quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

A direita nacionalista e a memória colonial

 


Num comentário a uma recente publicação minha sobre a Companhia de Diamantes de Angola no período colonial, um perfil anónimo do Facebook acusou-me de divulgar “mentiras racistas lusofóbicas”. Segundo esse utilizador, eu “podia ter escrito que as colónias africanas nunca deram lucro nem glória” e que foram “um sorvedouro de homens e dinheiro... a começar por Angola!”

No diálogo subsequente, o indivíduo insistiu que “as colónias africanas nunca deram lucro nem glória”; que “entre 1950 e 1974 tinham sempre a balança de pagamentos negativa”; que as colónias representavam apenas “5 ou 6% do PIB de Portugal”; que “Portugal e os portugueses ficaram mais pobres ao ter colónias”; que existiriam “anexos secretos nos acordos de independência, obrigando Portugal a pagar até hoje dívidas públicas e privadas das ex-colónias”; que “a coesão nacional estará em risco se o Governo conceder a Angola 3,2 mil milhões de euros para um fundo ambiental (como os 600 milhões dados a Cabo Verde em 2012)”; que não queria “pagar direta ou indiretamente as consequências do colonialismo”; e que nem os seus “pais, avós ou bisavós” tinham beneficiado desse passado. Finalizou com a proclamação: “A coesão nacional está posta em causa! Isso da culpa por associação e castigo coletivo, não será comigo! Eu sou daqueles indígenas que acredita que afinal a guerra colonial ainda não acabou, apenas mudou o campo de batalha! Queria pedir-lhe um favor: pare de dizer mentiras aos estrangeiros, pois eles ou os filhos deles não terão direitos políticos sobre todos os indígenas de Portugal, nem que se tenha de dividir o país, como aconteceu após o 25 de Abril!”

Cinquenta anos após o 25 de Abril, o passado colonial português continua a ser um campo de batalha político. Se o consenso democrático consagrou o fim do Império como momento fundador da liberdade, uma contra narrativa tem vindo a ganhar força nas margens do debate público. No centro desta reescrita da História, promovida por um ecossistema de direita radical nacionalista, sobressaem duas ideias principais: a tese do “prejuízo imperial”, que defende que as colónias foram um fardo para Portugal, e o lema de que “a guerra colonial ainda não acabou”, reinterpretando o conflito como uma batalha cultural interna. Embora o núcleo ideológico se encontre em grupos como o Ergue-te, partido extinto em 2025 pelo Tribunal Constitucional, estas narrativas encontram um potente amplificador populista no ecossistema digital do Chega, cujas fronteiras difusas com a direita radical nacionalista permitem que estas ideias ganhem visibilidade.

A ideia de que Portugal foi financeiramente prejudicado pelas suas colónias entre 1950 e 1974 tornou-se central no revisionismo histórico. A escolha deste período não é inocente: abrange o auge do investimento infraestrutural do Estado Novo, essencial para a narrativa do sacrifício metropolitano. Estes novos nacionalistas defendem que o saldo financeiro entre Portugal e as colónias foi sistematicamente negativo para a metrópole, enfatizando os custos elevados de barragens (Cahora Bassa, Cambambe), portos (Lobito, Nacala) e extensas redes ferroviárias (Caminho de Ferro de Benguela). Alegam que a receita fiscal directa destes investimentos nunca compensou os custos, apresentando-os como um sacrifício português para “desenvolver” África. Os custos da Guerra do Ultramar, que a partir de 1961 consumiram parte crescente do orçamento, são apresentados como prova final do “sacrifício” financeiro para manter o território colonial.

Esta argumentação ignora deliberadamente a estrutura económica integrada do Estado Novo, designada “Espaço Económico Português”. Apesar da administração colonial poder operar com défice, o Império gerava lucros significativos para a metrópole através de dois mecanismos que a narrativa radical omite. Primeiro, as colónias eram obrigadas a adquirir produtos da indústria metropolitana, como têxteis ou vinho. Estas indústrias, não competitivas nos mercados europeus, tinham assim um mercado garantido e protegido, sustentando lucros privados e postos de trabalho em Portugal. O custo era público, mas o lucro era privado e metropolitano. Segundo, as colónias, em especial Angola e Moçambique, exportavam matérias-primas valiosas (café, diamantes, petróleo), gerando divisas fortes (dólares, libras) essenciais para a balança de pagamentos portuguesa, permitindo importar tecnologia e maquinaria indispensáveis. Outro exemplo é o ouro dos mineiros em Moçambique. A Convenção de Moçambique com a África do Sul estipulava que uma parte dos salários dos mineiros moçambicanos no Rand fosse paga diretamente ao governo português em ouro, a um preço fixo oficial, que Portugal podia depois revalorizar no mercado livre. Este mecanismo invisível gerava um lucro financeiro directo para o Banco de Portugal que não aparecia explicitamente nas balanças comerciais de mercadorias, mas que era um pilar da estabilidade do escudo. Portugal beneficiou de um império economicamente rentável no seu conjunto durante o Estado Novo, mesmo que tal fosse muitas vezes invisível e apenas beneficiasse uma minoria nacional e interesses estrangeiros (como no caso dos diamantes de Angola).

A contabilização do valor das colónias no PIB português entre 1950 e 1975 é enganadora. Durante a década de 1950, o comércio com as colónias representava entre 20% e 25% do comércio total de Portugal, mas a contribuição total do comércio colonial para o PIB metropolitano era de apenas aproximadamente 3%. O PIB apenas incluía a produção do território continental e ilhas, excluindo as colónias africanas, cujos crescimentos económicos não afetavam diretamente os números nacionais. Porém, o Produto Nacional Bruto (PNB) captava parte da riqueza colonial, através do repatriamento de lucros das empresas metropolitanas e do controlo centralizado das divisas, essenciais para estabilizar a moeda e garantir liquidez. Muitos lucros ficavam nas colónias ou escapavam à contabilização devido a subfaturação e transferências de preços, sendo apenas registados os fluxos efetivamente repatriados. As colónias permitiam à economia portuguesa consumir e investir acima das suas capacidades produtivas, funcionando como mecanismo de compensação macroeconómica. A partir de 1965, o peso relativo das colónias diminuiu devido à abertura à Europa e ao aumento das remessas dos emigrantes, mas continuaram a ser fundamentais para a estabilidade financeira. A perda das colónias representou não só uma diminuição territorial, mas o fim de um sistema que sustentou o “milagre económico” do Estado Novo e a autonomia monetária portuguesa.

O objetivo político deste mito é evidente: se Portugal “perdeu dinheiro” e “sacrificou-se” para construir infraestruturas em África, não existe qualquer dívida histórica ou moral. Pelo contrário, nesta lógica invertida, seriam os países africanos a dever gratidão a Portugal. Além da reescrita económica, esta ideologia apoia-se numa teoria da conspiração sobre os acordos finais do Império. Um pilar central desta visão é a crença em cláusulas secretas nos acordos de independência (como os de Alvor ou Lusaca), que obrigariam Portugal a pagar reparações de guerra perpetuamente e de forma dissimulada. Assim, qualquer ajuda ao desenvolvimento, perdão de dívida ou cooperação financeira com os PALOP seria, segundo esta teoria, o cumprimento secreto e humilhante dessas supostas cláusulas, assinadas por políticos “traidores” como Mário Soares, Almeida Santos e Melo Antunes em 1974-75.

A realidade histórica, porém, é o oposto. Com as independências, Portugal sofreu perdas avultadas devido às nacionalizações de empresas e propriedades, tendo o Estado português de indemnizar os seus cidadãos e empresas por esses prejuízos. A teoria da conspiração opera uma inversão notável: transforma uma perda real de activos portugueses numa obrigação de pagamento imaginária, alimentando uma narrativa de traição e humilhação contínua para deslegitimar as instituições democráticas.


Esta tendência para distorcer a realidade financeira persiste hoje em campanhas de desinformação específicas, como o caso de Angola e Cabo Verde. A alegação dos 3,2 mil milhões de euros para Angola exemplifica como a engenharia da desinformação parte de dados reais, mas descontextualizados e misturados. A falsa narrativa, disseminada por este ecossistema político, é que “o governo português está a dar 3,2 mil milhões de euros de um fundo ambiental a Angola, enquanto oferece migalhas a Cabo Verde”.

