sábado, 10 de outubro de 2026

A lição da guerra na Ucrânia

 


Por mais que a diplomacia e a política internacional tratem a guerra com o cálculo frio dos bastidores, a realidade no terreno nada tem de ficção ou de espectáculo, pois todos os dias morrem pessoas reais, destroem-se famílias e ceifam-se vidas inocentes sob o fogo dos bombardeamentos. É perante o peso esmagador desta tragédia humana que o cinismo e a encenação dos vários actores globais se tornam ainda mais evidentes.

Em Moscovo, o Kremlin trata a destruição com uma frieza burocrática e desumana. Enquanto a propaganda de Vladimir Putin apresenta tudo como uma fatalidade da redistribuição geopolítica, no terreno essa narrativa traduz-se em mísseis e bombas guiadas contra edifícios residenciais e paragens de autocarro em Kramatorsk e Pryluky, na destruição deliberada da rede eléctrica para lançar milhões de civis no gelo do Inverno e na chantagem nuclear a partir de Kaliningrado. O sofrimento de todo um povo é transformado, sem qualquer escrúpulo, num instrumento de pressão sobre o Ocidente.

Em Kiev, no plano da liderança política, Volodymyr Zelensky e o seu governo travam uma batalha diária pela sobrevivência das instituições e do Estado, gerindo um país em ruínas e um sufocante défice orçamental de dezenas de milhares de milhões de dólares. Entre a dependência do apoio financeiro e militar externo e a necessidade de manter operacional a máquina de defesa — mobilizando tecnologia de ponta e novas estratégias no campo de batalha —, a liderança ucraniana enfrenta o desgaste de uma guerra prolongada, equilibrando-se entre as exigências diplomáticas internacionais e as crescentes tensões políticas internas, ilustradas pelas polémicas em torno de propostas pragmáticas de paz, como a do deputado Oleksiy Goncharenko.

Longe dos gabinetes do poder, para a população anónima ucraniana, a realidade resume-se ao luto diário e à dura luta pela sobrevivência física. Nas cidades sob bombardeamento, nas trincheiras geladas e nos lares destruídos, os cidadãos comuns enfrentam o trauma da perda de entes queridos, a interrupção abrupta dos seus projectos de vida e a incerteza quanto ao amanhã. É no quotidiano das famílias devastadas pelo conflito que a tragédia humana se revela na sua dimensão mais profunda e dolorosa, uma vez que a resiliência deixou de ser um discurso político para se tornar o único meio de sobreviver à devastação.

Do outro lado do Atlântico, em Washington, a tragédia humana é reduzida a linhas contabilísticas e à conveniência eleitoral. Para a administração Trump, o conflito é encarado como um encargo dispendioso de três mil milhões de dólares por mês, que faz disparar o preço dos combustíveis e irrita os eleitores antes das eleições intercalares. Sem qualquer constrangimento moral, a Casa Branca recusa-se a tratar o agressor como um pária, convida-o abertamente para cimeiras num resort de golfe na Flórida e envia emissários para negociar a compra de gasóleo russo e a partilha de lucros no consórcio do gasoduto Nord Stream e na petrolífera Lukoil.

No centro de Bruxelas e nas capitais da Europa Ocidental, os líderes liberais — de Friedrich Merz a Emmanuel Macron e Ursula von der Leyen — envergam a armadura da virtude moral, enquanto prometem pacotes de armamento e a futura adesão à União Europeia. Contudo, essa mesma solidariedade revela os seus limites práticos no plano da política quotidiana, dado que o trigo e os produtos agrícolas ucranianos continuam a enfrentar restrições de acesso destinadas a proteger os mercados agrícolas de países como a França, a Polónia ou a Irlanda. Fica, assim, evidente que o apoio europeu vacila quando colide com a protecção das suas próprias economias.

Nas bancadas da extrema-direita europeia — da AfD alemã ao Reagrupamento Nacional francês e ao movimento de Roberto Vannacci, em Itália —, o sofrimento humano é encarado como um incómodo que deve ser rapidamente eliminado, cortando-se a ajuda a Kiev para recuperar o gás e o petróleo baratos de Moscovo. Já na extrema-esquerda e em certas correntes do pacifismo abstracto — representadas por figuras como Ségolène Royal ou Jean-Luc Mélenchon —, apela-se a uma mediação imediata através de discursos morais, esquecendo-se que exigir o fim dos combates sem garantias de segurança significa abandonar milhões de civis ao arbítrio de uma ocupação violenta.

