sexta-feira, 2 de maio de 2025

Os últimos dias da PIDE

 


Quando falo da PIDE aos jovens, para além de relatar a minha fugaz visita à sede na António Maria Cardoso, poucos dias depois da ocupação pelas forças do MFA coordenadas pelo meu camarada e amigo Luís Costa Correia, e de mostrar a ficha prisional do meu primo Benjamim, uma das 29 510 fichas dos 148 livros de registo de presos da PVDE/PIDE/DGS de 1934 até 18 de Abril de 1974 que a Torre do Tombo colocou online, e onde, ao longo de 9 anos, vários amanuenses registaram a forma como a repressão salazarista destruiu a vida de um jovem de 18 anos, socorro-me depois dos testemunhos de quem tem credibilidade. Desde logo dos testemunhos do Luís Costa Correia sobre os primeiros dias da ocupação da sede da DGS/PIDE como, por exemplo, a “semimória” que publicou com o título "Sobre a ocupação da Sede da DGS/ PIDE - 1974" cuja leitura recomendo vivamente.

Falo também do “Programa do Movimento das Forças Armadas” que previa a “extinção imediata da DGS”, mas que o general Spínola, a quem foi apresentado com antecedência, terá provavelmente admitido ser irrelevante e que depois do golpe prevaleceriam as suas teses, o seu poder pessoal e a sua rede de seguidores. Quando na noite de 25 de Abril foi obrigado a adoptar o Programa do MFA como programa da Junta de Salvação Nacional, fez cortes e introduziu alterações de última hora que acabaram por se revelar negativas. Desde logo as relativas à neutralização da DGS/PIDE e à libertação dos presos políticos cujas consequências já foram exaustivamente estudadas e discutidas pelos historiadores.

O Expresso divulgou agora, em complemento de um interessante trabalho do jornalista Vítor Matos sobre os dois últimos presos da PIDE, “o auto das declarações de Silva Pais, que um militar manteve secreto durante 51 anos”. Segundo o Expresso, “o documento original com o primeiro depoimento assinado a 12 de junho de 1974 pelo major Fernando Silva Pais, último diretor da PIDE/DGS, sobre os acontecimentos do dia 25 de Abril, nunca tinha sido divulgado até hoje. As declarações foram recolhidas pelo então primeiro-tenente dos fuzileiros Luís Pedreira Carneiro, imediato da força comandada pelo capitão-tenente Abrantes Serra, que ocupou o Forte de Caxias, de onde foram libertados os presos políticos."

Apesar das evidentes contradições do depoimento de Silva Pais, a divulgação deste documento constitui, sem dúvida, um importante contributo para a compreensão dos eventos e da relação de forças que condicionaram os primeiros dias da sublevação militar.

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