A verdade, no entanto, é completamente diferente. Os 3,2 mil milhões de euros correspondem a empréstimos do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) europeu para investimentos em Portugal (transportes, habitação), que a narrativa inventada converte em “dinheiro do fundo ambiental oferecido a Angola”. O objetivo desta tática é explorar a perceção pública de corrupção nas relações luso-angolanas para criar ressentimento. Ao misturar números do PRR com acordos de dívida, sugere-se que fundos europeus destinados aos portugueses estão a ser desviados para beneficiar elites estrangeiras, em detrimento dos interesses nacionais.

Estas narrativas económicas e conspirativas não são um fim em si mesmas; servem para justificar uma visão de mundo mais ampla, resumida na ideia de que a guerra nunca terminou. Se no meio académico a frase “a guerra não acabou” descreve o trauma psicológico dos ex-combatentes, este ecossistema político apropria-se da expressão para fins ideológicos. Para eles, significa que o conflito passou do campo militar para uma “guerra cultural” dentro de Portugal. O adversário já não são os movimentos de libertação africanos, mas sim a “esquerda antinacional”, o “marxismo cultural” e todas as políticas de memória que não promovam uma visão crítica do passado colonial.

Esta guerra cultural tem um objetivo político muito concreto: o nativismo. Pretende-se redefinir quem é “verdadeiramente português”, propondo retirar direitos de voto e participação cívica a cidadãos naturalizados e de origem lusófona, baseando a cidadania exclusivamente no “direito de sangue” (jus sanguinis) e excluindo todos os que não se encaixam nesse critério étnico.

A análise destes mitos económicos e teorias conspirativas revela uma estratégia coerente com um objetivo político claro e excludente. A tese do “prejuízo imperial” ignora os complexos mecanismos de lucro do colonialismo (mercados cativos, fonte de divisas) para construir uma narrativa de sacrifício. O propósito é negar qualquer responsabilidade histórica e posicionar Portugal numa suposta superioridade moral. Factos financeiros reais, como os empréstimos do PRR europeu ou a conversão da dívida de Cabo Verde, são deliberadamente distorcidos e misturados para criar uma narrativa de traição, corrupção e desvio de fundos, alimentando o ressentimento popular. A guerra cultural, amplificada por partidos como o Chega, serve para justificar um projeto político nativista. O objetivo final é redefinir a cidadania portuguesa em bases étnicas, excluindo imigrantes e cidadãos naturalizados da plena participação cívica e, por vezes, diminuindo até os portugueses cujos antepassados viveram nas colónias.

Compreender como estes mitos são construídos é o primeiro passo para os desconstruir. A ideologia da direita nacionalista contemporânea alimenta-se da distorção do presente para reivindicar um passado mitificado. Como cidadãos, é fundamental analisar sempre a origem, a intenção e os factos subjacentes aos discursos sobre a História, especialmente quando utilizados de forma tão explícita para moldar o debate político e definir quem pertence, ou não, ao futuro de Portugal.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

A DIAMANG de Ernesto de Vilhena

 

Ernesto Jardim de Vilhena


A cena é a memória do que a minha mãe me contou quando, ainda miúdo, passámos pelo edifício do seu primeiro emprego. A minha mãe, nos seus vinte anos, a sair da discreta sede da Companhia de Diamantes de Angola (DIAMANG), no 2º andar do número 12 da Rua dos Fanqueiros, na Baixa de Lisboa. Saía sempre tarde, muito depois das seis da tarde, mesmo quando o meu pai, então seu namorado, a ia buscar ao emprego. A culpa, contava ela, era do "comandante Vilhena". Todos os dias, às 18 horas em ponto, os funcionários tinham de formar uma silenciosa fila à porta do seu gabinete. Um a um, tinham de lhe perguntar cerimoniosamente: "O senhor comandante determina alguma coisa?". Só depois de os dispensar com um aceno é que podiam ir para casa. Este ritual, trazido da Marinha, era a causa dos atrasos dela e dos "arrufos" com o meu pai, que não gostava de esperar. Esta pequena memória familiar, quase trivial, era, sem que eu soubesse na altura, a janela para o imenso e implacável mundo de poder que Ernesto de Vilhena construiu.

Para se perceber o colonialismo português do Estado Novo, é preciso olhar para figuras como o Capitão-de-fragata Ernesto Jardim de Vilhena, um oficial de Marinha monárquico que foi ministro da República, administrador colonial e de muitas importantes empresas e bancos, e uma figura central na estrutura económica do regime de Salazar. Nasceu a 4 de junho de 1876, em Ferreira do Alentejo, e era filho de Júlio Marques de Vilhena e de Maria da Piedade Leite Pereira Jardim. O seu nome reflecte a união de duas linhagens influentes da elite portuguesa de então: o apelido "Jardim" provinha da família materna, sendo neto do Visconde de Monte São, enquanto o apelido "Vilhena" ligava-o ao pai, um prestigiado advogado e estadista que serviu como ministro e Governador do Banco de Portugal.

O seu percurso na Armada foi atípico. Em 1895, com apenas 19 anos, Vilhena concluiu o curso da Escola Naval e foi promovido a Guarda-marinha. A promoção a Segundo-tenente ocorreu em 1898 e entre 1902 e 1904 foi nomeado Governador dos territórios da Companhia do Niassa. O sucesso no Niassa catapultou-o para uma nova comissão de serviço: Governador do Distrito da Zambézia (1905-1907). Embora afastado do mar e dos navios, Vilhena manteve-se no quadro permanente da Armada. O sistema de comissão em serviço nas colónias permitia que o tempo de serviço contasse para a antiguidade naval. E para a Marinha, ter oficiais em cargos de governadores era uma forma de projectar influência.

Após as comissões em Moçambique, Vilhena regressou a Lisboa e foi requisitado para os órgãos centrais do poder. Foi deputado em 1907 (e novamente em 1915) e integrou o gabinete do ministro da Marinha e Ultramar entre 1909 e 1910. A passagem pelo gabinete ministerial nas vésperas da implantação da República colocou-o no centro nevrálgico da decisão política. A implantação da República trouxe profundas mudanças nas estruturas militares, mas Vilhena sobreviveu às purgas políticas e, em 1911, já Primeiro-tenente, foi nomeado Governador do Distrito de Lourenço Marques.

No entanto, a instabilidade governativa da Primeira República abreviou a sua comissão. Em maio de 1912, registos oficiais mostram que o Primeiro-tenente Vilhena foi exonerado do cargo. Em julho de 1912, está na Majoria General da Armada. A promoção ao posto de Capitão-tenente terá ocorrido em 1915 e em 1917, num momento em que Portugal estava envolvido na Primeira Guerra Mundial, Ernesto de Vilhena foi nomeado ministro das Colónias. Após a guerra, em 1920, Vilhena atingiu o posto de Capitão-de-fragata. Sendo tradicionalmente o posto de comando de navios de porte significativo, para Vilhena esta promoção marcou a entrada definitiva na alta finança colonial.

A patente de Capitão-de-fragata conferiu-lhe o título social de "comandante", pelo qual seria conhecido até ao fim dos seus dias.[1] Mais do que uma designação militar, tornou-se uma marca de autoridade. Ernesto de Vilhena passou oficialmente à situação de reserva em 1936, o que significa que, durante 16 anos, manteve o vínculo formal à Armada, provavelmente em situações de licença especial ou comissões de serviço público que lhe permitiam gerir a DIAMANG, o Banco Burnay e outras empresas. Na Companhia de Diamantes de Angola, que começou a administrar em 1919, Vilhena instituiu um regime de gestão que replicava a hierarquia e a disciplina de uma unidade militar. O pequeno ritual da Rua dos Fanqueiros era apenas um reflexo da forma como geria a empresa, o mais valioso activo do Império.


A Companhia de Diamantes de Angola era muito mais do que uma empresa mineira.[2] Era o verdadeiro pulmão financeiro do regime, uma máquina de gerar divisas estrangeiras que lubrificava a economia do Estado Novo.[3] Na vasta região da Lunda, no nordeste de Angola, a DIAMANG funcionava como um autêntico "estado dentro do estado", com uma autonomia quase total. Vilhena, a partir de Lisboa, orquestrou um sistema de controlo absoluto para garantir um lucro sem entraves. A base de tudo era o controlo da mão de obra. Havia um sistema duplo: os voluntários, que vinham das redondezas, e os contratados, recrutados à força em toda a colónia. A necessidade de cumprir metas de produção era tão grande que a companhia manipulava deliberadamente os seus próprios critérios de saúde. Utilizava um sistema antropométrico, o índice de Pignet, para avaliar a aptidão dos recrutas, mas fixava o limiar de aceitação num valor que permitia admitir homens classificados como "fracos" ou "muito fracos". O que importava era o número de braços, não o bem-estar dos homens. Para garantir este fluxo constante de trabalhadores e manter a paz, Vilhena aperfeiçoou um sistema de manipulação do poder local. A DIAMANG cooptava os chefes tradicionais, os sobas, usando-os para recrutar os seus próprios homens e reprimir qualquer sinal de revolta. Nas Grandes Festas Anuais, um evento de propaganda cuidadosamente encenado, os sobas mais "cooperantes" eram publicamente recompensados com presentes como o cobiçado "manto mucambo", reforçando a sua lealdade à empresa que, na prática, os tinha subjugado.