Por sua vez, nos bastidores internacionais, mediadores como o presidente turco Recep Tayyip Erdogan e as potências do Sul Global, como o Brasil e a Índia, analisam o conflito à luz do seu impacto no comércio de commodities, nos fertilizantes e nos preços do petróleo, gerindo os seus próprios equilíbrios geopolíticos e económicos.

Perante esta teia de interesses, torna-se imperativo resgatar as iniciativas equilibradas e profundamente humanas que, no meio da devastação na Ucrânia, colocam a vida acima da propaganda. Destaca-se o trabalho imparcial do Comité Internacional da Cruz Vermelha (CICV), cujas equipas trabalham em Kiev e em Moscovo para apoiar mais de 18 mil famílias ucranianas e russas que vivem a angústia de procurar militares e civis desaparecidos na guerra. Ao cruzarem a linha da frente para fazer chegar dezenas de milhares de mensagens pessoais entre prisioneiros e as respectivas famílias, estas equipas recordam a verdade universal de que a dor de uma mãe ou o desespero de um filho que aguarda notícias não têm cor política nem nacionalidade. 

Essa mesma humanidade transparece também em gestos locais, como o do soldado e voluntário Roman Chuhalov, que, na cidade de Oleshki — sitiada e sem electricidade nem água —, utiliza drones não para lançar explosivos, mas para fazer chegar pacotes de comida, medicamentos e pequenas cartas de encorajamento a milhares de civis isolados. A este esforço somam-se os alertas da Missão da ONU liderada por Danielle Bell, que insiste em documentar a tragédia das populações civis para impedir que as vidas humanas sejam reduzidas à designação fria de "danos colaterais".

A verdadeira e mais sombria lição a retirar da guerra na Ucrânia reside neste contraste devastador. Enquanto, nos salões do poder global, se trocam acusações, se delineiam estratégias de campanha e se negoceiam comissões no sector da energia, são as populações anónimas, os voluntários de socorro e as equipas humanitárias que preservam o único alicerce sobre o qual o futuro poderá ser reconstruído, ou seja, a certeza de que nenhuma causa política, nenhum ganho territorial e nenhum interesse financeiro justificam o sacrifício de vidas humanas inocentes.

É negócio, estúpido!



A forma como a alta geopolítica trata a União Europeia proporciona momentos de uma ironia quase cruel. Durante anos, cidadãos e empresas europeus foram exortados a fazer votos de castidade energética; fecharam-se as torneiras do gás e do petróleo russos, suportaram-se preços dos combustíveis que levaram o gasóleo a ultrapassar os 2 euros por litro na bomba, sacrificou-se a competitividade da indústria e engoliu-se um choque inflacionista sem precedentes. Em Bruxelas e nas capitais do continente, repetia-se, com solenidade moral, que cada cêntimo poupado na factura energética representava um dever cívico e uma vitória na contenção da máquina de guerra do Kremlin.

Contudo, a geopolítica real é pródiga em lições de pragmatismo perverso, e a ilusão europeia ruiu em pleno ano eleitoral americano. Pressionado pela inflação interna e pela subida vertiginosa do preço dos combustíveis às portas das eleições intercalares, Donald Trump não se deixou prender por escrúpulos morais e, perante a fúria dos seus eleitores, executou uma pirueta diplomática espectacular e fechou um acordo directo com Vladimir Putin para a importação de gasóleo russo. Ou seja, enquanto a União Europeia era obrigada a cumprir à risca o regime de sanções e a suportar a escassez de combustível, a Casa Branca contornava as suas próprias directivas para abastecer os automobilistas americanos com gasóleo vindo de Moscovo.

