No dia em que, em Washington e San Francisco, perto de um milhão de pessoas se manifestavam contra a guerra do Vietnam na que foi considerada a maior manifestação de sempre contra uma guerra nos EUA, em que três cosmonautas soviéticos da Soyuz 10 realizavam a primeira tentativa de acoplagem e passagem para estação orbital Salyut, os cadetes do primeiro ano da Escola Naval participavam, no centro de Lisboa, com militares de outros ramos das Forças Armadas, na procissão da Senhora da Saúde. E eu, então com 21 anos, ia à frente dos cadetes, no maior “pincel” – termo da gíria naval para estopada ou sacrifício imposto –, de que me recordo.
No dia 24 de Abril de 1971, o dia em que em Washington e San Francisco, perto de um milhão de pessoas se manifestavam contra a guerra do Vietnam na que foi considerada a maior manifestação de sempre contra uma guerra nos EUA, em que três cosmonautas soviéticos da Soyuz 10 realizavam a primeira tentativa de acoplagem e passagem para estação orbital Salyut, os cadetes do primeiro ano da Escola Naval participavam, no centro de Lisboa, com militares de outros ramos das Forças Armadas, na procissão da Senhora da Saúde. E eu, então com 21 anos, ia à frente dos cadetes, no maior “pincel” – termo da gíria naval para estopada ou sacrifício imposto –, de que me recordo.
Naquele tempo, a participação na procissão da Senhora da Saúde não dependia da crença de cada um. Provavelmente por ser considerada uma cerimónia militar, os cadetes do primeiro ano da Escola Naval, fossem ou não crentes, eram simplesmente nomeados e, tal como outros em anos anteriores, tiveram de cumprir o itinerário da procissão, num fim-de-semana irremediavelmente estragado.
Em marcha muito lenta, saíram da capela de Nossa Senhora da Saúde no Martim Moniz, pisaram as pedras irregulares de basalto negro da rua do Benformoso – diz a lenda que em homenagem ao Boi Fermoso que ali pastara, mas nós só vimos um noutra rua e nada tinha de fermoso –, ouviram os piropos das mulheres da vida dura no Largo do Intendente, viraram na Travessa do Cidadão Gonçalves para desceram a avenida Almirante Reis e a rua da Palma e lutarem contra o empedrado e os carris dos eléctricos, seguiram pela Dom Duarte até à Praça da Figueira e voltaram ao Martim Moniz pelas ruas dos Condes de Monsanto, do Poço do Borratem e do Arco do Marquês de Alegrete.
O Diário de Notícias (DN) noticiou no dia seguinte que “milhares de pessoas assistiram, de tarde, na Baixa Pombalina, à tradicional procissão da Senhora da Saúde”. E que “o Chefe do Estado (Américo Thomaz), acompanhado de sua esposa e filha e ministros da Defesa, do Interior, da Marinha, do Secretariado da Aeronáutica e presidente do município de Lisboa, assistiu ao desfile no Palácio Folgosa, na Rua da Palma.”
É rigorosamente verdade o que o DN escreveu porque nós vimos os dirigentes do Estado Novo nas janelas do 1º andar do que é hoje a 4ª Esquadra de Lisboa da PSP. E vimos muitas outras realidades que a passagem dos anos foi apagando da nossa memória.
Não fosse o filme a preto e branco do
noticiário nacional daquele dia que a RTP guarda nos seus arquivos, teria esquecido a menina vestida de freira, o homem com a menina vestida de anjinho ao colo, as meninas que carregavam coroas ou as senhoras do Movimento Nacional Feminino.
Mas o tempo não me fez esquecer a pobreza e degradação das casas da Mouraria apesar das janelas engalanadas com colchas, o rosto triste da maioria das pessoas que assistiam ao cortejo, em contraste com a alegria dos que acenavam das janelas das casas abastadas.
As intermináveis duas horas daquela que foi a primeira e única procissão religiosa em que participei revelaram-se mais do que suficientes para reflectir sobre o que estava a presenciar. E reforçaram a minha convicção de que um regime que se alimentava de cerimónias daquela natureza, governado pelas figuras que observei no primeiro andar do Palácio Folgosa, estava irremediavelmente condenado.
De facto, exactamente três anos depois, um grupo de jovens oficiais das Forças Armadas ali representadas preparava-se para derrubar a ditadura e permitir que o seu fim fosse festejado intensamente por todo o povo português, incluindo naturalmente muitos dos que participaram naquela procissão da Senhora da Saúde.