Este controlo era cimentado por um paternalismo calculado. A empresa oferecia alguns cuidados de saúde, mantinha lojas com produtos básicos e até comprava os excedentes agrícolas das populações. Mas por trás desta fachada, a realidade era outra. Os registos mostram que os trabalhadores contratados visitavam o hospital três a quatro vezes mais do que os voluntários, muitas vezes com feridas autoinfligidas ou deliberadamente agravadas na esperança desesperada de serem repatriados por motivos médicos. Numa citação reveladora, o próprio Vilhena justificou a recusa em dar melhores condições aos trabalhadores para evitar a sua "destribalização", ou seja, para os manter dependentes e subordinados. Até a cultura foi usada como ferramenta de poder. A criação do famoso Museu do Dundo, embora tenha preservado um espólio etnográfico notável, não servia apenas uma ideologia de guardiã da cultura local. Funcionava também como um palco pragmático para a política de recompensas, onde a honra de ter um retrato fotográfico exposto na sua galeria era mais uma forma de garantir a lealdade dos chefes locais.

A obsessão de Ernesto de Vilhena pela ordem e pela hierarquia, foi o princípio que transformou a DIAMANG numa máquina de extração de riqueza brutalmente eficiente. Foi esta máquina que, durante décadas, forneceu o sustento financeiro para a política colonial de Salazar. A pequena e disciplinada fila de funcionários na Rua dos Fanqueiros, à espera da autorização do comandante para poderem finalmente ir para casa, era o micro reflexo do vasto sistema de controlo que ele implementou a milhares de quilómetros de distância, nas minas da Lunda. Era um espelho da sua visão de mundo: um lugar onde tudo e todos respondiam a uma única autoridade, a sua. Esta figura, hoje quase esquecida, deixou uma marca profunda, tanto nas pequenas memórias da minha família como na grande e conturbada história do colonialismo português.

__________

[1] Faleceu a 14 de fevereiro de 1967, em Lisboa. Embora fosse um aliado fundamental do Estado Novo, mantinha uma relação complexa com Salazar. Nos seus diários privados, Vilhena descrevia o ditador como um "pacóvio" pelo seu isolamento e desconhecimento do país real. No fim da vida, já fragilizado e com problemas de visão, Vilhena resistiu à pressão de Salazar para abandonar o comando da DIAMANG, retirando-se apenas três meses antes de falecer. Fora do mundo dos diamantes, Vilhena era um obsessivo colecionador de arte. A sua residência na Rua de São Bento, em Lisboa, albergava cerca de 65 mil objetos, incluindo escultura medieval, cerâmica, pratas e livros raros. Investiu a sua fortuna (auferia um salário milionário que Salazar considerava excessivo) na aquisição de antiguidades. Após a sua morte, o Estado aceitou uma doação de mais de 1500 esculturas da sua coleção como pagamento do imposto sucessório da família.

[2] A DIAMANG não foi um projeto exclusivamente português, mas o resultado de uma convergência de interesses financeiros globais. Criada em 16 de outubro de 1917, em sucessão à Pesquisas Mineiras de Angola (PEMA), a sua fundação envolveu grupos financeiros de Portugal (Banco Burnay e Banco Nacional Ultramarino), Bélgica (Société Générale de Belgique), França (Banque de l'Union Parisienne) e Estados Unidos (grupo Ryan-Guggenheim). Esta composição internacional foi fundamental para garantir que a empresa tivesse acesso imediato a capitais de investimento e, principalmente, à perícia técnica que Portugal, como metrópole menos industrializada, não possuía em escala suficiente. A estrutura acionista da DIAMANG em 1929 demonstrava uma interconexão profunda com os principais centros de poder da indústria diamantífera. O conselho de administração incluía representantes da empresa mineira belga Forminière, o presidente do Sindicato de Diamantes de Londres e representantes da Anglo American Corporation. Esta rede de influências garantia que a Diamang não fosse apenas uma produtora periférica, mas um nó central na rede de distribuição global, assegurando que a sua rentabilidade fosse protegida por acordos de comercialização preferenciais e pela estabilidade de preços garantida pelo cartel.


[3] A Companhia de Diamantes de Angola desempenhou um papel vital na sustentação do regime salazarista, funcionando como um pilar fundamental do Estado Novo e o maior motor económico do império colonial português. A sua contribuição para o regime manifestou-se em três vertentes principais: financeira, administrativa e ideológica. Através de sucessivas renovações contratuais (1921, 1937 e 1955), o Estado português recebia directamente 50% dos lucros líquidos da empresa. A DIAMANG era a principal fonte de moeda estrangeira (divisas) para a metrópole, sendo obrigada contratualmente a fornecer libras esterlinas ao fundo cambial angolano, o que garantia estabilidade macroeconómica ao regime. A empresa funcionava como o principal banqueiro do Estado colonial, concedendo empréstimos a juros baixíssimos (1%) para financiar obras públicas, como estradas e barragens hidroelétricas, que o governo, por falta de recursos próprios, não conseguiria realizar. Na vasta província da Lunda, a Diamang operava com uma autonomia quase soberana, exercendo funções que deveriam ser públicas. Ela geria o policiamento, a saúde, a educação e a rede de transportes, permitindo ao regime projectar soberania em territórios onde a burocracia estatal era fraca ou inexistente. A empresa monitorizava de perto o comportamento político dos seus funcionários, colaborando ativamente com a PIDE/DGS a partir da década de 1960 para detectar quaisquer sinais de subversão ou apoio aos movimentos de libertação. A DIAMANG foi utilizada pelo regime para validar a narrativa da "missão civilizadora" portuguesa em África. Através do Museu do Dundo e de vastas publicações científicas, a empresa projectava uma imagem de colonialismo esclarecido e paternalista, tentando contrariar as críticas internacionais sobre o trabalho forçado. Apesar das críticas de figuras como Gilberto Freyre, a administração da DIAMANG esforçava-se por conciliar as suas práticas com os ideais de harmonia racial do regime, servindo de montra para o que Marcello Caetano descreveu como uma obra que "bem merece da Nação".


segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

A Europa entre a desilusão transatlântica e a afirmação estratégica

Contrariando a opinião de muitos comentadores, sou dos que acreditam que a Europa atravessa um momento histórico. O afastamento dos Estados Unidos da América, que muito teimam em não reconhecer como possível, poderá obrigar os europeus a enfrentar o imperativo de tornar a Europa autónoma e relevante no cenário internacional.

O potencial económico da Europa é inegável, mas não cumpre plenamente o seu papel global devido à falta de coesão política e de coragem estratégica. Apesar de um PIB comparável ao dos EUA, de uma base industrial avançada e da importância no comércio mundial, os principais entraves são internos: bloqueios políticos, duplicação de esforços, especialmente na defesa, e ausência de uma política industrial coordenada. Superar esses obstáculos tornou-se uma necessidade urgente.

A defesa é central para essa transformação. Durante décadas, a Europa confiou na proteção dos Estados Unidos, o que permitiu gastos reduzidos e uma abordagem fragmentada ao sector. Hoje, aumentar as despesas militares para, pelo menos, 2% do PIB não deve ser visto como um fardo, mas como o custo necessário para garantir segurança e autonomia. Essa mudança de paradigma é essencial para dissuadir ameaças e fortalecer o estatuto internacional da Europa.

No entanto, a resposta europeia não pode ser apenas reactiva. Para se tornar um terceiro polo credível e atractivo, a Europa deve investir em inovação, digitalização e políticas industriais robustas, capazes de competir com os gigantes tecnológicos dos EUA e da China. Liderar em inteligência artificial, energias renováveis e mobilidade sustentável pode ser o diferencial necessário para criar uma alternativa genuína às demais grandes potências.