Para tornar o cenário ainda mais humilhante para a diplomacia europeia, este negócio do gasóleo surge em simultâneo com a pressão exercida por Washington sobre a Europa para que o G7 libertasse milhões de barris das suas reservas estratégicas de emergência, sob a ameaça velada de os EUA proibirem a exportação dos seus próprios produtos refinados para o Velho Continente. A Europa cedeu, abriu as suas reservas para acalmar os mercados globais e, como recompensa, viu o seu principal aliado fechar um pacto energético bilateral com o Kremlin.

Como se esta traição comercial não bastasse, o espectáculo atinge o seu auge satírico nos bastidores financeiros. Intermediários de topo — como Jared Kushner, genro de Trump, e Kirill Dmitriev, chefe do fundo soberano russo e homem de confiança de Putin — dedicam-se a negociar a futura distribuição do abastecimento europeu. O plano, traçado em privado, prevê a entrada de investidores norte-americanos e de fundos do Golfo no consórcio do gasoduto Nord Stream, bem como a compra de activos globais da petrolífera russa Lukoil, garantindo que o gás e o petróleo voltem a fluir para a Europa, mas agora com uma generosa comissão de intermediação cobrada por magnatas americanos e russos.

O resultado desta peça teatral é uma verdadeira lição de ingenuidade estratégica. A União Europeia destruiu o seu modelo económico assente em energia acessível, suportou a austeridade e cumpriu religiosamente o papel de baluarte das sanções, apenas para ser tratada como o parente ingénuo de quem todos se aproveitam. No grande xadrez da energia, enquanto Trump garante o gasóleo russo para salvar a sua campanha eleitoral e investidores de Washington e Moscovo negociam a partilha dos lucros da futura infra-estrutura europeia, a Europa alcançou a triste proeza de ser o único jogador a pagar a conta, a cumprir as regras e a ficar sem energia nem influência à mesa do jogo.

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

O chão secreto de Lisboa

 


Atravessar as portas de madeira e vidro dos Armazéns Braz & Braz na Rua Dom Antão de Almada, num sábado de Outono no final dos anos 50, foi para a criança um choque sensorial avassalador.

Apenas duas semanas antes, a sua realidade era o calor húmido e constante de Quelimane, as ruas largas com sombra de acácias e mangueiras, as casas de alvenaria térrea, a terra vermelha da Zambézia e a pequena escola primária onde concluíra a 4.ª classe. Na Quelimane de finais dos anos 50, o comércio que a criança conhecia estava moldado pelo ritmo do porto e pelas grandes firmas locais. A maior referência da cidade era o império da Monteiro & Giro, com os seus imponentes armazéns de importação e máquinas, a par das casas comerciais indianas como a Gani e das cantinas de bairro — espaços de penumbra fresca, com portas de fole abertas para a rua, onde se pedia a mercadoria por cima de um balcão de madeira simples e onde a variedade era contida e familiar. Não existia em Quelimane nada, absolutamente nada, que a preparasse para a monumentalidade, a vertigem e a multidão de Lisboa.

Ao lado da mãe, que lhe segurava a mão com uma firmeza nova — fruto do receio de que o filho se perdesse na confusão da metrópole —, a criança pisava um mundo que parecia saído de uma vertiginosa ficção.

Foi então que se impôs o primeiro impacto: o frio, o som e a escala.

A primeira diferença foi a luz e a temperatura. Vinda do sol forte e macio do Índico, a criança sentiu no rosto o ar frio, denso e húmido da Baixa lisboeta. Ao cruzar a entrada do armazém, o cheiro que a envolveu foi uma mistura absolutamente inédita para o seu nariz habituado ao cheiro da maresia do rio dos Bons Sinais, da poeira e do óleo de coco; no Braz & Braz cheirava intensamente a cera de chão, a metal polido, a plástico novo, a borracha sintética, a petróleo de limpeza e a um fundo poeirento de pedra antiga e mofo.

O ruído também era ensurdecedor e claustrofóbico para quem vinha do ritmo pausado da Zambézia; o murmúrio constante de centenas de vozes a ecoar nas abóbadas, o chiar dos sapatos no chão de pedra, o bater seco de panelas de alumínio e o tinir contínuo de moedas e caixas registadoras.

