua filha. Tenho a certeza que foi o dia mais feliz da tua vida. Festejámos juntos e adequadamente o sucesso da chegada da criança que tinha deixado de ser preocupação.

Por coincidência, a Renata nasceu no dia de aniversário da João. Não estranhei porque já estava habituado. Há anos que me encontrava contigo e com os teus irmãos nos momentos mais diversos da vida, sem que nada tivesse sido previamente combinado. Foi no liceu, foi no Técnico, foi na Escola Naval. Porque é que a Renata não havia de ter direito à sua coincidência?

Depois desse Setembro de 1974, continuámos a viver uma amizade que não foi feita de coincidências. Até que a vida nos pregou uma valente partida.

Por isso, neste dia de aniversários, sinto sempre saudades tuas, Paulo!

terça-feira, 30 de agosto de 2016

12 Jovens Fechados


No início dos anos 60 integrei um grupo de jovens da igreja de São João de Deus, em Lisboa. Um grupo só de rapazes, como era próprio da época, que se identificava como “Cavaleiros do Santo Graal”.

Não me recordo das razões e circunstâncias da minha ligação a estes Cavaleiros mas duvido que fosse por motivações religiosas ou políticas. Para além do fascínio do nome, que associava ao universo das lendas medievais, julgo que terei sido atraído pela novidade e diversidade das actividades e iniciativas do grupo. Hoje sei o que eram estes grupos de juventude mas, na época, a integração nos Cavaleiros foi apenas uma das muitas experiências de um adolescente a descobrir o mundo e a aprender a vida.

De entre as várias actividades, aproveitávamos o auditório da igreja para realizar espectáculos onde fazíamos tudo: criávamos, programávamos, encenávamos, tocávamos, representávamos, sempre com o objectivo de cairmos nas boas graças das meninas, e das mães das meninas, que vinham assistir às nossas habilidades.

Em regra representávamos comédias mas um dia resolvemos mudar de registo e optámos pela peça “Twelve Angry Men,” de Reginald Rose. Inicialmente um guião escrito para um programa de televisão americana, foi depois adaptado para palco e, finalmente, para cinema, dele resultando o conhecido clássico de Sidney Lumet, estreado em 1957.

Para os mais jovens, digo que a peça não é mais do que a discussão entre doze jurados que se reúnem para decidir a absolvição ou a condenação à cadeira eléctrica de um jovem porto-riquenho acusado de ter esfaqueado mortalmente o próprio pai. O veredicto dos jurados deve ser unânime e, seja ele qual for, será adoptado irrevogavelmente pelo juiz. Na primeira votação, apenas um dos jurados vota pela inocência do jovem, não por estar convicto dela mas porque tem dúvidas sobre as provas e testemunhos apresentados pela acusação. Por falta de empenho da defesa, considera que não terão sido adequadamente refutados durante as audiências do julgamento. À medida que a discussão avança, o jurado número 8, cujo nome só conhecemos no fim da peça, chama a atenção para as inconsistências dos relatos das testemunhas e das provas e consegue que os outros admitam, um após outro, que o jovem pode estar inocente. Os onze jurados que votaram inicialmente culpado, mudam o sentido do voto nas sucessivas votações até à absolvição do jovem por unanimidade. À medida que repensam o voto, revelam os seus próprios traços de personalidade e mostram que a convicção inicial de culpabilidade se baseava mais nas suas experiências pessoais, nos seus preconceitos, nas suas concepções e narrativas da sociedade, nos estereótipos dos jovens latinos, negros ou marginalizados, e menos na avaliação dos factos concretos.

E foi assim que pegámos na tradução de Luís Galhardo (Filho), com o título de “12 Homens Fechados”, que tinha sido representada em 1959 no Teatro da Trindade por um elenco de luxo da Companhia Teatro Nacional Popular, e começámos a ensaiar com todo o entusiasmo. Sem termos consciência da sua importância, fomos assimilando princípios fundamentais para a construção de uma sociedade democrática: o princípio da presunção de inocência, o princípio “in dubio pro reo”, o princípio da equidade e do direito a um processo equitativo, a garantia do contraditório, o princípio da legalidade e o princípio da investigação e da verdade material. E assimilámos a defesa que o jurado número 11, migrante refugiado, faz da democracia.

