O recente livro da historiadora Luísa Tiago de Oliveira
sobre o caminho para o 25 de Abril na Armada tem suscitado comentários de
camaradas que questionam o rigor histórico de alguns depoimentos ou descrições
de episódios nele transcritos. Um deles é a descrição que o meu camarada e
amigo Martins Guerreiro faz da passagem da coluna das Caldas da Rainha pelo
Grupo nº1 de Escolas da Armada em Vila Franca de Xira (G1EA), em 16 de Março de
1974. Devo confessar que também estranhei a descrição do Guerreiro por não
coincidir com o que alguns dos principais intervenientes no episódio me
contaram. Por outro lado, penso que perdeu a oportunidade de referir o papel do
Pires Soeiro que tudo fez para que a força que comandou não se encontrasse com
a coluna do Regimento de Infantaria 5 da Caldas da Rainha, assim como do Manuel
Begonha e do Ramiro Correia que avisaram o Comandante que não devia interferir.
Posteriormente, o Martins Guerreiro esclareceu: “… quando
falei com a Luísa o essencial era assinalar que nós não tínhamos cumprido a
ordem de interceptar a coluna das Caldas. Voltei a falar com o Soeiro e ele
explicou me que estacionou a força junto à Praça de Touros e dali viu passar a
coluna na autoestrada no regresso para as Caldas. Quanto à detenção do Comandante
da Escola não tem memória disso , mas a ordem de saída da força para
interceptar a coluna das Caldas foi dada pelo Comandante da unidade que a tinha
recebido do EMA , isto segundo o Soeiro; se a detenção do Comandante foi depois
de constituída a força e ele sair , naturalmente o Soeiro não esteve envolvido
nem tem memória. As minhas memórias resultam de relatos iniciais do Lobo de
Oliveira e do Soeiro e relatos mais tarde do Oliveira Monteiro e do Begonha.”
O que conheço do que se passou no G1EA, no dia 16 de Março
de 1974, resultou das várias conversas com intervenientes que merecem a máxima
confiança e resume-se a isto: O Comandante do G1EA terá mandado o pessoal de
serviço constituir uma força para interceptar a coluna das Caldas, muito
provavelmente cumprindo ordens superiores. O Pires Soeiro assumiu o comando da
força do G1EA logo que esta foi constituída e levou-a para junto da Praça de
Touros de Vila Franca de Xira onde aguardou calmamente que a coluna do Exército
passasse pela autoestrada. Não terá assim havido qualquer contacto entre a
força comandada pelo Soeiro e a coluna do Regimento de Infantaria 5 das Caldas
da Rainha. Entretanto, o Begonha e o Ramiro Correia, numa reunião dos oficiais
ligados ao Movimento terão sido mandatados para falar com o Comandante e
aconselhá-lo a ficar no seu gabinete e não intervir, não tendo ele oferecido
resistência. No dia seguinte, o Comandante terá chamado o Begonha e comunicado
que iria apanhar dez dias de prisão, mas uns dias depois terá voltado a
chamá-lo para dizer que o castigo ficava sem efeito. O Begonha não sabe quem
terá revertido a decisão, mas admite que tenha sido o próprio Governo para não
hostilizar a Marinha.
Embora esteja convencido de que o que conheço do episódio
não se afasta muito da realidade, não estou certo que seja a versão historicamente
correcta. A experiência de dez anos a tentar descobrir o que efectivamente
aconteceu na conspiração e nas operações militares em que não participei para
contar aos jovens das escolas, tem sido frustrante e já me habituei a contentar
com as aproximações mais ou menos verosímeis que vou recolhendo dos vários
intervenientes (a memória é muito traiçoeira…).
Um outro exemplo dessa frustração e de algum modo relacionado com o 16 de Março, é a libertação do Forte da Trafaria dos oficiais implicados no golpe falhado, no dia 25 de Abril. Segundo o testemunho do colectivo da Escola Prática de Artilharia (EPA) de Vendas Novas transcrito na página 404 do excelente livro “Operação Viragem Histórica” do Carlos Contreiras, a Companhia de Artilharia Motorizada (CART) comandada pelo Cap. Mira Monteiro e de que fazia parte o Ten. Andrade da Silva, “às 15.15 horas, recebeu a missão de se deslocar à Trafaria a fim de libertar os oficiais pertencentes ao Movimento; esta missão foi integralmente cumprida pela libertação de 11 Oficiais ali detidos.” Ainda segundo o mesmo testemunho, “os Oficiais libertados, escoltados por forças da CART seguiram para Lisboa.” No testemunho do colectivo da EPA de Vendas Novas não há qualquer referência aos fuzileiros navais.
No entanto, na página 552 do mesmo livro, o meu camarada
Vargas de Matos testemunhou que no dia 25, o Destacamento de Fuzileiros
Especiais (DFE) que comandava, depois de regressar da primeira saída para
Lisboa e do pessoal ter comido uma refeição ligeira na Força de Fuzileiros do
Continente, se juntou à força de Artilharia posicionada no Cristo Rei, “que
recebeu o DFE sem qualquer problema.” E acrescentou: “Próximo das 1600 o
Posto de comando do MFA atribui-nos a missão de ir ao Forte da Trafaria
libertar os oficiais presos na sequência do 17 do Março-Caldas da Rainha.
Utilizando os transportes de Artilharia, seguiram para o Forte meio Corpo de
Combate do DFE (10 homens) e um Asp/Alf de Artilharia com as viaturas. Esta
força regressou posteriormente transportando os oficiais detidos”. No artigo
que assinou no número 594, de Abril de 2024, da Revista da Armada comemorativo
dos 50 anos do 25 de Abril, o Almirante Vargas de Matos reafirmou: “Entretanto
Meio Grupo de Combate do Destacamento com militares da Bataria de Artilharia
tinha ido ao Forte da Trafaria e libertara os Oficiais do Movimento das Caldas,
ali detidos.”
Mas em 30/04/2018, o já então Coronel Andrade da Silva, numa
entrevista em Vieira do Minho, disse o seguinte
sobre o mesmo episódio: “… e também tivemos a ambiguidade dos fuzileiros
navais, porque nem tudo… há aqui uma coisa, isto a história está por contar… há
muita camuflagem, a atitude dos fuzileiros navais foi muito ambígua. Nós
recebemos ordens para deter a todo o custo os fuzileiros navais, quando
passassem ali na ponte, se não fizessem um determinado sinal. Eles fizeram esse
sinal, passaram. Mas depois regressaram outra vez ao Cristo Rei e tentaram,
eles disseram que mandados pelo Pinheiro de Azevedo, há aqui uma certa
ambiguidade, e tentaram desalojar-nos de lá pela via negocial. O que é que
vocês estão aqui a fazer? Isto em termos militares, aquilo a que se chama as
zonas de acção, esta área pertence mais à nossa zona de acção, à escola de
fuzileiros navais, não é de Vendas Novas, o que é que vocês estão aqui a fazer?
E nós aí dissemos: - Não, nós estamos aqui a fazer, estamos a cumprir ordens do
OSCAR que era o Otelo, a Pontinha, e daqui só saímos com ordens dele, portanto,
vocês vão à vossa vida. E foram.” E quanto à Trafaria, disse que “depois
tivemos de ir libertar os nossos camaradas à Trafaria, que também estavam
presos.” De novo, o oficial da EPA não fez qualquer referência à participação
dos fuzileiros na libertação dos oficiais do Exército presos no Forte da
Trafaria.
Parafraseando uma expressão popular, não é fácil ser historiadora nesta freguesia!
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