O desafio é mais do que técnico ou económico. Trata-se de um teste existencial para a ideia de Europa. A adversidade pode ser o catalisador para romper impasses e transformar a União Europeia de um projeto essencialmente económico e regulador em uma potência política e militar.

O que está neste momento em causa é o futuro da Europa e a sua atitude relativamente aos EUA. O projecto da coligação de vontades para apoiar a Ucrânia será um bom teste. No cenário de fragmentação e decadência da Europa, ela provavelmente morre. Sem uma frente unida, cada país começa a olhar para o seu próprio umbigo. O apoio à Ucrânia torna-se um fardo pesado demais e a "força de paz" retira-se, deixando Kiev à mercê de Moscovo. Na melhor das hipóteses, a coligação sobrevive, mas como um escudo de papel. Faz o mínimo indispensável: treina soldados ucranianos e paga as contas com os juros dos bens russos congelados, mas evita qualquer ação que possa irritar o Kremlin ou a Casa Branca. Será uma paz frágil e sem ambição. No cenário de alinhamento subordinado aos EUA, o mais provável, a coligação transforma-se num instrumento da política externa americana. Os soldados europeus fazem o trabalho perigoso no terreno (boots on the ground), enquanto Washington dita as regras do jogo e fornece apenas as informações e os satélites. Basicamente, a Europa paga e morre, e os EUA decidem. No cenário menos provável de autonomia estratégica da Europa, a coligação pode tornar-se o embrião de um futuro exército europeu. A força multinacional na Ucrânia deixa de ser uma medida de recurso para ser uma demonstração de força. Será a Europa a dizer que trata da sua segurança.

A crise pode ser o ponto de partida para a transformação. A ruptura geopolítica causada pela nova postura dos EUA é difícil, mas oferece uma rara oportunidade para a Europa se afirmar como uma potência autónoma. Se a Europa mobilizar a sua força colectiva, superar as suas divisões internas e agir com determinação, poderá garantir a segurança e influenciar o equilíbrio global de poder. O risco é grande, mas a maior recompensa é o surgimento de uma Europa forte, autónoma e protagonista. O tempo de decidir é agora, e a História não espera pelos indecisos.

domingo, 4 de janeiro de 2026

Portugal e o fim da ponte atlântica

A guinada brusca da política externa dos Estados Unidos inaugurou um novo tempo, o da "Doutrina Donroe". Pela sua lógica, aliados tornam-se adversários e a cooperação cede à pressão. Assim, o tradicional papel de Portugal como mediador entre Washington e a Europa tornou-se inviável. No novo cenário, Portugal tem de abraçar definitivamente a autonomia europeia. O tempo da ambiguidade acabou e é a hora das escolhas nítidas, determinadas por aquela doutrina.

A "Doutrina Donroe" não é apenas uma mudança de rota. Representa a reescrita das regras do jogo global. Formalizada na Estratégia de Segurança Nacional dos EUA de 2025 (NSS), ela é o corolário de Trump à Doutrina Monroe. Converte a Europa, de parceira, em rival estratégica e encerra abruptamente o consenso transatlântico do pós-guerra.

A NSS é uma declaração de guerra política contra a União Europeia. O texto critica as políticas regulatórias europeias e acusa-as de prejudicar a liberdade política. Procura incentivar a resistência nos países europeus, apoiando movimentos populistas e "patrióticos". A mensagem é directa: uma Europa unida já não interessa a Washington. Para os EUA, a Europa passou a ser um rival a ser enfraquecido por dentro.

Dividir a Europa tornou-se o objetivo declarado dos EUA, como ficou claro na intervenção militar na Venezuela. Paris e a liderança da União Europeia condenaram a ação, alegando que ela violava o direito internacional. Já o governo italiano de Giorgia Meloni optou por um apoio indireto, tentando preservar laços com Washington. Os americanos exploram essas fissuras. Premeiam quem colabora e punem economicamente quem defende a autonomia da UE, como França e Alemanha. A tática de "dividir para reinar" paralisa a capacidade de ação conjunta da Europa.

Portugal sente diretamente essa divisão estratégica. Durante anos, a diplomacia portuguesa ancorou-se na ideia da "ponte atlântica". Agora, a "Doutrina Donroe" obriga Lisboa a escolher entre lealdades históricas. Os Estados Unidos são o maior parceiro comercial do país fora da UE, absorvendo quase 5 mil milhões de euros em exportações anuais. Por isso, o dilema é complexo.

A Base das Lajes, nos Açores, simbolizou a aliança entre Portugal e os Estados Unidos. Com a “Doutrina Donroe”, a base pode ser vista como uma forma de cumplicidade. Em 2025, a atividade aumentou, sobretudo com aviões de reabastecimento americanos. No futuro, permitir o uso para operações rejeitadas na Europa, África e América do Sul pode afastar aliados. Recusar pode acarretar retaliações dos EUA.

A pressão dos Estados Unidos é clara e forte. O ex-embaixador americano George Glass exigiu que Portugal se posicionasse "entre os seus amigos e aliados e a China". O tema envolvia o 5G e investimentos em infraestruturas, como o Porto de Sines, e já mostrava o que estava por vir. Com a “Doutrina Donroe”, a exigência de alinhamento total tornar-se-á ainda mais rigorosa. Washington pode cortar a partilha de informações de segurança e a cooperação na NATO caso Lisboa não obedeça.

O regime tarifário imposto pelos EUA em 2025 atingiu os sectores exportadores nacionais e evidenciou a vulnerabilidade da economia do país. Com as novas taxas aduaneiras americanas, o imposto sobre o calçado português nos EUA pode chegar a 30% ou 40%. Sectores como o calçado e o têxtil já alertaram para os riscos elevados de perda de empregos, especialmente no Norte. O sector dos vinhos também depende amplamente do mercado americano. Para competir, os produtores nacionais reduzem as suas margens, o que ameaça muitos negócios. Em contraste, a cortiça ficou isenta de impostos por ser essencial para os vinhos americanos. Isso mostra o lado prático da “Doutrina Donroe”: as concessões só ocorrem quando beneficiam diretamente os interesses dos EUA.

Portugal tem diante de si uma escolha inadiável: abandonar definitivamente as velhas ilusões atlânticas e assumir o desafio de ajudar a construir uma Europa mais autónoma. Qualquer tentativa de agradar a todos é um risco real de desaparecer na irrelevância da História. É o momento de agir com determinação.

A velha aliança atlântica, fundada em valores comuns, acabou. Os EUA agora adotam uma política de força e intervêm diretamente nos assuntos europeus. Combinam pressão externa, como tarifas e coerção, com apoio a movimentos que corroem a Europa por dentro. Washington apoia abertamente forças iliberais, como o Chega em Portugal. O objetivo é transparente: enfraquecer a União Europeia.

Confiar nos EUA, quando estes atacam economicamente a Europa, é uma contradição insustentável. O fracasso do acordo UE-Mercosul escancara essa realidade. O tratado naufragou tanto pela hesitação europeia, marcada pelo proteccionismo agrícola francês, como pela pressão directa de Washington para barrá-lo. Portugal e a Europa perderam a oportunidade de diversificar os mercados. O episódio revela a urgência de uma política externa e económica europeia mais coesa e ativa.
 
Paradoxalmente, a instabilidade americana aumentou o investimento dos EUA em Portugal, visto como um "porto seguro". No entanto, é preciso distinguir o fluxo de capital do alinhamento político. Washington semeia instabilidade geopolítica, enquanto o capital americano se aproveita da estabilidade de países como Portugal. O que dificulta uma resposta política unificada à pressão dos EUA.

O dilema de Portugal é claro: escolher entre submeter-se a uma hegemonia volátil, que trata o país como descartável, ou assumir um papel activo na construção de um futuro europeu soberano. A sobrevivência e a dignidade nacionais exigem coragem para que Portugal supere as suas fragilidades e se torne, com determinação, um pilar sólido de uma Europa unida.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Memórias da terra dos diamantes


Para o meu povo, o tempo não se mede em anos, mas em histórias passadas junto à fogueira. Com a pele enrugada e o olhar voltado para o passado, sinto que é minha vez de contar. É o dever de um soba cuja vida mudou com a chegada da Companhia.

Antes deles, a nossa vida na Lunda era tecida em harmonia com a terra. Os rios eram as veias do mundo. As árvores, os pulmões. Em cada rocha ou clareira sentíamos a presença dos nossos antepassados. Eu recordo o cheiro da terra molhada depois das primeiras chuvas. Recordo a corrente fria do rio nos meus pés. Éramos parte da terra, e a terra era parte de nós. No entanto, ela guardava um segredo. Brilhante, duro, nas suas profundezas. Um segredo que viria a mudar o nosso mundo para sempre.