Em tempos de censura e repressão, era óbvio que a iniciativa estava destinada ao fracasso. Não tardou que o pároco da igreja mandasse interromper os ensaios com uma justificação incompreensível para a maioria de nós: a peça era amoral e portanto não tinha interesse!

De facto não me recordo das razões e circunstâncias da minha aproximação aos Cavaleiros do Santo Graal. Mas sei que este episódio marcou o meu afastamento.

terça-feira, 12 de julho de 2016

Eles não sabem nem sonham



Révolution des oeillets ao Portugal - 1er mai 1974 - Gérald Bloncourt
 
Não partilho a euforia futeboleira mas se me alhear do vergonhoso aproveitamento mediático, o que não é fácil, reconheço que é o grito de afirmação e de revolta de muitos de nós contra a arrogância, a prepotência e a xenofobia dos que se julgam donos do mundo. Gostaria de o sentir noutras circunstâncias e de forma continuada mas admito que seja somente umas das minhas utopias.
 
Sei de fonte segura que os que se julgam donos do mundo não sabem nem sonham, como disse o poeta, que este pequeno Portugal no extremo sudoeste da Europa tem 900 anos de história. Não sabem nem sonham que o seu povo teve de jogar muitas vezes feio, mesmo muito feio; teve de matar para não o matassem; teve de se aliar com poderosos pouco fiáveis para não ser destruído por outros ainda menos fiáveis; teve de sofrer, trabalhar e lutar em locais distantes e hostis para vencer a pobreza; teve de percorrer o mundo e confiar noutros povos, desconfiando.
 
Eles não sabem nem sonham que na guerra os portugueses tiveram de combater muitas vezes em inferioridade numérica e com armas muito mais fracas, mas mesmo assim atingiram o objectivo. Não sabem nem sonham que um jovem artilheiro de dezoito anos, uma criança transmontana feita homem como marçano nas ruas de Lisboa, não hesitou em abrir a culatra sempre que falhavam as escorvas para que não houvesse interrupção no tiro da peça montada na proa do arrastão de pesca transformado em navio de guerra. E fê-lo, não para vencer um dos mais poderosos cruzadores submarinos alemães, o que era impossível, mas para permitir que com as duas horas de combate, as duas centenas e meia de compatriotas embarcados no San Miguel, na sua maioria açorianos, chegassem a salvo à ilha verde no meio do Atlântico. E eles não sabem nem sonham que este foi apenas um dos muitos episódios protagonizados por milhares e milhares de portugueses ao longo da História na Europa, na Ásia, em África, na América, em todo o mundo.
 
Eles não sabem nem sonham que foi a aceitar e absorver as diferenças dos outros que os portugueses se tornaram únicos. Eles não sabem nem sonham que é isso que nos permite dizer sem medo que somos portugueses e ser recebidos com carinho por povos de todo o mundo. Eles não sabem nem sonham que há uma jovem mãe em Malaca que se diz portuguesa e que desconfiou que eu o fosse porque era muito alto e muito branco para o ser. Eles não sabem nem sonham que essa mãe está certamente a festejar a vitória da selecção de Portugal e a agitar uma bandeira portuguesa. Como estarão milhares de pessoas em todo o mundo, mesmo sem saberem uma palavra de português e nunca terem estado em Portugal.
 
Eu de facto não partilho a euforia futeboleira mas sinto muito orgulho de ser Português, mesmo que os que se julgam donos do mundo digam que sou pequeno, feio, tosco ou mestiço!


A foto foi tirada por Gérald Bloncourt em Lisboa no 1º de Maio de 1974.

terça-feira, 21 de junho de 2016

Contradições



A experiência da vida, ou se calhar o envelhecimento, trouxe-me o respeito pelas contradições. Quando jovem tinha uma visão do mundo isenta delas. Aceitava sem pestanejar a lógica aristotélica de que não se podia dizer de algo que é e que não é no mesmo sentido e, ao mesmo tempo. O modelo do meu mundo era simples e qualquer incompatibilidade lógica entre duas ou mais proposições era imediatamente rejeitada.
A pouco e pouco, quase sem dar por isso, fui aceitando que pode existir verdade na contradição, que a realidade pode resultar da interacção de elementos opostos mas coexistentes. E esta é a semana das minhas contradições.