Para um menino habituado aos edifícios do Moçambique natal, a arquitectura do Braz & Braz parecia assustadora e mágica. Olhando para cima, não via os tectos de zinco ou as varandas de madeira de Quelimane; via arcos gigantescos de pedra de cantaria e abóbadas de tijolo escuro que pareciam as de uma fortaleza ou de uma igreja imensa. Incrédulo, percebia que aquela igreja não tinha altares nem santos, mas sim prateleiras metálicas até ao tecto, carregadas de objectos que nunca tinha visto todos reunidos num só lugar.

Mas era diante da abundância e do ritual meticuloso das compras que a vertigem se tornava maior.

Se mesmo nos grandes armazéns da Monteiro & Giro, em Quelimane, a mercadoria estava guardada ou encaixotada por encomenda, no Braz & Braz a criança ficou paralisada perante o espectáculo da superabundância em exposição directa. Primeiro, a montanha de alumínio e esmalte; ver centenas de panelas, caçarolas, sertãs e testos empilhados até ao tecto, a brilhar sob a luz eléctrica, parecia-lhe uma exibição de riqueza quase inacreditável. Pendurados em ganchos no tecto, passadores, funis, baldes de zinco e candeeiros a petróleo de vidro polido flutuavam sobre as cabeças das pessoas. Depois, a revolução do plástico: ao chegar ao antigo claustro coberto — uma imensa nave central sob uma clarabóia —, a criança deparou-se com uma explosão de cores sintéticas que nunca vira na África Oriental: bacias, baldes, garrafas térmicas, caixas e cuvetes em tons berrantes de encarnado, amarelo, azul-bebé e verde-alface.

A forma como compravam parecia-lhe um teatro de precisão. Os empregados de bata azul, com um lápis atrás da orelha, preenchiam o talão em papel químico; a mãe dirigia-se à cabine elevada da Caixa Central, onde uma senhora, diante de uma caixa registadora metálica gigante, carimbava o papel com um estrondoso “tique-clac!”; e o regresso ao balcão culminava com o empregado a embrulhar tudo em papel pardo e a atar o pacote com um nó cego de cordel de ráfia.

Havia, porém, um segredo silencioso sob os seus pés — a dimensão antropológica de um ritual que ninguém ali podia adivinhar.

Enquanto a mãe e a criança caminhavam pelos corredores do claustro coberto, maravilhadas com o brilho dos plásticos e a profusão de utilidades domésticas, pisavam o chão de lajes calcárias e mosaico sem imaginarem a imensa tragédia e a devoção que ali jaziam sepultadas. Sob as solas dos seus sapatos, a escassos palmos de profundidade, repousavam em absoluto silêncio os esqueletos de cerca de três mil crianças e recém-nascidos — uma necrópole infantil secreta que permaneceria desconhecida do mundo durante mais de meio século.

Como explicam os arqueólogos e antropólogos biológicos que mais tarde escavaram o local, a análise dos contextos funerários e do registo ósseo revela muito mais sobre a vida e a cultura dos vivos do que propriamente sobre a morte. Entre o século XVI e o início do século XIX — antes da proibição dos enterramentos dentro dos templos pelo decreto de Costa Cabral (1844) —, a igreja e o claustro do Convento de São Domingos funcionavam como o epicentro espiritual e social das famílias mais humildes de Lisboa.

Numa cidade marcada por taxas avassaladoras de mortalidade infantil, subnutrição e infecções recorrentes, os esqueletos ali depositados revelam uma faixa etária muito específica: perto de 90% das crianças tinham menos de um ano de idade. Sem recursos financeiros para suportar os custos de um funeral formal e impelidas pela devoção popular aos frades dominicanos, centenas de mães amortalhavam cuidadosamente os corpos dos seus bebés falecidos.

Nas caladas da noite, levavam os pequenos corpos até às portas do convento. Os religiosos recolhiam-nos devotamente e sepultavam-nos no solo do claustro — um espaço sagrado onde se acreditava que a proximidade às relíquias e às orações diárias da comunidade dominicana garantiria a protecção das almas infantis. Durante as escavações, a preservação de pequenos alfinetes de bronze junto aos esqueletos revelou o cuidado minucioso com que essas mães envolveram os seus filhos no pano da mortalha antes de os entregarem à terra.

