terça-feira, 21 de maio de 2024

Melhorar o nosso mundo


Costumamos acabar as sessões do "Semear Abril" com esta imagem e a pergunta: "O que vais fazer para melhorar o teu mundo?" Normalmente não esperamos resposta porque o objectivo é apenas deixar o desafio aos jovens. Mas hoje, no último “Semear Abril” do 4º ano da EB1 Fausto Cardoso de Figueiredo, partimos dessa pergunta para que os alunos apresentassem propostas de melhoria do seu mundo, no caso a escola que estão prestes a deixar.

A turma dividiu-se em quatro grupos de cinco alunos e, durante vinte minutos, cada um dos grupos pensou uma ideia, ilustrou-a numa folha de papel A3 e elegeu um porta-voz para a apresentar à turma. As quatro propostas foram depois sujeitas a votação por braço no ar para que a turma escolhesse a preferida. Numa hora e meia, crianças de oito e nove anos foram capazes de elaborar quatro propostas de raiz, apresentá-las e discuti-las com os colegas e fazer uma escolha democrática da que consideravam mais apropriada.
 
Foi assim que se propuseram fazer uma campanha de sensibilização dos colegas através de cartazes e mensagens para que deixem de deitar lixo para o chão, apresentaram sugestões de melhoria da qualidade da comida da escola e de criação de um dia da comida em que seria servida uma refeição do agrado da maioria, propuseram a criação de um conselho dos representantes das turmas junto da direcção da escola e propuseram a criação de um momento de atenção em que cada um pudesse divulgar os seus interesses e habilidades e conversar sobre eles com especialistas externos convidados.

Na votação foi democrática (e pragmaticamente) escolhida a proposta de melhoria da comida da escola, mas os outros grupos deixaram claro que iriam também tentar concretizar as suas ideias.

Esta manhã, as crianças do 4º ano da EB1 Fausto Cardoso de Figueiredo deram uma lição magistral de cidadania. Se todos os grupos sociais se comportassem como eles, o mundo seria de facto muito melhor.

sábado, 11 de maio de 2024

Histórias da História

 


O recente livro da historiadora Luísa Tiago de Oliveira sobre o caminho para o 25 de Abril na Armada tem suscitado comentários de camaradas que questionam o rigor histórico de alguns depoimentos ou descrições de episódios nele transcritos. Um deles é a descrição que o meu camarada e amigo Martins Guerreiro faz da passagem da coluna das Caldas da Rainha pelo Grupo nº1 de Escolas da Armada em Vila Franca de Xira (G1EA), em 16 de Março de 1974. Devo confessar que também estranhei a descrição do Guerreiro por não coincidir com o que alguns dos principais intervenientes no episódio me contaram. Por outro lado, penso que perdeu a oportunidade de referir o papel do Pires Soeiro que tudo fez para que a força que comandou não se encontrasse com a coluna do Regimento de Infantaria 5 da Caldas da Rainha, assim como do Manuel Begonha e do Ramiro Correia que avisaram o Comandante que não devia interferir.

Posteriormente, o Martins Guerreiro esclareceu: “… quando falei com a Luísa o essencial era assinalar que nós não tínhamos cumprido a ordem de interceptar a coluna das Caldas. Voltei a falar com o Soeiro e ele explicou me que estacionou a força junto à Praça de Touros e dali viu passar a coluna na autoestrada no regresso para as Caldas. Quanto à detenção do Comandante da Escola não tem memória disso , mas a ordem de saída da força para interceptar a coluna das Caldas foi dada pelo Comandante da unidade que a tinha recebido do EMA , isto segundo o Soeiro; se a detenção do Comandante foi depois de constituída a força e ele sair , naturalmente o Soeiro não esteve envolvido nem tem memória. As minhas memórias resultam de relatos iniciais do Lobo de Oliveira e do Soeiro e relatos mais tarde do Oliveira Monteiro e do Begonha.”

O que conheço do que se passou no G1EA, no dia 16 de Março de 1974, resultou das várias conversas com intervenientes que merecem a máxima confiança e resume-se a isto: O Comandante do G1EA terá mandado o pessoal de serviço constituir uma força para interceptar a coluna das Caldas, muito provavelmente cumprindo ordens superiores. O Pires Soeiro assumiu o comando da força do G1EA logo que esta foi constituída e levou-a para junto da Praça de Touros de Vila Franca de Xira onde aguardou calmamente que a coluna do Exército passasse pela autoestrada. Não terá assim havido qualquer contacto entre a força comandada pelo Soeiro e a coluna do Regimento de Infantaria 5 das Caldas da Rainha. Entretanto, o Begonha e o Ramiro Correia, numa reunião dos oficiais ligados ao Movimento terão sido mandatados para falar com o Comandante e aconselhá-lo a ficar no seu gabinete e não intervir, não tendo ele oferecido resistência. No dia seguinte, o Comandante terá chamado o Begonha e comunicado que iria apanhar dez dias de prisão, mas uns dias depois terá voltado a chamá-lo para dizer que o castigo ficava sem efeito. O Begonha não sabe quem terá revertido a decisão, mas admite que tenha sido o próprio Governo para não hostilizar a Marinha.