Contradições 1
No Portugal do Estado Novo, sonhava com a Europa social e democrática. Por isso acreditei na comunidade económica europeia. Com a união política e monetária que se seguiu, percebi que a Europa que impuseram aos europeus não era social nem democrática. Quando o Reino Unido anunciou o referendo sobre o Brexit, pensei que seria uma boa lição para os eurocratas. Mas quando observo a campanha pela saída da UE, quando penso que a City de Londres é o maior centro de corrupção do Mundo e que com a vitória do Brexit os donos do capitalismo criminoso ganham maior liberdade de actuação, nasce a contradição.
Não gosto desta união europeia, abomino esta união monetária mas gostaria que vencesse o sim pela permanência do Reino Unido na UE.

Contradições 2
Quando jovem olhava para a Caixa Geral de Depósitos como uma instituição bancária respeitável. Foi a CGD que me emprestou dinheiro para a minha primeira casa. Era na CGD que depositava as poupanças. Via a CGD como o banco público, necessário e essencial.
Ao longo dos anos apercebi-me da sua ineficiência na relação com os clientes. Depois percebi que era um instrumento de política partidária; que foi muito responsável pelo endividamento nacional; que sustentou muito do compadrio que nos desgovernou; que teve e tem dirigentes e responsáveis pouco confiáveis; que adopta procedimentos internos muito duvidosos.
Quando foi noticiada um inquérito à CGD, concordei logo. Mas quando ouço os que ontem queriam privatizar a CGD defenderem hoje uma comissão de inquérito parlamentar, nasce a contradição.
Defendo a CGD pública, apesar de ter sérias dúvidas que a administração e os trabalhadores da CGD cumpram as regras que vigoram para as empresas do sector onde opera. Por isso concordo com a auditoria forense e discordo da comissão de inquérito parlamentar.

Contradições 3
Quando jovem vibrava com a vitórias das equipas portuguesas e da selecção nacional nos torneios internacionais de futebol. Sem qualquer influência da comunicação social, até porque a cobertura mediática era exígua. Coleccionei autógrafos dos jogadores do Benfica e do Sporting que venceram as taças europeias na década de 60. Segui com atenção os jogos de Portugal no mundial de 1966 nos televisores dos cafés de Portimão, nos intervalos de uma nova aventura para um adolescente lisboeta: a descoberta do Algarve. Revi as jogadas em pormenor nas salas de cinema, onde íamos ver os campeonatos de futebol, os jogos olímpicos ou as corridas de automóveis. Estive com os craques do Benfica na Estalagem Rota do Sol em Carcavelos, onde ficavam alojados durante os estágios; apesar da sua popularidade, Coluna, Eusébio e companhia mantinham uma atitude humilde, sem ponta de vedetismo. Foi assim que aprendi a sentir o futebol.
Depois, talvez um pouco por evolução pessoal mas muito por não gostar do que via, fui-me afastando do futebol português. Por saturação da cobertura televisiva, por aversão ao vedetismo dos Ronaldos e respectivas cortes, por alergia ao negócio obscuro montado à sua volta. E infelizmente a selecção portuguesa parece ampliar todos esses males. É por isso que não me surpreenderia nem ficaria triste se a selecção fosse eliminada na fase de grupos.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Parabéns, meu Pai!



Hoje o meu pai faria noventa e dois anos. É o primeiro aniversário depois da sua morte física.

José Luís Peixoto escreveu um dos mais belos textos sobre a dor de um jovem que perdeu o pai. Um livro magnífico que se lê num fôlego, em menos de uma hora, com um título que conjuga na perfeição o que representa a quebra do elo entre um pai e um filho: morreste-me.

Quando o leio, reconheço-me em muitas passagens. “No quarto, numa cama qualquer que não a tua, o teu corpo, pai. Talvez distante, preso num olhar entreaberto e amarelado, respiravas ofegante. O ar com que lutavas, lutavas sempre, gritava o seu caminho rouco. Pelo nariz, entrava o tubo que te sustinha.” Eu também ”pousei-te as mãos nos ombros fracos. Toda a força te esmorecera nos braços, na pele ainda pele viva. (…) E tu, sincero, a dizeres apenas um olhar suplicante, um olhar para eu nunca mais esquecer. Pai.”

