terça-feira, 26 de junho de 2018

A palavra LIBERDADE


Tira um papelinho e escreve
uma palavra que, para ti,
signifique LIBERDADE.
Coloca o papelinho escrito na urna.
Voará com o vento

domingo, 20 de maio de 2018

Dia da Marinha

 


Quando partilhei no Facebook o cartaz da exposição patente no Museu de Marinha sobre a vida do Comandante Carvalho Araújo, as primeiras reacções, quase simultâneas, foram da sua bisneta Ana Guerreiro e da minha filha Joana Bettencourt. A Ana já escreveu que apesar de ter nascido 53 anos após a morte do seu bisavô José, sempre sentiu uma forte ligação com ele. Sei que a Joana, que nasceu pouco mais de 3 anos depois da morte do seu bisavô José, também sente uma forte ligação com ele.

Provavelmente nem a Ana nem a Joana conhecem os detalhes da ligação entre os seus bisavôs. O da Joana, então com 20 anos e 2º artilheiro do Navio da República Portuguesa “Augusto de Castilho”, conheceu o da Ana quando este, com 37 anos, assumiu o cargo de Comandante do navio em Agosto de 1918, há quase 100 anos.

Imagino que o 2º Artilheiro José Francisco Martins terá visto o 1º Tenente José Botelho de Carvalho Araújo entrar a bordo, terá conversado com outros elementos da guarnição sobre o novo Comandante, terão eventualmente comentado os rumores sobre o seu estado de saúde; mas estou certo que a partir daquele momento passou a ser o seu Comandante, aquele a quem devia total obediência na defesa da Pátria, mesmo com o sacrifício da própria vida. Já por duas vezes tinha lutado contra submarinos alemães, depois de se ter apresentado a bordo no último dia de 1917, e tudo indicava que voltaria a ter que lutar numa outra qualquer missão no mar.

Provavelmente o bisavô da Ana não terá tido oportunidade de conhecer bem o bisavô da Joana. É certo que ambos tinham as suas raízes em Trás-os-Montes, mas essa era a única afinidade entre eles. Quando o bisavô da Joana nasceu na casa da avó materna em Chaves, já o bisavô da Ana tinha frequentado os preparatórios na Academia Politécnica do Porto e ingressado na Marinha. E enquanto o bisavô da Joana se fez homem como marçano nas ruas de Lisboa, o bisavô da Ana cumpriu uma carreira brilhante como oficial da Armada, foi Deputado por Vila Real à Assembleia Constituinte da República e Governador do Distrito de Inhambane, em Moçambique.

Mas as circunstâncias históricas e a natureza do serviço na Marinha fizeram com que partilhassem dois meses das suas vidas a bordo do mesmo navio. E na madrugada de 14 de Outubro, o bisavô da Joana viveu um dos momentos mais dramáticos da sua quando testemunhou a morte honrosa do bisavô da Ana, a poucos metros do seu posto de combate.

Ouvi muitas vezes o bisavô da Joana homenagear a coragem e o comportamento do bisavô da Ana quando se sacrificou para salvar mais de duas centenas de passageiros do paquete "San Miguel", na maioria portugueses dos Açores. Talvez tenha sido essa a razão de um dia ter escolhido a mesma profissão dos bisavôs da Ana e da Joana e ingressado na Marinha.

E lembrá-lo foi a melhor forma de celebrar o Dia da Marinha, da Marinha deles e nossa.

sábado, 12 de maio de 2018

A Cidadania e a Fúria Desmatadora



No regresso do exercício matinal gostei de ver o grupo de jovens que limpava a mata junto ao Centro de Juventude de Oeiras. Desconheço as suas motivações assim como eles também não conhecem as razões do meu contentamento e muito menos a relação do seu acto com o que entendo ser o exercício pleno e bem-sucedido da cidadania.