Antes de o brilho dos diamantes ofuscar as nossas tradições, o meu papel como soba era claro. Eu era o guardião do equilíbrio. Competia-me aplicar a justiça, resolver disputas entre famílias e, acima de tudo, manter a ligação sagrada com os espíritos da terra e dos antepassados. O meu povo olhava para mim não com medo, mas com respeito, pois a minha palavra era a continuação da palavra dos que vieram antes de mim.

A minha autoridade vinha das insígnias herdadas: o bastão entalhado da linhagem, o citwamo ca xiki de madeira resistente. Sentar-me nele era sentir o peso dos que me antecederam. O poder emanava da confiança do povo e da bênção dos espíritos. Isso mudou quando um novo poder, vindo de longe, passou a cobiçar a nossa terra.

A Diamang não chegou em silêncio. Chegou com a força dos seus cipaios, os seus polícias africanos, que percorriam as nossas aldeias com uma missão: recrutar homens para o trabalho, para o contrato.
Nós, os sobas, fomos postos numa encruzilhada difícil. Lembro-me das noites sem dormir. O fumo do cachimbo enchia a cubata. A minha mulher dormia enquanto eu pensava nos nomes que teria de dar. Lembro-me do rosto de um rapaz, o filho do meu primo. Forte. Bom caçador. Senti o coração apertar-se ao saber que o seu destino estava agora nas minhas mãos.

Resistir significava punição, prisão, humilhação. Colaborar, enviar os nossos próprios filhos e irmãos para um trabalho duro e distante. A colaboração tornou-se, muitas vezes, a única alternativa para nos livrarmos das retaliações.[1]

Foi nesse tempo que senti o meu poder real a esvair-se. A minha capacidade de proteger a minha gente agora estava limitada pela força da Companhia, e senti que o meu poder, como o de tantos outros sobas, estava em franco declínio. No entanto, nem todos os brancos eram iguais: havia homens do poder e homens das pedras. Um deles, um geólogo ainda jovem, olhava para a terra não com a cobiça do chefe, mas com a curiosidade de um feiticeiro a ler os ossos. Falava pouco, mas os seus olhos compreendiam a linguagem antiga das rochas. Isso eu via.[2]

A verdadeira história desse tempo de dor não está nos relatórios da Companhia, mas nas canções que o nosso povo cantava ao fim do dia. Eram canções de perda, de saudade e de sofrimento. A "Missão de Recolha de Folclore Musical" da própria Companhia guardou, sem saber, a voz da nossa alma ferida. Contavam a história de Muassonhengue, um jovem que partiu para o contrato e, quando regressou, soube que a sua mãe tinha morrido na sua ausência. O seu lamento era o lamento de todos nós: “Ó feiticeiro, que mataste minha mãe, quem me leva à sepultura dela, para eu lá chorar, ó feiticeiro?

Estas canções eram o nosso refúgio, a única forma de contar a nossa verdade. Mas a Companhia não usava apenas a força. A sua arma mais subtil e poderosa não era de ferro, mas de vidro e de madeira: o grande Museu que construíram no Dundo.

Lembro-me da minha primeira visita ao Museu do Dundo. Fui convidado como um chefe honrado. O edifício era um gigante de tijolo no coração da terra. Lá dentro, ar frio; cheiro de pó e silêncio. Os meus passos ecoavam no chão polido. Estranho som, num lugar em que tudo o que era nosso estava mudo. Então vi: nas vitrinas de vidro, sob uma luz pálida, estavam os nossos objetos sagrados. Vi a cadeira do soba Kalundjika, que conheci, rapaz. Lembro a força da sua voz sentado nela… e agora estava ali, fria e vazia, com um papel pequeno com o seu nome, como se fosse uma campa. A nossa alma presa atrás do vidro.

Cadeira que pertenceu ao soba Kalundjika
(recolhida na Campanha Etnográfica ao Tchiboco)

A Diamang usava o Museu para nos oferecer presentes e nos "honrar". Mas cada presente tinha um peso; cada honra era uma forma de controlo. O manto mucambo, recebi-o com grande alegria, sim. Mas ao vesti-lo, senti que me tornava o soba tradicional que eles queriam que eu fosse: obediente, previsível, uma peça colorida no seu jogo. As medalhas eram pesadas e brilhavam ao sol. Sobas como Tchingambo e Samalamba exibiam-nas com orgulho. Mas era um prestígio que vinha deles, não dos nossos antepassados. Cada medalha no meu peito era um elo que me prendia mais a eles do que à minha terra. Deram-me o meu retrato emoldurado para pendurar na minha cubata. Era um feitiço poderoso; nunca um homem do nosso povo se tinha visto assim. Mas era um feitiço deles. A minha imagem, presa à moldura deles, tornava-me um deles, uma peça da sua coleção, para ser olhado, e não para ver.

Junto ao Museu, construíram uma sanzala, uma aldeia-modelo. Ali viviam e trabalhavam os nossos melhores escultores, como o grande Mulumba Canhanga. Diziam que era para "preservar" a nossa arte, mas, na verdade, os artistas eram como peças vivas do Museu, a trabalhar sob o olhar atento e sob o domínio da Companhia.

Uma vez por ano, havia a "Festa Grande". Era um espectáculo de abundância. Nós, os sobas, éramos os convidados de honra, mas era uma honra amarga, pois durante o resto do ano estávamos proibidos de entrar nas minas. Lembro-me do soba de Sombo a queixar-se em voz baixa: "Gostei muito, comi e bebi o quanto quis. Mas dinheiro é o que a Diamang não me dá", enquanto via os seus próprios "súbditos" receberem prémios em dinheiro. Saíamos do Dundo com presentes nas mãos e um peso no coração, pois entendíamos que cada honra que nos era concedida era também um elo na corrente que nos prendia à vontade da Companhia.

Agora, no fim da minha jornada, olho para trás e faço as contas desta vida. A chegada da Diamang foi como uma cheia que arrasta tudo, mas também deixa novas sementes na terra. Perdemos o controlo sobre a nossa terra e as suas riquezas. Perdemos grande parte da nossa autonomia, vendo o nosso poder diminuir até ficar pouco mais do que uma sombra. Perdemos a força de muitos dos nossos jovens, levados para o trabalho forçado, para o contrato de onde voltavam doentes ou não voltavam de todo. Aprendemos a arte difícil da negociação para sobreviver, a dançar uma dança perigosa entre a colaboração e a resistência silenciosa. Aprendemos a usar os símbolos do novo poder, como retratos e medalhas, para manter algum prestígio perante o nosso povo. Acima de tudo, aprendemos a manter viva a nossa verdadeira história.
 
Diziam em Lisboa que a Companhia era uma "empresa de colonização" que nos tratava bem. Líamos essa bondade nos corpos exaustos dos homens que voltavam do contrato e na fome que as rações deles não matavam. A história deles era escrita com tinta em papel; a nossa, com suor na terra e lágrimas nas canções.

Aos mais novos, que leem estas palavras, deixo um pedido. Não olhem para a nossa história com um olhar simples, de julgamento fácil. A vida sob este poder não era preta ou branca; era feita de muitos tons de cinzento. Compreendam as escolhas difíceis que a minha geração teve de fazer.

E lembrem-se sempre de que a nossa cultura não é um objeto morto a ser guardado numa caixa de vidro. É uma chama que arde dentro de nós. Enquanto cantarmos as nossas canções e contarmos as nossas histórias, ela não será aprisionada nem extinta. Ela vive na vossa alma e na vossa voz. Mantenham-na acesa.

