Tem sido de facto um prazer acompanhar o simpósio “Filamentos da Herança Atlântica” organizado pelo meu amigo Diniz Borges, tal o enorme interesse das duas (às vezes três) sessões diárias que desde o dia 18 até ao encerramento amanhã são divulgadas para todo o mundo através do Facebook e do Zoom. Sim, meu caro amigo Diniz, isto não é generosidade, estou apenas a ser justo.
Ontem foi a vez de ouvir o professor Francisco Cota Fagundes falar do romance “Mau Tempo no Canal” de Vitorino Nemésio que traduziu para inglês com o título “Stormy Isles: An Azorean Tale”. O “Mau Tempo no Canal” foi uma das leituras que me marcou (sobre isso já escrevi noutro local) e por isso foi muito interessante ouvir a palestra. Em particular apreciei a análise que o professor Francisco Fagundes fez do processo de criação e formação de novos termos pelos açorianos por não conhecerem a língua dos países de emigração nem as novas realidades que encontravam.
Ao ouvir os exemplos que citou vieram-me à memória os muitos termos que ouvi serem usados por portugueses e luso-descendentes em todo o mundo, uma prova da flexibilidade cultural de quem, em regra iletrado, se apropriou de línguas e dialectos estranhos para comunicar com outros povos e, depois, dentro da comunidade que criou. Lembrei-me por exemplo de uma jovem mãe de Malaca que se identificou como portuguesa e que desconfiou que eu o fosse porque era muito alto e muito branco para o ser; e do exercício mental que tive de fazer para perceber a génese das palavras que usou para comunicar comigo quando lhe provei que era de facto português. Lembrei-me também do inventor de palavras Mia Couto e dos inúmeros nomes e termos que diz terem sido alterados pelos portugueses (Manjacaze em vez de Mandhlakazi, por exemplo).
Mas lembrei-me acima de tudo da minha avó Isabel, uma jovem nascida na freguesia do Arco de São Jorge no norte da Madeira que, recém-casada com o António Jorge da freguesia de Gaula, cumpriu a sina de muitos portugueses e foi para Moçambique em 1910, sem bilhete de regresso e em condições precárias, na busca de uma vida melhor. Mais do que o meu avô, a minha avó era perita em inventar palavras a partir das línguas africanas e do inglês, usando-as com à vontade como se fosse português escorreito.
Era uma das características marcantes da mulher extraordinária que a minha avó Isabel era.
