Confesso que quando comecei a ir a Peniche com regularidade e mais tarde casei com a João, tinha uma ideia muito vaga de quem eram e que importância tinham as nazarenas que via a carregar peixe à cabeça e a vendê-lo na Ribeira, a ajudar os homens a consertar as redes no Campo da República ou à porta das casas de pescadores. Para mim a nazarena era muito a “Amiga de Peniche” representada no painel de azulejos que o avô Zé, o “Zé Baterremos” para os penicheiros, mandou fazer e colocar na fachada do armazém de preparação e distribuição de peixe que possuía na Avenida do Mar.
É certo que ouvia falar da maneira como as nazarenas se apresentavam sem qualquer acanhamento ao lado dos homens na dura faina do peixe, lutadoras e rudes, sempre prontas para uma briga rija se algo não lhes agradasse, com um vocabulário e uns modos que feriam o pudor e os costumes das outras gentes de Peniche, em particular das penicheiras. Ouvia também a João contar que quando em pequena brincava com a Santanita, a amiga nazarena que morava ao lado da casa dos avós, ouvia censuras que naturalmente ignorava. Mas de facto o meu conhecimento da história e da vida das mulheres da Nazaré era escasso e resumia-se praticamente às referências literárias de Miguel Torga, às belas fotografias a preto e branco de Artur Pastor e ao movimento, alegria e cor das dançadeiras do Rancho Folclórico Tá-Mar no Vira da Nazaré, que um dia as mulheres de alguns oficiais de Marinha, com eles próprios, tentaram imitar num palco de Monterey.
Só anos depois percebi o papel central das mulheres da Nazaré na sobrevivência de uma comunidade que dependia do esforço e da sorte incerta da pesca, assumindo a responsabilidade de obterem o que o mar não podia oferecer: uma renda regular. Para além de ajudarem os homens na faina da pesca, a puxar as artes para terra e em tudo o que era feito na praia, as nazarenas encarregavam-se de outros serviços, tais como o transporte, a transformação e a comercialização do peixe. As vendedoras de peixe da Nazaré não eram simples comerciantes como era banal entre mulheres de pescadores, criaram uma verdadeira rede de distribuição que ultrapassou a escala local e abastecia cidades e vilas como Alcobaça, Fátima, Leiria, Batalha, Caldas da Rainha ou Maceira. As nazarenas iam a pé vender o seu peixe, percorrendo dezenas de quilómetros todos os dias. Mais tarde usaram carroças puxadas por burros ou os transportes públicos para as ligações regionais.
As mulheres dos pescadores da Nazaré, embora analfabetas, estabeleceram estratégias, legais ou ilegais, que lhes permitiam ganhar dinheiro e economizar para os tempos difíceis. Esses ganhos e a gestão rigorosa dos bens familiares, incluindo o salário que os maridos lhes entregavam no fim de cada período de pesca, permitiam que as famílias sobrevivessem aos tempos difíceis e aos longos Invernos, quando os barcos não podiam sair ao mar e deixavam em terra centenas de homens desocupados. Como a pesca não garantia aos homens uma renda certa, eles entregavam às mulheres a responsabilidade da subsistência e do equilíbrio da economia familiar. Ao contrário das mulheres de outras regiões piscatórias, as da Nazaré tinham um enorme poder que era reconhecido naturalmente pelos homens.
Foram estas mulheres rudes mas confiantes e habituadas a exercer o poder que a partir dos primeiros anos do século XX e, com maior intensidade, a partir da década de 1930, migraram e se fixaram com as suas famílias em Peniche. O choque cultural era inevitável e apesar do contributo que deram para o desenvolvimento de Peniche, continuam a ser olhadas por alguns penicheiros como gente diferente. Pelo seu lado, as nazarenas, passado um século e várias gerações nascidas em Peniche, continuam a ostentar com orgulho a sua identidade cultural muito marcante. E eu, ao vê-las nos seus trajes característicos nas celebrações religiosas, nas festas populares, nas mesas das pastelarias ou na rua a atrair turistas com cartazes, às vezes um simples pedaço de cartão, de “chambres” para alugar, não posso deixar de lembrar e admirar a força e a pertinácia das nazarenas de Peniche.
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