Ali permaneceram, lado a lado, durante séculos, enquanto, por cima, o mundo mudava, o convento era dessacralizado e os Armazéns Braz & Braz instalavam as suas prateleiras de ferro, espanadores e garrafas térmicas.

A revelação só chegaria décadas mais tarde.

Ao sair dos Armazéns Braz & Braz com a mãe, segurando o pequeno pacote atado com cordel, a criança trazia os olhos arregalados e o coração a acelerar. Aquela visita marcara a sua entrada em Lisboa — uma cidade monumental, fria, ruidosa e cheia de mistérios.

Passaram-se décadas. O rapaz cresceu, fez a sua vida, os Armazéns Braz & Braz acabaram por fechar as portas e o próprio tempo transformou o rapaz de Moçambique num avô com netos da idade que ele tinha naquele sábado de Outono dos anos 50.

Foi só depois de 2020, quando os jornais noticiaram as escavações arqueológicas realizadas para a reconversão do antigo edifício no hotel Convent Square, que aquele homem, agora grisalho, leu a notícia, estupefacto. Descobrira-se a maior necrópole infantil do mundo sob o solo do antigo armazém, revelando o perfil biológico e a história social daquela população anónima.

Ao ler a reportagem, o avô fechou os olhos e regressou instantaneamente a 1959; viu-se de novo pequeno, pela mão da mãe, recém-chegado da soalheira Quelimane, a caminhar sobre as lajes frias daquele labirinto de abóbadas. Só então compreendeu que, no dia em que descobriu a vertigem do mundo moderno e do comércio da metrópole, pisava sem saber o chão onde repousava o sono silencioso de três mil crianças lisboetas do passado.

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

O que a luz revela quando a memória se apaga

 


Quando soube que o Prémio Nobel da Medicina tinha sido atribuído a Karl Deisseroth, Peter Hegemann e Georg Nagel pelo desenvolvimento da optogenética, senti um interesse muito pessoal. Para muitas pessoas, foi apenas mais um marco científico noticiado nos jornais. Para mim, porém, esta distinção ajudou a compreender um episódio recente da minha vida.

Há pouco tempo, como aqui contei, sofri uma hiponatremia aguda grave, provocada pela preparação para uma colonoscopia. O nível de sódio no sangue desceu para 120 mmol/L, um valor perigosamente baixo, e o cérebro desenvolveu edema, ou seja, inchaço. Quando recuperei, percebi que a memória tinha sido afectada de duas formas. Uma amnésia retrógrada apagou o mês anterior ao exame. Além disso, uma amnésia anterógrada acompanhou-me durante cerca de três semanas após o episódio. Três semanas em que o presente parecia escapar-me entre os dedos, em que o que vivia hoje não fixava amanhã e guardar uma memória recente era como tentar escrever na água.

É neste contexto que o trabalho destes três cientistas ganha, para mim, um significado especial. Em termos simples, a optogenética é uma técnica que permite controlar a actividade de células do cérebro através da luz. Deisseroth, Hegemann e Nagel descobriram como usar, em neurónios específicos, proteínas sensíveis à luz, originalmente identificadas em algas e outros microrganismos. Essas proteínas funcionam como um interruptor e um feixe de luz pode activar ou desactivar determinados neurónios com grande precisão temporal.

Esta técnica também tem sido aplicada ao estudo das redes de memória, conhecidas como engramas. A investigação sugere que, em certas situações, uma memória pode não estar destruída, mas apenas temporariamente inacessível. O edema e as alterações na actividade eléctrica do cérebro podem perturbar a comunicação entre as células e tornar alguns circuitos difíceis de activar. É o que se descreve como “engramas silenciosos”, em que a informação poderá continuar armazenada, embora o cérebro não consiga aceder-lhe normalmente. Em experiências com optogenética, os investigadores conseguiram reactivar alguns desses circuitos e recuperar memórias que pareciam perdidas.

Conhecer esta possibilidade ajudou-me a olhar para a experiência com mais serenidade. Pensar que o mês anterior ao exame e as três semanas seguintes podem corresponder a uma falha temporária no acesso ou na formação de memórias, e não necessariamente a uma perda definitiva, altera a minha perspectiva. Este trabalho mostra como o cérebro pode reorganizar-se e recuperar funções à medida que o equilíbrio do organismo é restabelecido e a neuroplasticidade entra em acção.