Como já aqui disse, para mim a cidadania não é um código de boas maneiras, é uma relação de poder que envolve o povo soberano e todos os que, em seu nome, são chamados a governar, a administrar e a julgar. E nessa relação, o povo soberano que somos nós, cidadãos, perde sempre que os que são chamados a governar, a administrar e a julgar em seu nome, impõe a sua vontade contra os nossos interesses. É por exemplo o caso da fúria desmatadora que atingiu governo e autarquias depois da tragédia dos incêndios e que, no meu caso pessoal, obriga a abater pinheiros mansos que há décadas ajudei o meu pai a plantar. Tenho a certeza que o meu pai partilharia comigo a revolta pela destruição, em nome de uma muito suspeita política da floresta, da mata onde quis que depositasse as suas cinzas.

Mas também tenho a certeza que o meu pai ficaria tão contente como eu por ver a mata de Nova Oeiras ser poupada à loucura da desmatação nacional, ser bem preservada por um município que noutros locais não tem a mesma racionalidade e ser cuidada por um grupo de cidadãos jovens. É que foi ele que me ensinou que o exercício da cidadania é uma tarefa dura e que cada vitória, por mais pequena que seja, é conquistada dia-a-dia por cada um de nós, cidadãos deste país.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

O exosqueleto




Confesso que no liceu detestava Camões. Descontando o episódio da Ilha dos Amores, que o pensamento medíocre do Estado Novo mantinha afastado dos adolescentes para que não fossem contaminados pela moral pagã, a análise da poesia de Camões era uma tremenda seca. Todos os esquemas eram válidos para lutar contra a ditadura do programa de Português, personificada na pobre professora. A libertação veio com a opção de ciências e os caminhos das engenharias.

Alguns anos mais tarde aprendi a gostar da poesia de Camões. Primeiro timidamente com João Villaret e Amália, depois convictamente com José Mário Branco e, naturalmente, José Afonso. Até que há dias vi um teste de Português do meu neto. As perguntas sobre o soneto “Enquanto quis Fortuna que tivesse” trouxeram-me memórias com mais de cinquenta anos e voltei a sentir a mesma aversão.

Tal como eu, o meu neto tenta sobreviver à provação. Na luta contra as velhas e sempre iguais questões da professora, usa novas e mais sofisticadas artimanhas mas o objectivo é infelizmente o mesmo: libertar-se de Camões e da sua poesia!

Mudaram os tempos mas não mudaram as vontades. Apesar de todas as mudanças do Mundo, parece que o ensino nas nossas escolas tem um exosqueleto cultural que limita o crescimento. E ao contrário dos artrópodes, não tem a capacidade de o substituir, de mudar de forma e de se adaptar a novos ambientes e objectivos.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Memórias do Liceu de Camões

 

Ilustração de Susa Monteiro na crónica “O Pilinhas” de António Lobo Antunes na Visão


As memórias do Liceu de Camões são como as cerejas, vêm umas agarradas a outras. São memórias de um reitor que controlava todas as acções dos alunos, no interior e no exterior do Liceu; era proibido permanecer frente ao Liceu, era proibido comprar coisas ao vendedor ambulante, era proibido correr, era proibido jogar à bola, era proibido brincar ao eixo ou com pedras, era proibido entrar no Liceu sem gravata, era proibido permanecer no jardim, era proibido trazer para o Liceu livros e revistas que não fossem de estudo, era proibido…

Todos os procedimentos eram definidos pelo reitor: a forma como se apanhava o autocarro, como se entrava e saía das salas de aula, como se circulava nas galerias, o tipo de vestuário que devia ser usado, a postura a ter no exterior do Liceu. Os processos disciplinares, que terminavam com o castigo do aluno, resultavam em regra de violações das regras estabelecidas pelo reitor.

No Liceu de Camões, onde tudo era controlado e vigiado, havia um médico pedófilo que dava aulas de Moral e assediava o Antunes e os putos mais inocentes e impreparados. E o reitor Joaquim Sérvulo Correia ordenava a abertura de um processo disciplinar com o seguinte despacho de 9 de Maio de 1965:

«Professor Secretário do Liceu de Camões;
Pelo professor de História, Dr. Pereira Miguel, foi entregue na Reitoria um exemplar da revista americana, em língua espanhola, “Life” cuja capa é construída por uma gravura representando uma artista de cinema quase nua. A revista foi tirada ao aluno (…), que a lia durante o funcionamento da aula, e foi trazida para o Liceu talvez pelo nº38, (…). Os factos, moralmente graves, tornam-se mais graves ainda por se tratar de uma turma frequentada também por alunas. Digne-se V. Exa. proceder a inquérito e organizar o consequente processo disciplinar

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Não, não é Carnaval!