Embora esteja convencido de que o que conheço do episódio não se afasta muito da realidade, não estou certo que seja a versão historicamente correcta. A experiência de dez anos a tentar descobrir o que efectivamente aconteceu na conspiração e nas operações militares em que não participei para contar aos jovens das escolas, tem sido frustrante e já me habituei a contentar com as aproximações mais ou menos verosímeis que vou recolhendo dos vários intervenientes (a memória é muito traiçoeira…).

Um outro exemplo dessa frustração e de algum modo relacionado com o 16 de Março, é a libertação do Forte da Trafaria dos oficiais implicados no golpe falhado, no dia 25 de Abril. Segundo o testemunho do colectivo da Escola Prática de Artilharia (EPA) de Vendas Novas transcrito na página 404 do excelente livro “Operação Viragem Histórica” do Carlos Contreiras, a Companhia de Artilharia Motorizada (CART) comandada pelo Cap. Mira Monteiro e de que fazia parte o Ten. Andrade da Silva, “às 15.15 horas, recebeu a missão de se deslocar à Trafaria a fim de libertar os oficiais pertencentes ao Movimento; esta missão foi integralmente cumprida pela libertação de 11 Oficiais ali detidos.” Ainda segundo o mesmo testemunho, “os Oficiais libertados, escoltados por forças da CART seguiram para Lisboa.” No testemunho do colectivo da EPA de Vendas Novas não há qualquer referência aos fuzileiros navais.

No entanto, na página 552 do mesmo livro, o meu camarada Vargas de Matos testemunhou que no dia 25, o Destacamento de Fuzileiros Especiais (DFE) que comandava, depois de regressar da primeira saída para Lisboa e do pessoal ter comido uma refeição ligeira na Força de Fuzileiros do Continente, se juntou à força de Artilharia posicionada no Cristo Rei, “que recebeu o DFE sem qualquer problema.” E acrescentou: “Próximo das 1600 o Posto de comando do MFA atribui-nos a missão de ir ao Forte da Trafaria libertar os oficiais presos na sequência do 17 do Março-Caldas da Rainha. Utilizando os transportes de Artilharia, seguiram para o Forte meio Corpo de Combate do DFE (10 homens) e um Asp/Alf de Artilharia com as viaturas. Esta força regressou posteriormente transportando os oficiais detidos”. No artigo que assinou no número 594, de Abril de 2024, da Revista da Armada comemorativo dos 50 anos do 25 de Abril, o Almirante Vargas de Matos reafirmou: “Entretanto Meio Grupo de Combate do Destacamento com militares da Bataria de Artilharia tinha ido ao Forte da Trafaria e libertara os Oficiais do Movimento das Caldas, ali detidos.

Mas em 30/04/2018, o já então Coronel Andrade da Silva, numa entrevista em Vieira do Minho, disse o seguinte sobre o mesmo episódio: “… e também tivemos a ambiguidade dos fuzileiros navais, porque nem tudo… há aqui uma coisa, isto a história está por contar… há muita camuflagem, a atitude dos fuzileiros navais foi muito ambígua. Nós recebemos ordens para deter a todo o custo os fuzileiros navais, quando passassem ali na ponte, se não fizessem um determinado sinal. Eles fizeram esse sinal, passaram. Mas depois regressaram outra vez ao Cristo Rei e tentaram, eles disseram que mandados pelo Pinheiro de Azevedo, há aqui uma certa ambiguidade, e tentaram desalojar-nos de lá pela via negocial. O que é que vocês estão aqui a fazer? Isto em termos militares, aquilo a que se chama as zonas de acção, esta área pertence mais à nossa zona de acção, à escola de fuzileiros navais, não é de Vendas Novas, o que é que vocês estão aqui a fazer? E nós aí dissemos: - Não, nós estamos aqui a fazer, estamos a cumprir ordens do OSCAR que era o Otelo, a Pontinha, e daqui só saímos com ordens dele, portanto, vocês vão à vossa vida. E foram.” E quanto à Trafaria, disse que “depois tivemos de ir libertar os nossos camaradas à Trafaria, que também estavam presos.” De novo, o oficial da EPA não fez qualquer referência à participação dos fuzileiros na libertação dos oficiais do Exército presos no Forte da Trafaria.