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Uma guerra, cinco espelhos



Quando um jornal noticia uma guerra distante, nunca fala apenas do campo de batalha. O enquadramento do conflito transforma-se num espelho geopolítico e nele reflectem-se as ansiedades, os interesses económicos e a cultura política do país onde a notícia é publicada. A cobertura do conflito entre os EUA e o Irão nas edições de hoje, oferece uma reveladora lição de psicologia global. Por detrás das manchetes sobre bloqueios navais, ataques com mísseis e preços dos combustíveis, cada país está, no fundo, a falar de si próprio.

Ler a imprensa norte-americana — de publicações como o USA Today e o The Wall Street Journal ao The New York Times — é observar uma superpotência inevitavelmente voltada para dentro. O conflito no Médio Oriente depressa se converte numa narrativa de consumo interno, dominada pelo preço do gasóleo na factura dos camionistas, por custos militares que já ultrapassaram os 43 mil milhões de dólares e pela aproximação das eleições intercalares. A retirada de bombardeiros de bases no Reino Unido, devido a ameaças de sabotagem, expõe uma nação poderosa, mas hipervigilante e profundamente polarizada. Aqui, a política externa mede-se sobretudo pelo que pesa no bolso do eleitor — e pelo que pode custar à sobrevivência política da Casa Branca.

Ao atravessar o Atlântico e entrar nas páginas do Le Monde e do Le Figaro, o tom muda e a ambição militar dá lugar à ansiedade económica. A imprensa francesa transmite a inquietação de um continente que sofre os danos colaterais de um incêndio que não ateou. Com o gasóleo a atingir os 2,24 euros por litro e a inflação na zona euro a subir para 3,8%, a Europa surge como um espectador vulnerável, dividido entre a solidariedade transatlântica e o receio de asfixia energética. O destaque dado às reuniões de emergência do G7 e à libertação de reservas petrolíferas revela uma Europa obcecada com a estabilidade social e o custo de vida, aberta à diplomacia, mas cada vez menos tolerante perante o unilateralismo imprevisível de Washington.

Mais a leste, a imprensa chinesa — através de títulos como o China Daily e o South China Morning Post — lê o confronto por um prisma geopolítico frio e calculista. A guerra não é apresentada como uma crise de segurança regional, mas como a expressão acabada do “militarismo” e da “coerção económica unilateral” dos Estados Unidos. Ao amplificar a recusa iraniana de aceitar imposições norte-americanas e ao sublinhar o impacto do conflito nas rotas marítimas globais, Pequim transforma a crise num instrumento de erosão da legitimidade internacional de Washington. A narrativa espelha uma potência em ascensão que procura afirmar-se como guardiã do multilateralismo e do comércio livre, contrapondo a sua promessa de estabilidade ao caos atribuído à intervenção norte-americana.

Em Israel, nas páginas do The Jerusalem Post e do Haaretz, a guerra deixa de ser uma abstracção para se tornar uma realidade quotidiana e existencial. A atenção constante aos ataques dos rebeldes houthi no Mar Vermelho, às ameaças das milícias regionais e às falhas de segurança na aviação comercial reflecte um país onde a segurança nacional é o filtro absoluto da vida pública. As críticas severas do Haaretz às falhas burocráticas e de vigilância revelam uma sociedade sob tensão permanente, na qual política externa, defesa e sobrevivência diária são, na prática, indissociáveis.

Por fim, na imprensa estatal cubana — representada pelo Granma e pelo Trabajadores —, o conflito é elevado à condição de cruzada ideológica. Enquadrada na linguagem clássica da resistência ao “imperialismo norte-americano”, a guerra no Médio Oriente converte-se também numa explicação oficial para as dificuldades internas. Ao ligar directamente a escassez global de petróleo, provocada pelo bloqueio ao Irão, aos apagões diários e aos cortes de água que atingem Havana, a imprensa cubana transforma a geopolítica distante numa narrativa de coesão revolucionária — e numa justificação para a degradação dos serviços públicos.