___________

[1] A principal função dos sobas para a Diamang era actuar como mediadores no recrutamento de mão-de-obra, sendo peças essenciais para o fornecimento dos trabalhadores necessários à exploração mineira. Os sobas eram responsáveis pela seleção prévia nas suas aldeias dos homens que seriam entregues aos cipaios para cumprir o trabalho por contrato (trabalho forçado cuja duração variava entre 12 a 24 meses). Os trabalhadores "contratados" vinham geralmente de regiões distantes da Lunda, como Moxico ou Malange, e eram conduzidos em longas marchas a pé até à sede no Dundo. Eram destinados às tarefas mais pesadas e perigosas, como o desmonte de materiais, a remoção do estéril e o transporte manual de cascalho em cestos. Tinham um estatuto social inferior e eram submetidos a uma repressão disciplinar severa, incluindo castigos físicos se falhassem as metas. A partir de 1961, com as mudanças no quadro jurídico, as autoridades administrativas deixaram de receber remunerações por estes serviços, que passaram a ser pagas exclusivamente aos sobas pela sua colaboração directa no angariamento. Além do recrutamento forçado, a Diamang utilizava os sobas para fazer propaganda junto das populações, incentivando os trabalhadores a apresentarem-se espontaneamente ou a permanecerem na empresa como "voluntários" após o término dos seus contratos iniciais. Os “voluntários” ocupavam geralmente os postos de trabalho mais leves ou especializados (mecânicos, carpinteiros). Tinham maior margem de negociação e, em caso de insatisfação, podiam abandonar o serviço com maior facilidade, uma vez que não estavam sob a mesma vigilância que os "contratados". Os sobas funcionavam como representantes da autoridade da companhia nas suas comunidades, sendo incumbidos de aconselhar o seu povo ao trabalho e à disciplina. A sua colaboração era vista como vital para a estabilidade da região e para sustar possíveis revoltas ou resistências. Os chefes tradicionais tiveram um papel determinante no apetrechamento do Museu do Dundo, fornecendo informações etnográficas, identificando objetos e facilitando a aquisição de peças para o acervo. Também eram responsáveis por mobilizar e coordenar os ensaios dos grupos folclóricos que se apresentavam nas festividades da empresa. Os sobas eram instados a vigiar actividades ilícitas, como o contrabando de diamantes, e podiam ser punidos ou presos pela administração colonial caso não cumprissem as metas de recrutamento ou não mantivessem a ordem esperada. Em troca desta colaboração multifacetada, a Diamang mantinha um sistema de recompensas para beneficiar os sobas material e simbolicamente (através de mantos, fardas, medalhas e retratos), garantindo que estes se mantivessem prestigiados perante os seus súbditos, desde que servissem os interesses da empresa.


[2] O geólogo e engenheiro de formação a quem se atribui um olhar sobre a terra comparável ao de um feiticeiro pela sua capacidade de ler a estrutura do solo, foi René Delville. Embora a frase "feiticeiro a ler os ossos" seja uma caracterização lírica comum na historiografia e documentários sobre a Lunda (como em passagens de “Dundo, Memória Colonial”), Delville é considerado um investigador cujas características confirmam essa visão. Delville notabilizou-se na Diamang ao desenvolver a teoria geológica do "Graben Lucapa". Seguindo pistas iniciadas por Freire de Andrade, identificou compartimentos geológicos lineares que se estendiam de Maludi até à fronteira com o Zaire, o que permitiu localizar com precisão jazigos diamantíferos primários e secundários. Devido à sua personalidade reservada e à precisão das suas análises, Delville era conhecido na Lunda pelo nome de Dimoxo, o nome de um pássaro da região que, segundo a crença local, fala pouco, mas só diz a verdade. Foi ele quem sugeriu a toponímia de Lucapa (situada entre os rios Luachimo e Chicapa). René Delville é recordado como um mestre da prospecção que não olhava para a geologia apenas como uma técnica de extração, mas como uma investigação profunda da história da terra.

sábado, 27 de dezembro de 2025

Mafalda



 
Querida Mafalda,

Hoje, quando celebras os teus 22 anos, regresso às palavras que escreveste quando o mundo ainda era um lugar de "se eu pudesse".

Lembro a menina que queria fazer magia para que nada de bom apodrecesse e que sonhava proibir o mal para tornar o mundo um lugar melhor. Hoje, ao olhar para a mulher em que te tornaste, sei que a magia aconteceu de uma forma diferente: não precisaste de enganar a chuva para que o sol brilhasse, porque a tua serenidade e simplicidade iluminam todos os que têm o privilégio de conviver contigo.

Disseste que, enquanto o futuro não inventava tudo, tu serias apenas o que eras. Hoje, a tua maturidade e força são o reflexo da promessa de que os teus sonhos não iam desaparecer, mas sim duplicar. Já não precisas que um ganso te leve para lá do monte para nos espantares; a tua presença e a forma como marcas os outros com a tua integridade já nos levam a lugares admiráveis.

Tu provaste que, embora o planeta seja o que é, uma mulher com tu pode, de facto, transformá-lo. Que a vida continue a ser o mergulho refrescante que imaginaste e que o teu caminho seja sempre guiado por essa força serena que te define.

Parabéns, nossa neta. Continua a ser o que és.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Aníbal Jardim Bettencourt

Agrónomo, Fitopatologista e Geneticista



Introdução e Enquadramento Histórico


A Crise Fitopatológica e a Resposta Agronómica Portuguesa

Aníbal Jardim Bettencourt (1924–2015) emerge como uma figura central na agronomia tropical portuguesa do século XX, cuja vida e obra se dedicaram integralmente à salvaguarda de uma das culturas economicamente mais importantes a nível global: o cafeeiro. A sua carreira desenvolveu-se num período de intensa mobilização científica portuguesa, impulsionada pela necessidade de combater a ameaça fitopatológica mais grave que pairava sobre a produção mundial de Coffea arabica: a ferrugem alaranjada, causada pelo fungo biotrófico Hemileia vastatrix.

A obra de Aníbal Jardim Bettencourt está intrinsecamente ligada ao Centro de Investigação das Ferrugens do Cafeeiro (CIFC), uma instituição de vanguarda criada em Portugal para responder a esta crise. O trabalho do engenheiro agrónomo transcendeu as fronteiras nacionais, focando-se na pesquisa fundamental e aplicada de mecanismos de resistência genética, essenciais para garantir a sustentabilidade da cultura em regiões tropicais, especialmente após a detecção e expansão da doença em África e, posteriormente, nas Américas.[1] A sua actuação representou um esforço coordenado da ciência portuguesa em resposta a uma vulnerabilidade agrícola de alcance transnacional.

Necessidade de Rigor Biográfico e Distinções

Dada a recorrência de nomes em círculos académicos portugueses, é fundamental estabelecer a identidade e o foco do indivíduo em análise. Este estudo dedica-se exaustivamente ao engenheiro agrónomo Aníbal Jardim Bettencourt, nascido em 1924 em Moçambique, geneticista e investigador principal do CIFC-IICT.[2]

É imperativo distinguir esta figura central da agronomia tropical de um homónimo anterior, o Professor Aníbal Bettencourt (sem o "Jardim"), que foi uma figura proeminente na medicina e veterinária portuguesa da primeira metade do século XX. O Professor Aníbal Bettencourt foi professor catedrático de Parasitologia e Patologia Exótica na Escola Superior de Medicina Veterinária, chefe de serviço do Instituto de Agronomia e Veterinária, e participou em missões para o estudo da bilharziose.[3] Embora ambos estivessem ligados às ciências agrárias e tropicais, o foco do Professor Aníbal Bettencourt (medicina) e o do Doutor Aníbal Jardim Bettencourt (genética do cafeeiro) são distintos. A confusão de identidades seria um erro de escopo que comprometeria a análise da sua contribuição única para o melhoramento genético.[3, 4] O Agrónomo, que é o objecto deste estudo, pertence à geração subsequente e concentra o seu legado no combate à Hemileia vastatrix

Percurso Biográfico e Carreira Institucional em Moçambique (1924–1959)


Formação Académica e Início da Carreira

Aníbal Jardim Bettencourt nasceu em Moçambique em 1924, o que estabeleceu a base para a sua profunda ligação com os desafios da agricultura tropical.[2] Para a sua formação superior, deslocou-se para Portugal, onde obteve o grau de Engenheiro Agrónomo e, posteriormente, o título de Doutor em Agronomia, ambos pelo Instituto Superior de Agronomia (ISA) de Lisboa.[2] O ISA, situado na Tapada da Ajuda, tem sido historicamente um centro de excelência no desenvolvimento e difusão do saber tropical em Portugal.[5]

Experiência Prática na Direcção de Agricultura e Florestas

O início da sua carreira profissional ocorreu no Ultramar, onde trabalhou na Direcção de Agricultura e Florestas de Moçambique durante dez anos, de 1949 a 1959.[2] Este período foi determinante, pois coincidiu com um grande impulso no desenvolvimento económico e agrícola das colónias portuguesas.

