terça-feira, 23 de março de 2021

"Emigrês"

 


Tem sido de facto um prazer acompanhar o simpósio “Filamentos da Herança Atlântica” organizado pelo meu amigo Diniz Borges, tal o enorme interesse das duas (às vezes três) sessões diárias que desde o dia 18 até ao encerramento amanhã são divulgadas para todo o mundo através do Facebook e do Zoom. Sim, meu caro amigo Diniz, isto não é generosidade, estou apenas a ser justo.

Ontem foi a vez de ouvir o professor Francisco Cota Fagundes falar do romance “Mau Tempo no Canal” de Vitorino Nemésio que traduziu para inglês com o título “Stormy Isles: An Azorean Tale”. O “Mau Tempo no Canal” foi uma das leituras que me marcou (sobre isso já escrevi noutro local) e por isso foi muito interessante ouvir a palestra. Em particular apreciei a análise que o professor Francisco Fagundes fez do processo de criação e formação de novos termos pelos açorianos por não conhecerem a língua dos países de emigração nem as novas realidades que encontravam.

Ao ouvir os exemplos que citou vieram-me à memória os muitos termos que ouvi serem usados por portugueses e luso-descendentes em todo o mundo, uma prova da flexibilidade cultural de quem, em regra iletrado, se apropriou de línguas e dialectos estranhos para comunicar com outros povos e, depois, dentro da comunidade que criou. Lembrei-me por exemplo de uma jovem mãe de Malaca que se identificou como portuguesa e que desconfiou que eu o fosse porque era muito alto e muito branco para o ser; e do exercício mental que tive de fazer para perceber a génese das palavras que usou para comunicar comigo quando lhe provei que era de facto português. Lembrei-me também do inventor de palavras Mia Couto e dos inúmeros nomes e termos que diz terem sido alterados pelos portugueses (Manjacaze em vez de Mandhlakazi, por exemplo).

Mas lembrei-me acima de tudo da minha avó Isabel, uma jovem nascida na freguesia do Arco de São Jorge no norte da Madeira que, recém-casada com o António Jorge da freguesia de Gaula, cumpriu a sina de muitos portugueses e foi para Moçambique em 1910, sem bilhete de regresso e em condições precárias, na busca de uma vida melhor. Mais do que o meu avô, a minha avó era perita em inventar palavras a partir das línguas africanas e do inglês, usando-as com à vontade como se fosse português escorreito.

Era uma das características marcantes da mulher extraordinária que a minha avó Isabel era.

sexta-feira, 19 de março de 2021

O denunciante


Foi talvez o que mais estranhei. Para quem vinha do país dos “brandos costumes”, de gentes que “não querem confusões nem conflitos”, que dizem que “não se metem na vida dos outros” e que nunca viram nem sabem o que se passou, tive de me habituar a uma sociedade onde muitos, não sei se a maioria, aprendem desde tenra idade a comportarem-se como um híbrido de professor e polícia. Sempre que alguém não cumpre as regras, seja por fazer barulho em casa, atravessar uma rua fora da passadeira ou caminhar na faixa do passeio destinada às bicicletas, lá aparece um alemão carrancudo para dar uma descasca e o pôr na ordem.

Muitos alemães entendem que têm o direito, e provavelmente a obrigação, de ensinar a lei e as regras aos outros e de lhes impor o seu cumprimento. Nunca me habituei a tal comportamento e sempre que podia, revoltava-me. Com a ênfase com que, por exemplo, despachei, em português pouco suave, o hausmeister que às dez horas de uma noite de Natal, durante a ceia, nos veio lembrar que a partir daquela hora não podíamos fazer barulho. Por mais que tentasse racionalizar e compreender aquele traço cultural, nunca consegui dissociar o destino de muitas das vítimas do nazismo do comportamento policial e desumano dos seus vizinhos e conhecidos.

Claro que eu sabia que na terra dos brandos costumes de onde tinha vindo também havia muita gente que se metia na vida dos outros. Os arquivos da Pide estavam cheios de exemplos de quem prejudicou vizinhos, colegas, amigos e até familiares a pretexto da manutenção da ordem e a bem da Nação. Mas mantinha a ilusão de que por cá as coisas eram diferentes e os portugueses, apesar de tudo, portavam-se melhor que os alemães.

Infelizmente, trinta anos depois, sou obrigado a reconhecer que os portugueses são, ou estão cada vez mais, parecidos com os alemães. Denunciam os outros às autoridades policiais e administrativas por tudo e por nada, de uma forma até mais desprezível do que a chamada de atenção do hausmeister de Hamburgo. Fazem-no anonimamente, cobardemente, muitas vezes por inveja, para prejudicar os outros, mas sempre e alegadamente em defesa do bem público. E as autoridades aceitam e dão-lhes cobertura. Ainda há dias os proprietários de um estabelecimento comercial contavam-me que durante a pandemia, o seu e outros estabelecimentos da rua eram frequentemente visitados por polícias em consequência de denúncias de irregularidades que não se confirmavam.

Muito provavelmente, um dos efeitos da pandemia foi ter tornado os portugueses mais parecidos com os alemães. Infelizmente, apenas no que eu mais desprezava neles.