A imagem gerada por inteligência artificial que o matemático francês Hugo Duminil-Copin projectou durante uma intervenção na Société Mathématique de France, transmite um sentimento que transcende a frieza da apresentação. Revelada nas páginas do jornal Le Monde — na reportagem assinada por Hervé Morin no caderno Science & Médecine da edição de hoje —, a ilustração de um coelho prestes a ser esmagado por um camião para descrever o impacto de um recente anúncio da OpenAI, deu voz ao sobressalto de toda uma comunidade científica. A sua confissão pública de ter chorado na noite em que a empresa americana disponibilizou mais de 719 documentos de trabalho científicos na internet, pretendendo resolver centenas de problemas matemáticos por solucionar, é o retrato comovente do confronto entre a sensibilidade humana e a brutalidade dos algoritmos.
O que a OpenAI operou não foi um avanço científico tradicional, mas uma demonstração de força. Ao publicar mais de 3 500 páginas de demonstrações geradas por inteligência artificial — abordando de uma só vez 16 questões essenciais em que Duminil-Copin e a sua equipa trabalhavam —, a gigante tecnológica procurou demonstrar uma capacidade de "massacre" e "desmantelamento" da actividade matemática humana. Mais grave do que a velocidade foi o atropelo ético. Como revela a investigação do Le Monde, a empresa ignorou as recomendações do comité consultivo de investigadores, utilizou modelos internos não comercializados e produziu textos amplamente ilegíveis e sem a devida formalização lógica, vendo-se até forçada a retirar três artigos no dia seguinte devido a erros flagrantes.
Como bem denunciou o matemático francês ao diário parisiense, a OpenAI actuou com uma total indiferença pela comunidade científica, demonstrando que "não quer saber da epopeia humana" e rotulando todo este processo como genuinamente "inhumano". A leitura de uma demonstração matemática perde o seu sabor e o seu sentido quando deixa de ser o fruto da cooperação e do génio de pessoas com rostos conhecidos, transformando-se num produto industrial. Além disso, esta pilhagem algorítmica ameaça destruir o ecossistema de partilha e discussão livre de ideias que sempre fez a riqueza da ciência, forçando investigadores a fecharem-se sobre si mesmos por receio de verem os seus raciocínios capturados por agentes virtuais — uma violência que penaliza, acima de tudo, os jovens cientistas em formação.
Contudo, a resposta de Hugo Duminil-Copin perante este terramoto oferece uma lição de dignidade. Recusando-se a capitular ou a resignar-se a ser um mero leitor de milhares de páginas produzidas por máquinas, o investigador lembra que a verdadeira matemática não reside apenas na acumulação bruta de teoremas, mas na capacidade de compreender, digerir, ensinar e criar comunidade em redor do conhecimento. O futuro da ciência humana continuará a passar pela busca de "pérolas" intelectuais e pela paixão de transmitir aos outros o encanto da descoberta. Se a inteligência artificial consegue produzir milhares de páginas em poucas horas, só o ser humano é capaz de dar sentido à caminhada.

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