Durante a década de 1950, Aníbal Jardim Bettencourt ascendeu a cargos de elevada responsabilidade. Entre 1951 e 1959, exerceu as funções de Chefe da Repartição de Agricultura e Florestas e, por acumulação, actuou como Delegado da Junta de Exportação do Café, ambos em Moçambique.[2] Nesta função operacional, a sua actividade concentrou-se no desenvolvimento da cultura cafeeira local, que incluía tanto o C. arabica como o C. racemosa, e na implementação de estações experimentais.[2]

A sua experiência em Moçambique terminou com um revés que influenciou significativamente a trajectória subsequente. O seu testemunho documenta um estado de profunda desilusão e mesmo "depressão" após a notícia do fim da cultura do café em Moçambique.[2] Esta interrupção abrupta dos projectos e das actividades que coordenava, em consequência de decisões administrativas e políticas do poder colonial, sugere que a sua posterior transição para a investigação pura e fundamental no CIFC não foi apenas uma progressão de carreira, mas uma reorientação estratégica, permitindo-lhe procurar soluções científicas permanentes (genética e fitopatologia) que pudessem transcender a instabilidade e as decisões políticas do tempo colonial. A sua base de conhecimento prático em Moçambique, contudo, forneceu o contexto indispensável para a sua posterior actividade de investigação no CIFC.

A Fundação Científica: O Centro de Investigação das Ferrugens do Cafeeiro (CIFC)


Transição para a Investigação Especializada

Em 1960, Aníbal Jardim Bettencourt iniciou a fase mais decisiva da sua carreira, voltada inteiramente para a investigação especializada. Iniciou um estágio no Centro de Investigação das Ferrugens do Cafeeiro (CIFC), uma unidade de investigação de elite da Junta de Investigações do Ultramar.[2]

O CIFC era um polo de excelência em fitopatologia e genética tropical, fundado pelo Professor Branquinho d'Oliveira para enfrentar a ameaça da ferrugem. Após o estágio, Aníbal Jardim Bettencourt foi integrado na equipa, trabalhando em comissão de serviço como funcionário do Instituto do Café de Angola.[2] O modelo de financiamento do CIFC, assegurado pela Junta de Investigações do Ultramar e, notavelmente, pelo Instituto do Café de Angola [2], revela a estratégia geopolítica subjacente à investigação portuguesa: a ciência metropolitana era directamente instrumentalizada para proteger os interesses económicos e a produção ultramarina de café contra pragas devastadoras.

Carreira Pós-Colonial e Aposentação

Após as mudanças políticas de 1974–1975 e o fim do Império Português, a maioria das estruturas de ciência tropical foi reestruturada. Em 1975, Aníbal Jardim Bettencourt integrou o quadro de pessoal da Junta de Investigações Científicas do Ultramar (JICU), que evoluiu para o Instituto de Investigação Científica Tropical (IICT).[2]

A sua permanência e ascensão no IICT demonstram a importância crítica do CIFC e da sua experiência especializada. Os seus conhecimentos em fitopatologia e genética aplicada eram demasiados valiosos para serem desperdiçados. Continuou a sua carreira como Investigador Principal do CIFC-IICT a partir de 1983, aposentando-se em 1992 como Investigador Coordenador.[2]

A Obra Científica Central: Especialização Fisiológica e Mecanismos de Resistência


A obra científica de Aníbal Jardim Bettencourt no CIFC concentra-se na fitopatologia e no melhoramento genético, com o objectivo singular de conferir resistência duradoura ao cafeeiro (Coffea spp)* contra a Hemileia vastatrix.

O Diagnóstico: Caracterização da Hemileia vastatrix

Um dos primeiros e mais fundamentais contributos de Aníbal Jardim Bettencourt no CIFC foi a caracterização detalhada do patógeno. A sua actividade científica incidiu inicialmente na especialização fisiológica da ferrugem do cafeeiro e na selecção de clones diferenciadores das raças do fungo.[2]

A rápida evolução e a variação da virulência do fungo H. vastatrix exigem uma compreensão constante e um mapeamento preciso das estirpes. O trabalho de Aníbal Jardim Bettencourt nos primeiros tempos no CIFC dedicou-se à caracterização de raças e de grupos fisiológicos, manutenção das culturas e identificação de novas raças.[2] Este esforço de diagnóstico era o pré-requisito técnico para qualquer programa de melhoramento genético eficaz, assegurando que o material desenvolvido no CIFC tivesse uma resistência de largo espectro, capaz de enfrentar a diversidade genética do patógeno.

A Solução Genética: Pesquisa e Transferência de Genes

A investigação de Aníbal Jardim Bettencourt rapidamente evoluiu para a aplicação genética. Ele concentrou-se no estudo do mecanismo hereditário da resistência à H. vastatrix em Coffea spp.[2]

O seu trabalho inovador centrou-se na transferência de genes de resistência para as principais variedades comerciais de C. arabica, utilizando o Híbrido de Timor (HDT) como fonte primária de resistência.[2] O HDT, um cruzamento natural entre C. arabica (susceptível, mas de alta qualidade) e C. canephora (robusta, resistente, mas de baixa qualidade), provou ser um recurso genético inestimável.

O esforço de transferência de fatores de resistência está bem documentado na sua publicação técnica, datada de 1981, intitulada Transferência de factores de resistência à Hemileia Vastatrix Berk. & Br. para as principais cultivares de Coffea Arabica L., editada pelo Centro de Investigação das Ferrugens do Cafeeiro da Junta de Investigações Científicas do Ultramar.[6]

A complexidade desta investigação exigiu colaboração internacional. Aníbal Jardim Bettencourt trabalhou com o Dr. Alcides Carvalho, uma figura de proa da investigação cafeeira no Brasil. Esta ligação permitiu não só o aprofundamento das técnicas de análise genética, mas também a testagem e distribuição do material em ambientes geográficos críticos.[2] A crise da ferrugem impôs uma colaboração transcontinental onde Portugal, através do CIFC, fornecia o material genético de base, e o Brasil, com a sua infraestrutura, garantia a escala e a avaliação em campo, papel que inicialmente foi desempenhado por Angola.

O quadro que se segue resume as áreas centrais e os focos da investigação de Aníbal Jardim Bettencourt:



O Impacto Global e a Criação de Cultivares de Resistência (Sarchimor e Catimor)


Os Progenitores da Cafeicultura Moderna

O legado mais tangível e duradouro de Aníbal Jardim Bettencourt reside nas linhagens de cafeeiros resistentes à ferrugem que foram desenvolvidas sob a sua liderança e participação no CIFC.

Do seu trabalho resultaram as progénies Catimor e Sarchimor, que se tornaram a base de grande parte da cafeicultura moderna global, especialmente nas regiões onde a ferrugem é endémica.

Sarchimor: Este híbrido resultou do cruzamento efectuado nas estufas do CIFC entre a cultivar 971/10 (Villa Sarchí, de porte baixo) e o Híbrido de Timor (832/2).[7] As primeiras cinco plantas F1 obtidas foram rigorosamente analisadas quanto à sua resistência às raças de H. vastatrix e incluídas no grupo fisiológico A.[7] Esta linha genética é a fundação para muitas variedades modernas de C. arabica resistente.

Catimor: Desenvolvido a partir do cruzamento entre o Híbrido de Timor e a cultivar Caturra.[2] Tal como o Sarchimor, o Catimor combina a resistência do C. canephora (via HDT) com as características de porte baixo e produtividade do C. arabica.

Historicamente, existia uma percepção generalizada de que a incorporação de genes do C. canephora (via HDT) para obter resistência resultaria numa inevitável degradação da qualidade da bebida. No entanto, o trabalho de melhoramento genético liderado por Aníbal Jardim Bettencourt e a subsequente selecção das progénies Catimor e Sarchimor nos centros de pesquisa mundiais conseguiram contornar este problema. Variedades derivadas destes cruzamentos, como Tupi e Obatã no Brasil, têm obtido excelentes resultados em concursos de cafés especiais, desmistificando a ideia de que a resistência à ferrugem é incompatível com a alta qualidade da bebida.[9] A sua mestria em selecionar os indivíduos que herdaram a resistência sem comprometer as características sensoriais do C. arabica foi a chave para o sucesso comercial e global das suas linhagens.

