quinta-feira, 5 de maio de 2022

Chimbança


Em 1910, os meus avós paternos, ela da freguesia do Arco de São Jorge no norte da Madeira e ele da freguesia de Gaula, cumpriram a sina de muitos portugueses e foram para Moçambique sem bilhete de regresso e em condições precárias, na busca de uma vida melhor. Por lá ficaram até ao fim das vidas, sem nunca esquecerem as raízes madeirenses.

A avó Isabel, uma mulher extraordinária que à semelhança da esmagadora maioria das meninas da sua geração foi condenada a uma baixa escolaridade, sempre me impressionou pela forma como usava as palavras para exprimir o que sentia. Tinha o dom invulgar de, nos momentos e nas circunstâncias certas, usar palavras que só ela conhecia, sem que isso diminuísse o respeito que suscitava nos interlocutores.

Não sabíamos se as inventava ou se as tinha aprendido com as gentes das mais variadas origens que conheceu ao longo da vida. Lembro-me, por exemplo, de a ouvir usar a palavra chimbança para se referir à altivez ou prosápia de outros e estava convencido que seria um termo adaptado de um dialecto moçambicano.

Só hoje, ao percorrer as páginas de um Vocabulário Madeirense descobri que, afinal, o trouxe da sua terra natal!

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