É impressionante como tudo pode ser igual e ao mesmo tempo diferente. Igual quando “anoitecia devagar e, a esta hora, nesta altura do ano, desenrolavas a mangueira com todos os preceitos e, seguindo regras certas, regavas as árvores e as flores do quintal; e tudo isso me ensinavas, tudo isso me explicavas. E mostravas-me. Pai. Deixaste-te ficar em tudo.” Mas diferente, mesmo muito diferente, porque eu vi-te “velho, velhinho aqui no nosso quintal, a regar as árvores, a regar as flores.”

Vi eu, viram as minhas filhas, viram os meus netos. Essa foi a nossa grande sorte.

Também diferente porque quem estivesse com o meu pai, fosse quem fosse, acabava sempre um pouco mais feliz. Ele tinha o dom de perguntar, ouvir e dizer as palavras certas que faziam o outro sentir-se melhor com a profissão, com a família, com a sociedade, em suma, com a vida.

É por isso que se eu tivesse o talento para escrever um livro sobre a perda do meu pai, ele teria outro título. Seria 'Viveste-me'.

Parabéns, meu Pai!

sábado, 16 de janeiro de 2016

O Alferes Agrónomo



Acabou o curso de engenheiro agrónomo do Instituto Superior de Agronomia em 1948 e foi estagiar na Junta de Hidráulica Agrícola, no Ladoeiro, no projecto de Idanha-a-Nova. Terminado o estágio e ao contrário da promessa inicial de integração nos quadros da instituição, foi informado pelo presidente que a Junta estava com problemas e que poderia até despedir pessoal. Teria portanto de esperar um ano e candidatar-se de novo, sem qualquer garantia de vir a ser admitido.

Desempregado, seria convocado para um ano de tropa para terminar o serviço militar obrigatório. Já tinha feito dois ciclos de instrução como aspirante a oficial miliciano durante as férias académicas, em Vendas Novas e Cascais, mas agora tratar-se-ia da promoção a alferes. E depois, muito provavelmente, continuaria desempregado.

Resolveu então concorrer aos Serviços de Agricultura e Florestas de Moçambique, sua terra natal, já que os pais aceitaram pagar a passagem de regresso. E como o ser casado era um factor de preferência do concurso, combinou com a noiva casar pelo civil e seguir logo para Moçambique. Assim que arranjasse emprego, ela iria ter com ele para então se casarem pela Igreja.

E assim foi. Depois de obter autorização do Estado-Maior do Exército para se ausentar do país, embarcou num navio numa viagem de vinte e oito dias até Moçambique. Durante a viagem conheceu e tornou-se amigo do oficial do exército alemão, Theodore Greef, que depois de ter combatido na Somália ou Eritreia, pelos nazis, terminada a guerra, estava a caminho da África do Sul, para ali se empregar. Mas isso são contas de outro rosário.

Chegado a Moçambique, soube que afinal o concurso para os Serviços de Agricultura estava atrasado, sem data prevista para a decisão final. Iniciou a procura de emprego, mas não estava fácil. Aceitaria qualquer um, mas nada. E sentia-se inútil, a viver à custa dos pais e impossibilitado de mandar a noiva vir para junto de si.

Finalmente, ao fim de uns meses, o problema do emprego foi resolvido de forma simples e inesperada pelo barbeiro do pai. O barbeiro falou no caso ao Director dos Serviços de Agricultura, também seu cliente, que mandou o jovem agrónomo apresentar-se no dia seguinte pois havia uma vaga interina nos serviços.

Foi dessa forma que começou a trabalhar na Secção de Hidráulica Agrícola e pôde finalmente casar-se. Mas a burocracia de Lourenço Marques não permitia fazer qualquer coisa de válido. Quando ocorreu um problema no vale do rio Incomáti, encarregaram-no de ir à Manhiça saber o que se passava. Elaborou um projecto de enxugo e rega para uma parcela do vale mas não o pôde executar por falta de financiamento.

