segunda-feira, 12 de outubro de 2026

O abraço do urso



Na Europa central, a tentação da direita liberal e conservadora – aquela que partilha o ADN reformista de Passos Coelho – em cruzar a linha vermelha da extrema-direita deixou de ser uma hipótese académica para se tornar num padrão. A fórmula parecia simples e sedutora: instrumentalizar o radicalismo populista para viabilizar maiorias parlamentares, aplicar agendas radicais de flexibilização económica e confiar que a gravidade da governação domesticaria os parceiros imprevisíveis. Os resultados, contudo, revelaram-se devastadores para a direita tradicional.

A experiência da Áustria aos Países Baixos, passando pela Finlândia e por Itália, mostra que a estratégia da integração falhou sistematicamente. Em quase todos os cenários, a direita liberal aceitou ceder na imigração, na justiça e na coesão social para salvar a sua agenda económica. Mas ao validar os temas e o léxico da extrema-direita, em vez de esvaziarem os radicais, legitimaram-nos perante o eleitorado.

A consequência foi a perda da liderança do espaço político. O eleitorado, confrontado com a escolha entre o original e a versão diluída, acabou por preferir o original. Em Itália, os Fratelli d'Italia engoliram a Forza Italia. Na Áustria, o FPÖ ultrapassou o ÖVP nas urnas. Nos Países Baixos, a abertura de portas do VVD acabou por entregar a vitória ao PVV de Geert Wilders em 2023.

Perante este resultado, a direita tradicional procurou redefinir estratégias para evitar a submissão total através de variadas abordagens. Uma dessas tentativas passou pela via do governo extra-parlamentar nos Países Baixos. Após a vitória do PVV, o centro-direita, representado pelo VVD e pelo NSC, recusou um executivo directamente liderado por Geert Wilders, impondo a escolha do independente Dick Schoof para Primeiro-Ministro e mantendo os líderes partidários fora do gabinete. No entanto, esta tentativa de governação tecnocrata acabou por colapsar devido à instabilidade do parceiro radical, culminando em eleições antecipadas e no regresso a uma solução de centro liderada pelos liberais.

Outra abordagem baseou-se na reafirmação do cordão sanitário e em pontes ao centro, tal como sucede na Alemanha, onde a CDU de Friedrich Merz tem mantido a recusa categórica de coligações com a AfD, optando por pactos pragmáticos e acordos pontuais com a social-democracia. Em países como a Grécia e a Polónia, a estratégia assentou na diferenciação pela via da responsabilidade institucional. A Nova Democracia de Kyriakos Mitsotakis e a Plataforma Cívica de Donald Tusk contiveram a proliferação da extrema-direita ao posicionarem-se como garante absoluto de estabilidade macroeconómica.

Finalmente, investiu-se na resolução concreta do descontentamento público. Na Grécia, por exemplo, o centro-direita procurou combater as causas materiais do populismo ao focar-se em aliviar a crise da habitação, baixar impostos sobre rendimentos e dinamizar o poder de compra.

A direita liberal descobriu uma dura verdade. Quando decide alinhar com a extrema-direita para chegar ao poder, não está a alargar a sua base, mas a assinar a sua própria submissão. Evitar o "abraço do urso" exige coragem política para construir maiorias ao centro e mostrar que a eficácia reformista não necessita da extrema-direita para governar.

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