Assim, a cobertura do conflito entre os EUA e o Irão pela imprensa mundial é muito mais do que um relato de manobras militares, é uma cartografia das prioridades do planeta. Em Washington, vê-se a ansiedade eleitoral; em Paris, a vulnerabilidade energética; em Pequim, a rivalidade estratégica; em Jerusalém, o imperativo da sobrevivência; em Havana, a narrativa ideológica. Perante a mesma guerra, cada nação julga observar o mundo — mas acaba por encontrar o seu próprio reflexo.

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Uma vivência e um alerta

 


Hoje quero partilhar uma experiência pessoal recente — daquelas que nos apanham completamente de surpresa — e que traz consigo uma lição valiosa que todos devemos ter presente.

Há umas semanas, preparei-me para realizar um exame médico absolutamente rotineiro e habitual para muitos de nós: uma colonoscopia. Tudo parecia perfeitamente banal e sob controlo. No entanto, o que deveria ter sido um procedimento simples transformou-se, em poucas horas e sem que eu sentisse a menor dor física, numa situação crítica de saúde que me ensinou como o nosso organismo pode ser traiçoeiro nos momentos mais inesperados.

O que aconteceu foi algo silencioso. Durante a preparação para o exame, a combinação de uma solução de limpeza intestinal forte (à base de sulfatos), a ingestão de água simples e o facto de ter tomado um anti-inflamatório uns dias antes para uma dor na coluna (o conhecido Voltaren) provocou uma queda abrupta e severa do sódio no meu sangue — aquilo a que os médicos chamam hiponatremia ou hiponatrémia aguda grave.

O aspecto mais impressionante e perigoso desta situação é que a queda do sódio não dá pontadas, não dá febre nem provoca dor física. Ataca directa e fortemente o cérebro através de um edema e manifesta-se de forma muito subtil através de comportamentos que, para quem está de fora, podem parecer apenas "cansaço", "stresse" ou "distração", mas que são, na verdade, um verdadeiro grito de alarme do organismo.

No meu caso, os sinais foram evidentes para a minha família, embora eu estivesse totalmente alheado de tudo o que se passava:
  • A apatia e o silêncio: No caminho de carro para a clínica e no tempo que lá estive, limitei-me a dormir e a manter um mutismo contínuo, completamente fora do meu comportamento habitual.
  • A perda da memória recente: Quando cheguei à recepção e perguntei o que estava ali a fazer, e a minha mulher me explicou que ia fazer a colonoscopia, respondi-lhe com toda a convicção do mundo que isso era impossível porque eu "não tinha feito preparação nenhuma" — quando tinha passado a noite inteira nisso! O cérebro tinha simplesmente apagado as últimas horas.
  • A quebra do raciocínio lógico: Pedi na recepção da Imagiologia para falar com a minha médica de Radioterapia — uma médica e um serviço que acompanho há anos noutro contexto totalmente diferente —, sem que houvesse qualquer lógica em chamá-la para aquele exame. Perante a confusão mental, o meu cérebro procurou automaticamente a referência de maior familiaridade e segurança.
Felizmente, a atenção da minha família e a intervenção médica a meio do dia permitiram identificar o problema e dar entrada na urgência do hospital São Francisco Xavier, onde a administração de soro salino hipertónico travou a emergência e repôs os níveis de sódio.

Ao contrário do que gostaria, hoje ainda não estou plenamente recuperado. Na realidade, este episódio deixou marcas: sofro actualmente de amnésia retrógrada, com uma falha de memória que cobre pelo menos todo o mês que antecedeu o evento. Contudo, mantenho um esforço diário e faço tudo o que está ao meu alcance para recuperar totalmente a agilidade mental e a capacidade intelectual do costume.