Disseminação de Material Genético e Impacto no Brasil

A estratégia de difusão de conhecimento do CIFC, fortemente suportada pelo trabalho de Aníbal Jardim Bettencourt, foi notavelmente aberta e cooperativa. Em 1960, o CIFC iniciou um programa de melhoramento com o objectivo de transferir resistência do HDT para as principais cultivares de C. arabica.[8] Como parte desta estratégia, plantas F1 e F2 seleccionadas, que demonstravam resistência a todas as raças conhecidas, foram fornecidas gratuitamente às instituições de países produtores de café que solicitassem este material.[8]

Este acto de colaboração científica teve um impacto preventivo incalculável no Brasil. O Instituto Agronómico de Campinas (IAC), uma das principais instituições de pesquisa cafeeira do país, recebeu progénies F2 e F3 derivadas de cruzamentos HDT/C. arabica a partir de 1968.[9]

Esta transferência de material ocorreu preventivamente, antes da chegada da ferrugem à América do Sul. Quando o fungo foi introduzido no Brasil no final da década de 60 [9], as instituições já possuíam linhagens robustas, desenvolvidas no CIFC, que resultaram no lançamento de cultivares cruciais como Tupi e Obatã em 2000.[9] Ao garantir que o Brasil tivesse material genético resistente disponível antes da chegada da praga, Aníbal Jardim Bettencourt e o CIFC criaram uma "apólice de seguro" genética que evitou uma devastação de escala continental, demonstrando uma visão estratégica notável na gestão de risco fitopatológico.

Missões Internacionais e o Eixo Atlântico de Cooperação


O Consultor Global (1965–1985)

O reconhecimento do conhecimento especializado de Aníbal Jardim Bettencourt na genética da resistência à ferrugem levou-o a desempenhar um papel activo como consultor internacional. Entre 1965 e 1985, realizou extensas missões e assistência técnica in loco aos programas de melhoramento genético do cafeeiro em diversos países.[2]

A sua influência estendeu-se geograficamente através de um eixo atlântico de cooperação que ligava a África, América do Sul e América Central:
África: Angola, Cabo Verde.[2]
América do Sul: Brasil, Colômbia, Venezuela.[2]

O seu trabalho garantiu que as metodologias de selecção de resistência e o material genético avançado fossem implementados de forma eficaz nestas regiões produtoras.

O Papel no PROMECAFÉ

Um dos pontos altos da sua colaboração internacional foi a participação no PROMECAFÉ (Programa Cooperativo Regional para o Desenvolvimento Tecnológico Agrícola do Café), que engloba a América Central e o Caribe. A sua assistência abrangeu: Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua, México, Panamá e República Dominicana.[2]

Esta colaboração sublinha o reconhecimento do seu conhecimento a nível pan-americano, necessário para a coordenação de esforços regionais. Através do PROMECAFÉ, Aníbal Jardim Bettencourt participou na montagem da Unidade Central de Melhoramento (OCM) em Turrialba, Costa Rica. O seu trabalho em Turrialba, um centro chave de pesquisa tropical, solidificou o legado do CIFC e a sua própria influência na infraestrutura científica da América Latina, onde os híbridos Catimor e Sarchimor seriam testados e distribuídos em larga escala.[2]

Legado Documental e Conclusão


A Preservação da Memória Científica

Embora a sua obra seja primariamente científica e técnica, existe uma importante componente documental que preserva a sua história institucional e metodológica. O seu trabalho técnico foi cristalizado na monografia de 1981, já mencionada, sobre a transferência de factores de resistência.[6]

Aníbal Jardim Bettencourt contribuiu ainda com um "Depoimento" detalhado para o Arquivo Científico Tropical (ACT) do Instituto de Investigação Científica Tropical (IICT) em 18 de Fevereiro de 2010.[2, 10] Este testemunho é uma fonte primária inestimável para a história da ciência portuguesa e do café, onde ele descreve em detalhe a sua experiência de 12 anos em Moçambique, o seu estado de depressão após o fim das experiências locais, como conheceu o Prof. Branquinho d’Oliveira (fundador do CIFC), a sua entrada no Centro, e os pormenores da fundação, gestão, financiamento e ligações internacionais do CIFC.[2] A preservação deste depoimento garante que a metodologia e as circunstâncias institucionais que levaram à criação dos híbridos de café mais bem-sucedidos do mundo sejam compreendidas pelas futuras gerações de investigadores.

Cronologia Pessoal e Síntese Biográfica

Os registos indicam que Aníbal Jardim Bettencourt se manteve activo e envolvido após a sua aposentação em 1992.[2] O seu testemunho de 2010 e a sua presença em plataformas digitais até 2014 [10] confirmam a sua longevidade. Detalhes pessoais revelam também o seu papel como avô, mencionando os seus netos e a sua esposa Maria da Conceição, providenciando um toque humano à figura do cientista de renome.[10]

Conclusões e o Engenheiro da Resiliência Silenciosa

Aníbal Jardim Bettencourt é um expoente máximo da agronomia aplicada portuguesa do século XX. O seu trabalho no Centro de Investigação das Ferrugens do Cafeeiro não foi apenas um sucesso nacional; foi uma contribuição de vanguarda que alterou a paisagem da cafeicultura global.

O impacto mais profundo da sua obra é económico e ecológico. Ao desenvolver, com a sua equipa, linhagens geneticamente resistentes à H. vastatrix, como os progenitores Catimor e Sarchimor, garantiu a resiliência de vastas áreas de produção de C. arabica que, de outra forma, teriam sucumbido ao fungo.[8, 9] Este melhoramento intrínseco permitiu reduzir a dependência de tratamentos químicos onerosos, promovendo, indirectamente, uma cafeicultura mais sustentável.

O facto de os nomes técnicos dos híbridos que criou — Catimor e Sarchimor — serem omnipresentes na literatura agronómica mundial, enquanto o seu nome é conhecido principalmente no meio científico e histórico, reflecte a natureza do seu trabalho. Aníbal Jardim Bettencourt foi um engenheiro da resiliência, um cientista que trabalhou para garantir a continuidade produtiva, um feito fundamental cuja estabilidade se torna, paradoxalmente, rapidamente invisível, mas que continua a sustentar a cadeia de valor do café em todo o mundo. A sua carreira personifica a excelência da investigação portuguesa em ciência tropical, que produziu soluções de impacto global.

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1. Hemileia vastatrix Berkeley & Broome - CAPS, https://caps.ceris.purdue.edu/wp-content/uploads/2025/07/Hemileia-vastatrix.pdf

2. Depoimento de Aníbal Jardim Bettencourt - actd:MOAJB,  https://actd.iict.pt/view/actd:MOAJB

3. (PDF) Medicina, ciência e laboratório A investigação biomédica básica em Lisboa (1880-1950) - ResearchGate, https://www.researchgate.net/publication/338580781_Medicina_ciencia_e_laboratorio_A_investigacao_biomedica_basica_em_Lisboa_1880-1950

4. Universidade de Lisboa - Instituto de Ciências Sociais ... - ULisboa, https://repositorio.ulisboa.pt/bitstreams/1ae1fbee-55ba-4dc5-bb24-6ed97c19e22c/download

5. LISBOA GUARDIÃ DE SABER TROPICAL, https://www.lisboa.pt/fileadmin/informacao/publicacoes/ambiente/lisboa_guardia_saber_tropical.pdf

6. MELHORAMENTO GENÉTICO DO CAFEEIRO. by JARDIM BETTENCOURT. (Aníbal): Good Soft Cover | Livraria Castro e Silva - AbeBooks, https://www.abebooks.co.uk/MELHORAMENTO-GEN%C3%89TICO-CAFEEIRO-JARDIM-BETTENCOURT-An%C3%ADbal/30966018542/bd

7. Transferência de genes de resistência a Hemileia vastatrixdo Híbrido de Timor para a cultivar Villa Sarchí de Coffea arabica - Instituto Agronômico (IAC), https://www.iac.sp.gov.br/media/publicacoes/iacdoc84.pdf

8. The coffee leaf rust pathogen Hemileia vastatrix: one and a half centuries around the tropics - PMC - PubMed Central, https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC6638270/

9. Participação da UFV em pesquisas sobre café é destaque no site da Embrapa, https://www2.dti.ufv.br/noticias/scripts/exibeNoticiaMulti.php?codNot=8138

10. Dezembro 2014 - O Ser Humano, https://1ajbettencourt.blogs.sapo.pt/2014/09/

 


* Coffea spp. é o termo científico para as espécies do género Coffea, que inclui o cafeeiro, um arbusto da família Rubiaceae cujas sementes (grãos de café), depois de tratados e torrados, são usadas para fazer a bebida café. O termo "spp." indica que se refere a múltiplas espécies dentro do género. As espécies comercialmente cultivadas mais conhecidas são a Coffea arabica (arábica) e a Coffea canephora (robusta).