Parafraseando uma expressão popular, não é fácil ser historiadora nesta freguesia!

segunda-feira, 6 de maio de 2024

O Comodoro e o Tarrafal

 


Nas conversas com os jovens do “Semear Abril” costumo ilustrar a violência da repressão salazarista com a história da prisão do meu primo Benjamim Inácio Garcia na "Colónia Penal" do Tarrafal, na ilha de Santiago, em Cabo Verde. O Benjamim fez parte do segundo grupo de prisioneiros que inaugurou o terrível campo de concentração.

O Benjamim trabalhava como carpinteiro de moldes do Arsenal da Marinha quando, em 1935, aos 18 anos de idade, foi preso “por ordem superior” e mandado para a então Fortaleza Militar de Peniche. Foi absolvido e libertado em Abril de 1936 por um Tribunal Militar, mas um ano depois foi "preso novamente para averiguações, recolhendo à cadeia do Aljube". Embarcou para Cabo Verde, na segunda leva de presos que inaugurou a "Colónia Penal" do Tarrafal, em Junho de 1937, sem julgamento. Sete anos depois, em Outubro de 1944, regressou a Portugal, tuberculoso e em fase terminal de vida. Um mês depois, em 1 de Novembro de 1944, foi finalmente julgado, “tendo sido condenado na pena de 23 meses de prisão correcional, dada por expiada com a prisão preventiva de 7 anos e 238 dias e na perda dos direitos políticos por 5 anos”. Foi libertado em 7/11/1944.

O que conto aos jovens sobre a forma como a ditadura salazarista usou o Tarrafal para destruir a vida do Benjamim durante mais de 7 anos sem julgamento, à semelhança de muitos outros portugueses, consta da sua ficha prisional, uma das 29 510 fichas dos presos pela PVDE/PIDE/DGS entre 1934 e o dia 18 de Abril de 1974 que a Torre do Tombo disponibilizou online. No entanto, não costumo contar como o Tarrafal foi encerrado depois do 25 de Abril, no dia 1 de Maio de 1974, com a libertação dos últimos prisioneiros políticos do Estado Novo.

O principal responsável por essa libertação foi o Comodoro Pedro Fragoso de Matos que conheci em 1970, quando entrei na Escola Naval. Como chefe de curso tive oportunidade de contactar com alguma frequência com o Comodoro Fragoso de Matos, então Comandante da Escola Naval, tendo ficado com uma boa impressão sobre o seu carácter.

Era um homem com consciência humanista, que exercia o cargo com a preocupação de justiça e de respeito pelos alunos, permitindo a estes o exercício de liberdades de expressão e manifestação que não eram vulgares em escolas militares. E fê-lo de tal maneira que ouvi oficiais apoiantes da ditadura afirmarem que o nosso curso estava perdido (para a causa deles) por ser o "curso do Fragoso de Matos".

No dia 1 de Maio de 1974, o Comodoro Fragoso de Matos era o Comandante-Chefe das Forças Armadas em Cabo Verde e Encarregado do Governo na sequência da demissão do anterior Governador depois do 25 de Abril. No dia 27, após a libertação de todos os presos políticos de Caxias e Peniche, o então Capitão-tenente Luís Costa Correia, que tinha coordenado as forças do Movimento que ocuparam a sede da DGS/PIDE, contactou o Comodoro Fragoso de Matos sugerindo a libertação dos presos em Cabo Verde. Apesar das pressões da Metrópole, em particular do Presidente da República, General Spínola, e dos círculos mais conservadores de Cabo Verde (alguns militares e funcionários da administração colonial), o Comodoro Fragoso de Matos tomou a corajosa decisão de libertar todos os prisioneiros políticos que ainda estavam no Tarrafal.

No dia seguinte comunicou a sua decisão a Lisboa num telegrama com a classificação de “secreto”. Nele dava conta de que “foram restituídos liberdade todos presos políticos Tarrafal em 1 Maio às 15 horas 30 [minutos].” E justificava: “Esta decisão, […] teve consideração perigosa explosiva acuidade situação em crescente irreprimível pressão população activa e comprovada insuficiência meios controlar possível generalização distúrbios.” Por fim propunha “colocação minha disposição máxima urgência transporte aéreo fim serem remetidos Estado Angola” treze dos libertados, naturais daquele território.

No mesmo dia o Comodoro Fragoso de Matos recebeu a resposta de Lisboa: “Informo Vexa JSN fixou seguinte interpretação sobre aplicação amnistia presos políticos: Decreto Lei JSN determina que todos presos políticos cujos crimes se enquadrem nº 2 artº 1 aludido Decreto-Lei sejam imediatamente restituídos liberdade. Não são abrangidos situações ligadas cometimento actividades subversivas violentas."

Tarde piaram…