Hoje passam onze anos desde a morte do meu pai. Continuo a dar por mim a recordá-lo nas coisas mais pequenas — num gesto, numa frase, numa história repetida à mesa. E há uma frase que o traz de volta com uma nitidez especial: «Não tem, mas inventa!»
O meu pai trabalhou em quatro continentes e, tanto quanto sei, nunca soube ao certo quanto ganhava. Quando o ordenado era pago em numerário, entregava o envelope à minha mãe, e o assunto ficava por ali. Mais tarde, quando o dinheiro passou a ser depositado diretamente na conta bancária, ficou ainda mais livre dessa preocupação. Nunca o ouvi falar do que tinha ou do que lhe faltava. O dinheiro simplesmente não ocupava espaço na vida dele.
Ao longo dos seus 91 anos, lembro-me de o ver quase sempre com muito pouco dinheiro na carteira — apenas o necessário para os seus raros gastos pessoais. Era a minha mãe quem cuidava do orçamento familiar e de tudo o que a vida prática exigia: das compras diárias aos livros, dos medicamentos aos carros. Para nós, aquela cumplicidade silenciosa era, simplesmente, a forma como a casa funcionava.
Mas havia momentos em que decidia dar dinheiro aos filhos — e, mais tarde, aos netos e bisnetos. Nessas ocasiões, não ter notas ou moedas consigo nunca foi impedimento. Chamava a minha mãe ou, se ela não estava por perto, pegava num pedaço de papel e escrevia: «VALE cinco escudos» — ou outro valor qualquer. Nós recebíamos aquele papel como se fosse dinheiro a sério e lá íamos resgatá-lo junto dela. Já sabíamos o que vinha a seguir: «O teu pai é muito esperto: não tem dinheiro, mas inventa!» Ainda hoje consigo ouvir a voz da minha mãe.
Tenho saudades do meu pai — da sua maneira simples de estar, da generosidade sem alarde e até daquela despreocupação com o dinheiro que tão bem o definia. Onze anos depois, daria tudo para voltar a receber das suas mãos um daqueles pequenos «vales». Não pelo que lá estivesse escrito, mas por ter de novo diante de mim a sua letra, o seu gesto e o seu sorriso.
Hoje, este texto é o meu vale: vale uma memória, vale uma saudade e vale, por instantes, a sensação de ainda o ter comigo.

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