As notícias da passada terça-feira sobre buscas, constituição de arguidos, detenções, acusações, julgamentos, anteciparam duas semanas o Entrudo do meu descontentamento.

É certo que a gravidade dos pecados invocados deveria suscitar atitudes mais próprias da Quaresma, como o recolhimento, a meditação, a penitência, a conversão, que precedem a ressurreição e a vitória do bem e do injustiçado. Mas o circo mediático e das redes sociais, provavelmente inspirado pela fraca e ridícula América de Trump e das Fox e Breibart News, reduziu tudo a um patético cortejo carnavalesco de matrafonas, cabeçudos e zés-pereiras, onde as atitudes e as acções individuais ou colectivas, mais ou menos graves, são caricaturadas ao sabor das paixões, dos ódios e ressentimentos pessoais; e os populares, mascarados ou não, arremessaram uns aos outros toda a espécie de objectos repugnantes ou pestilentos, bem ao estilo de um Entrudo que tudo permite porque "É Carnaval, ninguém leva a mal!” e depois dele tudo é esquecido e volta à normalidade.

Não, não é Carnaval e a corrupção, o tráfico de influências, a fraude, o peculato, o recebimento indevido de vantagens, a ineficácia da justiça, a violência doméstica e nas escolas, as dependências dos jovens, a agressividade e a mortalidade nas estradas, o contágio perigoso de doentes nos hospitais, são realidades da nossa sociedade que devem ser levadas muito a sério. Devem ser investigadas e estudadas com o rigor e a clareza dos relatórios sobre o incêndio de Pedrógão e a violência doméstica, longe das paixões clubistas ou partidárias.

Tudo para que cada um de nós, cidadãos deste país, à sua maneira e na sua esfera de influência, deixe de ser um espectador inconsequente ou um lançador de atoardas e insultos e contribua para a melhoria da sociedade.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

A lenda do rei republicano




─ Não precisamos de rei para nada cá em Portugal porque o nosso Presidente da República faz o papel de um extraordinário rei em qualquer parte do planeta!

Calma, a afirmação não é minha, tanto mais que não percebo nada destas coisas de reis e rainhas. Quem o afirmou foi o monárquico progressista José Albano Salter Cid de Ferreira Tavares, que seria barão se vivêssemos numa monarquia. Mais precisamente Barão do Cruzeiro.

Um outro monárquico, o Duarte Pio João Miguel Gabriel Rafael de Bragança, disse um dia que fazia sentido comparar o progresso dos países europeus que têm reis e rainhas com o nosso atraso por sermos uma república. Mas hoje, no Portugal do presidente que faz de extraordinário rei segundo José Cid, é possível que tal comparação tenha deixado de fazer sentido. O povo português talvez tenha sido mais uma vez inovador e poderá ter juntado o melhor dos dois mundos num país que é uma república e tem um rei. Admito que assim seja mas vou esperar para ver. É que o José Cid já me desiludiu uma vez.

Lembro-me bem do que senti há cinquenta anos quando ouvi pela primeira vez “A Lenda de El-Rei D. Sebastião”, a primeira música criada por um português e cantada em português que o Em Órbita passou. Juntei logo uns trocos e fui à discoteca, era assim que então se chamavam as lojas que vendiam discos, comprar o primeiro EP do Quarteto 1111. O José Cid tinha de facto criado uma música de qualidade que parecia abrir um caminho novo. Depois voltou a compor e interpretar canções boas, muitas abordando temas interessantes que acabaram por espicaçar e ser proibidos pela censura fascista. Mas com o tempo meteu-se em macaquices e a promessa original esfumou-se.

Tal como na lenda que o Quarteto 1111 contou no seu primeiro êxito, podemos estar hoje a viver um novo Sebastianismo colectivo, dos que têm uma crença irracional em coisas, em valores e em poderes que não existem, dos que se deixam enganar pelos falsos Messias do oportunismo e da mistificação.