Partilho isto convosco porque sei que todos nós, ou os nossos familiares mais próximos, fazemos exames deste género com regularidade. E há cuidados e regras de segurança fundamentais que todos devemos fixar:
  • Cuidado com os anti-inflamatórios antes de exames: Se tiverem de fazer uma preparação intestinal ou jejum rigoroso, evitem tomar anti-inflamatórios (como Voltaren ou ibuprofeno) nos dias anteriores, pois eles alteram a capacidade do rim para gerir a água e o sódio.
  • Não bebam apenas água pura em excesso na preparação: Ingerir grandes volumes de água simples sem sais ou sem caldos salgados pode diluir perigosamente o sódio do corpo.
  • A desorientação mental é um sinal de alerta real: Se alguém que vos é próximo estiver a fazer uma preparação ou jejum e começar a parecer confuso, sonolento, a esquecer-se do que fez há poucas horas ou a dizer coisas sem nexo, isso exige avaliação médica imediata, de preferência em urgência hospitalar. Não é "cansaço do jejum".
  • Suspensão imediata de exames e sedação: Perante qualquer sinal de desorientação ou confusão mental, o exame e a sedação anestésica devem ser categoricamente suspensos até que seja feita uma avaliação clínica fiável e segura.
  • Valorizem sempre a intuição de quem está convosco: Quem convive connosco é quem primeiro nota quando "não estamos normais".
Se esta minha experiência servir para que um de vós ou um familiar vosso identifique a tempo uma situação destas e evite complicações maiores, todo este susto terá valido a pena.

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

O poder do Direito ou o direito do Poder




Quando as superpotências paralisam as instâncias internacionais, a defesa da paz, da integridade das nações e da cooperação global desloca-se para a sociedade civil, para os tribunais e para o plano local.

O palco da Assembleia Geral das Nações Unidas expôs, uma vez mais, a ferida aberta da geopolítica contemporânea. De um lado, a visão abertamente transacional e intervencionista do presidente norte-americano Donald Trump, assente na coerção, no unilateralismo e no desrespeito pela soberania alheia; do outro, o apelo urgente do Secretário-Geral da ONU, António Guterres, à primazia do Direito Internacional, ao repúdio categórico das intervenções militares e ao respeito escrupuloso pela integridade territorial de todas as nações. Para quem assiste a este choque a partir de Portugal, a perplexidade é inevitável: valerá a pena continuar a defender o multilateralismo quando a força armada parece ditar as regras do jogo?

A tentação do desânimo e do cinismo é enorme, mas seria um erro trágico. A História demonstra que, quando os governos centrais entram em paralisia e o Conselho de Segurança da ONU é bloqueado pelo exercício reiterado do direito de veto, a defesa da Carta das Nações Unidas — e do seu princípio basilar de inviolabilidade das fronteiras — não desaparece: redesenha-se. O multilateralismo não morreu; tornou-se policêntrico, descentralizado e dependente da acção da sociedade civil.

Em vez da resignação, abrem-se caminhos concretos de resistência ética e jurídica. No campo da justiça internacional, organizações independentes e redes de juristas devem accionar a jurisdição universal em tribunais nacionais para julgar crimes de guerra, actos de agressão e atrocidades, garantindo que a violação armada da soberania dos povos não fica impune. Na crise climática, a jurisprudência dos mais altos tribunais globais faculta hoje o enquadramento necessário para litígios estratégicos contra governos e corporações poluidoras, exigindo reparações sob a premissa de que o poluidor tem de pagar.

Ao mesmo tempo, as cidades e regiões assumem o leme da diplomacia subnacional. Os municípios portugueses têm nas suas mãos o poder real de acelerar a descarbonização, implementar compras públicas sustentáveis e integrar alianças internacionais de autarquias, provando que a cooperação e o progresso não ficam reféns das decisões ou de aventuras militares decididas em Washington ou Moscovo.

Paralelamente, como cidadãos e eleitores, cabe-nos exigir da diplomacia portuguesa e europeia uma postura de absoluta firmeza moral: o repúdio inequívoco de qualquer intervenção militar unilateral, a defesa intransigente da integridade territorial e da igualdade soberana dos Estados e a recusa absoluta de duplos critérios na condenação de agressões externas.

Defender uma ordem internacional fundada na lei, na paz e no respeito pela soberania de todos os povos não é uma utopia romântica, mas uma exigência pragmática. A força militar de uma superpotência pode violar fronteiras e impor a sua vontade no imediato, mas a estabilidade duradoura do planeta continuará a depender da recusa obstinada em substituir o império da lei pela lei do mais forte.