Decidiu então, por sugestão de um colega botânico, pedir a transferência para Inhambane a fim de poder estudar e trabalhar a cultura do café racemosa, espécie espontânea no litoral arenoso de Moçambique. Aí as coisas mudaram e foram evoluindo até que foi nomeado Delegado da Junta de Exportação do Café e encarregado de iniciar trabalhos sobre o café arábica na Alta Zambézia.

Mas em 1955, seis anos depois e já com dois filhos, recebeu uma convocatória para a tropa por seis meses, para a tal promoção a alferes. A esposa e os filhos viajaram para Portugal para junto dos sogros e ele voltou à vida de aspirante a oficial, a ensinar praças para serem promovidos a cabos.

Mas a agricultura cafeeira não podia esperar e resolveu convencer o comandante da importância do café para Moçambique e da necessidade de ir ao Gurué, na Alta Zambézia, escolher uma parcela de terreno e nela implantar uma estação experimental de arábica. É certo que a autorização superior acabou por depender mais do trabalho do agrónomo no melhoramento dos ajardinamentos do quartel, mas para a história colonial fica registado o contributo do Exército para o desenvolvimento da cultura do café em Moçambique. 

E assim o nosso aspirante arranjou uma forma inovadora de cumprir o serviço militar: no Gurué, a produzir e distribuir sementes de arábica aos fazendeiros, a mais de 1800 km do quartel em Lourenço Marques. O problema só se levantou quando, passados os seis meses, teve de prestar provas perante oficiais do Estado-Maior. Descontando a matemática do tiro de artilharia que tinha aprendido quase dez anos antes na instrução em Cascais, o nosso aspirante pouco mais sabia da faina militar do que dar ordens à companhia com voz forte e enérgica.

Os seus superiores decidiram então que tinha, pelo menos, de aprender a desmontar, e montar de novo, uma pistola de guerra de utilização comum. Para isso teria de receber, e recebeu, instrução intensiva de desmontar e montar a pistola.

E pronto. No dia marcado lá apareceram no quartel os oficiais do Estado-Maior que, por milagre, mandaram fazer o que tinha aprendido nos últimos dias! Foi um sucesso, logo a seguir confirmado com uma sessão de ordens gritadas a plenos pulmões!

Aprovado, foi promovido a alferes e concluiu a brilhante prestação de serviço militar no Quartel da Carreira de Tiro de Lourenço Marques, a capital da Colónia...

Voltou à cultura do racemosa e do arábica até 1959, quando em Quelimane foi proibido de continuar a trabalhar no café. E porquê? Porque "superiormente" tinha sido declarado que a Colónia de Moçambique não dava café, só chá!

Mas estas também são contas de outro conto

sábado, 31 de outubro de 2015

Sou um Pecador

Há uns sete anos li no Diário de Notícias um manifesto contra a minha geração de um investigador em biotecnologia, presumo que jovem.

Segundo ele a minha geração beneficiou, como nenhuma outra antes ou depois, de empregos vitalícios, salários acima das respectivas qualificações e pensões de reforma muito acima das respectivas contribuições; os seus membros chegaram sem mérito nem trabalho a posições que nunca teriam alcançado se a vida pública não tivesse sido politizada pela revolução; e tem "direitos adquiridos" que estão a ser pagos pelos jovens que, sem emprego vitalício nem reforma garantida, são forçadas a trabalhar para sustentar os privilégios das gerações mais velhas.

E o investigador em biotecnologia concluía a sua tese científica dizendo que a excessiva politização da vida pública não é um valor a promover mas um vício a evitar. As sociedades politizadas premeiam a habilidade política e as demonstrações de força na rua. As sociedades despolitizadas premeiam o mérito individual, o trabalho e a iniciativa empresarial. O eventual desinteresse dos jovens pela política partidária é um bom sinal. É um sinal de que a sociedade falhada construída pela geração do 25 de Abril pode ter os dias contados.

Hoje ouvi a fundamentação teológica da tese dos malefícios da politização. Questionado sobre o que Jesus Cristo teria feito nas últimas eleições, um eurodeputado não hesitou na resposta: ter-se-ia abstido!